
DOMINGO · 25 DE OUTUBRO DE 2026 · EDIÇÃO ESPECIAL
Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.
Coluna do Papo Econômico
O Papo Econômico cobre mercado, política fiscal e macro todos os dias. Análises com dados primários, sem filtro partidário: a régua é o número, não o governo.
Edições especiais como esta saem quando o tema pede mais do que um tweet.
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☕ Bom domingo
Em 2025, o Paraguai usou 36% da energia de Itaipu, ficou com 59% dos repasses financeiros da usina e bancou 11% dos custos. Os números são do Instituto Acende Brasil, publicados pelo Brazil Journal na sexta-feira, e o resto da conta caiu do lado de cá. Desde o início da operação, o Brasil pagou US$ 89,8 bi líquidos por Itaipu, e o Paraguai recebeu US$ 5,9 bi líquidos. Na quarta-feira, o Departamento de Estado americano anunciou que a Crusoe, empresa dos EUA, e a paraguaia Araico vão instalar um data center de inteligência artificial ligado à metade paraguaia da usina. Serão 106 MW no começo, com opção de chegar a cerca de 280 MW, e a primeira fase entra em meados de 2027. E o acordo de tarifa de 2024 vale só até 31 de dezembro, enquanto a revisão do Anexo C, a parte do tratado com as regras financeiras, segue travada.
A briga pela renda de Itaipu não é nova, e passou por governos diferentes dos dois lados. Em 2009, um acordo entre os dois países triplicou a compensação que o Brasil paga pela energia cedida pelo Paraguai: de US$ 120 mi para US$ 360 mi por ano. A Câmara aprovou a mudança por 285 votos a 54, em 2011. Em 2023, com a última parcela da dívida de construção quitada, a tarifa caiu de US$ 20,75 para US$ 16,71 por kW ao mês. Em 2024, subiu de novo para US$ 19,28 por três anos. Nenhuma dessas mudanças tocou no texto do tratado. Todas mudaram quanto cada lado paga ou recebe.
Esta edição responde a três perguntas. Quanto é, de verdade? De cada US$ 19,28 da tarifa, cerca de US$ 8 vão além do custo de operar a usina, pela estimativa do próprio governo brasileiro. Por que o Paraguai ganhou força justamente agora? Porque, sem dívida, a renda passa a ser dividida pelo que cada lado consegue fora da mesa, e o data center já deixa ao Paraguai mais por MWh do que a energia cedida ao Brasil. Quem paga a conta, e quando? Cerca de 65 milhões de unidades consumidoras do Sul, Sudeste e Centro-Oeste, a partir de janeiro, e com uma sobra paraguaia que encolhe a cada ano.
O número que guia o texto: o consumidor brasileiro paga cerca de R$ 8,8 milhões por dia acima do custo de operar Itaipu. Entender de onde sai esse dinheiro, e por que ele está mais difícil de recuperar, é entender a mesa que abre em novembro.
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Energia · A conta por tipo
Tarifa · CUSE · Anexo C · Cessão · Royalties · Socioambiental · Aporte
De cada US$ 19,28 da tarifa, cerca de US$ 8 pagam algo além de operar a usina
O número do post separa três coisas que costumam vir misturadas. A primeira é energia: em 2025, Itaipu gerou 72,9 TWh, e o Paraguai usou 25,8 TWh, o suficiente para cobrir 87,6% do consumo do país. No Brasil, a mesma usina responde por 6,7% do consumo. A segunda é repasse: royalties, ressarcimentos e a compensação pela energia cedida. Os royalties são iguais para os dois países: US$ 246,5 mi para cada um em 2025. Já a compensação pela cessão, de US$ 165,1 mi, vai só para o Paraguai, e é ela que desequilibra a divisão. A terceira é custo: quem efetivamente paga a conta. No relatório anual de 2025 da própria Itaipu, o MWh saiu em média a US$ 26,61 para o Paraguai e a US$ 49,94 para o Brasil.
A tarifa de Itaipu, que o setor chama de CUSE (custo unitário do serviço de eletricidade), é cobrada em dólar por kW de potência contratada ao mês, e não por energia gerada. O acordo de 2024 fixou US$ 19,28 para 2024, 2025 e 2026. O mesmo acordo prevê que, depois de 2026, a tarifa reflita só o "custo estrito de operação". O número não foi fixado. Mas o governo brasileiro trabalha com US$ 10 a 12, e a Consultoria Legislativa da Câmara e o próprio Acende chegaram a contas perto disso. É esse o corte que o gráfico abaixo faz.

Fonte: Aneel (voto do processo 48500.003426/2024-96, fev/2025) para CUSE, valor pago pelo consumidor, aporte e parcela de cessão; custo de operação pela estimativa do governo brasileiro (US$ 10 a 12, ponto médio de US$ 11), via Agência Brasil (14/04/2026). Elaboração: Daily Brew
Item a item. O custo de operar a usina fica na faixa de US$ 10 a 12. O que sobra até os US$ 19,28 tem dois pagadores. O consumidor brasileiro paga US$ 16,71, e os US$ 2,57 restantes são cobertos por um aporte do caixa da própria Itaipu, de US$ 285 mi em 2026, cerca de R$ 1,5 bi. Foi assim que o acordo de 2024 conseguiu anunciar que a conta não subiria. Na prática, a tarifa subiu, e quem pagou a diferença foi o próprio caixa da usina, que antes voltava ao consumidor de outro jeito. Em 2025, o arranjo deixou um rombo de R$ 333 mi na conta que repassa a energia às distribuidoras. Um decreto de fevereiro autorizou cobri-lo com recursos do bônus de Itaipu, o desconto que aparece uma vez por ano na conta de luz.
Para onde vai o dinheiro acima do custo de operar? A maior parte vai para o que a usina chama de programas socioambientais. Eram cerca de US$ 100 mi por ano até 2016, chegaram a US$ 505 mi em 2022 e a US$ 1,2 bi em 2025, somando os dois lados, segundo o Acende. A base legal é uma nota diplomática de 2005 que nunca passou pelo Congresso. Do lado brasileiro, o dinheiro pagou obras como convênios para a COP-30 em Belém e prédios da Unila, a universidade federal em Foz do Iguaçu. Em maio, o TCU arquivou uma representação sobre esses gastos. Não viu irregularidade formal, mas registrou indícios de que eles foram além de compensar o impacto da usina. E disse que não pode auditar a binacional, porque a comissão de contas prevista desde 2021 nunca foi criada. Claudio Sales, presidente do Acende, chama isso de orçamento paralelo.

Fonte: Instituto Acende Brasil, via Brazil Journal (23/10/2026). Valores anuais em dólares correntes, somando os lados brasileiro e paraguaio. "Até 2016" é a média aproximada informada pelo instituto. Elaboração: Daily Brew
Em reais, a conta fica assim. O Brasil contratou 111,2 mil MW-mês de potência para 2026, e a tarifa de repasse às distribuidoras é de US$ 17,66 (os US$ 16,71 mais a cessão). Ao câmbio de outubro, de R$ 5,05, são cerca de R$ 9,9 bi por ano. Se a tarifa fosse só o custo de operação, de US$ 11 no ponto médio, seriam R$ 3,2 bi a menos: R$ 8,8 mi por dia. O curioso é que, mesmo com esse peso, Itaipu ainda é mais barata que a média do que as distribuidoras compram. Sai por cerca de R$ 216/MWh, contra R$ 343 do custo médio do mercado regulado em 2026. Barata para o portfólio, cara para uma usina de 1984 que já está paga.

Fonte: MME/Aneel, Informativo Tarifário do Setor Elétrico, 1º semestre de 2026, Tabela 2 (tarifa de repasse, CUSE + cessão, 2019 a 2026). 2027: CUSE estimado pelo governo brasileiro (US$ 10 a 12, Agência Brasil, 14/04/2026) e valor com que o governo trabalhava em setembro (US$ 15, CNN Brasil, 01/09/2026), sem a parcela de cessão. Elaboração: Daily Brew
☝ A defesa razoável
O argumento paraguaio é forte, e tem número. O tratado diz que a usina é meio a meio, mas em 41 anos de operação o Paraguai usou cerca de 10% da energia. Cedeu ao Brasil 1.234 TWh e recebeu US$ 5,53 bi, ou US$ 4,48 por MWh cedido, segundo dados da Itaipu compilados pelo jornal ABC Color. É uma fração do que o Brasil paga hoje em qualquer leilão. O Paraguai também paga a tarifa cheia de US$ 19,28, enquanto o consumidor brasileiro paga US$ 16,71. Mercedes Canese, ex-vice-ministra de Energia do Paraguai, estima em US$ 1,8 bi por ano o que o país deixa de ganhar por não vender a sobra a preço de mercado. É uma conta de parte interessada, mas a direção é difícil de contestar. Do lado brasileiro, o gasto socioambiental também tem defesa: metade dele vira obra no Brasil, e não some. A questão é se esse benefício compensa tirar do orçamento, e do alcance do Congresso, um gasto que já chega a US$ 1,2 bi por ano.
Tá, o Brasil paga a maior parte da conta. Mas por que o Paraguai, que usa menos da metade, ganhou força justamente agora?
Teoria · O dono da outra metade
Hold-up · Quase-renda · Barganha de Nash · Opção externa · Data centers · Renegociação
Sem dívida, a renda de Itaipu se divide pelo que cada lado consegue fora da mesa
Em 1978, três economistas americanos, Benjamin Klein, Robert Crawford e Armen Alchian, publicaram no Journal of Law and Economics o exemplo que virou a base da teoria. Uma gráfica aluga uma prensa a um editor por US$ 5.500 por dia. O custo de operação é de US$ 1.500, e a prensa, vendida como sucata, valeria US$ 1.000. Se o segundo editor da cidade pagaria no máximo US$ 3.500, o primeiro pode, depois que a prensa está instalada, baixar o preço até perto disso sem perder o serviço. Os US$ 2.000 de diferença são o que os autores chamam de quase-renda apropriável: o valor que fica exposto a quem tiver o melhor segundo comprador. A esse risco a teoria dá o nome de hold-up, que dá para traduzir como ficar refém do outro lado depois de investir.
Itaipu é o caso-limite. A usina não sai do lugar, o reservatório inundou terra dos dois países, e Oliver Williamson, Nobel de 2009, chamaria a relação de monopólio bilateral: um único vendedor diante de um único comprador. Durante 50 anos, a divisão funcionou porque a tarifa era a prestação da dívida, e o Brasil era ao mesmo tempo credor e comprador. A ameaça paraguaia de não ceder a energia valia perto de zero, porque não havia a quem vender. Em fevereiro de 2023, a dívida acabou. O que sobrou para dividir não é mais custo a recuperar, é renda pura. E renda pura, ensina a teoria da barganha de John Nash, se divide pelos pontos de ameaça de cada lado, não pelo que cada um gastou no passado.
É aqui que entra o data center. Hoje, ceder um MWh ao Brasil rende ao Paraguai a compensação de cerca de US$ 16 (os US$ 165,1 mi de 2025 divididos pelos 10,5 TWh cedidos). O contrato da estatal paraguaia ANDE com o projeto da Araico, segundo a imprensa paraguaia, paga US$ 45 a 48 por MWh. Como a ANDE paga a Itaipu em média US$ 26,61, sobram US$ 18 a 21 por MWh. Pela teoria, a opção externa só muda a divisão se for crível, isto é, se a parte de fato preferir sair. Com o data center pagando US$ 20 por MWh, a ameaça seria vazia. Com US$ 45 a 48, ela já supera o que a cessão rende.

Fonte: compensação por cessão de 2025 (US$ 165,1 mi) e energia cedida (10.455 GWh), Itaipu e MME; tarifa do contrato ANDE–Araico (US$ 45 a 48/MWh), ABC Color (23/10/2026) e Sitrande; custo médio da ANDE (US$ 26,61/MWh), Relatório Anual 2025 da Itaipu, via ABC Color. Barra de 2027: custo da ANDE reduzido na proporção de um CUSE de US$ 10 a 12. Estimativas da Daily Brew; o contrato da ANDE não foi publicado. Elaboração: Daily Brew
O gráfico tem um paradoxo que vale a segunda-feira. Quanto mais barata for a tarifa que o Brasil conseguir, maior fica a margem do Paraguai com o data center, porque o custo da ANDE cai junto. A uma tarifa de custo, de US$ 10 a 12, a sobra vendida a US$ 45 renderia cerca de US$ 30 por MWh ao Paraguai, quase o dobro da compensação atual. A meta brasileira de tarifa baixa e a meta de manter a sobra paraguaia puxam em direções opostas. E o que está em jogo é grande. O campus da Araico tem meta de até 1,3 GW no longo prazo, o que consumiria 11,4 TWh por ano. É mais do que toda a energia que o Paraguai cedeu ao Brasil em 2025.
O Brasil também tem opção externa, e ela é menos confortável do que parece. Em novembro de 2025, o leilão de energia existente fechou a R$ 207,81/MWh, menos que os cerca de R$ 216 que o consumidor paga hoje por Itaipu. A energia de Itaipu só volta a ser claramente barata se a tarifa cair ao custo de operação, que daria cerca de R$ 132 a 144/MWh. Pela teoria, é a mesa e não o passado que decide se isso acontece.
Onde esta conta pode falhar? Em três pontos. O contrato da ANDE não foi publicado, e os US$ 45 a 48 vêm da imprensa paraguaia. O próprio Peña disse, no começo de outubro, que usar toda a energia de Itaipu depende de uma linha de transmissão ainda em construção. E a ANDE, segundo o jornal paraguaio El Prisma, considera difícil vender no mercado brasileiro e não prepara a rede para isso. A ameaça paraguaia já é crível no preço. No fio, ainda está sendo construída. A experiência internacional mostra os dois desfechos possíveis.
Quando a renda de uma usina foi renegociada
| Caso | O que mudou | Quem ganhou |
|---|---|---|
| Itaipu, 2009 | Compensação pela cessão de US$ 120 mi para US$ 360 mi por ano | Paraguai |
| Yacyretá (Paraguai–Argentina), 2017 | Dívida paraguaia de US$ 17,3 bi para US$ 4,1 bi; compensação de US$ 8,7 para 10,5/MWh. O Congresso argentino não ratificou | Ninguém, até agora |
| Rio Columbia (EUA–Canadá), 2024 | Energia devida ao Canadá cai cerca de 37% já e cerca de 50% até 2033, porque a alternativa americana mudou | Quem paga a renda |
| Churchill Falls (Canadá), 2026 | Preço fixado em 1969 a 0,2 centavo/kWh passa a cerca de 1,8 centavo em 2027, com uma usina nova na mesa | Quem é dono da água |
| Lesoto–África do Sul, 1986 | Royalty definido como 56% da economia do comprador contra a sua alternativa doméstica | Dividido por regra |
Fonte: Itaipu e Câmara dos Deputados (2009/2011); EBY e imprensa paraguaia (Yacyretá); governo do Canadá, descrição do acordo em princípio, 30/08/2024 (Columbia); BLG e imprensa canadense, set/2026 (Churchill Falls); Departamento de Água da África do Sul (Lesoto). Elaboração: Daily Brew
O padrão aparece também nos números. José Luis Guasch, então no Banco Mundial, estudou mais de mil concessões de infraestrutura na América Latina, de meados dos anos 1980 a 2000, e achou 30% renegociadas, mas só 9,7% em eletricidade. A razão que ele dá é a opção externa: em energia, o governo tem outros fornecedores, e o concessionário perde poder. Em Itaipu, as duas partes são Estados, e quem renegocia é sempre o soberano. Num estudo com Jean-Jacques Laffont e Stéphane Straub sobre 307 concessões, a renegociação partiu do governo em 30,6% dos casos e da empresa em 17,3%.
📌 E daí?
A regra do tratado explica o formato da briga. Qualquer mudança no Anexo C exige consenso entre os dois governos e aprovação dos dois Congressos, e não existe tribunal que obrigue um Estado a cumprir prazo. O prazo de 2024 venceu sem acordo, e nada aconteceu. Jonathan Thomas e Tim Worrall mostraram em 1994 que, nesse tipo de relação, o acordo só se sustenta pelo valor do futuro em comum. Paul Joskow mostrou em 1987, com 277 contratos de carvão, que quanto mais específico o ativo, mais longo o contrato. Itaipu trocou um tratado de 50 anos por acordos de três. Cada vencimento vira uma nova mesa. O Tratado do Rio Columbia, por contraste, não tem data de fim: qualquer lado pode sair com dez anos de aviso, o que tira a pressa da renegociação.
A teoria explica por que a mesa ficou mais equilibrada. Mas, se nada for assinado até 31 de dezembro, quanto isso custa na conta de luz?
Bolso · A conta que fica
Conta de luz · Câmbio · IPCA · Sobra paraguaia · Mercado livre · Prazo
Entre a tarifa de custo e a que está na mesa, a diferença chega a R$ 3,8 bi por ano
A partir de 1º de janeiro, há três destinos possíveis. A tarifa cai ao custo de operação, como prevê o acordo de 2024. Fica num meio-termo, como os US$ 15 com que o governo brasileiro trabalhava em setembro. O diretor paraguaio da Itaipu disse querer um acordo de três a cinco anos, com tarifa "um pouco elevada". Ou fica nos US$ 19,28 sem o aporte, se nada for assinado e o caixa da usina não cobrir mais a diferença. A tabela compara cada cenário com o que o consumidor paga hoje.
Quanto cada tarifa de 2027 muda na conta
| CUSE em 2027 | Por ano | Por dia | Por unidade consumidora |
|---|---|---|---|
| US$ 10 (custo, piso) | −R$ 3,8 bi | −R$ 10,3 mi | −R$ 58 |
| US$ 11 (custo, ponto médio) | −R$ 3,2 bi | −R$ 8,8 mi | −R$ 49 |
| US$ 12 (custo, teto) | −R$ 2,6 bi | −R$ 7,2 mi | −R$ 41 |
| US$ 15 (cenário de setembro) | −R$ 1,0 bi | −R$ 2,6 mi | −R$ 15 |
| US$ 19,28 sem aporte | +R$ 1,4 bi | +R$ 4,0 mi | +R$ 22 |
Conta da Daily Brew contra o CUSE de US$ 16,71 pago hoje pelo consumidor, com a potência contratada de 2026 (111.216 MW-mês, Aneel) e a PTAX média de outubro de 2026 (R$ 5,05, BCB, série 1). Unidades: cerca de 65 milhões nas distribuidoras do Sul, Sudeste e Centro-Oeste (MME, Informativo Tarifário, Tabela 12), média de todas as classes, antes de impostos.
Para a família, a escala é menor do que o total sugere, e isso explica por que o tema passa despercebido. Pela nossa estimativa, Itaipu pesa algo como 5% a 6% da tarifa das distribuidoras compradoras. O corte para US$ 11 renderia cerca de R$ 40 por ano, com impostos, numa conta residencial de 160 kWh por mês. No IPCA, o efeito estimado, também pela nossa conta, é de 0,04 a 0,06 ponto, diluído ao longo dos reajustes de cada distribuidora. A comparação de escala vem de agosto: o bônus de Itaipu de R$ 872 mi derrubou a energia residencial em 7,63% no mês e ajudou o IPCA a fechar em −0,32%. O bônus é de uma vez. A tarifa é para sempre.
Há um alívio que não veio da mesa. Como a tarifa é em dólar, o real mais forte barateou Itaipu sem negociação nenhuma. A PTAX média caiu de R$ 5,59 em 2025 para R$ 5,05 em outubro, cerca de 10% a menos. Câmbio, porém, vai e volta, e a tarifa não.
Por que a tarifa não cai, mesmo com a dívida paga? São cinco razões, todas no tratado ou na conta. Um: cortar o gasto socioambiental tira dinheiro de obras dos dois lados. Dois: o Paraguai depende dessa renda: recebeu US$ 462 mi da usina em 2025, e o presidente Santiago Peña respondeu com um não, em janeiro, quando perguntado se a tarifa deveria baixar. Três: mudar o Anexo C exige consenso e dois Congressos. Quatro: o aporte esconde o aumento, porque o consumidor brasileiro não sentiu os US$ 19,28. Cinco: cada dólar de corte melhora a opção externa do outro lado.

Fonte: energia suprida à ANDE (19.515 GWh em 2023, 20.383 GWh em 2024 e 25.768 GWh em 2025) e produção de Itaipu, dados da Itaipu e do MME via Última Hora, ABC Color e TAGD Advogados; metade paraguaia = 50% da produção. Projeções: ANDE (2033, via Gazeta do Povo) e Itaipu ("por volta de 2035"). Campus de 1,3 GW: meta de longo prazo da Araico, operando o ano todo. Elaboração: Daily Brew
E o tempo corre contra quem compra. Em 2023, o Paraguai usou 47% da sua metade. Em 2025, já usava 71%, e a energia cedida ao Brasil caiu de 22,2 TWh para 10,5 TWh em dois anos. A ANDE projeta usar a metade inteira em 2033, e a Itaipu fala em "por volta de 2035", antes da onda de data centers. O acordo de 2024 permite ao Paraguai vender a sobra no mercado livre brasileiro. Se isso acontecer, as distribuidoras perdem cerca de 10 TWh por ano de uma energia que, a preço de custo, sairia por R$ 132 a 144/MWh. Pela nossa conta, repor isso no mercado custaria de R$ 0,65 bi a R$ 2,15 bi por ano. Seria de um quinto a quatro quintos da economia com a tarifa mais baixa.
🎓 O que a teoria diz
Quem tem mais pressa leva menos. Em 1982, Ariel Rubinstein mostrou que, numa barganha de ofertas alternadas, ganha mais quem perde menos com a espera. A fórmula do equilíbrio dá ao primeiro a propor a fatia (1 − δ₂)/(1 − δ₁δ₂), em que δ mede a paciência de cada lado. Em Itaipu, a paciência mudou de dono. O Paraguai depende da renda da usina para o orçamento, mas cada ano de impasse aumenta o uso da sua metade e a sua opção externa. O Brasil tem o aporte para empurrar o problema, mas cada ano de espera encolhe a sobra que ele quer comprar barato. Ken Binmore, Avner Shaked e John Sutton mostraram em 1989, em laboratório, que a ameaça de sair só conta quando é crível. A analogia doméstica é a do prédio de dois irmãos. O mais rico pagou a construção com empréstimo e aluga os apartamentos vazios do outro pelo preço de custo. Quando a hipoteca acaba, o aluguel deixa de ser a prestação e passa a ser o que cada um conseguiria lá fora. E, nesta semana, apareceu um inquilino novo batendo à porta do irmão mais pobre.
A conta tem tamanho e tem prazo. Falta dizer quem, exatamente, vai pagá-la.
Brasil · Quem paga
Distribuidoras · Bônus · Data centers · ANDE · Royalties
A conta tem quatro endereços, e só um deles aparece na fatura
1. O consumidor cativo do Sul, Sudeste e Centro-Oeste. São cerca de 65 milhões de unidades consumidoras atendidas por mais de 30 distribuidoras em dez estados e no Distrito Federal, de Cemig, Enel e Copel a cooperativas gaúchas. Elas são obrigadas a comprar a energia de Itaipu, e a tarifa de repasse custa hoje cerca de R$ 153 por unidade por ano, na média de todas as classes. O mecanismo é direto: a tarifa em dólar entra na conta de energia que as distribuidoras repassam ao consumidor. Entre o melhor e o pior cenário de 2027, a diferença é de cerca de R$ 80 por unidade por ano.
2. O consumidor de todo o país, pelo bônus. O bônus de Itaipu, que em 2026 somou R$ 872 mi, vai para residências e propriedades rurais de baixo consumo de todo o sistema, não só das distribuidoras compradoras. Ele sai do saldo da mesma conta que paga a energia de Itaipu. Quando o caixa da usina é usado para segurar a tarifa ou cobrir rombo, como em 2025, sobra menos para devolver. Desde 2024, a Itaipu aportou R$ 4,9 bi para conter reajustes, até abril de 2026. O consumidor não vê o custo na tarifa, mas paga no desconto que deixa de receber.
3. A indústria brasileira de data centers. Marcos Peigo, CEO da Scala Data Centers, disse ao Brazil Journal que o Paraguai pode chegar a 1 GW de data centers antes do Brasil. A condição é o Brasil demorar com os incentivos tributários estaduais, depois do Redata, o regime especial do setor sancionado em setembro. A metade brasileira de Itaipu não pode ser vendida a um data center: ela está presa às distribuidoras do mercado regulado. A paraguaia pode. O mecanismo aqui é de concorrência: a mesma usina abastece, do outro lado da fronteira, um competidor com energia a US$ 45 a 48 por MWh.
4. O consumidor paraguaio. O acordo de 2024 obriga a ANDE a contratar toda a potência que usa. Pelas contas do MME, isso devolve até US$ 60 mi por ano ao consumidor brasileiro; pelas de um ex-presidente da ANDE, custa o mesmo à estatal paraguaia. Uma tarifa de custo baixa a conta paraguaia também, mas reduz a renda que financia o orçamento e os programas da binacional do lado de lá. Quem não paga nem recebe a mais: os municípios. Os royalties são fixados por GWh gerado e não dependem da tarifa. Em 2025, foram R$ 1,38 bi para 347 municípios, seis estados e a União, e R$ 761 mi só para 49 municípios do Paraná.
Quatro endereços e um prazo. Fica a pergunta do post: brigar pela energia barata de Itaipu ou deixar o Paraguai vender a quem pagar mais?
☕ Fechando a conta
Quanto é, de verdade? De cada US$ 19,28 da tarifa, cerca de US$ 8 vão além do custo de operar a usina. O consumidor brasileiro paga perto de R$ 3,2 bi por ano acima desse custo, ou R$ 8,8 mi por dia. Parte do aumento de 2024 ficou escondida no caixa da própria Itaipu, que é o mesmo caixa do bônus.
Por que o Paraguai ganhou força? Porque, com a dívida paga, a renda passou a se dividir pela opção externa de cada lado, e a paraguaia ficou crível nesta semana. O data center deixa ao Paraguai US$ 18 a 21 por MWh, contra cerca de US$ 16 da cessão ao Brasil. Quanto mais barata a tarifa, maior essa margem. Quem paga, e quando? Primeiro os 65 milhões de unidades do Sul, Sudeste e Centro-Oeste, a partir de 1º de janeiro, com até R$ 3,8 bi por ano em jogo. Depois, o consumidor de todo o país, pelo bônus. E o prazo não é só 31 de dezembro: a sobra paraguaia caiu pela metade em dois anos e deve acabar até a metade da próxima década.
A dívida de Itaipu acabou. A briga pela renda está começando.
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📅 O que vem
Quarta · 4/11
Copom. O comitê do BC decide a Selic, hoje em 13,75%, com o IPCA-15 de outubro abaixo do esperado e a energia como um dos itens que mais oscilam no índice.
Novembro
Mesa de Itaipu. O diretor paraguaio da usina espera decisões sobre a tarifa de 2027 por volta de novembro; não há data marcada.
Dezembro · 1ª quinzena
Aneel homologa a tarifa de 2027. Em 2025, a agência aprovou a tarifa de repasse em 9 de dezembro; sem CUSE novo, a tendência é tarifa provisória ou prorrogação, como em 2023 e 2024.
Quinta · 31/12
Vence o acordo de 2024. Acabam o CUSE de US$ 19,28 e o arranjo do aporte que segura a conta do consumidor brasileiro.
Meados de 2027
Data center no Paraguai. Primeira fase do projeto Crusoe–Araico, com 106 MW de capacidade e opção de chegar a cerca de 280 MW.
📚 Vale ler


