Daily Brew
Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.
Terça-feira · 10 de março de 2026
☕ Bom dia

A segunda-feira foi uma das sessões mais esquizofrénicas dos últimos anos. O petróleo abriu acima de US$ 111, atingiu US$ 119 no meio do dia — o maior patamar desde 2022 —, derrubou o índice sul-coreano Kospi em mais de 8% (com circuit breaker acionado) e fez o Dow Jones perder quase 900 pontos no pior momento. Então Trump apareceu numa entrevista a CBS, disse que a guerra estava "praticamente concluída" e tudo virou: S&P 500 fechou em alta de 0,83%, o Ibovespa recuperou, o dólar recuou.

Detalhe que estraga a festa: o Ira nao recebeu o memorando. Respondeu, com toda a delicadeza diplomatica do caso, que "nao ha espaco para cessar-fogo". Enquanto isso, o Brasil acorda com estoque de diesel para 15 dias, a Petrobras com a maior defasagem de preco da historia e o Copom de marco virando um ponto de interrogacao gigante. Mas ei — o cafe ainda ta quente. Bom dia.

📌 O número do dia
85%
A defasagem do diesel da Petrobras em relação ao mercado global
O maior nível já registrado. Para se equiparar ao mercado internacional, a Petrobras precisaria subir o diesel em R$ 2,74 por litro. A estatal está há mais de 300 dias sem reajustar o combustível. Refinarias privadas já estão aumentando. O relógio corre.
⚡ Mais rápido
Trump diz que guerra está "praticamente concluída" — declaração à CBS reverteu pregão inteiro; Irã respondeu que não há espaço para cessar-fogo enquanto ataques continuarem
Defasagem do diesel da Petrobras atinge 85% — recorde histórico — Acelen já subiu diesel 26% em março; estoques garantem abastecimento por 15 dias; risco de desabastecimento cresce
Focus: Selic do fim de 2026 sobe de 12% para 12,13% — revisão modesta, mas revela que choque do petróleo já contamina expectativas; corte de março em 14,5% segue na mesa
O que moveu os mercados
Geopolítica · Internacional
"Praticamente concluída": a frase de Trump que salvou o pregão — e o que ela não diz

Ontem o pregão começou com o caos: Brent a US$ 119, circuit breaker na Coreia do Sul (-8%), Dow perdendo 900 pontos, dólar a R$ 5,28. O tipo de manhã que faz gestores de fundo envelhecerem visivelmente.

Tudo mudou às 16h20, quando Donald Trump apareceu na CBS e disse que a guerra contra o Irã estava "praticamente concluída". Sem condição. Sem prazo. Sem acordo assinado. Só a frase. Em 40 minutos: dólar caiu para R$ 5,1655 (-1,52%), Ibovespa fechou em 180.915 pontos (+0,86%), S&P 500 subiu 0,83%, Nasdaq avançou 1,38%. O Dow Jones, que perdia 900 pontos, fechou em alta de 0,50%. Até o Brent, que tocou US$ 119, recuou e fechou em US$ 98,96 (+6,8%).

O Irã respondeu horas depois que "não há espaço para cessar-fogo enquanto os ataques continuarem". Os futuros do Brent, que chegaram a cair abaixo de US$ 90 no after-market, podem retomar a alta ainda de manhã. Fique de olho no noticiário antes de qualquer decisão.

🎓 O que a teoria diz
Volatilidade de declaração: quando uma fala de autoridade — sem evidência concreta — é suficiente para mover mercados bilionários, economistas chamam de "efeito sinalização". Mercados reagiram não ao fato, mas à expectativa. O risco: se a sinalização não se confirmar, a reversão costuma ser ainda mais violenta do que o rally que a precedeu.
E daí?
A coletiva de Trump de ontem à noite e qualquer novo ataque no Oriente Médio esta manhã vão definir o tom do pregão. O G7 se reúne hoje para tentar chegar a um acordo sobre liberação de reservas estratégicas — algo que poderia derrubar o petróleo de forma mais estrutural.

📊 Gráfico do dia
Preço na bomba
Energia · Brasil
Petrobras no limite: defasagem de 85% no diesel e estoques para menos de 15 dias

Imagine que você há mais de 300 dias não reajusta o preço do que vende, enquanto o custo do produto foi às nuvens. É exatamente o que a Petrobras está fazendo com o diesel. A defasagem atingiu 85% — recorde histórico — o que significa que a estatal precisaria subir o combustível em R$ 2,74 por litro só para empatar com o mercado internacional.

O resultado prático: quem pode cobrar mais, está cobrando. A Acelen (Refinaria de Mataripe, 14% do mercado nacional) já subiu o diesel 26% em março e ainda apresenta 42% de defasagem. Quem não reajustou — a Petrobras — está com filas se formando nas suas refinarias. Importadores privados pararam de comprar, porque não dá pra ganhar dinheiro trazendo diesel quando a Petrobras vende abaixo do custo. Os estoques nacionais garantem abastecimento por cerca de 15 dias.

🎓 O que a teoria diz
Paridade de importação: é o preço que o Brasil precisaria pagar para importar um litro de combustível do mercado internacional. Quando os preços domésticos ficam muito abaixo da paridade, importadores privados perdem dinheiro a cada carga — e param de importar. A Petrobras vira o único fornecedor disposto a vender barato, até o dia em que o faz por impossibilidade econômica. O resultado clássico é fila, desabastecimento regional e, eventualmente, um reajuste brusco.
E daí?
Em ano eleitoral, subir combustível é politicamente custoso — mas deixar o abastecimento travar é pior. A Petrobras disse estar monitorando o conflito antes de qualquer decisão. Se o petróleo Brent se estabilizar acima de US$ 90, a conta não fecha sem reajuste. Um aumento de R$ 2,74 no diesel impacta direto o frete, o custo de alimentos e o IPCA — justo quando o Copom se reúne em oito dias.
A grande interrogação
Política Monetária · Brasil
Focus pós-choque: corte de março está mantido, mas mercado já sobe a Selic do fim do ano

Na sexta-feira passada, era quase consenso: Copom cortaria 0,50 p.p. em 17-18 de março, levando a Selic de 15% para 14,5%. Simples, previsto, chato do jeito que o mercado gosta. Aí veio o petróleo acima de US$ 100 e o consenso foi por água abaixo. A curva de juros futuros passou a precificar apenas 27 pontos-base — o que é a linguagem técnica para "não sabemos mais o que vai acontecer".

O Boletim Focus de segunda ainda não captou a reviravolta (boletim é compilado nas sextas). Mas os sinais já aparecem: projeção da Selic ao fim de 2026 subiu de 12% para 12,13%. A XP alerta que a alta do petróleo de US$ 70 para mais de US$ 100 pode adicionar 0,4 p.p. no IPCA. O secretário do Tesouro, Rogério Ceron, foi mais direto: disse que acima de US$ 100 isso pode "antecipar o fim do ciclo de queda de juros". Para quem quiser um número mais concreto: cada 10% de alta no Brent gera cerca de 0,25 p.p. de IPCA. Com o petróleo 40% acima do início do conflito, a matemática já não é amigável.

🎓 O que a teoria diz
Em política monetária, um choque de oferta inflacionário — como a alta do petróleo — coloca o banco central numa encruzilhada. Cortar juros quando a inflação pode subir parece contraditório, mas o Copom provavelmente vai cortar assim mesmo: porque a inflação corrente ainda é benigna, a atividade desacelerou e o choque pode ser transitório. O dilema é que se o conflito se prolongar, o BC pode ter que pausar o ciclo no meio do caminho — o pior dos mundos para quem planejou o portfólio para um ciclo longo de queda de juros.
E daí?
O IPCA de fevereiro sai na quinta (12). Se vier dentro do esperado — e os dados de curto prazo ainda são benignos — o Copom provavelmente corta 0,50 p.p. em 18 de março. A questão que vai dominar o mercado de renda fixa é o que vem depois: se o petróleo ficar acima de US$ 90-100, abril pode já ser uma reunião mais dividida. A curva de juros começa a precificar esse risco hoje.
A reunião dos gigantes
Energia Global · G7
G7 volta a se reunir hoje: o que está em jogo na decisão sobre reservas estratégicas

Os ministros das Finanças do G7 se reúnem hoje para tentar chegar ao que ontem não conseguiram: um acordo para liberar reservas estratégicas de petróleo e conter a escalada de preços. Na segunda, o grupo se reuniu mas não fechou posição. A França foi mais longe — o presidente Emmanuel Macron afirmou publicamente que os países do G7 "podem recorrer às reservas estratégicas", evocando a estratégia usada em 2022 com a invasão da Ucrânia.

Os Estados Unidos, detentores da maior reserva estratégica do mundo (SPR), ainda não confirmaram participação. O secretário de Energia, Chris Wright, afirmou ontem que "não há falta imediata de petróleo ou gás no mercado global" — uma leitura que contrasta com a da maioria dos analistas. Analistas do mercado avaliam que a liberação das reservas pode aliviar o mercado no curto prazo, mas não resolve o problema estrutural enquanto o Estreito de Ormuz permanecer fechado.

🎓 O que a teoria diz
As reservas estratégicas de petróleo (SPR nos EUA, IEA nos países membros da AIE) foram criadas exatamente para isso: amortecer choques de oferta. Cada país membro da AIE é obrigado a manter reservas equivalentes a 90 dias de importações líquidas. A liberação coordenada em 2022 foi capaz de derrubar o Brent em US$ 10-15 em poucas semanas. Mas a eficácia depende do volume liberado, da duração do choque e da credibilidade do sinal político.
E daí?
Um acordo hoje no G7 pode ser o catalisador que falta para o petróleo recuar para a faixa dos US$ 85-90 — o que aliviaria a pressão sobre o Copom, a Petrobras e o câmbio do Brasil de uma só vez. Se não houver acordo, o mercado vai interpretar como sinal de que o G7 não tem munição política suficiente. Fique de olho na hora do almoço: os mercados europeus costumam reagir rápido a esse tipo de anúncio.
📈 Mercados — fechamento de segunda (9/3)
Ativo Fechamento Variação Máx / Mín do dia
Ibovespa 180.915 pts ▲ +0,86% 184k / 177k
Dólar (BRL) R$ 5,1655 ▼ -1,52% R$ 5,28 / R$ 5,16
Petróleo Brent US$ 98,96 ▲ +6,8% US$ 119 / US$ 93
S&P 500 6.793 pts ▲ +0,83% 6.795 / 6.623
Nasdaq 22.695 pts ▲ +1,38% 22.700 / 22.073
VIX 28,4 pts ▼ -9,2% 41,3 / 26,1
Bitcoin US$ 81.240 ▼ -3,1% US$ 86,4k / US$ 78,9k
* VIX acima de 30 = mercado com medo. Abriu o dia em pânico (41,3), fechou aliviado após Trump.
💬 A frase
"Desde o início do conflito não está chegando carga nova, o mercado está parado. O nosso diesel vem da Rússia e o problema é o preço — ninguém sabe se a Petrobras vai repassar esse aumento."
— Sergio Araújo, presidente da Abicom (Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis)
Tradução do economês: quando o importador para de importar porque não sabe se vai ter prejuízo ou lucro, o abastecimento depende do estoque que já existe no país. Os estoques atuais duram 15 dias. Depois disso, a decisão da Petrobras deixa de ser opcional.
📅 Agenda
Hoje Reunião do G7 sobre reservas estratégicas de petróleo — acordo pode derrubar o Brent de forma estrutural; ausência de acordo seria sinal de impotência política ALTO IMPACTO
Hoje Desdobramentos da coletiva de Trump — declaração de ontem à noite sobre fim iminente da guerra pode mudar ou confirmar o tom dos mercados ALTO IMPACTO
Qui 12/mar 9h IPCA de fevereiro — IBGE divulga a inflação oficial; dado pré-choque do petróleo, mas monitorado de perto pelo Copom para a reunião de 17-18/mar ALTO IMPACTO
17-18/mar Reunião do Copom — mercado ainda projeta corte de 0,50 p.p., levando Selic de 15% para 14,5%; petróleo e defasagem da Petrobras são as principais incógnitas MÉDIO IMPACTO
📚 Vale ler hoje
Disparada do petróleo amplia defasagem do diesel para 85% e acende alerta de desabastecimento
Filas nas refinarias da Petrobras, Acelen sobe 26%, estoques para 15 dias: tudo que você precisa saber sobre a crise silenciosa do combustível no Brasil
Times Brasil / CNBC
Guerra no Irã e inflação ameaçam corte da Selic pelo Copom
Análise completa do dilema do BC: um aumento de 10% no Brent gera 0,25 p.p. de IPCA; o que muda se o petróleo ficar acima de US$ 95 na semana do Copom
Gazeta do Povo
Ibovespa salta, dólar e petróleo caem após Trump dizer que guerra pode acabar
Cobertura minuto a minuto da sessão mais volátil do ano: do Brent a US$ 119 ao circuit breaker coreano até a virada nos mercados americanos
InfoMoney
🎯 Boa terça
Ontem o mercado aprendeu que uma frase de Trump vale bilhões de dólares — para cima e para baixo. Hoje aprenderemos se essa frase tem substância ou era só improviso. O G7 decide sobre reservas estratégicas, o petróleo testa os US$ 100 como novo piso e a Petrobras começa a semana com a maior defasagem de combustíveis já registrada no Brasil.

Nem pânico, nem euforia. Atenção redobrada e café na mão.

Keep Reading