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TERÇA-FEIRA · 21 DE JULHO DE 2026

☕ Bom dia

O mercado elevou de novo a inflação que espera pra 2028. O culpado não é o petróleo nem o dólar: é a desconfiança com as contas públicas.

A tarifa americana começa a valer amanhã, e Krugman escreveu que punir o Brasil pelo Pix deve fortalecer justamente o Lula.

E o Flávio Bolsonaro prometeu celular e internet de graça pra 70 milhões de mulheres. Fizemos a conta: de graça, só o anúncio. ☕

Economia · A desconfiança virou número

Um salto incomum: o que fez a inflação esperada pra 2028 subir a 3,78%?

A inflação esperada para 2028 subiu de 3,70% para 3,78% no boletim Focus desta segunda, a pesquisa semanal do Banco Central com economistas do mercado. Foi o único número a andar pra cima: a projeção para 2026 caiu pela terceira semana seguida, para 5,15%, e a de 2027 ficou parada em 4,20%.

O suspeito óbvio tem álibi. O choque de energia bate primeiro na inflação de agora, e justamente a projeção de 2026 caiu na semana; o dólar fechou em queda, a R$ 5,09. Sobra a desconfiança com as contas públicas. A série completa na base aberta do BC reforça: a projeção para 2028 começou o ano em 3,50% e não parou mais de subir, e o degrau desta semana veio dias depois de a própria Câmara publicar a conta de que faltam R$ 330 bilhões por ano só para travar a dívida em 80% da economia.

O salto junta três medos que rondam o mercado: a guerra encarecendo energia, o gasto público crescendo em ano de eleição e a percepção de que os juros básicos vão continuar caindo mesmo com sinais pedindo cautela. O movimento é mais fundo do que a manchete: a média das projeções para 2029, o termômetro fino que se mexe antes da mediana oficial (cálculo nosso, com a base aberta de expectativas do BC), subiu de 3,60% em junho para 3,66% agora, com a mediana ainda parada em 3,50%. A desconfiança está escorrendo prazo adiante.

A mesma pesquisa Focus mostra por que a fé anda curta: pela vigésima segunda semana seguida, o mercado projeta déficit nas contas públicas de 2026, enquanto a meta que o governo prometeu é de superávit. A promessa fiscal que deveria ancorar a inflação lá na frente é exatamente a promessa em que ninguém acredita.

A semana é rala de indicadores aqui e lá fora, então cada sinal ganha peso dobrado. Na sexta, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, sobe ao palco da Expert XP, o festival da XP em São Paulo que este ano recebe de Janet Yellen a Will Smith, para um painel sobre política monetária. O mercado vai medir cada vírgula: o BC vai reagir à desconfiança ou fingir que não viu?

🎓 O que a teoria diz: por que expectativa de inflação vira inflação?

Expectativa não é palpite, é ação. Se o dono da escola, o locador e o sindicato esperam preços subindo mais lá na frente, todos reajustam hoje, por precaução, e a profecia ajuda a se cumprir. Os economistas Finn Kydland e Edward Prescott, Nobel de 2004, mostraram o elo que falta: promessa de governo tem prazo de validade. Se todo mundo desconfia que, lá na frente, o governante terá incentivo para abandonar o combinado (gastar mais, tolerar uma inflação um pouco maior), a promessa feita hoje perde valor, por mais sincera que seja. O nome técnico é inconsistência temporal. Em bom português: o mercado não escuta o discurso, olha o incentivo de quem promete.

E daí?

Expectativa lá em cima segura os juros longos lá em cima, e são eles que definem o financiamento da casa, do carro e o crédito da empresa. Enquanto a aposta para 2028 subir, o espaço para cortar os juros básicos, hoje em 14,25%, encolhe (a próxima decisão sai em 5 de agosto). Para quem tem dinheiro guardado, os títulos longos do Tesouro seguem pagando caro justamente por causa dessa desconfiança. Para quem deve, cada semana de Focus piorando é um mês a mais de prestação salgada.

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Brasil · A guerra do Pix

Punir o Brasil pelo Pix deve fortalecer justamente quem Trump quer derrubar, diz Nobel de Economia

A sobretaxa americana de 25% começa a valer amanhã, à 1h01 de Brasília. Depois das exceções da lista final, ela alcança algo entre US$ 7,4 bilhões por ano em exportações (na conta do governo brasileiro) e US$ 11 bilhões (na conta da indústria), com milhares de produtos na mira. E, na véspera, quem roubou a cena foi um americano. Paul Krugman, prêmio Nobel de economia de 2008, publicou nesta segunda um artigo com um recado seco para a Casa Branca: usar tarifas para punir o Brasil pelas suas conquistas monetárias "não terá sucesso". Pior, na conta dele: politicamente, o movimento "só vai fortalecer" o presidente que Washington gostaria de ver enfraquecido, bem no ano da eleição.

A briga tem nome de três letras, e a data não é coincidência. Há exatamente um ano, no mesmo 20 de julho, Krugman perguntava num artigo se o Brasil tinha inventado "o futuro do dinheiro" com o Pix, o sistema público e gratuito que faz o que os cartões cobram caro para fazer. Nesta segunda ele voltou ao tema para responder, e apontou um medo novo por trás da punição: o setor cripto americano teme que, se o consumidor tiver acesso a uma espécie de Pix do dólar, perca o interesse nas stablecoins, as moedas digitais atreladas à moeda americana. Não por acaso, a investigação comercial que deu origem à tarifa citava o Pix nominalmente já na abertura, no ano passado. O tamanho do incômodo está no gráfico: de 630 milhões de transações em junho de 2021 para 7 bilhões no mês passado, R$ 3 trilhões movimentados em trinta dias, uma média de quase 3 mil Pix por segundo.

Do lado de cá, o clima azedou de vez. Auxiliares do Planalto classificaram as exigências americanas como inaceitáveis, e a lista ajuda a entender o adjetivo: tarifa zero para produtos industriais dos Estados Unidos, desistência de regulamentar as plataformas digitais e o Pix na mesa de negociação. Os canais seguem abertos, mas a avaliação de auxiliares é que conversa séria, se houver, fica para depois da eleição, até porque a temporada de convenções partidárias começou nesta segunda e vai até 5 de agosto. Em ano de palanque, ninguém quer ser visto cedendo.

A quarta-feira, aliás, tem prazo duplo. Além da tarifa, amanhã também termina o período para exportadores contratarem o crédito de socorro de R$ 15 bilhões que o governo montou no início da guerra comercial. E vale o aviso a quem exporta: escapa da sobretaxa a carga que já estiver no navio antes da 1h01 de quarta, desde que passe pela alfândega americana até o fim do dia 28, no horário de lá. Depois disso, paga quem chegar.

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Eleições · A conta da promessa

Celular e internet de graça pra 70 milhões de mulheres: fizemos a conta, e ela pode passar de R$ 45 bilhões

Na largada oficial da temporada eleitoral, o pré-candidato Flávio Bolsonaro lançou na semana passada o plano "Brasil por Elas", um pacote de 12 promessas para o eleitorado feminino que inclui até uma assistente virtual de inteligência artificial, a MarIA. A estrela do pacote: celular e internet de graça, num programa que, nas palavras dele, quer "garantir o acesso a 70 milhões de mulheres nos celulares", com o aparelho entregue "para as pessoas que não têm condição". A mira é clara: entre as mulheres, a rejeição ao senador chega a 53%, e o Datafolha mostra Lula na frente nesse grupo por 52% a 37%.

O que a campanha não disse: quanto custa e quem paga. Sobre financiamento, Flávio afirmou apenas ter conversado com operadoras que "teriam todo interesse de auxiliar" o governo, sem detalhar como. Então nós fizemos a conta, com preço real de loja. Um celular de entrada custa hoje de R$ 490 a R$ 850 no varejo (usamos R$ 700, o miolo da faixa). Para as 28,7 milhões de mulheres do Bolsa Família, o público mais óbvio de quem "não pode comprar", só os aparelhos sairiam por R$ 20 bilhões. Já a internet é a parte que não acaba nunca: o plano de dados mais barato do mercado custa uns R$ 30 por mês, e bancar isso para 70 milhões de mulheres dá R$ 25 bilhões por ano, todo ano. Primeiro ano da promessa completa: uns R$ 45 bilhões. E a régua pública disponível não anima: nos pregões recentes de laptops educacionais, estados pagaram cerca de R$ 1.750 por aparelho (máquinas mais parrudas, com suporte e garantia no pacote, mas é o histórico de compra em massa que existe).

Pra dar escala: R$ 45 bilhões num ano equivale a quase 4 vezes o Pé-de-Meia, a poupança dos estudantes do ensino médio (R$ 11,5 bi), 7 vezes a Farmácia Popular (R$ 6 bi) e quase 100 vezes tudo o que o governo federal separou para inclusão digital neste ano (R$ 205 milhões). Ou, na régua da semana: quase 20% de todo o dinheiro não carimbado do Orçamento. Pra dimensionar a logística: uma das maiores entregas de aparelhos já feitas por um governo no Brasil, a do Maranhão, distribuiu 250 mil tablets a estudantes. Só o público feminino do Bolsa Família é mais de cem vezes isso. No mundo, o caso mais parecido é o do estado indiano do Rajastão, que prometeu smartphone a 13,5 milhões de mulheres, também às vésperas de uma eleição.

Tem ainda um furo na mira. Segundo a TIC Domicílios de 2024, a pesquisa do Cetic.br que mede o acesso à tecnologia no país, 97% da população com 10 anos ou mais já tem celular (o que não garante aparelho bom nem pacote de dados que dure o mês). O buraco de verdade é outro: cerca de 16 milhões de mulheres seguem sem usar internet, num grupo em que pesam renda baixa e pouca escolaridade, e conectá-las custaria uma fração do plano anunciado. É o retrato da temporada que começou nesta segunda, com as convenções partidárias abertas até 5 de agosto: promessa grande, conta ausente. E o sinal de que o mercado já cobra por isso você viu lá em cima, no salto da inflação esperada pra 2028.

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📊 Mercados — Fechamento de segunda (20/07)

AtivoFechamentoNo dia
Ibovespa173.371 pts↓ −0,20%
Dólar (comercial)R$ 5,09↓ −0,42%
Petróleo (Brent)US$ 89,22↑ +1,27%
Ouro (futuro)US$ 4.016↓ −0,07%
S&P 5007.443 pts↓ −0,19%
Dow Jones51.839 pts↓ −0,59%
Nasdaq25.508 pts↓ −0,05%
BitcoinUS$ 65,3 mil*↑ +0,92%

* Cripto negocia 24 horas; cotação do começo da noite de segunda. O Brent bateu US$ 91,42 de madrugada, devolveu quase tudo com o aceno de negociação entre EUA e Irã, e ainda assim fechou em alta.

Fontes: B3, InfoMoney, Money Times, Investing.com e CoinGecko · fechamento de 20/07 · Elaboração: Daily Brew

📚 Vale ler

Krugman: Trump quer punir o Brasil por ter o "dinheiro do futuro"

O artigo do Nobel que abre o bloco 1, com a defesa do Pix e a previsão do tiro pela culatra.

Estado de Minas · Economia · 20/07/2026

Trump's War on the Future, Monetary Edition (em inglês)

O artigo do Krugman na íntegra: Pix, o medo das stablecoins e a aposta de que a tarifa fortalece Lula.

Substack · Economia · 20/07/2026

Focus: mercado vê déficit nas contas públicas pela 22ª semana seguida

O outro lado da pesquisa do bloco 2: ninguém acredita na meta de superávit do governo.

Estadão Conteúdo, via Jornal de Brasília · Economia · 20/07/2026

Negociação do tarifaço com os EUA deve avançar só depois das eleições

O bastidor do Planalto sobre o calendário da negociação que aparece no bloco 1.

Poder360 · Eleições · 20/07/2026

Flávio Bolsonaro promete celulares e internet de graça para mulheres

A cobertura do lançamento do Brasil por Elas, com os detalhes da promessa que abre a edição.

Poder360 · Eleições · 18/07/2026

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