
SEGUNDA-FEIRA · 26 DE OUTUBRO DE 2026
Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.
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☕ Bom dia
O Lula foi reeleito de virada, e é a primeira vez que quem perde o primeiro turno ganha a Presidência.
A virada veio mais do Sudeste que do Nordeste, puxada por São Paulo, e as capitais mudaram mais que as cidades pequenas.
O Flávio não reconheceu o resultado e diz que vai pedir a anulação da eleição por causa das duas horas a mais de votação.
As pesquisas da véspera davam todas o Flávio na frente, e as ações brasileiras despencaram em Nova York durante a noite. ☕

1 · Eleição · A virada do Lula
O Lula saiu de 2,2 milhões de votos atrás para 4,4 milhões a frente e foi reeleito
O presidente Lula, do PT, foi reeleito ontem com 51,79% dos votos válidos, a conta que deixa de fora brancos e nulos. O senador Flávio Bolsonaro, do PL, teve 48,21%. A diferença foi de 4,4 milhões de votos, com 100% das seções apuradas pelo TSE.
A virada veio mais do Sudeste que do Nordeste, puxada por São Paulo. Os números estão no bloco 2.
É a primeira vez que quem terminou o primeiro turno na frente perde a eleição para presidente. Desde 1989, os sete líderes do primeiro turno tinham ganhado o segundo. No dia 4 o Flávio teve 47,03% e o Lula, 45,16%, uma vantagem de 2,2 milhões de votos para o candidato do PL.
Os 64,26 milhões de votos do Lula são a maior votação de um candidato a presidente no país. O recorde anterior era dele mesmo, 60,3 milhões em 2022. Aos 80 anos, ele é o primeiro brasileiro eleito quatro vezes presidente pelo voto direto, e a posse é em 5 de janeiro, a data nova fixada por uma emenda constitucional de 2021.
No discurso da vitória, em São Paulo, ele agradeceu à "juventude brasileira que foi para a rua para defender a democracia" e disse: "Nós vamos mudar o jeito de governar este país".
O Flávio não reconheceu o resultado e diz que vai pedir a anulação da eleição. A briga jurídica está no bloco 3.
Nos seis estados com segundo turno para governador, venceram Celina Leão (PP) no Distrito Federal, Lorenzo Pazolini (Republicanos) no Espírito Santo, Cadu (PT) no Rio Grande do Norte, Omar Aziz (PSD) no Amazonas, Mailza Assis (PP) no Acre e Vicentinho Júnior (PSDB) no Tocantins.
A conta dos votos de um turno para o outro:
- O Lula ganhou 10,4 milhões de votos, e o Flávio, 3,7 milhões.
- Os outros dez candidatos do primeiro turno tinham somado 9,3 milhões.
- Foram quase 3 milhões de eleitores a mais nas urnas e 1,8 milhão a menos de votos brancos e nulos.
- Somados, são 14,1 milhões de votos em disputa. Na conta que ignora quem trocou de lado, o Lula precisava de 58% deles para virar e levou 74%.
A abstenção caiu como nunca entre dois turnos. Ela foi de 21,1% para 19,2% do eleitorado, a menor num segundo turno desde 2006. Nos sete segundos turnos anteriores, desde 1989, ela tinha subido seis vezes, como mostra o gráfico. A única outra queda, em 2022, foi de 0,4 ponto.

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2 · Eleição · De onde veio a virada
São Paulo deu 1,4 milhão de votos da virada, mais que Bahia e Pernambuco somados
Do primeiro para o segundo turno, a diferença entre os dois mudou 6,66 milhões de votos a favor do Lula. Em pontos dos votos válidos, ela andou na direção dele nos 27 estados e em 5.389 dos 5.571 municípios, 97% do total.
O Sudeste deu mais votos à virada que o Nordeste. São Paulo respondeu sozinho por 1,4 milhão, 21% da mudança. Minas deu 698 mil e o Rio, 670 mil. Somado, o Sudeste respondeu por 43% da virada, e o Nordeste, por 38%. O Sudeste tem 42% do eleitorado, e lá a diferença também andou mais em pontos: 6,2, contra 5,8 no Nordeste.

Minas foi o único estado que trocou de lado. O Flávio tinha vencido lá o primeiro turno por 589 mil votos, e o Lula ganhou o segundo por 109 mil. Em São Paulo o Flávio continuou na frente, mas a vantagem dele caiu de 3,4 milhões para 2 milhões. Em seis estados ele teve menos votos que no primeiro turno, e em todos menos gente foi votar: Acre, Amapá, Roraima, Amazonas, Tocantins e Maranhão.
Quanto maior a cidade, mais a diferença andou para o Lula. Nas 27 capitais ela mudou 6,1 pontos dos votos válidos. Nas cidades com até 10 mil eleitores, 4 pontos. As capitais e as cidades com mais de 200 mil eleitores têm 39% do eleitorado e deram 43% da virada.

A virada também foi maior onde a disputa era apertada. Nos municípios em que o Lula teve de 40% a 60% no primeiro turno, a diferença mudou 6,3 pontos. Nos redutos do Flávio, onde o Lula não passou de 30%, mudou 3,4. Nos redutos do Lula, acima de 70%, mudou 4,5.
Os municípios que trocaram de lado:
- 211 passaram do Flávio para o Lula, 76 deles em Minas e 32 em São Paulo.
- O maior foi a cidade do Rio de Janeiro, onde o Flávio tinha 4 pontos de vantagem no primeiro turno e o Lula terminou 3 pontos a frente. Macapá também mudou.
- Só um fez o caminho contrário: Uirapuru, em Goiás, onde o Flávio venceu por 1.087 votos a 1.069.
🎓 O que a teoria diz
O cientista político britânico David Butler notou nos anos 1950 que, de uma eleição para outra, a mudança de votos entre os dois maiores partidos era parecida em quase todos os distritos do Reino Unido. Ele chamou essa mudança de swing e a levou para a cobertura da BBC na noite da eleição, para projetar o resultado com poucos distritos apurados.
A regularidade surpreendia porque cada lugar parte de um ponto diferente. Mesmo assim, quase todos andam o mesmo tanto, e o swing virou a base das projeções eleitorais britânicas.
Se a lógica valer aqui, a virada do Lula foi um movimento nacional. A diferença andou na mesma direção em 97% dos municípios, com força diferente: de 4 pontos nas cidades pequenas a 6 nas capitais.
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3 · Justiça · A contestação do Flávio
O Flávio diz que vai pedir a anulação da eleição por causa das 2 horas a mais de votação
O senador Flávio Bolsonaro disse ontem à noite que não reconhece o resultado e que vai pedir ao TSE a anulação da eleição. Ele disse que o que aconteceu foi "inaceitável" e que é "impossível reconhecer" o resultado. Até a 1h ele não tinha dito quando vai apresentar o pedido.
A queixa é contra a decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, que estendeu a votação em duas horas, até as 19h. O pedido de mais tempo partiu das duas campanhas, e o domingo correu assim:
- Às 13h22 a campanha do Lula pediu ao TSE mais tempo de votação, por falta de ônibus em cidades da Bahia. Às 15h42 o pedido passou a valer para o país inteiro.
- Às 15h50 a campanha do Flávio pediu ao TSE mais tempo em 19 cidades de São Paulo, Paraná e Santa Catarina, por causa de chuva, alagamentos e falta de luz.
- Às 16h22 a campanha do Lula levou o pedido ao STF. Às 17h03 o Zanin, sorteado relator meia hora antes, mandou estender a votação em todo o país, só nas seções que ainda estavam abertas.
- O TSE parou a divulgação dos resultados às 17h06 e retomou às 19h.
A lei marca o fim da votação às 17h. Pelo Código Eleitoral, depois desse horário só vota quem já estava na fila e recebeu senha. A decisão foi criticada por ter saído do STF, e não do TSE, que organiza a eleição e tinha os dois pedidos nas mãos. Nas seções que já tinham fechado, disse o Zanin, os votos foram contados normalmente.
Para anular uma eleição presidencial, a lei exige que a nulidade atinja mais da metade dos votos do país. É o que diz o artigo 224 do Código Eleitoral. O TSE não divulgou quantas pessoas votaram depois das 17h. A diferença a favor do Lula foi de 4,4 milhões de votos.
O presidente do TSE, Nunes Marques, disse ter "absoluta segurança de todo o processo eleitoral". Em 2022, depois da derrota do Jair Bolsonaro, o PL pediu ao TSE para invalidar os votos de parte das urnas. O tribunal rejeitou o pedido no dia seguinte e multou o partido em R$ 22,9 milhões por má-fé.
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4 · Pesquisas e mercado · A aposta no Flávio
As 12 pesquisas da véspera davam o Flávio na frente, e as ações brasileiras caíram quase 19% em Nova York
Todas as 12 pesquisas com votos válidos divulgadas na sexta e no sábado davam a vitória ao Flávio. O Lula aparecia com 48% a 49,9%, de 1,9 a 3,8 pontos abaixo do que teve na urna.

O Datafolha e a Quaest davam 51% a 49% para o Flávio, e a AtlasIntel, 50,8% a 49,2%. A que chegou mais perto foi a Futura, com 50,1% a 49,9%. A Palver, que divulga só os votos totais, tinha o Flávio com 50% e o Lula com 49%.
No primeiro turno as pesquisas tinham errado para o outro lado. As nove da véspera deram ao Flávio de 1 a 6 pontos a menos do que ele teve no dia 4, e acertaram o Lula na média. Depois, a vantagem do Flávio encolheu. No Datafolha ele foi de 52% dos válidos em 8 de outubro para 50% no dia 22, e voltou a 51% no sábado.
A distância entre pesquisa e urna mistura erro de medida com eleitor que decidiu ou mudou de voto nos últimos dias, e os números de ontem não separam uma coisa da outra. Também pesa quem foi votar: ontem foram quase 3 milhões a mais do que no primeiro turno.
O mercado tinha feito a mesma aposta e desfez tudo em poucas horas. O que aconteceu com os preços durante a noite:
- O EWZ, fundo negociado em Nova York com as maiores ações brasileiras, caía 18,6% às 22h30, a US$ 34,66. É negociação fora do horário normal, com pouco volume, e ele chegou a perder 19%.
- No mercado futuro de Chicago o real perdia perto de 10% e continuava assim à 1h. O dólar implícito nesses contratos chegou a R$ 5,68 e estava em R$ 5,56 às 22h14, contra R$ 5,01 no fechamento de sexta do mesmo contrato.
- No Japão, um fundo que acompanha o Ibovespa abriu em queda de 11% e chegou a perder 14%.
Antes da votação, a Bloomberg Economics estimava que uma vitória do Lula derrubaria o real em mais de 3,5%. Depois do resultado, passou a estimar que o real pode cair 11%. Da sexta antes do primeiro turno até a sexta passada, o EWZ subiu 11,5%, de US$ 38,19 para US$ 42,59, quase tudo logo depois do primeiro turno. A queda da noite apagou essa alta e mais um pouco. A bolsa brasileira abre hoje às 10h.
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📅 O que vem aí
HOJE · 8h25
Boletim Focus
A pesquisa semanal do Banco Central com economistas sobre inflação, juros e dólar. As respostas foram coletadas até sexta, antes da eleição.
HOJE · 10h
Abertura da bolsa
O primeiro pregão depois do segundo turno, com o dólar e as ações reagindo ao resultado.
QUARTA · 15h
Fed decide os juros americanos
O banco central dos Estados Unidos anuncia os juros depois de dois dias de reunião. Juros mais altos lá costumam puxar o dólar para cima aqui.
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