No meio do caos geopolítico, o Brasil tem sua própria agenda doméstica para rodar. Hoje de manhã sai o IPCA de fevereiro — o número que vai apoiar na decisão do Banco Central de cortar a Selic em 25 ou em 50 pontos-base na semana que vem. Com os DIs de curto prazo subindo ontem e o mercado dividido entre os dois cenários, a reunião do Copom de março ficou mais suspense do que deveria ser para um banco central que opera metas de inflação.
E, para temperar, o Congresso segue debatendo o fim da escala 6x1 — um estudo da Fiep/Tendências aponta que a medida pode custar 3,7% do PIB no primeiro ano.
Por fim, Estreito de Ormuz parece ter virado o novo epicentro financeiro global — e o petróleo, gentilmente, voltou a subir 4% ontem depois de ter despencado 11% na véspera. Treze dias de conflito EUA-Israel x Irã, Trump dizendo que "a guerra termina em breve" pela terceira vez na semana, e fontes da Casa Branca sussurrando para o site Axios que Washington se prepara para mais duas semanas de ofensivas. Escolha sua fonte favorita de informação e torça para que a certa seja a otimista. Ninguém disse que seria uma semana tranquila.
| → Petróleo Brent fecha a US$ 91,98 — Alta de 4,76% ontem, um dia depois de cair 11%. O Irã atacou navios no Estreito de Ormuz durante a madrugada e prometeu que o barril chegará a US$ 200. Trump disse que a guerra acaba "em breve". O mercado não sabe em quem acreditar. |
| → CPI americano de fevereiro: 0,3% no mês, 2,4% ao ano — Em linha com o esperado. Boa notícia para o Fed. O detalhe é que o choque do petróleo ainda não aparece nos dados — esse capítulo fica para março e abril. |
| → DIs sobem e mercado divide apostas entre 25 e 50 bps — Os juros futuros brasileiros fecharam em alta ontem, com a taxa do DI para jan/2028 em 13,13%. O Copom decide na semana que vem e o mercado ainda não tem consenso. |
| → Pesquisa Genial/Quaest: Lula 36–39%, Flávio 30–35% — A eleição presidencial de 2026 começa a tomar forma. No segundo turno, ambos somam 41% — empate técnico com margem de 2 pontos. O mercado anotou. |
| → Varejo brasileiro surpreende em janeiro: +0,4% no mês — Expectativa era de queda de 0,1%. Alta de 2,8% na comparação anual, acima dos 1,65% projetados. Com Selic a 15%, o consumidor ainda não derreteu — por ora. |
Às 9h de hoje o IBGE divulga o IPCA oficial de fevereiro — o número que o Banco Central vai colocar na mesa na reunião do Copom da semana que vem. A prévia (IPCA-15) já havia dado o tom: 0,84% no mês, 28 pontos acima das expectativas, a maior surpresa de alta desde 2003. Transportes e educação responderam por 80% daquela leitura — sazonalidade conhecida, mas intensidade acima do previsto. O mercado espera algo um pouco mais ameno para o IPCA fechado, na casa de 0,75%, com o acumulado em 12 meses próximo de 4,4%.
O debate agora é cirúrgico: 25 ou 50 pontos-base no corte inaugural? Os DIs de curto prazo subiram ontem com a pressão do petróleo e dos Treasuries. A taxa do DI para jan/2028 fechou em 13,13% — alta de 12 pontos-base em um único dia. O mercado está dividido, e a divisão importa: um corte de 50 bps seria um sinal de que o BC está confiante na trajetória de desinflação; um corte de 25 bps seria um recado de que a cautela prevalece diante da incerteza externa.
O Estreito de Ormuz concentra cerca de 20% do fluxo global de petróleo. O Irã escolheu exatamente esse ponto para testar os nervos do mercado financeiro mundial. Ontem, novos ataques a navios petroleiros na região levaram o Brent a fechar a US$ 92, alta de 5%, um dia depois de ter despencado 11%. A volatilidade não é um sinal de normalização: é o mercado tentando precificar o imprevisível.
O dado mais relevante do dia, porém, veio de Washington. O CPI americano de fevereiro saiu em 0,3% no mês e 2,4% ao ano — exatamente no esperado. Inflação comportada, por ora. O problema é o "por ora": o petróleo saiu de US$ 71 em fevereiro para a faixa de US$ 92 agora. Segundo o UBS, se o petróleo ficar acima de US$ 90 por mais de seis meses, a inflação dos EUA subiria 60 pontos-base em 2026. Se ficar acima de US$ 120 no mesmo período, o impacto seria de 150 pontos-base. A conta de março já está sendo feita.
A Avenue foi direta: "a moderação da inflação pode ter vida curta" — e o conflito obscurece as perspectivas de cortes de juros pelo Fed. O mercado, por ora, precifica apenas um corte de 25 pontos-base pelo Fed em todo o ano de 2026, com início em julho. Para quem apostou em dois ou três cortes, o recálculo de rota já começou.
Um estudo da Tendências Consultoria encomendado pela Federação das Indústrias do Paraná (Fiep) chegou a uma conclusão que ninguém no movimento da escala 6x1 quer ouvir: reduzir a jornada de 44 para 36 horas semanais derrubaria o PIB em 3,7% só no primeiro ano de vigência da nova regra. Em cinco anos, o tombo acumulado chegaria a 4,9%.
O número mais incômodo não é o do PIB. É o dos trabalhadores: o estudo estima risco de demissão ou migração para a informalidade de cerca de 1,5 milhão de trabalhadores formais — exatamente as pessoas que a proposta diz querer proteger. O mecanismo é simples: empresas com margens apertadas e alta dependência de mão de obra não absorvem o aumento de custo elevando salários. Elas demitem, terceirizam ou contratam informalmente.
O estudo ainda testou um cenário generoso: e se a medida gerar 2% de ganho de produtividade? Mesmo assim, a queda do PIB seria inevitável — e 2% de ganho de produtividade é "pouco crível" para um país com ganhos de produtividade praticamente nulos nos últimos 30 anos.

* O Ibovespa oscilou entre 183.110 e 186.306 pts durante o dia, impulsionado pela Petrobras (+4,36%). O Brent reverteu parte da queda histórica da véspera. Wall Street operou sem direção: S&P e Dow recuaram com a nova alta do petróleo; Nasdaq fechou levemente no azul. O ouro recuou 1,2%, a US$ 5.179, pressionado pelo dólar forte e pela perspectiva de menos cortes do Fed.
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Inflação moderada dos EUA está com os dias contados
O UBS detalha por que o CPI de fevereiro é o último número "limpo" antes do choque de energia entrar de verdade nos dados. A projeção de 0,67% para março e o que isso significa para quem apostou em cortes do Fed em 2026.
Money Times
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Petróleo sobe 4%, com navegação no Estreito de Ormuz em foco
A OPEP projeta mais 600 mil barris/dia de oferta global, a AIE libera 400 milhões de barris das reservas estratégicas, e o Brent fecha a US$ 92 mesmo assim. O mercado de energia está funcionando — só que em modo de crise.
Infomoney / Estadão Conteúdo
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Fim da escala 6×1 elevaria a informalidade e PIB cairia 3,7% em um ano
O estudo que o Congresso vai ignorar: Tendências Consultoria, FGV/Ibre e Ibevar-FIA chegaram à mesma conclusão por caminhos independentes. Reduzir jornada sem produtividade é destruir riqueza com aparência de generosidade.
Infomoney
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Toffoli se declara suspeito para analisar pedido que cobra instalação da CPI do Master na Câmara
Ministro alegou 'motivo de foro íntimo' para não analisar solicitação apresentada pelo deputado Rodrigo Rollemberg. O ministro Cristiano Zanin será o novo relator do pedido.
G1
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PF prende operador do núcleo financeiro do 'Careca do INSS'
Alexandre Moreira da Silva, um dos últimos foragidos da Operação Sem Desconto, foi detido em São Paulo. O esquema de fraudes no INSS segue sendo desmontado — devagar, mas desmontado. Para quem ainda acha que o dinheiro público se perde por acidente: não se perde, ele é desviado, e tem CPF nos dois lados da transação.
Estadão
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O café de hoje ainda está quente. A geopolítica, mais ainda.