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SÁBADO · 25 DE ABRIL DE 2026
☕ Bom dia
O Brent andou +10% em cinco pregões. Tocou US$ 107,40 na quinta, fechou sexta praticamente parado em US$ 105. Não devolveu. Hormuz segue travado, e o prêmio de guerra resolveu virar moradia.
O Brasil tomou os dois lados. Ibovespa caiu, dólar à vista tocou R$ 5,02 e devolveu — fechou em R$ 4,9995. Mas a PTAX venda foi a R$ 5,0083: a referência oficial cruzou os R$ 5. O BCB anunciou leilão à vista e swap reverso de manhã, e não aceitou nenhuma proposta. Abriu a loja, acendeu a luz e voltou pra casa.
Lá fora, alívio seletivo: Nasdaq +1,63%, S&P firme em recorde, Dow de lado. Ouro voltou a ser ouro. Cada ativo escolheu uma manchete e operou em cima dela.
Quarta vem o Copom e o FOMC na mesma janela. Sábado é dia de respirar com a pergunta no colo — se o prêmio consolidou, o que vem agora? Café com calma. ☕
Commodities · Cinco pregões, +10%
Brent · Hormuz · IEA · Barclays · Morgan Stanley · JPMorgan · Petrobras
O Brent consolidou um patamar acima. O prêmio ficou.
A semana do Brent ICE Jun/26 foi linear por dentro, dramática por fora. Segunda abriu em US$ 95,48. Terça, US$ 98,48. Quarta, US$ 101,91. Quinta, US$ 105,07 — depois de tocar US$ 107,40 na máxima intradia, logo após a IEA classificar o bloqueio de Hormuz como "a maior ameaça à segurança energética em décadas". Sexta fechou em US$ 105,33, praticamente estável (com pico intraday de US$ 107,48). Saldo de segunda a sexta: +10%; no cálculo sexta-a-sexta, perto de +16%. O pico não foi devolvido.
A condição física que sustenta o preço parece não ter normalizado. Reuters Breakingviews estima cerca de 13 milhões de barris/dia de petróleo e derivados afetados por mais de 50 dias; o seguro marítimo no Golfo segue caro; a logística continua distante do equilíbrio. Sem dado visível de fluxo reabrindo, o mercado consolidou o prêmio em vez de desmontar.
As casas seguem sem convergir. Barclays mantém Brent médio de US$ 85 para 2026 como cenário-base, mas sinaliza risco de alta se o fluxo em Hormuz não normalizar. Morgan Stanley trabalha com US$ 110 no 2T26 e US$ 100 no 3T26 como cenário condicionado. JPMorgan foca no outro lado: estima compressão de cerca de 4,3 milhões de barris/dia na demanda global em abril, especialmente na Ásia e Oriente Médio. Três casas, três cenários coerentes entre si e incompatíveis entre si — reflexo de uma distribuição ainda larga de desfechos.
🎓 O que a teoria diz
Histerese de preço: quando um choque desloca o preço para um patamar novo e ele permanece lá mesmo depois que o gatilho original arrefece, o sistema deixa de estar em equilíbrio temporário e começa a operar como regime novo. A diferença entre choque transitório e histerese é prática: o primeiro é absorvido pelo mercado; o segundo vira ponto de partida. O conceito vem da física aplicada à macroeconomia (originalmente para desemprego, mas vale para qualquer ativo cujo preço depende da trajetória, não só dos fundamentos). A semana do Brent sugere a hipótese — o pico cedeu, o patamar não — mas regime novo só se confirma com mais tempo de observação. Por ora, o que se vê é prêmio persistente enquanto o fluxo físico em Hormuz não normaliza.
E daí?
Petrobras: hedge local do petróleo — beta positivo no curto prazo, mas teto político do diesel limita repasse. IPCA de maio/junho: o risco entra pelo diesel e combustíveis, mas depende de Petrobras, tributação e câmbio — não é repasse automático. Copom (quarta): mercado ainda precifica corte de 25 bps, mas o choque do petróleo aumenta o peso do comunicado e reduz o espaço para sinalização dovish. Mesas direcionais: vol implícita deve seguir cara até o PIB dos EUA na quinta decidir se o Fed pode ou não olhar através do choque.
Brasil · O boleto externo
Dólar à vista · PTAX · Leilão BCB · Conta corrente · IDP · Petrobras · Copom
O spot devolveu os R$ 5.
O dólar à vista tocou R$ 5,0235 na máxima de sexta, mas voltou no último fôlego: fechou em R$ 4,9995, queda de 0,10%. Tecnicamente, o spot devolveu o movimento. Só que a PTAX venda — referência oficial usada para contratos e indicadores — voltou a fechar acima dos R$ 5, em R$ 5,0083. O número técnico aliviou; o número que entra na planilha do Banco Central, não.
O BCB entrou em cena de manhã. A Reuters noticiou que o Banco Central anunciou leilões de até US$ 1 bilhão em venda à vista e até 20 mil contratos de swap cambial reverso, com início por volta de 9h20. Nenhuma das pontas aceitou as ofertas — o BC ofertou, mas não executou. Foi sinalização sem efeito prático. O mercado leu como falta de urgência; o câmbio leu igual.
O pano de fundo explica o desconforto. A conta corrente de março fechou em déficit de US$ 6,036 bilhões, pior que a expectativa de US$ 5,489 bilhões. O IDP veio em US$ 6,037 bilhões, abaixo dos US$ 7 bilhões projetados. Não é crise externa — o BCB projeta para 2026 déficit anual de ~US$ 58 bi e IDP de ~US$ 70 bi, ou seja, cobertura ainda existe. Mas é a combinação "conta maior, colchão menor" que torna o real mais sensível a qualquer risk-off — e que ajuda a explicar por que o câmbio não devolveu o movimento mesmo com o petróleo ficando estável.
🎓 O que a teoria diz
Teste de fluxo externo: em um país com déficit em conta corrente, o câmbio depende do fluxo que entra — IDP, carteira, carry. Quando o déficit piora marginalmente e o fluxo entrante cede no mesmo mês, o real precisa de prêmio maior para ser carregado, mesmo com juros domésticos altos. Por isso um alívio externo (petróleo estável, apetite global melhorando) pode não aparecer na moeda: o alívio fica comido pelo ajuste de colchão. Em regime normal, o real segue o Brent; em regime de colchão apertado, se descola.
E daí?
DI curtos: abertura segue enquanto o câmbio não ceder — Copom precisa reafirmar ancoragem na quarta. NTN-B 2029: juro real já subiu; o mercado não comprou alívio de inflação, comprou risco de câmbio. Petrobras: hedge local do petróleo, mas não resolve o problema macro. Multimercados: carry longo em real fica mais delicado com conta externa apertando — a posição que ganha no DI pode perder no câmbio.
Macro · Janela de 24 horas
Copom · FOMC · PIB EUA · Galípolo · Powell · DXY · BCE
Copom, FOMC e PIB dos EUA. Menos de 24 horas separando os três.
A semana tem uma sobreposição rara. Na terça (28/04), começam simultaneamente as reuniões do Copom e do FOMC. Na quarta (29/04), as duas decisões de juros saem na mesma janela — Selic em 14,75% aqui, Fed Funds em 3,50-3,75% lá. Na quinta (30/04), vem a prévia do PIB americano do 1T26. Três leituras — Selic, Fed Funds e crescimento dos EUA — em menos de 24 horas. Não é uma Superquarta comum. É uma Superquarta com petróleo no centro da função de reação dos dois lados.
Fed e Copom olham para o mesmo choque, mas têm economias diferentes. Os EUA têm mercado de energia próprio, economia mais fechada e o dólar como safe haven — o que permite ao Fed tratar o petróleo como risco de renda e esperar. O Brasil tem diesel, câmbio fechando em R$ 5 e conta externa cedendo. Galípolo entrou na semana afirmando, segundo a Reuters, que o BC precisa de tempo para avaliar a magnitude do choque antes de reagir de forma extrema. O mercado ainda precifica corte de 25 bps no Copom; a disputa está no comunicado, não no número.
A Europa compõe o quadro. As contas da reunião de março do BCE reconheceram revisão para cima da inflação de 2026 por conta da energia; autoridades já discutem cortes de impostos e coordenação de estoques de gás. Nos EUA o petróleo vira dilema de Fed; na Europa vira dilema de Fed, indústria e orçamento ao mesmo tempo. O choque de energia reforçou a demanda por liquidez em dólar ao longo da semana, embora o DXY tenha cedido na sexta. O real ficou no meio dessa briga — não chegou a se beneficiar do alívio marginal do petróleo.
🎓 O que a teoria diz
Funções de reação em choque comum: diante de um mesmo choque externo, bancos centrais reagem pelo canal doméstico mais exposto. O Fed vê petróleo via renda disponível e expectativa; o Copom vê via diesel, câmbio e conta externa; o BCE vê via fiscal e indústria. Quando três BCs decidem na mesma semana sob o mesmo choque, o mercado vai tentar compatibilizar três funções de reação diferentes — cada uma calibrada pela mecânica local. É por isso que Superquartas geram mais dispersão entre curvas do que alinhamento.
O que vem
Ter 28/04: início das reuniões de Copom e FOMC (sem comunicado). Qua 29/04: decisão Copom + decisão FOMC — FOMC deve manter; no Copom, mercado ainda precifica corte de 25 bps, com peso maior no comunicado. Qui 30/04: PIB EUA 1T26 (prévia) — define se o Fed pode ignorar a energia ou não.
📌 O número do dia
+10%
Saldo semanal do Brent ICE Jun/26 · US$ 95,48 → US$ 105,19
Em cinco pregões, o Brent subiu quase dez dólares no contrato — de segunda a sexta, sem devolver. Tocou US$ 107,40 na máxima intradia da quinta. O prêmio de risco que entrou na semana não saiu; consolidou num degrau acima. É a diferença entre choque episódico (que o mercado desmonta quando a manchete cansa) e choque estrutural (que o mercado precifica enquanto a rota segue sob ameaça).
📈 Mercados — Fechamento sexta 24/04
⭐ Dólar à vista: tocou R$ 5,0235 na máxima, fechou em R$ 4,9995 — voltou pra baixo só no último minuto. A PTAX venda, porém, fechou em R$ 5,0083, cruzando os R$ 5 pela primeira vez no mês. Brent: praticamente parado no dia, mas saldo semanal de +10,2% (seg US$ 95,48 → sex US$ 105,33), com pico intraday de US$ 107,48 na semana. Nasdaq: +1,63% com tech puxando o índice; S&P firme em novo recorde, Dow de lado. Fontes: Ibovespa, dólar comercial e PTAX via fechamento de mercado da IstoÉ/Estadão; dólar à vista via Reuters/Investing; Brent, Ouro, S&P 500, Dow, Nasdaq e Bitcoin via Investing. Elaboração: Daily Brew · Fechamento de 24/04/2026. |
💬 A frase do dia
"O BC precisa de tempo para avaliar a magnitude do choque do petróleo antes de reagir de forma extrema."
— Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central · via Reuters · 30/03/2026
Leitura de mercado: a fala reforça uma postura de espera — nem reação hawkish automática ao petróleo, nem conforto para cortar. A fala foi dita há quase um mês; a semana fez questão de confirmá-la. Na quarta, Galípolo entra na sala exatamente no cenário que descreveu.
📅 O que vem aí
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Qua 29/04 |
Decisão Copom + decisão FOMC — Selic em 14,75%, Fed Funds em 3,50-3,75%. Provável manutenção dos dois lados; o texto do comunicado pesa mais que o número. Mesma quarta-feira, janela de poucas horas entre as duas decisões. Alto impacto |
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Qui 30/04 |
PIB EUA 1T26 (prévia, BEA) — define se o Fed pode ignorar a energia ou não. Mercado divide entre crescimento fraco e contração técnica. Alto impacto |
📚 Vale ler
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Oil market's demand crunch is about to go global — Reuters Breakingviews Estima cerca de 13 milhões de barris/dia afetados em Hormuz há mais de 50 dias e argumenta que o próximo capítulo da crise pode ser de destruição global de demanda, não de escalada geopolítica. Reuters Breakingviews · Commodities · 24/04/2026 |
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Galípolo diz que BC precisa de tempo para avaliar choque do petróleo — Reuters Entrevista em que Galípolo explica que a governança do BC evita respostas extremas e que o choque de oferta aumenta inflação e reduz crescimento — útil para ler o comunicado da quarta com contexto. Reuters · Brasil · 30/03/2026 |
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Barclays: atraso em Hormuz traz risco de alta para projeção de US$ 85 no Brent — Reuters A casa mantém Brent médio em US$ 85 para 2026, mas sinaliza que a demora na normalização do fluxo pode empurrar o preço acima disso — visão mais completa que um número pontual de cenário. Reuters · Commodities · 09/04/2026 |
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FMI e Banco Mundial discutem limites para mitigar choques — Reuters O pano de fundo institucional da semana: até onde as multilaterais conseguem amortecer um choque geopolítico desse tamanho? Leitura necessária para quem acompanha a atuação do Brasil em Washington. Reuters · Macro global · 19/04/2026 |
☕ Boa sexta
Hormuz bloqueado.
Dólar em R$ 5.
Inflação em 0,21%.
Galípolo tem o fim de semana para escolher qual filme está assistindo.
Você tem até segunda.
Boa sorte aos dois. ☕
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