Daily Brew

DOMINGO · 11 DE OUTUBRO DE 2026 · EDIÇÃO ESPECIAL

Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.

Coluna do Papo Econômico

O Papo Econômico cobre mercado, política fiscal e macro todos os dias. Análises com dados primários, sem filtro partidário: a régua é o número, não o governo.

Edições especiais como esta saem quando o tema pede mais do que um tweet.

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☕ Bom domingo

No domingo, 4 de outubro, Flávio Bolsonaro terminou o 1º turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Foram 2,2 milhões de votos de diferença, a menor distância entre os dois primeiros colocados num 1º turno desde a redemocratização. Na véspera, cinco de seis institutos davam Lula na frente. Na segunda-feira, o Ibovespa subiu 7,7% e passou dos 200 mil pontos pela primeira vez, e o dólar caiu 4,1%, para R$ 5,00.

A pergunta desta edição é o que acontece com as pesquisas depois de uma surpresa assim. A régua das três últimas eleições, com vencedores de partidos diferentes, mostra um padrão. Em 2014, a primeira pesquisa Datafolha de 2º turno dava Aécio com 51%; ele perdeu com 48,4%. Em 2018, dava Bolsonaro com 58%; ele venceu com 55,1%. Em 2022, dava Lula com 53%; ele venceu com 50,9%. Nas três, o líder da primeira rodada chegou à urna 2 a 3 pontos menor. Na quinta-feira, o Datafolha deu Flávio com 52% dos votos válidos.

São três perguntas, e a resposta curta de cada uma. Quanto a surpresa mexeu nas pesquisas? Muito, e para o mesmo lado: todos os institutos subestimaram Flávio, e a AtlasIntel virou o sinal em cinco dias. Pesquisa muda voto? E apoio muda voto? No 1º turno, a pesquisa muda via voto útil. No 2º turno, esse canal acaba, e o que sobra é a manada, o comparecimento e o apoio dos derrotados, que no Brasil transfere menos do que promete. E quem faltou? São 33,5 milhões de ausentes contra 2,2 milhões de diferença. É a aposta da campanha de Lula, e a conta mostra o tamanho do desafio.

O número que guia o texto: o mercado de apostas dá 86% de chance a Flávio. A régua das últimas três primeiras pesquisas dá algo perto de cara ou coroa. As duas coisas não podem estar certas ao mesmo tempo, e entender por quê é entender o 2º turno.

Pesquisas · O tamanho do erro

Pesquisas · 1º turno · Viés · AtlasIntel · Datafolha · Ipespe · Polymarket

O erro teve direção: todos os institutos subestimaram Flávio

Há dois jeitos de uma pesquisa errar. Ela pode errar o nível, quando acerta quem lidera mas erra por quanto. Ou pode errar a direção, quando todos os institutos erram para o mesmo lado. O primeiro é ruído e se cancela na média. O segundo é viés, e não se cancela.

Em 2026, o erro foi de direção. No voto de Lula, os seis institutos da véspera erraram em média 1,1 ponto: Datafolha e PoderData cravaram 45%, contra 45,16% na urna. No voto de Flávio, o erro médio foi de 3,3 pontos, e todos para baixo. A pesquisa não superestimou Lula. Ela não viu de onde vinham os votos finais de Flávio.

Fonte: TSE (resultado do 1º turno, 4/10/2026) e pesquisas divulgadas em 3/10/2026: Datafolha (BR-01708/2026), CNT/MDA (BR-04756/2026), PoderData (BR-03519/2026), AtlasIntel (BR-00999/2026), Quaest (BR-02197/2026) e Gerp (BR-00509/2026). Erro médio = média dos erros absolutos · Elaboração: Daily Brew

As explicações ainda são hipóteses, porque nenhum instituto publicou a auditoria do próprio erro. Uma é a migração de última hora: eleitores de Caiado, Cury e Renan Santos podem ter feito voto útil depois que o campo das pesquisas fechou. Outra foi levantada pelo CEO da AtlasIntel, Andrei Roman: a dificuldade de representar na amostra quem mudou de lado desde 2022. Na defesa dos institutos, pesquisa é retrato, não previsão, e Quaest e Gerp ficaram dentro ou perto da margem.

Depois da surpresa, a primeira rodada virou

A primeira rodada de 2º turno saiu nesta semana, e as três pesquisas apontam para o mesmo lado:

A primeira rodada do 2º turno

InstitutoCampoVotos válidosVotos totaisEntrevistas · margem
AtlasIntel/Bloomberg3 a 8/10Flávio 52,8% × Lula 47,2%51,1% × 45,7%5.026 · 1 ponto
Datafolha6 a 8/10Flávio 52% × Lula 48%49% × 45%2.520 · 2 pontos
Ipespe/Abrapel6 a 8/10Flávio 52,7% × Lula 47,3%49% × 44%1.500 · 2,6 pontos

Fonte: AtlasIntel/Bloomberg (9/10, BR-03663/2026), Datafolha (8/10, BR-02949/2026) e Ipespe/Abrapel (10/10, BR-00933/2026), via BM&C, Metrópoles e Exame. Votos válidos excluem brancos, nulos e indecisos, como o TSE conta.

A AtlasIntel é o caso mais claro de virada. Na rodada divulgada na véspera do 1º turno, ela simulava o 2º turno com Lula em 50,1% e Flávio em 49,9%. Cinco dias depois, Flávio aparece com 52,8%. A margem andou 5,8 pontos a favor dele. No Datafolha, a rejeição de Lula (46%) passou a de Flávio (43%), e um em cada quatro eleitores de Flávio diz votar nele sobretudo para derrotar Lula. Só 6% dizem que ainda podem mudar o voto. No Ipespe, divulgado neste sábado, a rejeição de Lula (49%) também supera a de Flávio (46%).

O mercado de apostas reagiu antes e mais forte. O Polymarket mede outra coisa: a probabilidade de vitória que os apostadores precificam, não a intenção de voto. Até a véspera, o mercado dava cerca de 73% de chance de Lula terminar o 1º turno em primeiro; na manhã da eleição, ainda uns 60%. Errou também. Já no mercado de quem vence a eleição, Flávio subiu de 63% para 85% em um dia.

Fonte: API pública do Polymarket (gamma e CLOB), mercado "Brazil Presidential Election", horário de Brasília. Mercados de previsão estão proibidos no Brasil desde 4/5/2026 (Resolução CMN 5.298) · Elaboração: Daily Brew

A régua: a primeira pesquisa costuma exagerar o líder

A primeira pesquisa depois de uma surpresa mede a surpresa junto com o voto. Nas três últimas eleições, o líder da primeira rodada Datafolha de 2º turno chegou à urna menor. Em 2014, a correção trocou até o vencedor.

Fonte: Datafolha, primeiras pesquisas de 2º turno (9/10/2014, BR-01068/2014; 10/10/2018, BR-00214/2018; 7/10/2022, BR-02012/2022; 8/10/2026, BR-02949/2026) e TSE (resultados) · Elaboração: Daily Brew

Três casos são pouco para virar lei, e a direção do embalo variou: em 2014 a onda de Aécio murchou; em 2022 a de Bolsonaro continuou. O que se repetiu foi o tamanho da correção, de 2 a 3 pontos. Aplicada a 2026, a média de 2,5 pontos põe Flávio perto de 49,5%.

📌 E daí?

A primeira rodada depois de uma surpresa tem dois vieses que andam juntos. O eleitor responde sob o eco da notícia, e o instituto que acabou de errar recalibra os pesos da amostra, muitas vezes pelo voto declarado no 1º turno. As duas coisas puxam a pesquisa na direção da surpresa. A pergunta não é se Flávio lidera, e sim quanto da liderança é retrato e quanto é eco.

Tá, as pesquisas se mexeram. Mas o eleitor se mexe por causa delas?

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Teoria · Pesquisa muda voto?

Voto útil · Duverger · Efeito manada · Comparecimento · Apoios · Transferência de votos

No 2º turno, o voto útil acaba. Sobram a manada e o apoio, e os dois valem menos do que parecem

A pesquisa muda voto por três canais, e cada um funciona de um jeito no 1º e no 2º turno.

1. Voto útil. É a lei de Duverger (1951): quando só um vence, o eleitor abandona o candidato que não tem chance e escolhe o menos pior entre os que têm. Thomas Fujiwara, economista formado na USP e hoje professor em Princeton, testou isso no Brasil (Quarterly Journal of Political Science, 2011). Ele usou uma regra da Constituição: só municípios com mais de 200 mil eleitores têm 2º turno para prefeito. Comparando cidades logo acima e logo abaixo da linha, ele mostrou que, onde há 2º turno, o terceiro colocado e os demais somam 8,8 pontos a mais de votos, sobre uma base de 15,5%. Onde há turno único, mais de um terço desse voto migra para os dois primeiros. É o voto útil medido, e a pesquisa é o que diz ao eleitor quem são "os dois primeiros". No 2º turno, esse canal desaparece, porque só sobram dois nomes.

2. Efeito manada e efeito azarão. O efeito manada é o eleitor que vai com quem parece ganhar; o efeito azarão é o que se mobiliza por quem parece perder. O melhor teste do 2º turno vem da Hungria. Kiss e Simonovits (Public Choice, 2014) usaram os distritos uninominais das eleições húngaras de 2002 e 2006, que têm dois turnos, e mostraram que a vantagem do líder do 1º turno cresce, em média, cerca de 10% dela mesma no 2º: uma vantagem de 10 pontos vira 11. O resultado vale depois de descontar a onda nacional. Parte do efeito, segundo eles, vem do comparecimento: quem apoia o candidato que parece perder por muito deixa de votar.

3. Comparecimento. Morton, Müller, Page e Torgler (European Economic Review, 2015) usaram um experimento natural. Até 2005, territórios franceses ultramarinos votavam já sabendo a boca de urna do continente; depois de uma reforma, passaram a votar na véspera. Comparando eleições presidenciais de 1981 a 2012, eles mostraram que saber o resultado antes de votar derrubava o comparecimento em cerca de 11 pontos, e quem foi votar pendeu para o vencedor projetado.

A literatura é ambígua, e a ambiguidade importa. Rothschild e Malhotra (Research & Politics, 2014) fizeram um experimento sobre políticas públicas: informar que a maioria apoiava uma medida deslocou opiniões em 8 pontos. Na versão preliminar do estudo, eles também testaram probabilidades de mercados de previsão e não encontraram efeito algum. O 86% do Polymarket, pela evidência disponível, informa mais o investidor do que move o eleitor.

Aplicando a Kiss e Simonovits: os 1,87 ponto de vantagem de Flávio no 1º turno virariam cerca de 2,1 pontos no 2º. As pesquisas da primeira rodada mostram 4 (Datafolha), 5,4 (Ipespe) e 5,6 (AtlasIntel). A teoria da manada sustenta uma vantagem; não sustenta a vantagem inteira que a primeira rodada mostra.

Os 7,8% que sobraram, e quem fala por eles

O 2º turno se decide em três reservatórios: quem votou em outro candidato, quem anulou e quem faltou. O primeiro é o mais fácil de medir. Fora Flávio e Lula, sobraram 7,8% dos votos válidos, e quase todos têm dono declarado:

Quem ficou fora do 2º turno, e para onde foi

Candidato derrotadoVotos válidos no 1º turnoPosição no 2º turno
Augusto Cury (Avante)2,89%Apoia Flávio desde 8/10, após um termo de compromisso público assinado por ele
Renan Santos (Missão)2,24%Neutro, liberou os eleitores
Ronaldo Caiado (PSD)2,18%Apoia Flávio desde 6/10; o PSD liberou os diretórios
Romeu Zema (Novo)0,27%Apoia Flávio desde 5/10
Demais candidatos (UP, PSTU, PCB, DC, PCO e outros)0,22%UP, PSTU e PCB declararam voto em Lula; DC apoia Flávio; PCO ainda decide

Fonte: TSE (totalização do 1º turno) e declarações públicas reunidas por CNN Brasil, Poder360, Exame e Agência Brasil, de 5 a 8/10/2026.

Fora das urnas, o ex-presidente Michel Temer (MDB) declarou apoio a Flávio em 5/10, em vídeo nas redes. No ato de Caiado em Goiânia, o governador reeleito Daniel Vilela (MDB) disse ter reunido mais de 160 prefeitos. Entre os partidos, União Brasil e PP (em federação), Republicanos e Novo formalizaram apoio a Flávio. MDB e PSD não tomaram posição nacional e liberaram os filiados. Temer não tem votos próprios nesta eleição: o apoio dele é um sinal para a parte do MDB que tem máquina municipal.

A conta é simples. Para chegar a 50%, Lula precisa de 4,84 pontos desses 7,8, ou 62% do que sobrou. Flávio precisa de 38%. Se Lula levasse todos os eleitores de Renan e dos nanicos, ainda teria de tirar 44% dos eleitores de quem declarou apoio a Flávio.

Apoio declarado não é voto transferido

A história brasileira tem dois testes recentes, um de cada lado:

  • 2014. Marina Silva teve 21,3% no 1º turno e declarou apoio a Aécio. Do 1º para o 2º turno, Dilma cresceu 10,0 pontos e Aécio, 14,8. Para virar, Aécio precisava de 66% do que sobrou e levou 60%. Dilma venceu.
  • 2022. Simone Tebet (4,2%) declarou apoio a Lula, e o PDT de Ciro Gomes (3,0%) também. Lula cresceu 2,5 pontos; Bolsonaro cresceu 5,9. Quem tinha os apoios ficou com só 30% do que sobrou, e venceu porque precisava de pouco.

O eleitor de candidato derrotado não é um cheque que o candidato endossa. Ele escolheu outro nome justamente porque não queria nenhum dos dois finalistas.

☝ A defesa razoável

A favor do favoritismo de Flávio há um número mais forte que qualquer pesquisa: em todos os sete 2º turnos presidenciais desde 1989, venceu quem terminou o 1º turno em primeiro. Some a isso três apoios de derrotados, um ex-presidente e as três pesquisas da primeira rodada. Mas a vantagem de 2026 no 1º turno, 1,87 ponto, é a menor da série; a menor anterior foi a de 2022, com 5,2. A questão é se uma regra feita com vantagens grandes vale para a menor vantagem já registrada.

Se o voto de quem perdeu já tem direção, onde Lula vai buscar a diferença?

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Comparecimento · O voto que nenhuma pesquisa mede

Abstenção · Estudantes · UNE · Transporte · Jovens · Sudeste · Nordeste

33,5 milhões de ausentes contra 2,2 milhões de diferença: a aposta é grande, e a história joga contra

No 1º turno, 33,5 milhões de eleitores aptos não votaram. Foram 21,08% do eleitorado, a maior abstenção num 1º turno desde 1998. A diferença entre Flávio e Lula foi de 2,2 milhões de votos. Para cada voto que separa os dois, há 15 eleitores que ficaram em casa.

É aí que a campanha de Lula concentrou a aposta da virada. Em vídeo, o presidente falou da abstenção do 1º turno e pediu aos apoiadores que votem no dia 25. A coordenação montou uma agenda com deputados jovens recém-eleitos e pôs o foco em universidades e escolas, sobretudo em quem vota pela primeira vez. A UNE lançou em 6/10 a campanha "Estudantes com Lula", com assembleias contínuas nos campi, panfletagem nacional a partir de 13/10, bancas e panfletos em terminais de ônibus e metrô de 14 a 16/10 e novos atos de 20 a 22/10. Em Minas Gerais, diretórios estudantis da UFMG, UFV, UFOP e UFSJ organizam vaquinhas para comprar passagens e montar caronas até as cidades onde os colegas votam. A iniciativa é dos estudantes; não há envolvimento das reitorias.

A lei põe limite nesse último ponto. A Lei 6.091/1974 proíbe candidatos, partidos ou qualquer pessoa de fornecer transporte a eleitores (arts. 5º e 10), e descumprir é crime eleitoral, com pena de 4 a 6 anos de reclusão. A vaquinha que compra passagem em linha regular fica numa zona cinzenta: a lei mira quem fornece transporte para obter voto, e a jurisprudência exige essa intenção. Se o dinheiro vier de campanha, vira problema.

A história joga contra, mas não sempre

Fonte: TSE (abstenção no 1º e no 2º turno de 2010, 2014, 2018 e 2022; totalização do 1º turno de 2026) · Elaboração: Daily Brew

No 2º turno, o comparecimento costuma encolher. A exceção foi 2022, quando o STF autorizou as prefeituras a oferecer ônibus de graça no dia da eleição (ADPF 1013). Naquele 2º turno, a abstenção caiu 0,36 ponto, cerca de 570 mil eleitores a mais. Em 2023, o STF tornou a gratuidade urbana obrigatória a partir de 2024. Ou seja, a alavanca de 2022 já estava em uso no 1º turno de 2026, e mesmo assim a abstenção bateu recorde.

Agora a conta da aposta. Se cada eleitor novo votasse 60% em Lula e 40% em Flávio, Lula ganharia 0,2 voto líquido por eleitor. Para apagar 2,2 milhões, seriam precisos 11,1 milhões de eleitores a mais, e a abstenção teria de cair de 21,1% para cerca de 14,1%. Com uma divisão de 70% a 30%, bastariam 5,6 milhões, e a abstenção cairia para 17,6%. Mesmo no cenário favorável, é quase dez vezes o que o comparecimento cresceu em 2022.

Quem faltou, e para que lado pende

O cientista político Jairo Nicolau abriu os dados do TSE. O perfil por idade e sexo de 2026 ainda não foi publicado, então os dois primeiros itens abaixo seguem o padrão das três eleições anteriores; os dois últimos já são de 2026. O retrato corta para os dois lados:

  • Jovens de 18 a 29 anos: cerca de 7,7 milhões de ausentes no padrão recente. São 3,5 milhões de mulheres, que votam majoritariamente no PT desde 2002, e 4,3 milhões de homens, que votaram majoritariamente em Bolsonaro em 2018 e 2022. Uma mobilização ampla dos jovens pode empatar; ganha quem conseguir ser seletivo.
  • Idosas de baixa escolaridade: no padrão recente, cerca de 4,5 milhões ficam em casa. Elas não são obrigadas a votar e tendem a Lula, mas o obstáculo é logístico, não de convencimento.
  • Sudeste: concentra 15,1 milhões dos ausentes. Só em São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Guarulhos e Campinas foram 4,3 milhões, com 24% de abstenção, num eleitorado dividido entre 43% para Flávio e 42% para Lula, contando brancos e nulos.
  • Nordeste: a região mais lulista já é a que menos falta: 18,4%, abaixo dos 19,5% de 2022, com 1,4 milhão de votantes a mais. Essa reserva já foi parcialmente usada.

Há um efeito de segunda ordem. Pela evidência de Kiss e Simonovits, quem apoia o candidato que parece perder tende a faltar mais. Mas uma disputa apertada puxa o comparecimento para cima. A mesma surpresa que pôs Lula atrás nas pesquisas é o principal argumento da campanha dele para tirar o eleitor de casa.

🎓 O que a teoria diz

Proximidade e mobilização. Nalebuff e Shachar (American Economic Review, 1999) mostraram que o comparecimento sobe quando a disputa é apertada, mas não porque o eleitor calcula que seu voto decide. Sobe porque os líderes políticos se esforçam mais. A elasticidade estimada é de 0,34: 1% a mais de proximidade prevista gera 0,34% a mais de comparecimento, via esforço das lideranças. Gerber e Green (American Political Science Review, 2000), num experimento com 30 mil eleitores em New Haven, mostraram que a visita porta a porta elevou o comparecimento em cerca de 9 pontos entre os contatados. A mala direta somou cerca de 0,6 ponto por envio, e o telefonema, nada. É como assembleia de condomínio: lota quando a votação é apertada e o síndico bate de porta em porta, não quando ele manda um aviso no elevador. A campanha nos campi é o tipo de contato que a literatura diz que funciona. A dúvida é a escala.

Se a conta é tão apertada, quem fica com o prejuízo se a primeira rodada errar de novo?

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Mercado · Quem paga se a primeira rodada errar

Ibovespa · Dólar · Juros futuros · Institutos · Regulação · Informação

Quatro grupos têm algo em jogo na precisão das próximas pesquisas

1. Quem precificou o resultado. Na segunda-feira depois do 1º turno, o Ibovespa subiu 7,7% e fechou em 206.912 pontos, a maior alta diária desde março de 2020 e o primeiro fechamento acima de 200 mil. O dólar comercial caiu 4,1%, para R$ 5,00, a maior queda diária desde junho de 2018. Os juros futuros longos caíram cerca de 1,3 ponto percentual num dia: o DI para janeiro de 2035 foi a 12,80% ao ano. Parte desse movimento é a eleição embutida no preço, com o Polymarket em 86%. O mecanismo é simétrico: se as próximas rodadas aproximarem a disputa de cara ou coroa, o prêmio precificado em um dia pode ser reprecificado com a mesma velocidade. Quem paga é quem comprou o cenário pelo preço de 86%. A edição não recomenda nenhuma operação.

2. O eleitor que escolheu pelo retrato. No 1º turno, o voto útil depende de saber quem são os dois primeiros e a distância entre eles. Quem decidiu olhando pesquisas com viés médio de 3,3 pontos contra um dos lados decidiu com informação pior do que imaginava. No 2º turno o risco muda de forma: a pesquisa que mostra uma disputa decidida desmobiliza, como mostraram Morton e coautores, e o custo cai sobre quem fica em casa achando que o voto não faria diferença.

3. Os institutos. O custo imediato é de reputação. O custo de médio prazo é regulatório. Depois do erro de 2022, a Câmara aprovou, por 295 a 120, urgência para o PL 96/2011, que pune empresas com resultado divergente da urna; o mérito nunca foi votado. O PL 2567/2022 prevê de 4 a 10 anos de reclusão para quem publicar pesquisa fora da margem nos 15 dias anteriores ao pleito. Cada erro grande devolve esses projetos à pauta.

4. Quem consome informação. Pesquisa registrada no TSE é um bem público: metodologia aberta, amostra declarada, contratante identificado. Se ela perde crédito ou passa a ser criminalizada, o espaço não fica vazio. Ele é ocupado por pesquisas internas de campanha, que ninguém audita, e por mercados de apostas que operam de fora do país. Esses mercados estão proibidos no Brasil desde maio, por resolução do Conselho Monetário Nacional, e 27 plataformas foram bloqueadas pela Anatel. Troca-se um termômetro imperfeito e público por um opaco.

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☕ Fechando a conta

Quanto a surpresa mexeu nas pesquisas? Muito, e com direção. Na véspera, o erro médio foi de 1,1 ponto em Lula e de 3,3 pontos em Flávio, todos para baixo. Cinco dias depois, a AtlasIntel virou o sinal, o Datafolha abriu 52% a 48%, e o Ipespe, 52,7% a 47,3%. Nas três eleições anteriores, o líder da primeira rodada chegou à urna 2 a 3 pontos menor.

Pesquisa e apoio mudam voto? No 2º turno, o voto útil sai de cena. A manada existe, mas a melhor estimativa, cerca de 10% sobre a vantagem do 1º turno, explica 2,1 pontos, não 4 a 5,6. Os apoios de Cury, Caiado, Zema, Temer, União Brasil, PP e Republicanos dão a Flávio a maior parte dos 7,8% que sobraram no papel. Mas em 2014 e 2022 o apoio declarado transferiu menos do que prometia.

E quem faltou? São 33,5 milhões de ausentes, e a campanha de Lula aposta neles com universidades e jovens. A história joga contra: a abstenção subiu no 2º turno em três das quatro últimas eleições. Mesmo com 70% desse voto novo, Lula precisaria de 5,6 milhões de eleitores a mais, quase dez vezes o ganho de 2022.

O mercado dá 86%, a régua dá cara ou coroa, e a diferença entre os dois está em quem vai votar.

Em 2026, o eleitor que faltou pode valer mais que o indeciso.

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Que nota você dá pra edição de hoje?

📅 O que vem

Hoje · Domingo · 11/10 · 21h

Debate na Record. Primeiro encontro direto entre Flávio e Lula no 2º turno.

Segunda · 12/10

Quaest. Primeira rodada de 2º turno do instituto que mais se aproximou da urna entre os grandes. Campo de 8 a 11/10, com 1.104 entrevistas presenciais: amostra menor, margem perto de 3 pontos.

Terça a sexta · 13 a 16/10

Estudantes nas ruas. Panfletagem da UNE em terminais de ônibus e metrô, o primeiro teste de escala da aposta na abstenção.

15/10 · 18/10 · 23/10

Debates no SBT, na Band e na Globo. O último, a dois dias da urna, é o que mais pesa na reta final.

Domingo · 25/10

2º turno. O dia em que a régua, o mercado e a urna se encontram.

📚 Vale ler

Saber o resultado antes de votar derruba o comparecimento
O experimento natural dos territórios ultramarinos franceses, de Morton, Müller, Page e Torgler.
European Economic Review · 2015
Em dois turnos, a vantagem do líder cresce
Kiss e Simonovits medem o efeito manada nos distritos húngaros de 2002 e 2006.
Public Choice · 2014
O voto útil medido nas prefeituras brasileiras
Thomas Fujiwara usa a linha dos 200 mil eleitores para testar a lei de Duverger.
Quarterly Journal of Political Science · 2011
Disputa apertada, lideranças mais ativas
Nalebuff e Shachar explicam por que o comparecimento sobe quando a eleição é disputada.
American Economic Review · 1999
Pesquisas que viram profecia
Rothschild e Malhotra testam se saber o que a maioria pensa muda a opinião de quem lê.
Research & Politics · 2014
Quatro tópicos sobre a abstenção de 2026
Jairo Nicolau abre os dados de quem faltou, por região, porte de cidade e perfil.
Substack · 08/10/2026
Resultados oficiais das Eleições 2026
A totalização do 1º turno, seção a seção, direto do Tribunal Superior Eleitoral.
TSE · 05/10/2026
☕ Daily Brew

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