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Daily Brew

Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.

SEXTA-FEIRA · 07 DE AGOSTO DE 2026

☕ Bom dia

Bets. As famílias deixaram R$ 62,5 bilhões nas casas de aposta on-line em 2025, o equivalente a 0,68% de toda a renda do país.
Educação. A escola brasileira teve a melhor nota da história, mas o ensino médio segue longe da meta.
Juros. Um dia depois do corte da taxa básica para 14% ao ano, o mercado já aposta em mais uma queda até dezembro. ☕

Apostas · A casa leva

Bets · Pix · Banco Central · Comsefaz · Bolsa Família · Renda das famílias

As bets tiraram R$ 62,5 bilhões das famílias em 2025

O Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros, feito pelo Comsefaz (o comitê que reúne os secretários de Fazenda dos estados) junto com o Centro Celso Furtado, botou número numa conta que faltava: em 2025, as famílias brasileiras deixaram R$ 62,5 bilhões nas casas de aposta on-line, as bets. Esse é o valor líquido, o que foi apostado menos o que voltou em prêmio. A diferença entre um e outro é o que a casa chama de modelo de negócio. Dá 0,68% de toda a renda das famílias no país.

O mais revelador é que esse número simplesmente não existia antes. Até 2024, quase toda bet que operava aqui era empresa estrangeira, com licença em lugares como Curaçao e Malta. O dinheiro do apostador brasileiro saía do país ou passava por intermediários de pagamento, e nunca aparecia como pagamento a uma empresa brasileira de apostas. A regulamentação mudou isso: desde janeiro de 2025, para funcionar aqui a casa precisa ter sede no país, CNPJ brasileiro e um sócio nacional.

Com CNPJ brasileiro, as bets passaram a ser classificadas no setor de artes, cultura, esporte e recreação. E foi assim que um mercado inteiro apareceu de uma vez na estatística do Banco Central: as transferências via Pix das famílias para esse setor pularam de R$ 9 bilhões em dezembro de 2024 para R$ 29 bilhões em janeiro de 2025, e chegaram a R$ 41 bilhões em agosto.

O mês em que as apostas viraram estatística

Transferências via Pix de pessoas físicas para empresas de artes, cultura, esporte e recreação, em R$ bilhões por mês

 
40
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2023 2024 2025 2026
 
a partir da regulamentação (jan/2025)
 
depois da proibição para o Bolsa Família (out/2025)

O salto não quer dizer que o brasileiro passou a apostar quarenta vezes mais. Com a regulamentação, as bets viraram empresas brasileiras e o dinheiro passou a aparecer nesta conta. Desde o pico de agosto de 2025, o volume vem caindo.

Fonte: Banco Central, Estatísticas de Pagamentos por Atividade Econômica · Elaboração: Daily Brew

Vale insistir no que o gráfico não diz. Ele não mostra o brasileiro apostando quarenta vezes mais do que apostava. Mostra o dinheiro saindo da sombra: boa parte dele já circulava, só que fora do alcance da estatística e do imposto.

O que ele mostra bem é o presente. A regra proíbe a bet legalizada de receber no cartão de crédito, e sobraram Pix, transferência bancária e cartão de débito. Como o Pix é a porta principal, o que passa por ele dá uma boa medida de quanto as famílias estão gastando com aposta, mês a mês, sem depender do que as empresas declaram.

Foi sobre essa série que os pesquisadores trabalharam. Eles projetaram como ela teria se comportado sem a regulamentação e chamaram a diferença de impacto das bets: só em 2025, R$ 350,97 bilhões a mais em transferências. Atenção para não confundir os dois números: esse é todo o dinheiro que entrou nas casas, e a maior parte volta ao apostador em forma de prêmio. O que fica com as empresas no fim das contas são os tais R$ 62,5 bilhões. Os próprios autores avisam que a estimativa é de ordem de grandeza, não uma medição exata.

O achado mais duro, porém, veio de um freio. Em outubro de 2025, o governo proibiu quem recebe Bolsa Família de apostar. O crescimento das transações desacelerou e a série voltou a se aproximar do cenário projetado. Uma medida dirigida a um grupo específico mexeu no número do país inteiro, o que sugere, nas palavras do próprio boletim, que as famílias de menor renda tinham participação relevante nesse mercado. De lá para cá o volume vem cedendo, de R$ 38,5 bilhões em outubro para R$ 29,5 bilhões em maio deste ano.

E ainda falta um pedaço da conta. O Ministério da Fazenda registrou R$ 36,9 bilhões de receita das bets autorizadas em 2025, contra os R$ 62,5 bilhões do boletim. A diferença, de R$ 25,6 bilhões, é 41% do total. Bate com o piso da faixa que a consultoria LCA, a pedido do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável, atribui ao mercado clandestino, de 41% a 51%. As duas contas não são medidas do mesmo jeito, então isso vale como indício, não como prova. Mas é dinheiro que sai do mesmo orçamento familiar, não paga imposto e não obedece a proibição nenhuma.

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Educação · Boletim que piora

Ideb · Inep · Ensino médio · OCDE · Gasto por aluno · Produtividade

A nota da educação básica bateu recorde e mesmo assim ficou abaixo da meta

O Inep, o instituto que mede a qualidade da educação brasileira, divulgou na quarta (5) o Ideb de 2025, uma espécie de nota de 0 a 10 para a educação básica. A escola é avaliada em três fases, e as três tiveram o melhor resultado desde que a conta começou a ser feita, em 2005. Nos anos iniciais do ensino fundamental, do 1º ao 5º ano, a nota subiu de 6,0 para 6,3 e passou a meta. Foi a única que passou.

Nos anos finais, do 6º ao 9º, a nota foi de 5,0 para 5,3, contra uma meta de 5,5. No ensino médio, subiu de 4,3 para 4,5, quando a meta era 5,2. E tem um detalhe que estraga a festa: essas metas foram desenhadas para 2021, com a ideia de colocar o Brasil no nível dos países desenvolvidos. O prazo venceu há quatro anos e o país ainda não chegou lá em duas das três.

O padrão se repete a cada divulgação: o Brasil vai bem enquanto a criança está aprendendo a ler e vai ficando para trás conforme ela cresce. É um boletim que começa ótimo e piora a cada página.

A primeira explicação que vem à cabeça é falta de dinheiro, e ela não está errada. O Brasil gasta com educação 4,9% de tudo o que produz em um ano (o PIB, o tamanho total da economia), quase o mesmo que a média dos países da OCDE, o clube das economias ricas, que fica em 4,7%. Só que a economia brasileira é bem menor e tem muito mais criança para dividir: cada aluno daqui fica com cerca de US$ 3.872 por ano, contra US$ 12.438 na média deles. Menos de um terço.

O incômodo é que dinheiro também não explica tudo. O México gasta por aluno cerca de 20% menos que o Brasil e mesmo assim tira nota um pouco melhor no Pisa, o teste internacional que compara estudantes de 15 anos. No conjunto dos países, gastar mais por aluno costuma vir junto com nota maior, e o Brasil fica bem abaixo dessa relação: se passasse a gastar o mesmo que a média dos países ricos, melhoraria, mas ainda ficaria para trás.

São dois problemas empilhados, então: entra pouco por aluno e o pouco que entra rende menos do que deveria. Aumentar o cheque ajuda, mas ninguém compra nota de escola no atacado.

E é aqui que boletim escolar vira assunto de economia. Educação é o investimento mais lento que um país faz: a criança que está hoje no 9º ano só chega ao mercado de trabalho na próxima década, e é lá que nota de escola vira salário, empresa mais produtiva e imposto pago. Um ensino médio parado em 4,5 não atrapalha o crescimento do ano que vem. Atrapalha o de 2040. É uma conta que o Brasil vem empurrando com a barriga há vinte anos.

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Juros · Porta entreaberta

Copom · Selic · Banco Central · Inflação · JP Morgan · Crédito

Corte da Selic, o dia seguinte

Passado um dia do corte da Selic (a taxa básica de juros) para 14% ao ano, o que interessa não é mais a decisão, é como o comunicado do Copom foi lido. E foi lido como porta entreaberta: o comitê não prometeu nada sobre o próximo passo, mas também não descartou nada, e o mercado já trabalha com a taxa em 13,75% no fim do ano, o que embute mais uma redução até dezembro. O JP Morgan acha que ela sai já em setembro, apostando que a atividade vai perder mais fôlego. Outras casas defendem uma pausa, e há quem sustente que o corte de quarta nem deveria ter saído, porque com as expectativas de inflação fora do lugar ele atrapalha mais do que ajuda.

Do lado de quem produz, a reação foi morna. Indústria e comércio chamaram a queda de positiva, porém insuficiente: com o crédito ainda caro, 0,25 ponto não destrava investimento nem compra parcelada. É o desconforto de sempre nesta fase do ciclo. Para o Banco Central, cortar rápido demais é arriscar a inflação; para quem toma empréstimo, cortar devagar assim é quase não cortar.

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📈 Mercados — Fechamento Quinta 06/08

Ativo Fechamento Dia
Ibovespa 175.546 pts ↓ −1,23%
Dólar (spot) R$ 5,11 ↓ −0,41%
Petróleo Brent US$ 82,49 ↑ +3,83%
Ouro US$ 4.298 ↑ +1,24%
S&P 500 7.710 pts ↓ −0,18%
Dow Jones 53.885 pts ↓ −0,85%
Nasdaq 26.348 pts ↓ −0,06%
Bitcoin US$ 64.434 ↓ −0,25%

Fontes: B3, InfoMoney, Reuters e Yahoo Finance · fechamento de 06/08 (Brent, ouro e bitcoin em cotação de fim de dia; valores podem variar por contrato e horário) · Elaboração: Daily Brew.

📅 O que vem aí

Sexta · 07/08

Payroll. os EUA divulgam a criação de empregos de julho, dado que pesa na decisão de juros por lá.

Terça · 11/08

Ata do Copom. o Banco Central detalha o raciocínio do corte desta semana e dá pistas do próximo passo.

Terça · 11/08

IPCA. o IBGE divulga a inflação oficial de julho, a primeira leitura cheia depois do corte.

📚 Vale ler

Estudo aponta que famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões para bets em 2025

A reportagem com o estudo por trás do bloco de abertura: o valor líquido que ficou com as casas, o volume movimentado por Pix e o efeito da proibição para quem recebe Bolsa Família.

O Tempo

Ideb avança em todas as etapas da educação básica

A divulgação oficial por trás do bloco de educação, com as notas de 2025, os números separados da rede pública e o desempenho em português e matemática.

Inep

Copom corta a Selic e deixa em aberto os próximos passos, mas o mercado já espera juros menores

O detalhamento por trás do bloco de juros: por que o comunicado não prometeu nada e o que as casas já projetam para o fim do ano.

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