Sound familiar?
Over 4 million people have had the same lightbulb moment.
Morning Brew is a free daily newsletter that breaks down what's happening in business, finance, and tech — clearly, quickly, and with enough personality to make it the best email in your inbox.
No yelling. No filler. Just the news, finally making sense.
Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.
DOMINGO · 06 DE SETEMBRO DE 2026
☕ Bom domingo
É domingo, e em algum momento uma moto com mochila térmica vai cruzar a sua rua. O trabalho por aplicativo já soma 1,8 milhão de brasileiros, mais gente que a população de Recife.
Sobre esse trabalho, todo mundo tem uma opinião pronta. De um lado, a liberdade de ser dono do próprio horário. Do outro, a vida de trabalhar sem férias, sem 13º e desprotegido quando algo dá errado. A briga é tão barulhenta que está parada no Supremo, com dez mil processos esperando a resposta.
Hoje a gente sai da briga e vai atrás do que os dados mostram. Na sexta, o IBGE atualizou o retrato mais completo de quem vive de aplicativo no Brasil. E um punhado de estudos recentes mediu o que acontece com uma cidade quando o aplicativo chega: com o emprego, com quem abre negócio, e até com o crime. Sem pressa. ☕
Retrato · O país dos aplicativos
IBGE · PNAD · Motoristas · Entregadores · INSS · 1,8 milhão
O IBGE contou: 1,8 milhão vivem de aplicativo, e a hora ao volante está rendendo menos
Desde 2022, o IBGE (o instituto que mede o PIB, a inflação e o desemprego no Brasil) faz uma pergunta nova na PNAD Contínua, a pesquisa que visita milhares de domicílios todo trimestre: você conseguiu esse trabalho por meio de um aplicativo? Na sexta saiu a edição de 2025 desse levantamento.
O mercado que ele fotografa segue crescendo, agora em ritmo um pouco menor. Em 2022, 1,32 milhão de pessoas trabalhavam por meio de plataformas de serviços. Em 2024, 1,65 milhão. Em 2025, 1,81 milhão: mais 151 mil pessoas em um ano. E 73% desse total, 1,31 milhão, está sobre rodas: 905 mil dirigem carro por aplicativo e 405 mil pilotam moto, entre entregadores e mototaxistas. Entre todos os motociclistas ocupados do país, um em cada três já roda por aplicativo.
📊 Quem trabalha por aplicativo no Brasil, em mil pessoas
■ Motoristas (carro) ■ Entregadores e mototaxistas (moto) ■ Demais serviços ■ Só no 2º trabalho (medido a partir de 2025)
2022
| 718 | 211 | 390 | 1.319 |
2024
| 824 | 351 | 479 | 1.654 |
2025
| 905 | 405 | 495 | 154 | 1.959 |
Pessoas ocupadas que trabalharam por meio de plataformas digitais de serviço, setor privado, divididas pela ocupação principal (condutores de automóveis; condutores de motocicletas; demais). O uso de aplicativo no 2º trabalho passou a ser medido em 2025: 154 mil pessoas o utilizavam apenas no trabalho secundário; nos demais anos, o total cobre só o trabalho principal · Fonte: IBGE, PNAD Contínua 2025 · Elaboração: Daily Brew
Uma nota de rodapé que diz muito: entre 2022 e 2024, a categoria de aplicativo que mais crescia era a dos serviços gerais, como faxina, conserto e beleza (alta de 52%). Em 2025 o motor voltou às ruas: as entregas cresceram 9,5% e os serviços gerais, só 2%. Esta edição fica com quem roda.
E quanto isso paga? Comparar o rendimento do motorista de aplicativo com a média de todos os trabalhadores do país diz pouco, porque a média mistura médicos, gerentes e diretores. O quadro abaixo traz o rendimento por hora da mesma ocupação sem aplicativo e de algumas outras categorias, para comparação.
📊 Quanto rende a hora de trabalho, em R$ de 2025
Laranja: por aplicativo · Azul: a mesma ocupação, sem aplicativo · Cinza: outras categorias, para comparação
Motorista por aplicativo
| R$ 14,40 |
Motorista sem aplicativo
| R$ 16,00 |
Motociclista por aplicativo (entrega, mototáxi)
| R$ 11,40 |
Motociclista sem aplicativo
| R$ 10,10 |
Auxiliares de escritório e recepção
| R$ 15,50 |
Vendedores e trabalhadores dos serviços
| R$ 14,50 |
Ocupações elementares (ajudantes, limpeza)
| R$ 10,00 |
Média dos ocupados no setor privado (inclui médicos, gerentes...)
| R$ 18,40 |
Rendimento habitual por hora, em reais de 2025. Motoristas, motociclistas e a média: módulo de plataformas da PNAD Contínua (setor privado). Demais grupos: rendimento por hora por grupamento ocupacional · Fonte: IBGE · Elaboração: Daily Brew
A novidade de 2025 está na primeira linha do quadro. A hora do motorista de aplicativo, que, na pesquisa anterior, ficava empatada com a do motorista de fora, agora rende 10% menos: R$ 14,40 contra R$ 16,00. No mês, os dois ganham praticamente o mesmo (R$ 2.873 contra R$ 2.805), mas o motorista de app tem que rodar 5 horas e meia a mais por semana para ter o mesmo salário do motorista sem app. Uma explicação possível está no primeiro gráfico: só em 2025, mais 81 mil motoristas entraram nos aplicativos, e quanto mais gente disputando as mesmas corridas, menos rende a hora de cada um. Na moto, o aplicativo ainda paga mais: R$ 11,40 contra R$ 10,10 de quem pilota sem ele.
E a série fecha a conta: desde 2022, o rendimento médio de quem trabalha por aplicativo variou 1%, enquanto o dos demais ocupados do setor privado subiu 10,6%. A vantagem de 9,4% que os plataformizados tinham no início da série desapareceu.
O outro lado do retrato é a rede de proteção, ou a falta dela: em 2025, só 34% dos trabalhadores de plataforma contribuíam para o INSS (o instituto que paga aposentadorias e auxílios), contra 63% dos demais ocupados. E a fatia vem caindo: era 35,9% em 2024. Sem contribuição, não há aposentadoria por tempo, auxílio-doença nem licença remunerada. É o trabalho de milhões equilibrado sobre a própria saúde.
Falta responder se esse trabalhador é mesmo o próprio chefe. A PNAD mediu isso também, e a resposta cabe num quadro.
🤖 Quem manda no horário (e no preço)
Motoristas de transporte por aplicativo, em 2025
Dizem escolher dias e horários livremente
| 81% |
Têm a jornada influenciada por bônus e promoções que mudam os preços
| 56% |
Recebem turnos e dias sugeridos pelo aplicativo
| 28% |
Trabalham sob ameaças de punição ou bloqueio
| 25% |
91%
dependiam do aplicativo até para saber quanto vale a corrida, na última vez em que o IBGE fez essa pergunta, em 2024.
63%
trabalham exclusivamente pelas plataformas, sem nenhum cliente por fora. E 39% estão no modo mais dependente de todos: um único aplicativo e nenhum trabalho fora dele.
Barras: recorte de quem trabalha por um único tipo de aplicativo; entre os entregadores, os percentuais são parecidos · Fonte: IBGE, PNAD Contínua (módulo de plataformas digitais, 2025 e 2024) · Elaboração: Daily Brew
Liberdade de horário com patrão de algoritmo: é essa zona cinzenta que o Supremo vai ter que resolver.
O retrato para aqui. O que ele não mostra é o que acontece com uma cidade quando esse mercado chega: com o emprego de carteira, com quem quer abrir um negócio e com as estatísticas de crime. É o assunto dos próximos blocos.
| 📱 Compartilhe essa edição pelo WhatsApp |
Economia · O paraquedas
Uber · iFood · Restaurantes · Empreendedores · Insper · Carteira assinada
Mais empresas abertas, menos emprego formal: o que muda quando o aplicativo chega
Medir o efeito de um aplicativo na economia tem um truque elegante: as plataformas não chegam a todas as cidades ao mesmo tempo. Elas estreiam em uma cidade num ano, na vizinha dois anos depois. Para o pesquisador, isso funciona como um experimento natural: basta comparar o que aconteceu nas cidades onde o aplicativo entrou com as que ainda estavam na fila, antes e depois da chegada. Foi assim que três grupos de economistas chegaram a respostas que não cabem no mesmo discurso:
- Mais empresas abertas (EUA). Um estudo publicado em 2022 no Journal of Financial Economics acompanhou a chegada de Uber e Lyft às cidades americanas: o registro de novas empresas subiu cerca de 5%, junto com o crédito para pequenos negócios recém-abertos. O título do estudo resume o mecanismo: "decolando com um paraquedas". Abrir um negócio é um salto arriscado, e muita gente desiste por medo de ficar sem renda se o negócio falhar. Saber que, nesse cenário, dá para pagar as contas dirigindo por aplicativo enquanto arruma a vida deixa mais gente disposta a pular.
- A conta cai no restaurante vizinho (Brasil). Num estudo recente (março de 2026), o economista Pascuel Plotkin cruzou os dados de uma grande plataforma de entregas com os registros oficiais de emprego formal do Brasil, restaurante por restaurante. Quando um restaurante adere ao aplicativo, corta cerca de 6% do pessoal próprio em um ano. E as horas de trabalho de garçom e atendente caem na mesma quantidade que as horas de entregador aumentam (a cozinha fica intacta). O golpe maior, porém, cai no concorrente da esquina que não aderiu: ele fica 5 pontos percentuais mais propenso a fechar as portas em um ano, e seus funcionários perdem 6,6% da renda. Somando tudo, os ganhos dos entregadores superam as perdas do setor, mas o saldo positivo esconde uma transferência: a renda sai do garçom com carteira e vai para o entregador sem ela.
- Menos carteira assinada (Brasil). Alexandre Cunha, na tese de doutorado que desenvolveu no Insper, aplicou o mesmo método de comparação à entrada escalonada da Uber no Brasil: nos dois anos após a chegada do aplicativo, o emprego formal da região cai cerca de 3%, o salário formal médio recua e o trabalho de meio período aumenta. E um detalhe revelador: a queda não aparece entre os trabalhadores de menor salário, provavelmente porque quem é muito pobre não tem carro para entrar na plataforma. Ou seja: por aqui, o aplicativo não recruta só desempregados; ele também tira gente da carteira assinada.
| 📱 Compartilhe essa edição pelo WhatsApp |
Trabalho · O preço da flexibilidade
Uber · Yale · UCLA · 200 mil motoristas · Turno fixo
Forçado a fazer horário de táxi, o motorista de Uber trabalharia 3 vezes menos
Cada hora do dia tem um preço para quem trabalha. Uma tarde vazia de terça-feira sai barata: por R$ 20, muita gente topa dirigir. Já a hora do aniversário do filho não está à venda por preço nenhum. O emprego de turno fixo ignora essa diferença: paga o mesmo pelas duas horas e exige as duas. O aplicativo deixa o trabalhador vender só as horas baratas e guardar as caras para a própria vida.
Quanto disso é discurso e quanto é real? Economistas de Yale e da UCLA responderam com os registros de quase 200 mil motoristas, que a própria Uber americana entregou aos pesquisadores. Com os horários e ganhos reais de cada um, eles calcularam o que esses motoristas de Uber fariam se, pelas mesmas tarifas, tivessem que trabalhar num regime de táxi de frota: pegar o carro para o dia inteiro ou não trabalhar, sem poder entrar e sair na hora que quiser. O resultado, publicado em 2019 no Journal of Political Economy: as horas trabalhadas desabariam de cerca de 15 para menos de 5 por semana. Dois terços do trabalho que a Uber consegue dos motoristas só existem porque cada um monta o próprio horário.
E o Brasil acaba de ganhar um número para essa conversa. Em 2025, a PNAD perguntou pela primeira vez o principal motivo de quem trabalha por aplicativo. Entre os motoristas, o motivo número um não é a liberdade: é não ter conseguido encontrar outro trabalho (33,4%). A flexibilidade vem em segundo (27,2%), seguida do rendimento melhor que o das alternativas (24,4%). Entre os entregadores, os três motivos praticamente empatam, na casa dos 27% cada. Para uns, a liberdade é escolha; para outros, é o que sobrou.
🎓 O que a teoria diz
Diferenciais compensatórios. A ideia vem de Adam Smith, em 1776: empregos não pagam só em dinheiro, pagam também em condições. Trabalhos desagradáveis ou arriscados precisam oferecer salário maior para atrair gente; trabalhos com vantagens, como escolher o próprio horário, conseguem atrair mesmo oferecendo menos garantias. Vale para o retrato do IBGE lá do começo: em 2025, a hora do motorista de aplicativo passou a render menos que a do motorista de fora, e ainda vem sem férias, 13º ou INSS. Se mesmo assim são 905 mil ao volante, é porque essas pessoas colocam a liberdade de horário no prato da balança. O problema aparece quando não há escolha: para quem não encontra vaga formal, a troca deixa de ser troca e vira a única opção.
| 📱 Compartilhe essa edição pelo WhatsApp |
Crime · O efeito colateral
iFood · MIT · São Paulo · Boletins de ocorrência · Roubo · 10,4%
Onde a entrega chegou, o crime caiu 10%. E ninguém tinha planejado isso
Isadora Frankenthal, brasileira que faz doutorado em economia no MIT, foi medir o efeito do aplicativo num lugar inesperado: a página policial. Ela cruzou o calendário de chegada do iFood a cada cidade paulista com dez anos de boletins de ocorrência do estado de São Paulo, com local e hora de cada furto e roubo registrados. Onde a plataforma chegou, essas ocorrências caíram 10,4% na média, o equivalente a 529 a menos por município, por ano. E não foi só o crime pequeno: os roubos, com violência ou arma, também caíram. Nada indica que o crime tenha sido empurrado para as cidades vizinhas ou para as áreas de maior demanda por entrega.
A queda também acompanha o relógio das refeições. Como a entrega paga mais na hora do almoço e do jantar, o custo de trocar o trabalho pelo crime muda ao longo do dia, e o crime responde: cai mais justamente nas horas em que a mochila térmica rende mais. O efeito também é maior nos bairros mais pobres, onde moram os entregadores e onde havia mais crime. Sem nenhum plano de segurança pública, o aplicativo encolheu a desigualdade de segurança dentro das cidades.
E não é um resultado isolado. Nos Estados Unidos, a chegada da Uber foi seguida de menos prisões por dirigir alcoolizado e por agressão; no caminho inverso, vários estudos brasileiros mostram que o desemprego aumenta o crime. Trabalho que aparece tira gente do crime; trabalho que some, empurra.
🎓 O que a teoria diz
Custo de oportunidade do crime. Em 1968, o economista Gary Becker, depois Nobel, propôs tratar o crime como uma escolha econômica: pesa-se o ganho esperado contra o risco de punição e contra o que se deixa de ganhar no trabalho honesto. Se não há vaga, esse último prato da balança fica vazio, e o crime fica relativamente barato. O estudo do iFood é um teste quase de laboratório dessa ideia, hora a hora: quando a entrega paga bem, o crime custa caro e diminui. Política de segurança também se faz com vaga de trabalho aberta na hora certa.
| 📱 Compartilhe essa edição pelo WhatsApp |
⚖️ O que vem: a decisão que trava dez mil processos
Tudo o que você leu acima vai desaguar num julgamento: o STF (Supremo Tribunal Federal) precisa decidir se motoristas e entregadores de aplicativo têm vínculo de emprego com as plataformas, com direito a férias, 13º e FGTS. O julgamento começou em outubro de 2025 e, entre adiamentos, nenhum ministro votou até aqui. Cerca de dez mil processos estão suspensos nos tribunais do país esperando essa resposta.
Os números desta edição mostram o tamanho da escolha: um vínculo que protege mais pode custar a flexibilidade que os próprios trabalhadores dizem valorizar (e até impactar no crime). O desenho que equilibre as duas coisas ainda não existe em lei. É ele que está na mesa.
O melhor investimento de hoje: mandar esse link.
| Seu placar agora {{rp_personalized_text}} |
|
Grátis, sem prazo — cada indicação conta pra sempre.
📚 Vale ler
As fontes centrais da edição. Os estudos acadêmicos estão em inglês; a pesquisa do IBGE, em português.
Trabalho por meio de plataformas digitais 2025
O informativo oficial da pesquisa que abre esta edição, com todas as tabelas e a análise do IBGE.
IBGE
The Gig Economy and Crime
O estudo de Isadora Frankenthal sobre a chegada do iFood e a queda de 10,4% do crime em São Paulo, com os mapas e os testes hora a hora.
MIT · Working Paper
Digital Adoption, Labor Demand, and Worker Earnings
O estudo dos restaurantes brasileiros: quem adere ao aplicativo de entrega, quem fecha na vizinhança e para onde vai a renda. Premiado pelo BID em 2025.
Pascuel Plotkin · CEMFI
Launching with a Parachute: The Gig Economy and New Business Formation
O estudo do paraquedas: como a chegada dos aplicativos de transporte aumentou em cerca de 5% a abertura de empresas nas cidades americanas.
Barrios, Hochberg & Yi · Journal of Financial Economics
Is Uber replacing formal employment? Evidence from Brazil
A queda de cerca de 3% no emprego formal nas regiões onde a Uber entrou, parte da tese de doutorado do autor no Insper.
Alexandre Cunha · Tese de doutorado (Insper)
The Value of Flexible Work: Evidence from Uber Drivers
O estudo que colocou preço na liberdade de horário, publicado depois no Journal of Political Economy.
Chen, Chevalier, Rossi & Oehlsen · NBER


