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TERÇA-FEIRA · 11 DE AGOSTO DE 2026
Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.
☕ Bom dia
A Fazenda quer repensar a isenção de imposto de renda que hoje faz LCI e LCA renderem livres. E chamou de jogo de cena a promessa de cortar ministério.
O mercado cortou de novo o quanto espera que a economia cresça depois da eleição.
E o Pix pode atravessar a fronteira. O Banco Central ainda estuda deixar o comerciante usar o Pix que entra como garantia de empréstimo. ☕

Fiscal · O que a Fazenda admite
O número 2 da Fazenda diz que cortar ministério não gera resultado fiscal e quer repensar a isenção dos títulos incentivados
Rogério Ceron, secretário-executivo do Ministério da Fazenda e portanto o número 2 do ministro Dario Durigan, deu entrevista ontem e disse que cortar ministério não produz resultado fiscal algum. Chamou a promessa de mero jogo de cena. Ceron comandou o Tesouro Nacional de 2023 até março deste ano, então fala de um Orçamento que administrou de perto.
Manter um ministério de pé custa prédio, cargo comissionado, diária e passagem. É um pedaço pequeno da despesa federal. O grosso está em aposentadoria, pensão, benefício assistencial, saúde, educação e salário de servidor. Nada disso desaparece quando dois ministérios viram um. Fundir pasta muda o organograma. A despesa continua no mesmo lugar.
Ceron disse também que a distorção dos papéis incentivados está clara e precisa ser repensada. São os títulos que pagam rendimento livre de imposto de renda pra pessoa física, e no mercado o apelido cobre as letras de crédito de imóvel e do agro, as tais LCI e LCA, mais os certificados de recebíveis CRI e CRA e a debênture incentivada. Quem compra fica isento e o governo abre mão da arrecadação pra sustentar o incentivo. Ele não detalhou quais entrariam numa revisão.
O Brasil pode recuperar o grau de investimento em 2028 ou 2029, disse ele na mesma conversa. É o selo de bom pagador que as agências de risco dão a um país, e o Brasil perdeu o dele em 2015. O Orçamento de 2027 não terá grandes novidades, e até as eleições não há previsão de grandes movimentos. A grande mazela do país, no diagnóstico dele, é ter um nível de juros diferente do resto do mundo.
Os juros altos não caíram do céu. O governo gasta mais do que arrecada e, a cada ano, precisa tomar emprestado mais do que já devia. Quando quem compra o título desconfia que essa conta não fecha, exige um prêmio maior pra emprestar. Esse prêmio não define os juros básicos, quem decide isso é o Copom, mas encarece o dinheiro no país inteiro e torna a queda dos juros mais difícil. O custo é duplo pra você: paga o gasto do governo e paga os juros que esse gasto sustenta. O empréstimo que o banco te dá costuma partir do que ele ganharia emprestando ao governo, mais um pedaço pelo risco de você não pagar. Ceron fez questão de dizer que o Tesouro não tem nenhuma dificuldade de financiar a dívida. Não tem mesmo. Financia pagando caro, e o próprio governo avisou que até as eleições de outubro não planeja movimento grande pra mudar isso.
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Economia · O número que o mercado já escreveu
O mercado espera que a economia cresça 1,52% em 2027, contra 1,80% em janeiro
O Focus saiu ontem com a projeção de crescimento da economia brasileira em 2027 caindo de 1,57% pra 1,52%. É a pesquisa que o Banco Central faz toda semana com economistas de banco e gestora, e virou o termômetro padrão do que o mercado espera.
Para 2026 quase nada mudou. Crescimento de 1,98% e inflação de 5,02%. Os juros básicos seguem projetados em 13,75% no fim do ano, depois do corte pra 14% decidido em 5 de agosto.
A semana isolada muda pouco. O ano inteiro conta outra coisa, como mostra o gráfico, montado com a série de expectativas do próprio Banco Central.

Em janeiro essa mesma projeção era de 1,80%. Desceu degrau por degrau ao longo de 2026 e parou onde está, sem nenhuma recuperação que valha o nome no caminho. O Focus não pergunta o motivo da revisão. O que ele mostra é o mercado ficando menos otimista com 2027 mês após mês, no mesmo ano em que a Fazenda diz que vai sinalizar melhor o fiscal.
Os 5,02% de inflação projetados pra 2026 estão acima de 4,5%, que é o limite superior da faixa de tolerância da meta. Desde 2025 a meta é aferida mês a mês, olhando os 12 meses anteriores, e só existe descumprimento formal depois de seis meses seguidos fora da faixa.
A ata da última reunião do Copom, o comitê que define os juros básicos, sai às 8h desta terça. Uma hora depois vem a inflação de julho. Os dois vão dizer se essa conta está ficando melhor ou pior.
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Serviço · O Pix atravessa a fronteira
O Banco Central trabalha num Pix internacional e quer usar o Pix como garantia de empréstimo
O Banco Central publicou ontem a segunda edição do relatório de gestão do Pix, um balanço de 2023 a 2025 com a agenda do que vem pela frente. Três coisas estão na mesa: transferência internacional, uso do que entra por Pix como garantia de empréstimo, e o uso indevido do campo de mensagem que acompanha cada transferência.
Foram quase 80 bilhões de transações em 2025, alta de 25,7%, e mais de 35 trilhões de reais movimentados, alta de 33,8%. São 926 instituições conectadas, e 43% das transferências já vão de pessoa pra empresa. O Pix deixou de ser divisão de conta de bar e virou caixa de comércio.
O Pix internacional sairia por dois caminhos, acordo bilateral com outro país ou entrada num hub que liga vários sistemas de uma vez. A ideia é mandar e receber dinheiro de fora em segundos, já em moeda local. Os Estados Unidos colocaram o Pix na lista de práticas comerciais desleais que serviu de justificativa pra tarifa sobre produtos brasileiros, e o Banco Central estuda conectar o Pix a sistemas de pagamento lá fora. A ideia é anterior à briga, mas ganhou linguagem mais concreta agora.
A garantia é a parte que mexe com dinheiro de verdade. Hoje o dono de uma padaria que fatura tudo por Pix não consegue transformar esse fluxo em argumento no banco. Pela proposta em estudo, a empresa poderia oferecer o recebimento futuro por Pix como garantia formal de um empréstimo. É o mesmo raciocínio da antecipação de recebível de cartão, num mercado bem maior.
O campo de mensagem virou item de relatório porque as pessoas descobriram o que dá pra escrever ali. Ofensa, ameaça e cobrança constrangedora entram num extrato que o destinatário não apaga. O Banco Central diz que discute o assunto. O relatório também não traz a padronização das regras do Pix Parcelado, que era o outro ponto que o mercado esperava ver.
🎓 O que a teoria diz: por que uma garantia derruba os juros do empréstimo?
Quem empresta não sabe quem vai pagar, e cobra de todo mundo um prêmio pelo calote de alguns. Economista chama isso de assimetria de informação. Stiglitz e Weiss mostraram em 1981 que, quando o banco não consegue separar bom de mau pagador, subir os juros não resolve: juros mais altos espantam primeiro o cliente prudente e deixam na fila justamente quem tem menos a perder. Por isso o banco prefere racionar e emprestar menos do que a demanda. Uma saída apareceu com Helmut Bester em 1985: se o banco oferece juros menores pra quem topa dar garantia, o próprio cliente se revela. Quem confia no faturamento aceita a troca, quem não confia prefere pagar mais caro. E o credor ainda fica com o que executar se o calote vier.
E daí? O pequeno comércio brasileiro paga um dos juros mais altos do mercado em boa parte porque não tem o que dar de garantia. Não tem imóvel no nome da empresa nem balanço auditado. Tem faturamento, que já conta na análise de crédito, mas ainda não vale como garantia formal do empréstimo. Se o Banco Central conseguir transformar o Pix que entra todo dia em garantia aceita, quem sente primeiro é a padaria, o salão e a loja de bairro. Não há data marcada: por enquanto é agenda de estudo, não regra publicada.
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📅 O que vem aí
Hoje · 11/08
Ata do Copom, às 8h, e inflação de julho, às 9h — enquanto você toma o café, o comitê explica por que cortou os juros básicos pra 14%. Uma hora depois o IBGE mostra quanto os preços subiram em julho, o dado que pesa na próxima decisão, em setembro.
Qua · 12/08
Inflação americana de julho, às 9h30 — um dos números que mais pesam na decisão do banco central dos Estados Unidos em setembro. Quando ele sai fora do esperado, o dólar reage no mundo inteiro, aqui inclusive.
📈 Mercados — Fechamento de segunda (10/08)
| Ativo | Fechamento | No dia |
| Ibovespa | 172.180 pts | ▼ 0,2% |
| Dólar (Ptax) | R$ 5,0963 | ▲ 0,1% |
| Petróleo (Brent) | US$ 87,70 | ▲ 5,0% |
| S&P 500 | 7.753 pts | ▼ 0,1% |
| Dow Jones | 53.976 pts | ▼ 0,1% |
| Nasdaq | 26.605 pts | ▼ 0,3% |
| Bitcoin | US$ 63.894 | ▼ 1,5% |
Fonte: B3, Banco Central (Ptax de 10/08 contra a de 07/08), ICE e Yahoo Finance. Variação: fechamento de segunda, 10/08, contra o de sexta, 07/08.
📚 Vale ler
O Pix internacional e a briga com os Estados Unidos Por que o Banco Central quer conectar o Pix lá fora justamente agora, e quais os dois caminhos possíveis. Correio Braziliense · Economia · 10/08 |
O relatório de gestão do Pix, na fonte As 27 páginas do balanço de 2023 a 2025 e a agenda do que o Banco Central pretende fazer com o Pix. Banco Central · Relatório em PDF · 10/08 |
O Focus desta segunda, número por número Crescimento, inflação, juros e dólar, com as projeções de 2026 a 2029. InfoMoney · Economia · 10/08 |
O corte dos juros básicos pra 14%, que a ata explica hoje O que o comitê decidiu em 5 de agosto e por que deixou a próxima reunião em aberto. CNN Brasil · Macroeconomia · 05/08 |
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