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SEXTA-FEIRA · 19 DE JUNHO DE 2026

☕ Bom dia

Banco Master. A Polícia Federal mirou Jaques Wagner, o líder do governo no Senado, no escândalo do banco Master.
No vermelho. O endividamento das famílias bateu 81,6% — o maior patamar desde o início da série, em 2010.
Juros. O Copom cortou a Selic, mas avisou nas entrelinhas que esse pode ter sido o último corte por um tempo. ☕

Brasil · O novo alvo

Banco Master · Jaques Wagner · Augusto Lima · Credcesta · PF · STF

A Polícia Federal mira Jaques Wagner: um apartamento, dólares em espécie e R$ 14,5 milhões em transferências

O novo alvo da Polícia Federal no caso do Banco Master é Jaques Wagner. Ex-governador da Bahia, ministro de Dilma e de Lula, senador e um dos nomes mais influentes do PT.

Não é a primeira vez que ele é investigado por corrupção. O que mudou foi o tipo de acusação: segundo a PF, um apartamento de R$ 2,45 milhões usado como propina, cerca de R$ 14,5 milhões transferidos a empresas de familiares e US$ 50 mil em espécie encontrados na operação. Nada está provado, e o senador nega.

Quem é Jaques Wagner? Começou a vida profissional aos 24 anos, em 1975, como técnico de manutenção no polo petroquímico de Camaçari, na Bahia. Logo virou sindicalista e presidente do sindicato dos petroquímicos. Em 1980, num congresso de petroleiros, conheceu outro sindicalista, Luiz Inácio Lula da Silva e, naquele ano, fundou o PT na Bahia.

A partir daí, foi político de carreira: deputado federal por três mandatos (1990, 1994, 1998), ministro do Trabalho quando Lula chegou à Presidência em 2003, governador da Bahia em 2006 e reeleito em 2010, depois ministro da Defesa e da Casa Civil de Dilma e, em 2018, senador. Foi nesse percurso longo que ele começou a aparecer também nas páginas policiais.

O primeiro caso veio em 2017 na Lava Jato, quando Marcelo Odebrecht o citou em delação. Nas planilhas internas, Wagner era chamado de "Polo", referência ao polo petroquímico de Camaçari. Segundo os delatores, teria recebido R$ 12 milhões em dinheiro vivo. Depois veio a Operação Cartão Vermelho, sobre supostos desvios na construção da Arena Fonte Nova, erguida em seu governo para a Copa de 2014: ele foi indiciado sob suspeita de receber R$ 82 milhões em propina, e o inquérito acabou arquivado neste ano.

Mas o caso que estourou agora não vem de delações. São transferências concretas, mensagens de celular e dinheiro em espécie — e é por isso que ele preocupa o governo.

Em 2017, Wagner era secretário de Desenvolvimento Econômico da Bahia e comandou a privatização da Ebal (a Empresa Baiana de Alimentos, dona da rede Cesta do Povo), vendida por R$ 15 milhões. O comprador foi Augusto Lima. Lima transformou os cartões de compra da rede num sistema de crédito consignado — o empréstimo descontado direto da folha de pagamento — voltado a servidores, batizado de Credcesta. Deu tão certo que, em 2020, chamou a atenção de Daniel Vorcaro, que levou Lima e a Credcesta para dentro do Banco Master.

A virada veio quando a PF apreendeu o celular de Lima e encontrou mensagens de Wagner com os dados de um apartamento de R$ 2,45 milhões em Salvador — número, torre, metragem. Lima teria providenciado a compra por meio de uma empresa, e a PF acredita que o imóvel foi uma propina ao senador. Na mesma operação, foram achados US$ 50 mil em espécie. E tem mais: a PKL Participações, ligada a Augusto Lima, transferiu R$ 3,5 milhões à BN Financeira, empresa do enteado de Wagner; e R$ 11 milhões saíram do próprio Master para a BK Financeira, empresa da nora do senador.

Resumindo a tese da investigação: Wagner conduz a venda de uma estatal para Augusto Lima em 2017; Lima entra no Master em 2020; e, depois disso, viabiliza a compra de um apartamento para o senador, paga R$ 3,5 milhões à empresa do enteado, enquanto o Master paga R$ 11 milhões à empresa da nora.

Por ora, nada está provado e o senador nega. Mas ver o principal articulador do governo no Senado virar alvo da PF é o tipo de ruído que trava agenda no Congresso e acaba reaparecendo, semanas depois, no humor do mercado.

E daí?

O líder do governo no Senado é quem costura os votos das matérias do Planalto — Orçamento, impostos, contas públicas. Quando esse articulador vira alvo da PF, aprovar (ou barrar) qualquer agenda fica mais difícil, e a sensação de instabilidade no centro do governo é uma das poucas coisas que o mercado quase sempre traduz em dólar mais alto e juro mais caro.

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💬 Frase do dia

"Estou muito tranquilo com isso e acho que o senador Jaques Wagner vai prestar os esclarecimentos devidos à Justiça."

— Dario Durigan, ministro da Fazenda, sobre o líder do governo no Senado, alvo da operação da Polícia Federal · 18/06/2026

A fala saiu no mesmo dia em que a Polícia Federal fez buscas contra Jaques Wagner (PT-BA) na 9ª fase da operação que apura o rombo do Banco Master. O recado do ministro tem dois públicos: a opinião pública, a quem garante que o governo não tem o que esconder, e o mercado, que costuma ler operações contra o núcleo político como ruído — e cobra do Planalto a tal "tranquilidade" em forma de previsibilidade. Entre uma coisa e outra, o líder do governo no Senado terá de explicar de onde veio um imóvel.

Brasil · No vermelho

Peic/CNC · Endividamento · Cartão de crédito · Desenrola · Quaest · PoderData

Um recorde nada comemorado: 81,6% das famílias brasileiras estão endividadas

O endividamento das famílias bateu novo recorde. Em maio, 81,6% dos lares tinham alguma dívida a pagar — a quinta alta seguida e o maior patamar desde que o indicador existe, segundo a Peic, a pesquisa mensal sobre dívidas que a CNC (Confederação Nacional do Comércio) divulgou no dia 10. Há um ano, eram 78,2%. Estar endividado, vale dizer, não é necessariamente um problema — boa parte dessas dívidas é o próprio cartão de crédito, que muita gente paga em dia. O alerta acende no que vem depois.

Quase 30% das famílias estão inadimplentes, ou seja, com contas vencidas e não pagas — e 12,3% admitem que não terão como quitá-las. O peso recai sobre quem ganha menos: entre as famílias com renda de até três salários mínimos, a inadimplência chega a 38,6%. O vilão tem nome e sobrenome: o cartão de crédito aparece em 84,6% das dívidas, e quem atrasa a fatura cai no crédito rotativo — o empréstimo automático que o banco faz quando você paga só uma parte do cartão. A taxa dele beira os 428% ao ano. Não é erro de digitação.

📊 O endividamento, em números

Dívidas no cartão de crédito
84,6%
Inadimplência (até 3 salários)
38,6%
Inadimplentes (no total)
29,9%
Sem condição de pagar
12,3%

Cartão = % das dívidas das famílias endividadas; demais = % das famílias · Fonte: Peic/CNC (maio/2026) · Elaboração: Daily Brew

A aposta do governo para estancar a sangria foi relançar, em maio, o Desenrola Brasil — o programa que renegocia dívidas atrasadas com desconto de 30% a 90% e juros limitados a 1,99% ao mês. A pergunta que duas pesquisas da semana passada tentaram responder é simples: funcionou?

A resposta é "depende de para quem". A pesquisa da Genial/Quaest divulgada em 10 de junho aponta que apenas 10% dos brasileiros dizem ter sido beneficiados pelo programa, e 88% afirmam que ele não chegou à sua família — mas, entre os que de fato foram alcançados, 71% sentiram alguma melhora na renda. A pesquisa do PoderData, divulgada em 9 de junho, reforça o outro lado: entre quem atrasou alguma conta em maio, 63% acham que programas como o Desenrola ajudaram "pouco" ou "nada". Em resumo: para quem ele toca, alivia em certa medida; o problema é que toca pouca gente perto do tamanho do buraco.

🎓 O que a teoria diz

Efeito bola de neve dos juros compostos: a 428% ao ano, uma dívida de cartão não cresce em linha reta — ela cresce sobre si mesma. O juro do mês vira parte do saldo, e no mês seguinte você paga juro sobre o juro. Por isso uma fatura pequena vira uma montanha em poucos meses: R$ 1.000 no rotativo, sem nada pago, viram cerca de R$ 5.300 em um ano. Renegociar (como faz o Desenrola) ataca a bola de neve já formada; mas, enquanto o crédito de partida — a Selic, recém-cortada para 14,25% ao ano — seguir caro, é fácil uma nova bola começar a rolar.

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Brasil · Freio de mão

Copom · Selic · IPCA · Focus · Banco Central · Juro real · Dólar

O Copom cortou a Selic — mas o recado foi de que esse pode ter sido o último corte por um tempo

Na quarta (17), o Copom — o comitê de diretores do Banco Central que define a Selic, a taxa básica de juros do país — cortou a taxa pela terceira vez seguida, de 14,5% para 14,25% ao ano. Até aí, nenhuma surpresa: o corte já era esperado. A novidade não estava na decisão, e sim no tom. O comunicado que acompanha o anúncio veio mais duro, reforçou que a inflação voltou a acelerar e ficou acima do teto da meta, e — de propósito — não deu nenhuma pista sobre o próximo passo. Traduzindo do "bancocentralês": cortamos hoje, mas não conte com mais cortes tão cedo.

E o que dizem os economistas agora, depois de ler o comunicado? A maioria saiu da reunião com a impressão de que o Banco Central deu um "corte com viés de encerramento, e não de porta aberta", nas palavras de Ricardo Trevisan, da Gravus Capital. Casas como BV, MAG e Nomad passaram a apostar que a Selic fica parada em 14,25% no resto do ano; outras, como Daycoval e XP, ainda veem espaço para mais um corte ou dois até dezembro. Pesa nos dois lados um alívio recente: o fim da escalada entre Estados Unidos e Irã derrubou o preço do petróleo, o que ajuda a segurar a inflação. Mas os mesmos economistas avisam que esse alívio "não compensa" a pressão dos gastos do governo, com o núcleo da inflação — a parte mais "dura" do índice, que exclui os preços mais instáveis, como alimentos e combustíveis — rodando perto de 5,5%, o dobro da meta. A próxima decisão fica só para o começo de agosto.

Por que isso pesa tanto no bolso? Porque o que machuca não é só o número da taxa, é o juro real — o juro depois de descontada a inflação, ou seja, o quanto o dinheiro realmente custa. Com a Selic em 14,25% e a inflação esperada perto de 5%, o juro real do Brasil ronda os 9% ao ano, um dos mais altos do mundo. E há um complicador vindo de fora: como o Fed (o banco central dos Estados Unidos) sinalizou na mesma semana que pode até subir os juros por lá, o Banco Central brasileiro tem ainda menos espaço para cortar sem arriscar uma disparada do dólar.

E daí?

Se a aposta de pausa se confirmar, o crédito vai seguir caro por mais tempo: financiamento, prestação e o rotativo do cartão não devem aliviar tão cedo. Para quem deve, é o sinal de apertar o passo para sair das dívidas mais caras. Para quem tem algum dinheiro guardado, é o oposto: a renda fixa continua rendendo bem, porque ela acompanha justamente essa Selic alta. O mesmo juro que pesa em quem pega emprestado é o que paga generosamente quem empresta — e, por ora, o Banco Central avisou que essa régua não vai baixar logo.

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📈 Mercados — Fechamento de quinta (18/06)

AtivoFechamentoNo dia
Ibovespa168.249 pts↓ −0,12%
Dólar (spot)R$ 5,17↑ +1,25%
Petróleo (Brent)US$ 77,11↓ −3,07%
OuroUS$ 4.218,09↓ −0,97%
BitcoinUS$ 63.908↓ −1,29%

Fontes: B3, CNN Brasil, Trading Economics e Yahoo Finance · variação no dia 18/06 (cotações podem variar por contrato e horário) · Elaboração: Daily Brew

📅 Agenda — de 19 a 24 de junho

SEX 19 INFORMATIVO Bolsas dos Estados Unidos fechadas pelo feriado de Juneteenth. Liquidez baixa lá fora e pregão mais curto por aqui.
TER 23 ALTO IMPACTO Ata do Copom. O Banco Central abre os detalhes por trás do comunicado mais duro de quarta — e o mercado vai garimpar pistas sobre pausa ou novos cortes.
QUA 24 ALTO IMPACTO IPCA-15 de junho (IBGE), a prévia da inflação oficial do mês — o primeiro retrato dos preços depois da queda do petróleo com a trégua no Oriente Médio.

📚 Vale ler

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Como foram as vendas no varejo durante a estreia da seleção na Copa

Os dados da Cielo sobre o que o brasileiro deixou de comprar — e o que encheu o carrinho — na hora do jogo.

Cielo

☕ BOA SEXTA

Um apartamento que ninguém sabe de onde veio.
Famílias no vermelho e um juro que se recusa a ceder.
A vida segue cara — mas, por ora, a bola rolou de graça.
Boa sexta. O café já está pronto. ☕

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