Daily Brew

Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.

SEXTA-FEIRA · 24 DE ABRIL DE 2026

☕ Bom dia

O petróleo não parou. O Brent tocou US$ 107,40 na quinta e fechou em US$ 105,07 — terceiro dia consecutivo de alta, acumulando +10% desde terça. A IEA chamou o bloqueio de Hormuz de "maior ameaça à segurança energética em décadas". O mercado ouviu e precificou.

O dólar seguiu o roteiro. Com o spot fechando a R$ 5,0036 — primeiro fechamento acima de R$ 5,00 desde o dia 10 — o câmbio entrou no radar do Copom que se reúne na terça. As reservas internacionais recuaram mais R$ 1,5 bilhão na semana. Não é crise, mas é sinal.

E então o IPCA-15 de abril entregou uma surpresa. O índice veio em 0,21% — menos da metade dos 0,45% que o mercado esperava. Num dia em que o petróleo batia US$ 107 e o dólar cruzava R$ 5, a inflação achou uma janela para respirar.

Galípolo tem o fim de semana para decidir o que fazer com dois sinais opostos. Boa sorte — e boa sexta. ☕

Energia · O novo patamar

Brent · IEA · Hormuz · Irã · Goldman · Petrobras · IPCA

US$ 100 virou piso. O mercado parou de discutir se — e começou a discutir até onde.

O Brent fechou quinta-feira em US$ 105,07, alta de 3,10%, depois de tocar US$ 107,40 no intradia. Em três pregões, o contrato acumulou +10% a partir dos US$ 95 de segunda. O cessar-fogo foi prorrogado. O Estreito seguiu bloqueado. O mercado tirou suas próprias conclusões.

Fatih Birol, diretor-executivo da IEA, classificou o bloqueio de Hormuz como "a maior ameaça à segurança energética que o mundo enfrenta em décadas". Cerca de 12 milhões de barris por dia — 12% da produção global — estão parados ou desviados. O Goldman Sachs elevou a projeção de pico para US$ 115 no segundo trimestre de 2026.

O petróleo deixou de ser um problema de curto prazo e virou variável estrutural de política monetária. Fed e BCE já reconheceram o risco publicamente. No Brasil, onde o diesel reajusta em semanas, a transmissão é ainda mais rápida — e chega à bomba antes do próximo Focus.

🎓 O que a teoria diz

Decomposição de choques de petróleo (Kilian, 2009): o preço do barril embute três componentes — oferta fundamental, demanda global e prêmio de precaução por disrupção futura. O terceiro componente é o que mais pesa quando a ameaça é estrutural, não episódica. Diferente dos dois primeiros, ele não exige nova notícia para subir: basta a ausência de garantia de que o risco acabou. Por isso a trégua prorrogada não derruba o barril — e a cada dia de Ormuz funcionalmente travado, o prêmio migra para o nível permanente do preço.

E daí?

Petrobras: carry positivo no curto prazo, mas teto político do diesel limita repasse. Ibovespa: exportadores sustentam o índice — virtude local de uma maldição global. IPCA de maio: combustível reajusta com defasagem de 3 a 6 semanas; o impacto já está no calendário, não na notícia. Copom (28-29/04): pior sinal possível na véspera — manter sufoca a atividade, cortar piora o câmbio. Escolher virou o problema.

Brasil · R$5 na véspera

Dólar · PTAX · BCB · Reservas · Copom · Selic · Galípolo · Pass-through

O câmbio cruzou R$ 5. O Copom se reúne na terça. Não é coincidência.

O dólar à vista fechou quinta-feira a R$ 5,0036 — primeiro fechamento acima de R$ 5,00 desde o dia 10 de abril. A máxima intraday foi R$ 5,0176. O câmbio oficial PTAX ficou em R$ 4,9539, ainda abaixo do nível redondo, mas a direção é inequívoca: o real está cedendo à combinação de petróleo em alta, aversão a risco global e incerteza sobre o rumo da Selic.

As reservas internacionais recuaram de R$ 369,1 bilhões em 17 de abril para R$ 367,7 bilhões em 22 de abril — queda de R$ 1,5 bilhão em cinco dias de pregão. O BCB não interveio de forma visível, mas o espaço para deixar o câmbio andar fica menor quanto mais o petróleo sobe e o FOMC se aproxima.

Para o Copom que se reúne em 28-29 de abril, o câmbio acima de R$ 5 é mais uma variável contra o corte. Com Selic a 14,75%, o mercado esperava começar a ver alívio. O petróleo e o câmbio estão colocando em xeque essa expectativa — um degrau por vez.

🎓 O que a teoria diz

Pass-through cambial: desvalorização do real se traduz em inflação de bens importados e insumos industriais com defasagem de 3 a 6 meses. Num país que importa petróleo refinado e depende de câmbio para precificar fertilizantes e peças, R$ 5,00 não é só número redondo — é o patamar acima do qual o custo de produção começa a aparecer nos preços ao consumidor no trimestre seguinte. Com a Selic a 14,75% e o câmbio pressionado, o BC enfrenta o dilema clássico: cortar agrava o câmbio; manter sufoca a atividade.

E daí?

DI futuro: abertura de taxa continua — câmbio acima de R$ 5 retira margem para o Copom sinalizar corte na terça. NTN-B 2029: IPCA-15 baixo pode aliviar um pouco os juros reais de curto prazo — olhar a abertura de segunda. Quem tem dívida em dólar: vale revisar hedge; o movimento não foi de um dia. Fundos multimercado: posição comprada em dólar passou de hedge para trade direcional esta semana.

Copom · Sinal cruzado

IPCA-15 · Focus · Galípolo · Selic · Copom · Inflação · Câmbio · Energia

IPCA-15 veio em 0,21%. O petróleo estava em US$ 107. Escolha sua narrativa.

O IBGE divulgou nesta sexta o IPCA-15 de abril: 0,21% — menos da metade dos 0,45% que o mercado projetava. A desaceleração veio de alimentação e serviços, dois componentes que o Copom acompanha de perto. No acumulado de 12 meses, o índice recuou levemente.

No mesmo dia, o Brent tocava US$ 107 e o dólar cruzava R$ 5. O Focus da semana registrou IPCA 2026 em 4,80% — quinta semana consecutiva de alta, bem acima do teto de 4,50%. O quadro entrega ao Copom o pior dos mundos: uma boa notícia de curtíssimo prazo num cenário de médio prazo deteriorado.

A decisão de terça é agora genuinamente aberta. Quem apostava em manutenção usa petróleo e câmbio como argumento. Quem aposta em corte usa o IPCA-15 e a atividade fraca. Galípolo vai ter que escolher qual filme está assistindo — e o mercado vai precificar cada palavra do comunicado.

🎓 O que a teoria diz

Inconsistência intertemporal na política monetária: quando o banco central recebe sinais conflitantes — inflação corrente desacelerando, mas expectativas e câmbio pressionados — a tentação é agir com base no dado imediato e sinalizar afrouxamento. O problema é que, se as expectativas não estiverem ancoradas, o mercado interpreta o corte como fraqueza institucional, e o próprio câmbio deteriora ainda mais a inflação futura. Kydland e Prescott chamaram isso de armadilha da discricionariedade: a decisão ótima no curto prazo pode ser subótima no médio.

O que vem

Terça-feira (28-29/04): Copom decide com Selic em 14,75% — corte de 0,25pp ou manutenção; comunicado vai mover a curva de juros. Na mesma semana: FOMC (28-29/04), PIB dos EUA 1T26 (30/04) e reuniões FMI/BM em Washington com Galípolo presente. Semana mais carregada do mês.

📈 Gráfico do dia

Brent · Preço spot · Últimos 30 pregões

O Brent que decidiu ignorar o cessar-fogo.

Fonte: Yahoo Finance · BZ=F · Elaboração: Daily Brew · 23/04/2026

O gráfico mostra o contrato Brent nos últimos 30 pregões. O ponto de inflexão ocorre no início de abril, com o anúncio do cessar-fogo parcial entre EUA e Irã — e o Brent, em vez de cair, acelerou. O mercado interpretou a trégua como instável e o bloqueio do Estreito de Ormuz como estrutural. Em três dias, o contrato acumulou mais de 10%. A máxima intraday de quinta-feira foi US$ 107,40; o fechamento ficou em US$ 105,07.

📌 O número do dia

0,21%

IPCA-15 · Abril de 2026

Essa é a variação do IPCA-15 de abril — menos da metade dos 0,45% que o mercado esperava. A menor leitura mensal do indicador em três meses, com desinflação concentrada em alimentação no domicílio e serviços subjacentes. No acumulado de 12 meses, o índice recuou levemente.

O número seria ótimo em qualquer outro dia. Neste dia, o Brent estava em US$ 107 e o dólar cruzava R$ 5. Uma janela que se abre enquanto a outra vai fechando.

📊 Mercados — Fechamento Quinta 23/04

Ativo Fechamento Dia Mín / Máx
Ibovespa 191.378 pts ↓ −0,78% 190.930 / 193.347
Dólar à vista ⭐ R$ 5,0036 ↑ +0,60% 4,940 / 5,0176
Brent ⭐ US$ 105,07 ↑ +3,10% 101,25 / 107,40
Ouro US$ 4.709,70 ↓ −0,30% 4.700,00 / 4.771,30
S&P 500 7.108,40 pts ↓ −0,41% 7.046,55 / 7.147,78
Dow Jones 49.310,32 pts ↓ −0,36% 48.861,31 / 49.522,94
Nasdaq 24.438,50 pts ↓ −0,89% 24.209,74 / 24.664,87
Bitcoin US$ 78.299 ↑ +0,16% 77.029 / 78.721

⭐ Dólar à vista: primeiro fechamento acima de R$ 5,00 desde o dia 10 de abril. O câmbio oficial PTAX ficou em R$ 4,9539, mas a direção foi inequívoca — máxima de R$ 5,0176 no intradia.

⭐ Brent: terceiro dia consecutivo de alta, +10% acumulado desde terça — máxima intraday de US$ 107,40. A IEA classificou o bloqueio de Hormuz como "maior ameaça à segurança energética em décadas."

Fonte: Yahoo Finance · BCB PTAX · Elaboração: Daily Brew · 23/04/2026

💬 A frase

"É a maior ameaça à segurança energética que o mundo enfrenta em décadas."

Fatih Birol · Diretor-Executivo da IEA · sobre o bloqueio do Estreito de Ormuz · abril de 2026

Birol foi diretor da OPEP durante a Guerra do Golfo. Acompanhou o embargo de 1973, o choque de 1979, a invasão do Kuwait. Quando ele diz "décadas", não é retórica — é currículo. O mercado ouviu e precificou cada palavra.

📅 O que vem aí

Sáb 26/04

Reuniões de Primavera FMI/Banco Mundial — Washington — Galípolo participa das discussões sobre emergentes, commodities e perspectivas globais. Médio impacto

Ter-Qua 28-29/04

Copom — decisão da Selic — Galípolo decide com Selic em 14,75%. Manutenção ou corte de 0,25pp? Câmbio acima de R$ 5 e petróleo em US$ 107 complicam o cenário. O comunicado vai mover a curva de juros. Alto impacto

Ter-Qua 28-29/04

FOMC — decisão do Fed — Powell decide na mesma semana do Copom. Mercado precifica manutenção do Fed Funds Rate; tom do comunicado define o dólar global. Alto impacto

Qua 30/04

PIB EUA 1T26 (prévia) — crescimento ou contração? O número define o tom da política monetária americana para o semestre e responde se a energia cara já está mordendo a atividade. Alto impacto

📚 Vale ler

IEA chama bloqueio de Hormuz de maior ameaça energética em décadas — e o mercado ouviu

Fatih Birol detalha os 12 milhões de barris diários parados ou desviados e as rotas alternativas em uso. O comunicado que moveu o Brent de US$ 95 para US$ 107 em três dias.

IEA · Energia · 23/04/2026

IPCA-15 de abril: 0,21% — detalhe por componentes mostra por que a surpresa foi real

Alimentação no domicílio e serviços subjacentes respondem pela desinflação. A nota técnica do IBGE ajuda a separar o que é estrutural do que é ruído de curto prazo.

IBGE · Inflação · 24/04/2026

Focus: IPCA 2026 sobe pelo quinto mês seguido e fecha em 4,80%

O boletim semanal que mostra por que o Copom não pode simplesmente comemorar o IPCA-15. O horizonte relevante da política monetária aponta em direção oposta ao dado de hoje.

Banco Central · Focus · 22/04/2026

Câmbio acima de R$ 5 e petróleo em US$ 107: o pior cenário possível para o Copom de terça

Análise sobre o impasse de Galípolo: cortar agrava o câmbio, manter sufoca a atividade. Com IPCA-15 abaixo do esperado, a tentação de cortar cresce — mas o risco também.

Valor Econômico · Copom · 24/04/2026

☕ Boa sexta

Hormuz bloqueado.

Dólar em R$ 5.

Inflação em 0,21%.

Galípolo tem o fim de semana para escolher qual filme está assistindo.

Você tem até segunda.

Boa sorte aos dois. ☕

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