
DOMINGO · 23 DE AGOSTO DE 2026 · EDIÇÃO ESPECIAL
Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.

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A antena do Musk já é 12,8% da internet nos municípios mais rurais do Brasil e o Bezos chega pra disputar
a Anatel liberou a venda do primeiro aparelho da Amazon e quem decide a briga é a mensalidade de quem vive longe da fibra
A edição de hoje tem 2.106 palavras, uma leitura de 8 minutos.

1 · Starlink · A tomada do interior
A antena do Musk virou a 11ª maior operadora de internet fixa do Brasil em quatro anos
A Starlink fechou junho com 836.847 assinaturas ativas no Brasil, número oficial da Anatel. No fim de 2022, primeiro ano de operação, eram 12 mil.
Em quatro anos a empresa de Elon Musk saiu da 24ª pra 11ª posição entre as operadoras de internet fixa e fez do Brasil o segundo maior mercado dela no mundo, atrás só dos Estados Unidos. A curva está no gráfico.

Assinaturas registradas no painel da Anatel. Em 2025 a banda larga fixa do país cresceu 3%. A Starlink cresceu 85%.
O crescimento tem endereço certo:
- Nas cidades quase todas urbanas, 0,4% das conexões. Praticamente invisível.
- Nos municípios onde mais de 75% da população vive na zona rural, 12,8% da banda larga fixa, fatia que nenhuma outra operadora alcança (Poder360, com dados da Anatel de março).
- Em Tefé, no meio do Amazonas, 410 assinaturas a cada 10 mil moradores já no fim de 2024. Em São Paulo, menos de 3.
O território da Starlink é exatamente o buraco que sobrou do mapa da fibra. O relatório de redes da Anatel deste ano lista 652 municípios sem fibra e sem previsão de receber.
A PNAD mostra o resto do filme: o domicílio rural conectado foi de 35% em 2016 pra 88% em 2025, quase tudo via celular e fibra. O pedaço sem estrada e sem torre ficou pra antena.
O preço acompanhou. A mensalidade de estreia, em fevereiro de 2022, era R$ 530, com kit de R$ 2.670 mais frete. Hoje o plano de entrada sai por R$ 189, e em julho a antena menor apareceu por R$ 99, amarrada a 12 meses no plano de R$ 249. Guarde essa promoção. Ela volta no bloco 3.
Um aviso de rigor. A empresa anunciou 1 milhão de assinantes em janeiro, quando o painel da Anatel marcava 556 mil. Questionada pelo Poder360, a agência disse que a diferença pode vir de informação incorreta enviada pela própria Starlink. O número desta edição é o oficial, e ele já basta pra história.
No nicho de internet via satélite a briga acabou. A Hughes tinha 68% quando a Starlink chegou com 5%. Hoje a conta dá 8 em cada 10 conexões com a marca do Musk.
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2 · Amazônia · A antena, o garimpo e o Estado
9 em cada 10 antenas achadas em garimpo ilegal estavam em nome de laranjas
A conta é do procurador da República André Luiz Porreca, do MPF do Amazonas, à Agência Pública em 2024. Na época o Ibama já somava 35 antenas apreendidas em terras indígenas de quatro estados. Só na Terra Yanomami foram 50 entre março e julho daquele ano.
O fluxo não parou. Em abril, a fiscalização do Pará achou 60 antenas sem nota fiscal num barco de Manaus pra Belém, no porão onde a cadela farejadora encontrou maconha.
No dia 12, um equipamento da Starlink chegou de Sedex a Bangu 4, escondido num rádio endereçado a um preso. A Polícia Penal divulgou como miniantena. Especialista ouvido pela BandNews identificou um roteador, que sozinho não gera internet.
A resposta é um acordo que o MPF assinou com a Starlink em junho de 2025, o primeiro da empresa com autoridades brasileiras, premiado neste ano na categoria combate ao crime. Desde 15 de janeiro, ativar uma antena na Amazônia Legal exige nome, documento com foto, CPF e comprovante de residência.
As letras miúdas do acordo:
- Dados cadastrais vão pra MPF e PF sem ordem judicial. Localização fina, só com ordem.
- A multa por ignorar um pedido é de R$ 1.000 por dia, com teto de R$ 10 mil. Troco pra quem diz ter 1 milhão de clientes.
- Não existe balanço público de cumprimento até hoje.
- E o órgão público que recebe uma antena apreendida paga a mensalidade dela à própria Starlink.
O Estado já testou a própria dependência. Em agosto de 2024, Alexandre de Moraes congelou as contas da Starlink pra garantir as multas do X. A empresa avisou que não cumpriria a ordem de bloquear a rede social, recuou em três dias e bloqueou. R$ 18,35 milhões foram pro caixa da União.
A cicatriz virou política. A Anatel aprovou mais 7.500 satélites da Starlink em 2025 e emitiu, no mesmo ato, um alerta formal sobre soberania digital. Em fevereiro autorizou a chinesa SpaceSail, sócia da Telebras. E a Telebras abriu consulta pro SGDC-2, satélite estatal com premissa de soberania total.
Lula resumiu à New Yorker: não vai deixar "alguém que odeia nosso governo" controlar a informação "numa região como a Amazônia".
A Justiça Eleitoral que Musk atacou em 2024 vai transmitir os resultados das urnas de outubro por cima da rede dele. A Hughes venceu o pregão do TSE por R$ 8 milhões usando capacidade da Starlink e liga 1.113 pontos de votação remotos. O TCU validou na quarta.
A urna segue desconectada da internet: o boletim viaja criptografado pela rede fechada da Justiça Eleitoral, o satélite só carrega o pacote.
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3 · Amazon Leo · O rival contra o relógio
Bezos chega com 396 satélites pra enfrentar 9.733 do Musk
O placar está no gráfico. A Starlink mantém 9.733 satélites em operação, na contagem de sexta do astrônomo Jonathan McDowell, referência no rastreio de órbita. O Amazon Leo, a internet espacial de Jeff Bezos, tem 396 funcionando, de 398 lançados (dois eram protótipos).
De cada dez satélites ativos girando sobre a sua cabeça, seis são do Musk.

Satélites em operação por constelação, o enxame que cada empresa mantém em órbita baixa. Contagem de Jonathan McDowell, planet4589.org, 21/08/2026.
No Brasil a corrida é contra o calendário. A Anatel homologou no dia 14 o roteador do Leo, a caixinha de dentro de casa. A antena que fala com o satélite ainda não tem selo, e sem ela nada pode ser vendido.
O prazo da agência pra constelação estrear no país vence sábado que vem, dia 29, depois de três adiamentos.
Se a estreia sair, quem vende é a Sky, com a marca Sky Link, começando pela região Sul. Preço é mistério: a Amazon nunca publicou tabela em país nenhum. Sites especializados estimam de US$ 60 a US$ 120 por mês.
O atraso não é jabuticaba. A licença americana exigia metade da frota em órbita até 30 de julho, 1.616 satélites, e a Amazon chegou lá com 398.
O regulador topou flexibilizar a regra, na alternativa que a própria empresa pediu, cobrando o preço: satélite lançado depois do prazo vai pro fim da fila das frequências até março de 2028, ou até a marca ser batida. A caução do compromisso ficou perdida.
Parte do atraso mora no foguete do próprio dono. O New Glenn, da Blue Origin de Bezos, explodiu num teste em maio, arrasou a única plataforma de lançamento da empresa e adiou a leva seguinte, de 48 satélites. A meta é voar de novo até dezembro.
Enquanto isso, a Amazon lança no foguete de quem pode. 72 satélites do Bezos já subiram ao espaço em Falcon 9 do Musk, mais dez voos estão comprados e o próximo lançamento, em setembro, vai num terceiro foguete, o Vulcan.
Um fundo de pensão processou o conselho da Amazon em 2023 por deixar a SpaceX fora da maior compra de foguetes da história, atribuindo a escolha à rivalidade do dono. Meses depois, a SpaceX entrou na lista.
A rivalidade tem vinte anos de arquivo: o jantar de 2004 ("dei conselhos que ele largamente ignorou", disse Musk), os "unicórnios dançando no duto de chamas" de 2013 e o "Welcome to the club" venenoso de 2015.
Em 2021, Musk tuitou que o rival "não consegue subir até a órbita". Neste mês, com o New Glenn no chão, veio um "espero que voltem a voar logo".
O caixa explica a pressa dos dois. Do lado do Musk, a Starlink faturou US$ 11,4 bilhões em 2025, 61% da receita da SpaceX, que estreou na bolsa em junho na maior abertura de capital da história.
A ação caiu 37% em julho, Musk perdeu US$ 363 bilhões no mês pela conta da Forbes, e na sexta o papel fechou de volta acima da estreia.
Do lado do Bezos, US$ 28 bilhões do próprio bolso já entraram na Blue Origin, e em julho a empresa abriu a primeira rodada externa da história dela, pra levantar até US$ 10 bilhões. Sem confirmação de conclusão até o fechamento desta edição.
No ranking da Bloomberg de sexta, Musk lidera com US$ 851 bilhões. Bezos é o terceiro, com US$ 280 bilhões.
A antena a R$ 99 saiu meses antes da estreia prevista do rival. Pode ser escala, pode ser custo menor, e tem a cara de quem corre pra prender cliente antes de a concorrência chegar.
🎓 O que a teoria diz: por que o dominante baixa preço antes de o rival chegar?
A jogada tem nome: preço-limite. A ideia, que vem de Bain nos anos 1950 e foi formalizada por Milgrom e Roberts (Econometrica, 1982), é que o dominante corta preço quando a ameaça de entrada é crível, pra encolher a atração do mercado e o espaço do entrante. A segunda peça é o custo de troca (Klemperer, 1987): a antena de R$ 99 exige 12 meses no plano de R$ 249, que custa R$ 720 a mais que o plano básico no período. A Starlink subsidia o equipamento pra prender o assinante por um ano, exatamente a janela em que o Leo pretende estrear. Com dados públicos não dá pra separar estratégia de queda de custo e ganho de escala. Mas o desenho da promoção, subsídio na entrada e trava na saída, é o que os dois modelos preveem.
O que olhar é o sábado. Estreia do Leo barateia a internet rural na margem. Um novo adiamento, o quarto, esvazia a ameaça e tira a pressa da Starlink. Pra quem depende de antena no interior, essa diferença é a mensalidade dos próximos anos.
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🧠 Economia para não economistas
Só bilionário disputa o céu
Imagine abrir uma pizzaria com uma regra estranha: você só pode vender a primeira pizza quando a entrega funcionar em qualquer endereço do planeta. Não dá pra cobrir um bairro, faturar e crescer com o caixa. Ou a frota inteira está de pé ou não existe negócio.
Constelação de internet funciona assim. Os satélites voam baixo e se movem o tempo todo, então cobrir um único país exige a malha quase completa girando em volta da Terra. A Amazon deve gastar de US$ 16 a 20 bilhões antes de receber a primeira mensalidade cheia, pela estimativa da consultoria Quilty. A Starlink queimou mais de US$ 10 bilhões até parar de perder dinheiro, pelas contas de analistas. A europeia OneWeb só sobreviveu com o Estado francês virando o maior acionista.
Economista chama isso de barreira de entrada, e é ela que torna a ameaça do Leo tão rara: um rival capaz de afundar bilhões antes do primeiro cliente aparece uma vez por década. Quando o ingresso custa isso, a lista de jogadores é a lista de quem tem bilhões. Hoje, dois homens e um punhado de governos. Concorrência assim é melhor que monopólio, e vale torcer por ela. Só não espere dez opções no catálogo. No céu, dois já é multidão.
📚 Vale ler
O levantamento que mostra onde a Starlink é a maior operadora do país O Poder360 cruzou os dados da Anatel por perfil de município: 12,8% da banda larga nos hiper-rurais. Poder360 · Infraestrutura · jun/2026 |
O acordo do MPF com a Starlink contra o garimpo ilegal O termo que criou o cadastro obrigatório na Amazônia Legal e a entrega de dados sem ordem judicial. MPF · Acordo · jun/2025 |
Os números oficiais da banda larga em junho, com a Starlink em 11ª A Teletime destrincha o painel da Anatel que alimenta o gráfico do primeiro bloco. Teletime · Anatel · ago/2026 |
A homologação que abriu a porta do Amazon Leo no Brasil O certificado do roteador, o que ainda falta homologar e o prazo de 29 de agosto. Canaltech · Telecom · ago/2026 |
A Sky vai vender o Leo começando pelo Sul O plano de varejo anunciado pelo presidente da empresa, antes da marca Sky Link existir. Telesíntese · Telecom · nov/2025 |
