Bom dia. É sábado. Tecnicamente você não devia estar lendo sobre economia agora.
E ainda assim aqui está você. O que diz muito sobre você, e nada de bom sobre a semana que acabou de passar. Petróleo perto de US$ 84, Ibovespa fechando em queda pelo quinto dia seguido, dólar batendo R$ 5,26 na sexta. O mercado foi embora pra casa mas deixou a bagunça pra trás.
A edição de hoje é o balanço da semana. Tudo que importou, por que importou, e o que olhar quando o pregão abrir na segunda. Café na mão. ☕
O Brent — que na sexta passada estava em US$ 72, comportado — passou a semana subindo todo dia como quem está atrasado para uma reunião importante. Fechou sexta perto de US$ 83, com máxima intradiária de US$ 86. O Catar suspendeu parte da produção de gás. Petroleiros somem do radar. Seguradoras recusam coberturas.
Na sexta, o dólar recuou levemente para R$ 5,26 depois de ter chegado perto de R$ 5,35 no pico da semana. Queda de 1,91% no câmbio foi o mercado respirando, não comemorando. A guerra continua.
Isolado, esse dado pediria corte de juros nos EUA. O problema é que esse dado não está isolado: chegou numa semana em que o petróleo subiu 15% e a inflação americana ameaça voltar. O Fed está numa armadilha clássica — e todo mundo sabe que Jerome Powell odeia armadilhas.
Os mercados americanos fecharam a semana com o S&P em queda de 1,40% e o Dow Jones recuando 1,05%. O VIX — o índice do medo de Wall Street — disparou 24% só na sexta. Quando o VIX sobe assim, é porque os investidores estão comprando seguro. Em quantidade.
São 103 milhões de pessoas ocupadas. Um recorde. A subutilização — que inclui informais e desalentados — caiu para 15,3 milhões, também mínima histórica. O mercado de trabalho brasileiro está, em termos de quantidade, no melhor momento da sua história recente.
Mas o número chegou na semana errada. O dólar estava disparando, o petróleo subindo, o Ibovespa derretendo. O dado passou em branco para boa parte do mercado, que estava ocupado com a calculadora do risco geopolítico.
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66
Mín 52s
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70
Jan/26
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69
Fev/26
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72
28/02
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86
Máx sem.
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83
Fechto.
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5,1% de desemprego é o tipo de número que qualquer ministro da economia do mundo gostaria de apresentar numa conferência internacional. É mínimo histórico. É excepcional.
Então por que o Banco Central não está cortando juros na mesma semana que esse dado saiu?
Porque emprego forte → renda → consumo → pressão de preços. O BC olha o dado de emprego e pensa: "se tem 103 milhões de pessoas trabalhando, têm 103 milhões de pessoas comprando." E 103 milhões de pessoas comprando com petróleo a US$ 83 é uma receita para inflação teimosa.
Some isso ao Brent disparado, ao dólar pressionado e ao Fed americano travado. O BC brasileiro estava planejando o primeiro corte de juros em quase dois anos para março. Agora está recalculando rota. O melhor dado do mercado de trabalho da história recente chegou na pior semana possível para quem esperava alívio nos juros. A economia tem um timing péssimo.
- →Ouro a US$ 5.158 por onça — máxima histórica. Em crises, o ouro é o ativo para o qual todo mundo corre. Quem comprou ouro em 2022 quando todo mundo ria está fazendo aquela cara discreta de quem não quer parecer que está se achando.
- →Bradesco -1,41%, Itaú -1,33% na sexta — bancos sofrem quando o mercado espera juros altos por mais tempo. Menos corte de Selic = menor margem financeira lá na frente. O mercado já precificou isso antes que o BC dissesse qualquer coisa.
- →PIB Brasil 2025: +2,3%, menor desde a pandemia — a economia cresceu, mas desacelerou. O 4º trimestre registrou só +0,1%. Crescimento lento + petróleo caro + juros altos = combinação que vai aparecer nas projeções de 2026 com frequência crescente.
- →Catar suspendeu produção de GNL — representa 20% da oferta global de gás liquefeito. O mercado de energia europeu, que ainda estava tentando se recuperar da crise pós-Ucrânia, ganhou mais uma dor de cabeça.
- →Dólar acumula queda de -4,51% em 2026 — apesar da alta da semana, o real ainda está valorizado no ano. O fluxo estrangeiro de R$ 41,7 bilhões positivos no ano até sexta explica parte disso. O Brasil continua atraente para capital externo — por enquanto.
- 1 Brent acima ou abaixo de US$ 85? — essa é a linha que separa "situação controlada" de "BC muda plano". Cada dólar acima de US$ 85 aumenta a probabilidade de Selic parada por mais tempo.
- 2 Sinais do conflito no Oriente Médio — qualquer notícia de cessar-fogo ou negociação faz o petróleo cair e os mercados respirar. Qualquer escalada faz o contrário. O noticiário geopolítico virou indicador econômico.
- 3 Discursos de membros do Fed — depois do payroll fraco, o mercado vai ouvir cada palavra de cada diretor do Fed com uma atenção que não é saudável para ninguém. Qualquer sinalização de quando cortes podem voltar vai mover mercados.
🇺🇸 PPI — precursor do CPI. Segunda leitura do impacto do choque de petróleo.
🇺🇸 Pedidos de desemprego — termômetro semanal do mercado de trabalho americano.
O mercado vai reabrir na segunda com as mesmas questões abertas: Ormuz continua fechado? O Fed vai falar algo? O BC vai mudar o plano de corte?
Por ora: desconecta. A economia vai continuar existindo na segunda com ou sem você lendo sobre ela agora.
Mas você vai estar mais preparado do que 95% da sala. ☕