Daily Brew

QUINTA-FEIRA · 24 DE SETEMBRO DE 2026

Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.

☕ Bom dia

A economia americana acelerou no ritmo mais forte em cinco anos, e juros e dólar subiram juntos.

O financiamento de veículos teve o melhor agosto desde 2011, mesmo com juros acima de 26% ao ano.

O Brasil passou os EUA e ficou em primeiro no ranking mundial de uso de cripto. ☕

1 · Juros · O salto da economia americana

A economia americana teve o maior salto em cinco anos e empurrou juros e dólar pra cima

A economia americana acelerou em setembro no ritmo mais forte desde julho de 2021. O sinal veio ontem do PMI, a pesquisa mensal da S&P Global com mais de mil empresas. O índice foi de 56 para 58,4, e acima de 50 já é crescimento. Pela conta da S&P, é uma economia crescendo perto de 5% ao ano.

O empurrão veio de dentro dos EUA. Os pedidos novos cresceram no ritmo mais forte desde 2022 e as empresas contrataram como não faziam havia mais de quatro anos.

Dirigentes do Fed apontam a corrida da inteligência artificial como parte do motor, com as gigantes de tecnologia erguendo data centers. O corte de impostos que o Trump sancionou em 2025 também pôs mais dinheiro com famílias e empresas.

Os custos das empresas subiram no ritmo mais forte desde outubro de 2022, puxados por combustível e frete. Com a fila de pedidos crescendo, fica mais fácil repassar isso pro preço.

O dado dá razão à alta de juros que o Fed fez na quarta passada, a primeira desde 2023. A taxa foi para 3,75% a 4% ao ano, e 16 dos 18 dirigentes já projetavam mais uma alta até dezembro.

Ontem o diretor Michael Barr disse que novas altas provavelmente serão necessárias. No mercado de futuros, a chance de alta já na reunião de 28 de outubro passou de 70%.

Ontem os juros e o dólar subiram juntos:

  • os títulos de 10 anos do Tesouro americano fecharam a 5,11% ao ano, o maior nível desde julho de 2007
  • o dólar subiu 0,5% contra as principais moedas e 1,3% contra o real, a R$ 5,17, com a pesquisa eleitoral também no preço
  • as ações de Nova York caíram 0,8%, e as de tecnologia, 1,1%

O petróleo subiu quase 4% e fechou a US$ 103, com EUA e Irã trocando ameaças na ONU.

Quando o título americano paga mais de 5% com risco quase zero, parte do dinheiro que estava nos emergentes volta pros EUA, e o dólar sobe.

Aqui, o dólar mais caro chega ao preço de importados, eletrônicos e combustível. Na pesquisa que o Banco Central faz com economistas antes de cada reunião, 53% já esperam pausa nos cortes de juros em novembro.

Mohamed El-Erian, conselheiro econômico da Allianz, acha o remédio arriscado. Num artigo na terça, ele escreveu que os mercados empurram os bancos centrais pra altas que podem enfraquecer a economia sem necessidade, contra uma inflação que vem muito do petróleo.

🎓 O que a teoria diz: por que a corrida da IA empurra os juros pra cima?

Toda economia tem uma taxa de juros que nem acelera nem freia a atividade, a chamada taxa neutra. A ideia é do sueco Knut Wicksell, de 1898. Quando as empresas querem investir muito mais do que as famílias querem poupar, essa taxa sobe. Se o banco central fica abaixo dela, o crédito sai barato demais e os preços sobem.

Antes de assumir o Fed, o Warsh defendeu que a inteligência artificial seria uma grande força contra a inflação e abriria espaço pra juros menores.

A diretora do Fed Lisa Cook disse em fevereiro que o investimento em data centers e chips, forte mesmo com juros altos, pode ter deixado a taxa neutra acima da de antes da pandemia. A projeção dos dirigentes do Fed pros juros no longo prazo, que é como eles medem a taxa neutra, subiu de 2,5% em 2023 para 3,2% agora. Descontada a inflação, o título de 10 anos dos EUA paga perto de 2,8% ao ano, o maior nível desde 2008.

E daí?

A taxa neutra do Brasil depende da de fora. Numa das contas que o Banco Central usa pra estimar a nossa, ela é a americana somada ao prêmio que o investidor cobra pra arriscar dinheiro no país. O BC trabalha hoje com 5% acima da inflação.

Os juros reais de um ano estavam perto de 8,5% na semana passada, então ainda há espaço pra cortar. Mas se o piso lá fora sobe, o daqui sobe junto, e a queda dos juros básicos termina mais cedo.

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2 · Crédito · O financiamento de veículos

Mesmo com juros acima de 26% ao ano, o financiamento de veículos teve o melhor agosto em 15 anos

Foram 684 mil carros, motos e caminhões financiados em agosto, segundo a Trillia, a empresa de dados da B3. É o maior número para o mês desde 2011 e 10% a mais que em agosto do ano passado.

O ano inteiro vai no mesmo ritmo:

  • 5,1 milhões de veículos financiados de janeiro a agosto, alta de 10%
  • 478 mil carros e utilitários leves só em agosto
  • 178 mil motos, quase 5% a mais que um ano antes

O crédito está caro e o brasileiro financiou mais assim mesmo. O financiamento de veículos cobrava em média juros de 26,5% ao ano em julho, pela conta do Banco Central. E na ata de terça o Copom disse que o crédito já sente o efeito dos juros altos.

Fizemos a conta: um carro de R$ 90 mil com 20% de entrada, financiado em 48 meses a essa taxa, sai por cerca de R$ 2.340 por mês. Só de juros o comprador paga R$ 40 mil, quase metade do preço do carro.

O carro zero ficou mais barato por decreto. Desde julho de 2025, o programa Carro Sustentável zera o IPI dos compactos feitos no Brasil com emissão baixa. A Fenabrave, a associação das concessionárias, atribui ao programa o resultado acima do previsto nos carros, e os emplacamentos de veículos subiram quase 17% sobre agosto do ano passado.

O emprego ajuda. O desemprego ficou em 5,3% no trimestre até julho, o menor para esse período desde 2012, quando a pesquisa do IBGE começou. O IPI zero do programa vale até o fim de 2026.

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3 · Cripto · O ranking mundial

O Brasil passou os EUA e ficou em primeiro no ranking mundial de uso de cripto

O Brasil ficou em primeiro lugar entre 117 países no índice de adoção de criptomoedas da Chainalysis, empresa americana que rastreia transações em blockchain. O ranking saiu ontem. Os EUA ficaram em segundo, à frente de Nigéria, Japão e Coreia do Sul.

Em 12 meses até junho, a economia de cripto do país movimentou mais de US$ 250 bilhões. Quem puxa o Brasil é a stablecoin, a moeda digital atrelada ao dólar. Ela passou o bitcoin na demanda dos brasileiros, e boa parte do movimento vem de empresas que usam stablecoin pra ter liquidez e fazer transferências internacionais.

O índice mudou de método este ano e agora dá o mesmo peso a quatro frentes: o dinheiro que entra em corretoras e outros serviços, as trocas diretas entre pessoas dentro do país, o que atravessa a fronteira e o saldo guardado.

O Brasil foi segundo no fluxo com o exterior, terceiro nas trocas entre pessoas e nos serviços, e quarto no saldo.

Os EUA lideram no saldo guardado, mas são só o 20º nas trocas entre pessoas. Lá, cripto funciona mais como investimento do que como meio de pagamento.

O preço das criptomoedas caiu perto da metade no período e o uso quase não mudou. O valor de mercado perdeu US$ 2,1 trilhões, e a atividade medida pela Chainalysis caiu menos de 2%.

Desde fevereiro, o Banco Central enquadra parte das operações com stablecoin como câmbio, pelas regras que criou em novembro do ano passado para o setor.

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📈 Mercados

AtivoFechamentoNo dia
Ibovespa185.814 pts-0,86%
DólarR$ 5,1689+1,27%
S&P 5007.706 pts-0,75%
Nasdaq26.936 pts-1,13%
Petróleo (Brent)US$ 103,08+3,86%
OuroUS$ 4.318,40-1,33%

Fechamento de quarta, 23 de setembro. Dólar à vista no fechamento. Petróleo: contrato Brent na ICE. Ouro: contrato de dezembro na Comex. Fontes: B3, ICE e Comex.

Que nota você dá pra edição de hoje?

📅 O que vem aí

HOJE · 8h

Relatório de Política Monetária

O Banco Central atualiza as projeções de inflação e de crescimento. A coletiva é às 11h.

HOJE

Relatório bimestral do Orçamento

O governo diz se vai congelar gastos. A Receita já cortou de R$ 29 bilhões para R$ 10,5 bilhões o que espera arrecadar com o imposto sobre dividendos em 2026.

HOJE

Trump recebe Xi Jinping

Os presidentes dos EUA e da China se encontram em Washington, com tarifas e minerais estratégicos na pauta.

SEXTA · 9h

IPCA-15

A prévia da inflação oficial de setembro, a última leitura antes do primeiro turno.

📚 Vale ler

O relatório da pesquisa com as empresas americanas

os números de produção, emprego e preços de setembro, com o comentário do economista-chefe (em inglês).

S&P GLOBAL · EUA · 23/09/2026

A fala da Lisa Cook sobre inteligência artificial e juros

a diretora do Fed explica por que o investimento em IA pode ter subido a taxa neutra (em inglês).

FEDERAL RESERVE · JUROS · 24/02/2026

El-Erian vê bancos centrais empurrados para uma sequência de altas

o resumo do artigo que ele publicou no Financial Times (em inglês).

BUSINESS INSIDER · JUROS · 22/09/2026

Financiamento de veículos tem o melhor agosto em 15 anos

os números da Trillia por tipo de veículo e por região.

B3 · CRÉDITO · 22/09/2026

A economia de cripto quase não encolheu, mesmo com a queda dos preços

o levantamento da Chainalysis com o Brasil em primeiro (em inglês).

THE BLOCK · CRIPTO · 23/09/2026