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QUARTA-FEIRA · 22 DE JULHO DE 2026
☕ Bom dia
Nubank. Comprou um banco carioca só para poder continuar se chamando "bank", e ainda assim não virou um banco.
Reino Unido. Trocou de primeiro-ministro pela sétima vez em dez anos, bem no aniversário de dez anos do Brexit.
Competitividade. O Brasil caiu para o 65º lugar entre 70 países, atrás de quase todo vizinho. ☕

Bancos · Quase um banco
Nubank · Banco Porto Real · Licença bancária · México · EUA · Depósito à vista
O Nubank comprou um banco, mas ainda não é um
O Nubank anunciou na segunda-feira a compra do Banco Porto Real de Investimentos, uma instituição pequena do interior do Rio de Janeiro. O gatilho imediato é o nome: uma regra do BC (Banco Central) de dezembro de 2025 passou a proibir que quem não é banco use as palavras "banco", "bank" ou "banking" na marca, e o Nubank precisava da licença que vem junto para continuar se chamando Nubank.
E aqui vem o contrassenso: comprar um banco não transforma o Nubank num banco, pelo menos não por enquanto. A própria empresa faz questão de dizer que a mudança não exige capital nem liquidez a mais e não altera nada para os clientes: app, cartão e conta seguem iguais. A operação, aliás, ainda depende do aval do Banco Central.
Ainda assim, seria um erro tratar tudo como jogada de marketing. Uma licença bancária é um ativo valioso de verdade, e o Nubank já declarou que quer ser um banco completo. Some a isso o tamanho que ele alcançou: com mais de 115 milhões de clientes, virou o segundo maior do país. O quanto cresceu fica claro no valor que a bolsa dá à empresa:
De novato a quase líder em quatro anos
Valor de mercado · US$ bilhões · fim de cada ano (2026 até julho)
Nubank Itaú Bradesco
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| 2021 | 2022 | 2023 | 2024 | 2025 | jul/26 |
O Nubank só passou a ter valor em bolsa no IPO de dezembro de 2021. Estreou perto de US$ 43 bi, apanhou em 2022 e 2024 e, no fim de 2025, chegou a US$ 81 bi, à frente do Itaú (US$ 78 bi) e muito acima do Bradesco (US$ 35 bi). Em 2026 o Itaú retomou a ponta (US$ 92 bi contra US$ 69 bi).
Valor de mercado no fim de cada ano; 2026 até julho. Fonte: companiesmarketcap e stockanalysis · Elaboração: Daily Brew.
Por que a licença vale tanto? Porque, apesar de gigante, o Nubank ainda não é um banco. Ele opera como instituição de pagamento e financeira, o que na prática quer dizer que pode oferecer conta, cartão e crédito, mas não fazer a coisa mais básica que define um banco: captar depósito à vista, o dinheiro que você deixa parado na conta corrente e pode sacar a qualquer momento. A distinção parece burocrática, mas muda o jogo inteiro:
Banco x fintech "não-banco": onde mora a diferença
O que separa um banco de uma instituição de pagamento como o Nubank hoje
| Banco | Fintech não-banco | |
| Captar depósito à vista (dinheiro parado na conta) | Pode | Não pode |
| Empresta com que dinheiro | Depósitos + capital próprio | Só capital próprio e mercado |
| Licença no Banco Central | Bancária completa | Instituição de pagamento |
| Pode usar "banco/bank" no nome | Sim | Não (desde 2025) |
| Imposto sobre o lucro (CSLL) | 20% | 9% |
CSLL = Contribuição Social sobre o Lucro Líquido. Fonte: Banco Central (Resolução 17/2025) e balanços · Elaboração: Daily Brew.
O depósito à vista é o combustível mais barato que existe para quem empresta dinheiro: entra na conta do cliente, na média rende pouco ou nada para quem deposita, e o banco pega esse dinheiro parado e o empresta a juros. É esse acesso que uma licença bancária destrava. O preço aparece quando a conversão vier de fato: estrutura mais cara e mais imposto, com a CSLL (a contribuição sobre o lucro) saltando de 9% para 20% nas instituições bancárias.
E é fora do Brasil que essa virada está mais adiantada. No México, o Nubank acaba de conquistar a licença para operar como banco de verdade; nos Estados Unidos, já tem a aprovação inicial para montar um banco próprio. Por aqui, por ora, ficou com a licença guardada no bolso, esperando a hora de usá-la.
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Internacional · Cadeira quente
Reino Unido · Starmer · Burnham · Brexit · União Europeia · Libra
Reino Unido tem o 7º premiê em 10 anos, no aniversário do Brexit
O Reino Unido trocou de primeiro-ministro pela sétima vez em dez anos. O trabalhista Keir Starmer renunciou depois de uma derrota pesada nas eleições locais, e assumiu Andy Burnham, até então prefeito da Grande Manchester.
Por que tanta troca? Desde o referendo do Brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia), em 2016, nenhum premiê conseguiu completar um mandato inteiro. Uma sequência de choques (o próprio Brexit, a pandemia, a guerra na Ucrânia e a crise de energia) caiu sobre um país com padrão de vida estagnado havia quase vinte anos, e um Parlamento fraturado se acostumou a derrubar líderes: Cameron caiu ao perder o referendo, Truss durou 49 dias após um orçamento que quebrou o mercado, Johnson saiu engolido por escândalos. Virou regra.
Burnham chega diferente dos antecessores: vem de fora da bolha de Westminster (era prefeito de Manchester), com imagem mais popular e à esquerda. Promete atacar a crise do custo de vida, retomar o crescimento e descentralizar poder, tirando decisões de Londres. O primeiro gesto já foi simbólico: cancelou o projeto de identidade digital nacional de Starmer, orçado em 1,8 bilhão de libras, para redirecionar o dinheiro a famílias apertadas.
A troca de liderança cai num aniversário simbólico: o Brexit completa dez anos, e as promessas de então (mais soberania, menos imigração, mais crescimento) largamente não se cumpriram. O órgão fiscal britânico ainda estima uma perda de cerca de 4% de produtividade no longo prazo em relação a ter ficado no bloco. E aqui mora o interesse para o Brasil: num momento em que o país leva uma tarifa de 25% dos EUA e cresce a tentação de responder fechando mercado, o Reino Unido é o laboratório vivo do que custa se isolar.
🎓 O que a teoria diz
Modelo de gravidade do comércio. Assim como na gravidade, o comércio entre dois países é mais forte quanto maiores as economias e menores as distâncias entre elas. Foi por isso que sair da União Europeia doeu: o Reino Unido trocou o comércio fácil com vizinhos ricos e próximos por barreiras e burocracia, e nenhum acordo distante repôs o que se perdeu ali ao lado. É a fatura que os britânicos ainda pagam dez anos depois.
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Competitividade · Ladeira abaixo
IMD · Fundação Dom Cabral · Custo Brasil · Impostos · Burocracia · Produtividade
O Brasil caiu para o 65º lugar em competitividade, quase o último da lista
Um estudo divulgado em 18 de junho ligou o alerta: o Brasil caiu sete posições e aparece em 65º entre 70 países no ranking de competitividade do IMD, escola suíça que faz o levantamento com a Fundação Dom Cabral. É o pior resultado em anos, com piora nos quatro quesitos avaliados: desempenho econômico, eficiência do governo, eficiência das empresas e infraestrutura. Na América do Sul, o Brasil só não fica atrás da Venezuela: Chile, Argentina, Colômbia, Peru e até o México aparecem à frente.
Os primeiros do mundo, e onde o Brasil aparece
Ranking de competitividade · índice de 0 a 100 · 70 países
No topo
| 1 Singapura | 100,0 | |
| 2 Hong Kong | 95,6 | |
| 3 Suíça | 95,3 | |
| 4 Taiwan | 94,3 | |
| 5 Emirados Árabes | 94,1 |
No fim da fila
| 65 Brasil | 40,2 | |
| 66 Botsuana | 39,9 | |
| 67 Mongólia | 39,0 | |
| 68 Nigéria | 38,8 | |
| 69 Namíbia | 28,5 | |
| 70 Venezuela | 22,4 |
O Brasil (65º) fica atrás de Chile (43º), Argentina (58º), Colômbia (59º), Peru (60º) e México (62º). Na região, só a Venezuela aparece abaixo.
Fonte: IMD World Competitiveness Ranking 2026, divulgado em 18/06, com a Fundação Dom Cabral · Elaboração: Daily Brew.
O tombo deste ano tem culpados claros. Todos os quatro quesitos pioraram, e a eficiência das empresas despencou onze posições de uma vez. Pior: o Brasil aparece em último lugar, o 70º entre 70, em três itens que decidem o futuro: o custo do capital (o quanto custa tomar dinheiro emprestado para investir), o endividamento das empresas e a qualidade da educação básica. O paradoxo é que, ao mesmo tempo, o país é o 5º do mundo em geração de empregos e o 7º em atração de investimento estrangeiro. Traduzindo: o Brasil ainda puxa capital e emprego no presente, mas tira nota baixíssima justamente no que sustenta o crescimento lá na frente, dinheiro barato e boa escola.
O vilão para a baixa competitividade tem nome conhecido: o custo Brasil, a soma de impostos, burocracia, juros e infraestrutura ruim que encarece produzir por aqui. Um estudo do Movimento Brasil Competitivo com o governo, de 2023, pôs essa conta em R$ 1,7 trilhão por ano, cerca de 19% do PIB (o tamanho da economia), calculado como a diferença entre produzir no Brasil e produzir na média dos países ricos da OCDE. O exemplo mais gritante está nos impostos:
Quase dez vezes mais tempo com o Fisco
Horas por ano que uma empresa gasta para apurar e pagar impostos
| Brasil | 1.501 h | |
| América Latina | ~300 h | |
| Média OCDE | ~160 h |
OCDE reúne as economias mais desenvolvidas. Fonte: Banco Mundial, relatório Doing Business (última edição, 2020–2021; o relatório foi descontinuado em 2021) · Elaboração: Daily Brew.
🎓 O que a teoria diz
Vantagem comparativa. A ideia, de David Ricardo ainda no século XIX, é a raiz do conceito de competitividade: um país prospera ao se especializar naquilo que produz de forma relativamente mais eficiente e trocar o resto com o mundo. Competitividade, no fundo, não é ser o melhor em tudo, é conseguir transformar as vantagens que se tem (terra, recursos, mão de obra) em custo baixo na ponta. É aí que o custo Brasil sabota: impostos, burocracia e infraestrutura cara encarecem produzir aqui e corroem até as vantagens que o país tem de sobra, empurrando para fora o investimento que viria buscá-las.
E daí?
Mesmo atraindo capital hoje, ranking baixo cobra no futuro: na margem, é investimento que passa a escolher outro país, fábrica que não se instala aqui e salário que cresce menos. Enquanto o custo Brasil não cair, o país segue dependente de juro alto para segurar a inflação e correndo com peso no tornozelo.
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📈 Mercados — Fechamento Terça 21/07
Fontes: B3, Reuters e Yahoo Finance · fechamento de 21/07 (cotações podem variar por contrato e horário) · Elaboração: Daily Brew. |
📅 O que vem aí
Quarta · 22/07
Tarifa. passa a valer a sobretaxa de 25% dos EUA sobre produtos brasileiros. Café, carne e suco de laranja ficaram de fora; aço, calçados, açúcar e etanol entram na conta.
Até 05/08
Eleições. corre a janela das convenções partidárias, quando os partidos oficializam candidatos e coligações. É a largada formal da corrida de 2026.
📚 Vale ler
Brasil perde posições no ranking global de competitividade do IMD
A leitura da Fundação Dom Cabral, que coproduz o ranking: o que puxou o Brasil para baixo em cada pilar e por que o custo de fazer negócio pesa tanto.
Fundação Dom Cabral
Custo Brasil atinge o patamar de R$ 1,7 trilhão
O estudo do Movimento Brasil Competitivo com o governo que mede, item a item, quanto a mais custa produzir aqui em relação à média dos países ricos.
Movimento Brasil Competitivo
O que está por trás da compra do Banco Porto Real pelo Nubank
Por que uma fintech com 115 milhões de clientes precisou comprar um banco pequeno, o que a licença destrava e o que muda (ou não) para quem usa o app.
Seu Dinheiro
O Reino Unido ainda faz as contas do Brexit, 10 anos depois
O balanço econômico de uma década fora da União Europeia: o que foi prometido, o que se perdeu em comércio e produtividade e por que a discussão voltou.
InfoMoney


