Daily Brew — 12 de março de 2026
Daily Brew
Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.
Quinta-feira · 12 de março de 2026
☕ Bom dia

No meio do caos geopolítico, o Brasil tem sua própria agenda doméstica para rodar. Hoje de manhã sai o IPCA de fevereiro — o número que vai apoiar na decisão do Banco Central de cortar a Selic em 25 ou em 50 pontos-base na semana que vem. Com os DIs de curto prazo subindo ontem e o mercado dividido entre os dois cenários, a reunião do Copom de março ficou mais suspense do que deveria ser para um banco central que opera metas de inflação.

E, para temperar, o Congresso segue debatendo o fim da escala 6x1 — um estudo da Fiep/Tendências aponta que a medida pode custar 3,7% do PIB no primeiro ano.

Por fim, Estreito de Ormuz parece ter virado o novo epicentro financeiro global — e o petróleo, gentilmente, voltou a subir 4% ontem depois de ter despencado 11% na véspera. Treze dias de conflito EUA-Israel x Irã, Trump dizendo que "a guerra termina em breve" pela terceira vez na semana, e fontes da Casa Branca sussurrando para o site Axios que Washington se prepara para mais duas semanas de ofensivas. Escolha sua fonte favorita de informação e torça para que a certa seja a otimista. Ninguém disse que seria uma semana tranquila.

⚡ Mais rápido
Petróleo Brent fecha a US$ 91,98 — Alta de 4,76% ontem, um dia depois de cair 11%. O Irã atacou navios no Estreito de Ormuz durante a madrugada e prometeu que o barril chegará a US$ 200. Trump disse que a guerra acaba "em breve". O mercado não sabe em quem acreditar.
CPI americano de fevereiro: 0,3% no mês, 2,4% ao ano — Em linha com o esperado. Boa notícia para o Fed. O detalhe é que o choque do petróleo ainda não aparece nos dados — esse capítulo fica para março e abril.
DIs sobem e mercado divide apostas entre 25 e 50 bps — Os juros futuros brasileiros fecharam em alta ontem, com a taxa do DI para jan/2028 em 13,13%. O Copom decide na semana que vem e o mercado ainda não tem consenso.
Pesquisa Genial/Quaest: Lula 36–39%, Flávio 30–35% — A eleição presidencial de 2026 começa a tomar forma. No segundo turno, ambos somam 41% — empate técnico com margem de 2 pontos. O mercado anotou.
Varejo brasileiro surpreende em janeiro: +0,4% no mês — Expectativa era de queda de 0,1%. Alta de 2,8% na comparação anual, acima dos 1,65% projetados. Com Selic a 15%, o consumidor ainda não derreteu — por ora.
IPCA
Brasil · Política Monetária
Último dado de inflação antes da decisão do Copom

Às 9h de hoje o IBGE divulga o IPCA oficial de fevereiro — o número que o Banco Central vai colocar na mesa na reunião do Copom da semana que vem. A prévia (IPCA-15) já havia dado o tom: 0,84% no mês, 28 pontos acima das expectativas, a maior surpresa de alta desde 2003. Transportes e educação responderam por 80% daquela leitura — sazonalidade conhecida, mas intensidade acima do previsto. O mercado espera algo um pouco mais ameno para o IPCA fechado, na casa de 0,75%, com o acumulado em 12 meses próximo de 4,4%.

O debate agora é cirúrgico: 25 ou 50 pontos-base no corte inaugural? Os DIs de curto prazo subiram ontem com a pressão do petróleo e dos Treasuries. A taxa do DI para jan/2028 fechou em 13,13% — alta de 12 pontos-base em um único dia. O mercado está dividido, e a divisão importa: um corte de 50 bps seria um sinal de que o BC está confiante na trajetória de desinflação; um corte de 25 bps seria um recado de que a cautela prevalece diante da incerteza externa.

🎓 O que a teoria diz
Âncora de expectativas: A eficácia de um banco central não depende só do que ele faz, mas do que o mercado acredita que ele vai fazer. Quando as expectativas de inflação estão "ancoradas" — isto é, próximas da meta —, o BC tem mais liberdade para cortar juros sem provocar descontrole. Quando elas se descolam, como aconteceu no Brasil em 2025, o custo de reconquistar a credibilidade é alto: juros sobem mais, ficam altos por mais tempo, e a economia desacelera antes de qualquer melhora. O IPCA de hoje não é só um número — é um teste de credibilidade.
E daí?
O IPCA de fevereiro ainda captura um mundo sem guerra no Oriente Médio — o petróleo só explodiu agora. Isso significa que março, abril e maio chegarão com uma conta que hoje ninguém consegue calcular com precisão: quanto da alta do Brent vai virar passagem aérea, frete, combustível e alimentação no carrinho do supermercado. O Copom decide na semana que vem com um retrato do passado na mão e uma névoa à frente. Se cortar 50 bps e a inflação acelerar nos próximos meses, perde credibilidade. Se cortar 25 bps e o dado vier comportado, vai parecer que errou na dose por excesso de cautela.
Oriente Médio / Petróleo
Economia Global · Commodities
Petróleo a US$ 92 e o choque que ainda vem na inflação

O Estreito de Ormuz concentra cerca de 20% do fluxo global de petróleo. O Irã escolheu exatamente esse ponto para testar os nervos do mercado financeiro mundial. Ontem, novos ataques a navios petroleiros na região levaram o Brent a fechar a US$ 92, alta de 5%, um dia depois de ter despencado 11%. A volatilidade não é um sinal de normalização: é o mercado tentando precificar o imprevisível.

O dado mais relevante do dia, porém, veio de Washington. O CPI americano de fevereiro saiu em 0,3% no mês e 2,4% ao ano — exatamente no esperado. Inflação comportada, por ora. O problema é o "por ora": o petróleo saiu de US$ 71 em fevereiro para a faixa de US$ 92 agora. Segundo o UBS, se o petróleo ficar acima de US$ 90 por mais de seis meses, a inflação dos EUA subiria 60 pontos-base em 2026. Se ficar acima de US$ 120 no mesmo período, o impacto seria de 150 pontos-base. A conta de março já está sendo feita.

A Avenue foi direta: "a moderação da inflação pode ter vida curta" — e o conflito obscurece as perspectivas de cortes de juros pelo Fed. O mercado, por ora, precifica apenas um corte de 25 pontos-base pelo Fed em todo o ano de 2026, com início em julho. Para quem apostou em dois ou três cortes, o recálculo de rota já começou.

🎓 O que a teoria diz
Efeito pass-through: É o processo pelo qual uma alta no preço de um insumo básico — como o petróleo — se propaga para o restante da economia. O impacto não é só direto (gasolina mais cara na bomba): ele viaja pelos custos de transporte, fretes, energia industrial e, por fim, chega ao preço do pãozinho.
E daí?
O pass-through é maior quando as expectativas de inflação se desancoraram — quando consumidores e empresas já acreditam que os preços vão subir, e passam a cobrar e a pagar mais preventivamente. É aí que um choque temporário de petróleo vira inflação persistente. O Fed sabe disso. É por isso que, mesmo com o CPI de fevereiro comportado, o banco central americano não vai se apressar em cortar juros se a inflação estiver muito elevada. E se o conflito durar mais duas semanas como sugerem as fontes de Washington, o CPI de março será um número feio.
Escala 6x1
Brasil · Mercado de Trabalho
O Congresso quer reduzir a jornada. A economia discorda — com dados

Um estudo da Tendências Consultoria encomendado pela Federação das Indústrias do Paraná (Fiep) chegou a uma conclusão que ninguém no movimento da escala 6x1 quer ouvir: reduzir a jornada de 44 para 36 horas semanais derrubaria o PIB em 3,7% só no primeiro ano de vigência da nova regra. Em cinco anos, o tombo acumulado chegaria a 4,9%.

O número mais incômodo não é o do PIB. É o dos trabalhadores: o estudo estima risco de demissão ou migração para a informalidade de cerca de 1,5 milhão de trabalhadores formais — exatamente as pessoas que a proposta diz querer proteger. O mecanismo é simples: empresas com margens apertadas e alta dependência de mão de obra não absorvem o aumento de custo elevando salários. Elas demitem, terceirizam ou contratam informalmente.

O estudo ainda testou um cenário generoso: e se a medida gerar 2% de ganho de produtividade? Mesmo assim, a queda do PIB seria inevitável — e 2% de ganho de produtividade é "pouco crível" para um país com ganhos de produtividade praticamente nulos nos últimos 30 anos.

🎓 O que a teoria diz
Custo unitário do trabalho: É quanto uma empresa gasta em mão de obra para produzir uma unidade de produto. Quando a jornada cai mas o salário mensal fica igual, o custo unitário do trabalho sobe automaticamente — o trabalhador produz menos horas pelo mesmo valor. Em países com alta produtividade, esse custo pode ser absorvido por ganhos de eficiência. No Brasil, onde a produtividade está estagnada há três décadas, o custo extra vai direto para o preço final do produto, para a margem da empresa — ou para a conta do trabalhador que perde o emprego.
E daí?
Se a proposta avançar no Congresso, os mais atingidos serão exatamente os setores com menor automação e maior concorrência: varejo, serviços, construção civil, alimentação. Para o trabalhador formal nesses setores, o risco não é ganhar menos — é deixar de ser formal. Para o consumidor, é pagar mais caro. Para o país, é crescer menos numa década em que crescer já é difícil o suficiente.
📌 O número do dia
3,7%
Queda do PIB no 1º ano · Fiep / Tendências Consultoria
É o impacto estimado sobre o PIB caso a proposta de redução da jornada de 44 para 36 horas semanais seja aprovada. Em cinco anos, o tombo acumulado chegaria a 4,9%. Para quem defende a medida como geradora de empregos: não há qualquer evidência robusta nesse sentido, segundo três consultorias independentes.
📊 O gráfico do dia
📈 Mercados — fechamento de quarta-feira (11/03)
Ativo Fechamento Variação Máx / Mín do dia
Ibovespa 183.969,34 pts ▲ +0,28% 186.306 / 183.110
Dólar (BRL) R$ 5,1592 ▲ +0,04% R$ 5,19 / R$ 5,14
Petróleo Brent US$ 91,98 ▲ +4,76% US$ 91,98 / US$ 86,54
S&P 500 6.775,80 pts ▼ -0,08% 6.845 / 6.760
Dow Jones 47.417,27 pts ▼ -0,61% 47.980 / 47.200
Nasdaq 22.716,13 pts ▲ +0,08% 22.870 / 22.560
Bitcoin US$ 69.000 ▼ -2,1% US$ 71,5k / US$ 68,4k
* O Ibovespa oscilou entre 183.110 e 186.306 pts durante o dia, impulsionado pela Petrobras (+4,36%). O Brent reverteu parte da queda histórica da véspera. Wall Street operou sem direção: S&P e Dow recuaram com a nova alta do petróleo; Nasdaq fechou levemente no azul. O ouro recuou 1,2%, a US$ 5.179, pressionado pelo dólar forte e pela perspectiva de menos cortes do Fed.
💬 A frase
"O relatório sugere que o Fed pode manter a paciência, com o mercado precificando menor chance de corte já em março."
— William Castro, estrategista-chefe da Avenue · 11/03/2026
Ainda que o último dado mostrou estabilidade da inflação sem aceleração significativa, o choque de petróleo que vai aparecer nos dados de março e abril ainda não chegou. A inflação moderada de fevereiro é uma foto tirada antes da tempestade — e o mercado sabe disso.
📅 Agenda
Hoje IPCA de fevereiro — IBGE (9h) — O índice oficial de inflação do Brasil. Define o tom do Copom da semana que vem. ALTO IMPACTO
Hoje Balança comercial EUA — janeiro (9h30) — Dados de comércio exterior americano, relevantes diante da guerra tarifária e do conflito no Oriente Médio. MÉDIO IMPACTO
Hoje Pedidos de auxílio-desemprego EUA (9h30) — Termômetro semanal do mercado de trabalho americano, que o Fed acompanha de perto. MÉDIO IMPACTO
Sex 13/03 Deflator do PCE + PIB anualizado 4T25 EUA (9h30) — O PCE é a medida de inflação preferida do Fed. O PIB fecha o quadro do crescimento americano no trimestre. ALTO IMPACTO
Sex 13/03 Pesquisa Mensal de Serviços — IBGE (9h) — Dados de atividade do setor, que responde por mais de 70% do PIB brasileiro. MÉDIO IMPACTO
Semana que vem Decisão do Copom — Selic (25 ou 50 bps?) — O primeiro corte de juros no Brasil desde o ciclo de alta. O mercado ainda não tem consenso sobre o tamanho. ALTO IMPACTO
📚 Vale ler hoje
Inflação moderada dos EUA está com os dias contados
O UBS detalha por que o CPI de fevereiro é o último número "limpo" antes do choque de energia entrar de verdade nos dados. A projeção de 0,67% para março e o que isso significa para quem apostou em cortes do Fed em 2026.
Money Times
Petróleo sobe 4%, com navegação no Estreito de Ormuz em foco
A OPEP projeta mais 600 mil barris/dia de oferta global, a AIE libera 400 milhões de barris das reservas estratégicas, e o Brent fecha a US$ 92 mesmo assim. O mercado de energia está funcionando — só que em modo de crise.
Infomoney / Estadão Conteúdo
Fim da escala 6×1 elevaria a informalidade e PIB cairia 3,7% em um ano
O estudo que o Congresso vai ignorar: Tendências Consultoria, FGV/Ibre e Ibevar-FIA chegaram à mesma conclusão por caminhos independentes. Reduzir jornada sem produtividade é destruir riqueza com aparência de generosidade.
Infomoney
Toffoli se declara suspeito para analisar pedido que cobra instalação da CPI do Master na Câmara
Ministro alegou 'motivo de foro íntimo' para não analisar solicitação apresentada pelo deputado Rodrigo Rollemberg. O ministro Cristiano Zanin será o novo relator do pedido.
G1
PF prende operador do núcleo financeiro do 'Careca do INSS'
Alexandre Moreira da Silva, um dos últimos foragidos da Operação Sem Desconto, foi detido em São Paulo. O esquema de fraudes no INSS segue sendo desmontado — devagar, mas desmontado. Para quem ainda acha que o dinheiro público se perde por acidente: não se perde, ele é desviado, e tem CPF nos dois lados da transação.
Estadão
🎯 Boa quinta-feira
O mundo tem 20% do seu petróleo passando por um corredor onde dois países trocam projéteis. Trump diz que acaba logo. As fontes dizem mais duas semanas. O Brent subiu 4% ontem depois de cair 11% antes. O Congresso brasileiro discute reduzir a jornada de trabalho num país que não cresce produtividade há 30 anos.

O café de hoje ainda está quente. A geopolítica, mais ainda.

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