
DOMINGO · 27 DE SETEMBRO DE 2026 · EDIÇÃO ESPECIAL
Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.
NVIDIA's Founder Says Farmers Should Absolutely Use AI
“If I were a farmer, I would absolutely use AI.”
That’s Jensen Huang, founder and CEO of NVIDIA.
And he's pointing to one of AI’s biggest untapped opportunities: Farming. It’s an industry facing mounting pressure to produce more with less and it’s still massively under-automated.
DIT AgTech brings AI, nutrition automation, and real-time data to livestock production, helping ranchers boost productivity and get more from every animal.
And it’s already proven in one of the world's toughest livestock environments:
500+ units deployed
370,000 head of livestock on the platform
Up to 55% higher daily weight gain
Now expanding into the U.S. and Brazil, DIT AgTech is targeting a 300M+ head cattle market. And the biggest barrier to adoption? Gone. Ranchers get the technology for free when they sign up for a three-year nutrition plan.
DIT AgTech can scale adoption faster, which means more data and more recurring revenue.
Invest before this early-stage opportunity gets harder to access.
𝘐𝘯 𝘮𝘢𝘬𝘪𝘯𝘨 𝘢𝘯 𝘪𝘯𝘷𝘦𝘴𝘵𝘮𝘦𝘯𝘵 𝘥𝘦𝘤𝘪𝘴𝘪𝘰𝘯, 𝘪𝘯𝘷𝘦𝘴𝘵𝘰𝘳𝘴 𝘮𝘶𝘴𝘵 𝘳𝘦𝘭𝘺 𝘰𝘯 𝘵𝘩𝘦𝘪𝘳 𝘰𝘸𝘯 𝘦𝘹𝘢𝘮𝘪𝘯𝘢𝘵𝘪𝘰𝘯 𝘰𝘧 𝘵𝘩𝘦 𝘪𝘴𝘴𝘶𝘦𝘳 𝘢𝘯𝘥 𝘵𝘩𝘦 𝘵𝘦𝘳𝘮𝘴 𝘰𝘧 𝘵𝘩𝘦 𝘰𝘧𝘧𝘦𝘳𝘪𝘯𝘨, 𝘪𝘯𝘤𝘭𝘶𝘥𝘪𝘯𝘨 𝘵𝘩𝘦 𝘮𝘦𝘳𝘪𝘵𝘴 𝘢𝘯𝘥 𝘳𝘪𝘴𝘬𝘴 𝘪𝘯𝘷𝘰𝘭𝘷𝘦𝘥. 𝘋𝘐𝘛 𝘈𝘨𝘛𝘦𝘤𝘩 𝘩𝘢𝘴 𝘧𝘪𝘭𝘦𝘥 𝘢 𝘍𝘰𝘳𝘮 𝘊 𝘸𝘪𝘵𝘩 𝘵𝘩𝘦 𝘚𝘦𝘤𝘶𝘳𝘪𝘵𝘪𝘦𝘴 𝘢𝘯𝘥 𝘌𝘹𝘤𝘩𝘢𝘯𝘨𝘦 𝘊𝘰𝘮𝘮𝘪𝘴𝘴𝘪𝘰𝘯 𝘪𝘯 𝘤𝘰𝘯𝘯𝘦𝘤𝘵𝘪𝘰𝘯 𝘸𝘪𝘵𝘩 𝘪𝘵𝘴 𝘰𝘧𝘧𝘦𝘳𝘪𝘯𝘨, 𝘢 𝘤𝘰𝘱𝘺 𝘰𝘧 𝘸𝘩𝘪𝘤𝘩 𝘮𝘢𝘺 𝘣𝘦 𝘰𝘣𝘵𝘢𝘪𝘯𝘦𝘥 𝘩𝘦𝘳𝘦: https://bit.ly/4bzuWCi
Coluna do Papo Econômico
O Papo Econômico cobre mercado, política fiscal e macro todos os dias. Análises com dados primários, sem filtro partidário: a régua é o número, não o governo.
Edições especiais como esta saem quando o tema pede mais do que um tweet.
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Por que prometer não basta, por que o dinheiro longo é o primeiro a sentir e quem paga quando o árbitro vira jogador.
☕ Bom domingo
Entre 1º e 23 de setembro, o Supremo viveu nove dias de guerra interna. Um ministro divulgou um relatório da PF com mensagens atribuídas a outro, e um terceiro reverteu a decisão do primeiro. No meio disso, a Presidência teve que tomar o caso para si. No mesmo período, o investidor estrangeiro comprou R$ 9 bilhões em ações na B3. Se instituições importam tanto, por que o dinheiro não fugiu?
Não é a primeira vez. Olhamos oito momentos de instabilidade institucional desde 2015, de Dilma a Lula, passando por Temer e Bolsonaro: impeachment, Joesley Day, 7 de setembro, 8 de janeiro, sanção a Moraes. Em nenhum deles o capital estrangeiro saiu do Brasil fora do padrão normal. A maior saída da lista não foi institucional: foi fiscal, em dezembro de 2024.
A resposta está no Nobel de Economia de 2024, e esta edição responde a três perguntas. Por que prometer não basta? Porque quem tem poder demais não consegue prometer, e perde com isso. Por que o mercado de capitais é o primeiro a pagar? Porque o risco institucional cresce com o prazo, e o mercado de capitais é o mercado do prazo longo. O que a corte e o dinheiro fizeram nos momentos críticos? O capital que pode sair não fugiu; o que paga a conta é o capital que nunca entrou. E ela já aparece num número: no índice de Estado de Direito do Banco Mundial, o Brasil caiu de −0,04 para −0,45 entre 2010 e 2024.
Teoria · Por que prometer não basta
Nobel 2024 · Instituições · Teoria dos jogos · Compromisso · Acemoglu
Quem pode tudo amanhã não consegue prometer nada hoje
Daron Acemoglu, Simon Johnson e James Robinson ganharam o Nobel de 2024 com uma ideia simples de enunciar e difícil de provar: países são ricos ou pobres por causa das regras do jogo, e não principalmente por geografia ou cultura. O exemplo que todo mundo entende é Nogales, cidade cortada ao meio pela fronteira entre EUA e México. Mesmo clima, mesma cultura, e renda várias vezes maior do lado americano. Só a regra muda.
A prova foi mais engenhosa. Em 2001, os três usaram a mortalidade de colonos europeus como experimento natural. Onde o europeu morria, ele montava colônia de extração: pouca gente, nenhuma proteção a quem não era da elite. Onde sobrevivia, se instalava e exigia limites ao poder para si mesmo. Essas regras duraram séculos, e as estimativas do paper indicam que levar as instituições da Nigéria ao nível das do Chile poderia multiplicar a renda nigeriana por até 7 vezes no longo prazo.
Mas o insight mais fino não é "instituição importa". Douglass North já dizia isso no Nobel de 1993. É explicar por que um país não escolhe as regras boas, mesmo quando todo mundo ganharia com elas. A resposta cabe num jogo de dois jogadores.
O jogo da expropriação. Um investidor decide se coloca 100 num projeto. Se investir, o governante decide se respeita o investimento ou fica com ele. Se respeitar, o investidor lucra 30 e o governante arrecada 20 de imposto. Se expropriar, o governante fica com 150 e o investidor perde os 100. (Os números são ilustrativos; o que importa é a ordem entre eles.)

Números ilustrativos. Elaboração: Daily Brew, a partir de Acemoglu (2003) e do material científico do Comitê do Nobel (2024).
Resolva de trás para frente, como faz a teoria dos jogos. Quando chega a vez do governante, o dinheiro já está enterrado no projeto. Entre 150 e 20, ele fica com 150. O investidor sabe disso antes de começar, e entre perder 100 e ficar com zero, não investe. Resultado: zero para os dois.
O detalhe que muda tudo: o caminho "investe e respeita" daria 30 para um e 20 para o outro. Seria melhor para os dois, inclusive para o governante, que termina com zero quando poderia ter 20. Ele perde porque tem poder demais. O poder de fazer qualquer coisa amanhã destrói a capacidade de prometer algo hoje.
Acemoglu explicou em 2003 por que a política não resolve isso sozinha. Entre duas empresas, um juiz faz valer o acordo; acima do Estado, não existe ninguém.
🎓 O que a teoria diz
A reforma do apartamento alugado. Você aluga um apartamento e pensa em reformar a cozinha por R$ 30 mil. O dono promete não subir o aluguel depois. Só que, com a cozinha nova, o imóvel vale mais, e ele pode cobrar mais de você ou de outro inquilino. Sem contrato registrado, você não reforma. O dono perde um imóvel melhor, você perde uma cozinha melhor. É a inconsistência temporal (Kydland e Prescott, 1977): o problema não é má-fé, é que a promessa não tem quem a garanta.
Tá, prometer não basta. Então como os países ricos resolveram isso, e por que o mercado de capitais é quem mais depende da solução?
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Mercado de capitais · O mastro e as cordas
Reputação · Compromisso · Judiciário · Prazo · Schelling
Instituição é promessa transformada em estrutura
A primeira saída para o jogo é a reputação. Se o jogo se repete todo ano, o governante que expropria hoje perde os impostos de todos os anos seguintes. Um governante paciente, que pretende ficar, faz a conta e respeita. Mancur Olson chamou isso de "bandido estacionário": quem vai ficar protege a economia que vai tributar, e quem está de passagem saqueia.
O problema é que a reputação depende do horizonte de quem tem poder. Com os números do nosso jogo, respeitar só compensa se o governante der ao futuro pelo menos 87% do peso que dá ao presente. Eleição apertada, investigação ou crise política encurtam esse horizonte, e a cooperação some. A reputação é mais frágil justamente quando é mais necessária.
Por isso os países que deram certo não dependem dela. Eles mudam o jogo. Thomas Schelling (Nobel de 2005) mostrou que um jogador pode ganhar ao eliminar as próprias opções, e a imagem clássica é Ulisses amarrado ao mastro para não ceder ao canto das sereias. Na economia, a corda é um terceiro que pune a quebra da promessa. No nosso jogo, basta uma punição de 130 para o governante preferir respeitar: 150 menos 130 dá 20, o mesmo que ele ganharia cumprindo o acordo.
Esse terceiro é o Judiciário. A corte não precisa punir ninguém na prática. Basta a ameaça crível para que o ramo "expropria" deixe de ser escolhido. Foi o que fez a Inglaterra depois de 1688: o Parlamento passou a limitar a Coroa, e o país passou a se endividar muito mais, a juros muito menores (North e Weingast, 1989). Credibilidade virou dinheiro.
Por que o mercado de capitais sente primeiro. Todo ativo vale o que promete pagar no futuro, descontado pela chance de a regra continuar valendo até lá. Essa chance encolhe com o prazo. Com um risco de ruptura de 2% ao ano, que é um número ilustrativo:
| Prazo | Chance de a regra valer até o fim |
|---|---|
| 1 ano | 98% |
| 10 anos | 82% |
| 30 anos | 55% |
Um crédito de 30 dias quase não sente. Uma ação, um título de 30 anos ou uma concessão de rodovia sentem tudo. Um país com instituições frágeis ainda tem crédito curto e comércio. O que ele não consegue ter é curva de juros longa barata e bolsa profunda. É o que La Porta, López-de-Silanes, Shleifer e Vishny mediram no fim dos anos 1990: países que protegem melhor o investidor têm mercados de ações e de crédito mais profundos.
📌 E daí?
Para quem aprova investimento, o risco institucional não aparece como linha no balanço. Ele aparece na taxa mínima de retorno exigida dos projetos longos. Um projeto de 3 anos e uma concessão de 30 anos enfrentam a mesma regra hoje, mas não a mesma chance de ela durar. Por isso o custo de uma corte imprevisível recai desproporcionalmente sobre infraestrutura, energia e saneamento.
Quando a corda também é jogador. Até aqui, a corte pune com certeza. Mas a corte é formada por pessoas, com interesses e divergências entre si. Se ela pune com uma probabilidade p, a punição esperada é p vezes 150, e precisa continuar acima de 130:
| Credibilidade da corte (p) | Punição esperada | O governante respeita? | Resultado |
|---|---|---|---|
| 95% | 142,5 | Sim | Investimento |
| 90% | 135 | Sim | Investimento |
| 87% | 130 | No limite | Instável |
| 80% | 120 | Não | Ninguém investe |

Números ilustrativos, não são uma medida do STF: punição de 150 aplicada com probabilidade p; o governante respeita se p × 150 ≥ 130. Elaboração: Daily Brew.
A credibilidade cai de 95% para 80%, cerca de 16%. O investimento não cai 16%: vai a zero. Por muito tempo, o ruído institucional parece não custar nada, e depois custa tudo. Na vida real cada projeto tem o seu limiar, e os mais longos e irreversíveis são os primeiros a cruzar a linha.
E quem vigia o vigia? Barry Weingast (1997) mostrou que o Estado de Direito se sustenta por coordenação: todo mundo precisa concordar sobre o que conta como violação. Quando ministros da mesma corte revertem as decisões uns dos outros, o problema não é uma decisão errada. É que some o entendimento comum sobre o que a regra é.
🔬 Para quem quer a conta
Indução retroativa: o governante expropria se 150 > 20; o único equilíbrio perfeito em subjogos é (Não investe) = (0, 0), Pareto-dominado por (30, 20).
Jogo repetido com fator de desconto δ: respeitar é sustentável se 20/(1 − δ) ≥ 150, ou seja, δ ≥ 0,87.
Com punição P aplicada com probabilidade p: respeita se p·P ≥ 130; com P = 150, p ≥ 0,867.
Valor de um ativo com risco de ruptura q por período: Σ E[fluxo] × (1 − q)^t / (1 + r)^t.
Referências: Acemoglu (2003, J. Comp. Econ.); Acemoglu e Robinson (2000, QJE), sobre a extensão do voto como compromisso crível; Weingast (1997, APSR).
Na teoria, uma corte menos previsível deveria assustar o capital. Foi o que aconteceu em setembro?
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Brasil · O que o dinheiro fez
STF · Fluxo estrangeiro · Segurança jurídica · Caso Master · Coisa julgada
O capital que pode sair não precisa fugir
A crise de setembro tem duas camadas, e a mais antiga é a que mais importa para o investidor. Em fevereiro de 2023, o STF decidiu, por unanimidade, que uma sentença definitiva a favor do contribuinte perde efeito quando a própria corte muda de entendimento. Por 6 a 5, recusou limitar os efeitos no tempo. Empresas que tinham decisão transitada em julgado desde os anos 1990 passaram a dever CSLL retroativamente, sem multa, mas com juros. É o jogo do Bloco 1 em estado puro: nem a "decisão final" era final.
A camada nova durou nove dias. Segundo a cronologia da cobertura:
- 1º/09: André Mendonça retira o sigilo de um relatório da PF sobre o caso Banco Master, com mensagens atribuídas a Alexandre de Moraes e um contrato de R$ 131 milhões entre o banco e o escritório da esposa dele. A PGR pede a anulação.
- 3/09: Moraes pede a Fachin que o próprio Mendonça seja investigado no inquérito das fake news, por suposto abuso de autoridade.
- 8/09: Mendonça afasta o diretor-geral da PF.
- 9/09: Flávio Dino reverte o afastamento. Edson Fachin suspende as duas decisões e leva o caso para a Presidência.
- 15/09: O plenário se reúne e termina sem decisão de mérito. Dino pede vista, com até 90 dias para devolver.
Nada foi julgado no mérito, e as mensagens seguem como "atribuídas". Mas, na lógica de Weingast, o dano não depende do mérito: ele vem de ministros revertendo uns aos outros, porque isso apaga o entendimento comum sobre quem manda.
E o dinheiro? Nos juros futuros, a taxa de janeiro de 2031 caiu de 14,48% em 31 de agosto para 14,04% em 11 de setembro, no auge da crise. Na bolsa, o estrangeiro comprou R$ 9 bilhões entre 1º e 23 de setembro. As matérias de fechamento atribuíram os movimentos às pesquisas eleitorais e ao cenário externo, não ao Supremo.
Setembro não é exceção. Nos momentos críticos desde 2015, o fluxo foi este:
| Episódio | Mês | Ações, BC (US$ bi) | Renda fixa, BC (US$ bi) | Bolsa, B3 (R$ bi) |
|---|---|---|---|---|
| Crise interna do STF | set/26 | Sai em outubro | Sai em outubro | +9,0 |
| Condenação de Bolsonaro | set/25 | −1,0 | +5,0 | +5,3 |
| Tarifa de 50% e sanção a Moraes | jul/25 | −1,0 | +0,9 | −6,4 |
| Pacote fiscal (controle) | dez/24 | −3,1 | −4,5 | +1,7 |
| Coisa julgada tributária | fev/23 | +0,2 | +0,3 | −1,7 |
| Ataques de 8 de janeiro | jan/23 | +2,4 | +2,2 | +12,6 |
| Atos de 7 de setembro | set/21 | −1,3 | +0,7 | −4,8 |
| Joesley Day | mai/17 | +0,1 | −3,1 | +2,1 |
| Impeachment (abertura) | dez/15 | −1,7 | −1,2 | −4,4 |
Fontes: Banco Central (SGS 22927 e 22942) e B3. Os números de 2021 na B3 são os divulgados na época, antes de uma revisão anual.

Fonte: Banco Central, SGS 22927 (ações), 22942 (renda fixa negociada no país) e 22885 (investimento direto), mensais, em US$. Média dos desvios-padrão das três séries no mês do evento sobre os 12 meses anteriores. Set/21 e out/21 são vizinhos e se misturam. Elaboração: Daily Brew.
Nenhum desses meses ficou dois desvios-padrão abaixo do normal. O único em que ações, renda fixa e investimento direto saíram juntos foi fiscal: dezembro de 2024. No Joesley Day, com o Ibovespa caindo 8,8%, o estrangeiro foi comprador na bolsa. Em julho de 2025, a tarifa americana tirou R$ 2,5 bilhões da bolsa em três pregões; a sanção a Moraes, R$ 1,15 bilhão.
Por que o dinheiro não fugiu: a teoria prevê isso. Volte ao jogo. O investidor só fica refém depois de enterrar o capital. Quem compra ação ou título líquido pode vender amanhã, e por isso não precisa sair antes. O capital que sofre o hold-up é o que não dá para desfazer: a fábrica, a linha de transmissão, a concessão. A decisão dele não é sair. É não entrar.
Os dados confirmam essa divisão. Julio e Yook (2016) acompanharam o investimento de multinacionais americanas em 184 eleições de 45 países: o investimento direto cai cerca de 12% no trimestre antes da eleição, mais onde há menos freios ao poder, e o de portfólio não se move. Alfaro, Kalemli-Özcan e Volosovych (2008) mostram que a qualidade das instituições explica para onde o capital vai no longo prazo: sair do nível do Peru para o da Austrália quadruplica o investimento estrangeiro.
Ou seja, o custo não aparece como fuga. Aparece como estoque, e o estoque piorou. No índice de Estado de Direito do Banco Mundial, que vai de −2,5 a +2,5, o Brasil caiu de −0,04 em 2010 para −0,45 em 2024, saindo de cerca de 55% para cerca de 37% dos países. A queda atravessou quatro presidentes, de partidos diferentes.

Fonte: Banco Mundial, Worldwide Governance Indicators (atualização de 18/03/2026). Erro-padrão de cerca de 0,15; variações de um ano são ruído, a queda acumulada não. Elaboração: Daily Brew.
☝ A defesa razoável
Há uma leitura mais tranquila, e ela tem números. Forbes e Warnock (2012) estudaram 58 países e concluíram que o apetite global por risco é a única variável que prevê todas as ondas de fluxo; fatores domésticos são "geralmente insignificantes". O único teste brasileiro da tese de que a insegurança jurídica explica o juro alto (Gonçalves, Holland e Spacov, 2007) achou inflação e dívida muito mais relevantes. E a própria crise mostrou a instituição reagindo: a Presidência centralizou o caso, o plenário foi chamado, e Fachin propôs um código de ética para ministros. Um STF expansivo também foi, em vários momentos, o freio que conteve outros poderes. A questão é se o ganho como freio ainda compensa o custo em previsibilidade.
Se o dinheiro que já está aqui não fugiu, quem está pagando a conta?
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Bolso · Quem paga
Investimento · Dívida pública · Empresas · Trabalho
A conta chega por quatro portas, e nenhuma delas é a bolsa
1. Os projetos que não nascem. É o custo mais caro e o mais difícil de ver, porque ninguém anuncia o investimento que desistiu de fazer. A pista está na literatura: o investimento direto cai cerca de 12% antes de eleições em países com poucos freios ao poder (Julio e Yook, 2016), e na América Latina um choque de incerteza doméstica reduz o PIB em até 0,8% em 12 meses (BIS, 2026). Paga quem dependeria da rodovia, da linha de transmissão ou da fábrica que ficou no papel.
2. O Tesouro, e portanto o contribuinte. Em 3 de setembro de 2025, o Tesouro vendeu R$ 17,7 bilhões em títulos de 2040 a 2055 a cerca de IPCA + 7,4% ao ano. O juro alto tem várias causas, e a fiscal é a principal. Mas cada ponto percentual de prêmio sobre esse lote custa cerca de R$ 177 milhões por ano acima da inflação, durando até 30 anos. A insegurança jurídica é um dos componentes dessa conta, não o único.
3. Quem já enterrou o capital. Essas são as vítimas diretas do hold-up, porque não têm como sair. A empresa que tinha sentença definitiva sobre a CSLL e passou a dever o imposto retroativamente em 2023 é o investidor do jogo depois do investimento feito. O mesmo vale para quem opera concessão de 30 anos e vê a regra mudar no meio do contrato.
4. O trabalhador. Menos investimento irreversível significa menos máquina e menos infraestrutura por pessoa, e isso vira salário menor com o tempo. Nogales do Arizona e Nogales de Sonora não diferem em quem trabalha, mas nas regras sob as quais se trabalha.
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☕ Fechando a conta
Por que prometer não basta? Porque quem pode tudo amanhã não consegue se comprometer hoje, e o investidor, sabendo disso, não investe. O governante termina com zero quando poderia ter 20.
Por que o mercado de capitais é o primeiro a pagar? Porque a chance de a regra valer até o fim encolhe com o prazo, e porque a corte é a corda que segura a promessa. Quando a credibilidade da corda cai abaixo de um limiar, o investimento longo não diminui aos poucos: desaparece.
O que a corte e o dinheiro fizeram nos momentos críticos? A corte brigou consigo mesma, e o dinheiro que já estava aqui ficou, como ficou em oito crises desde 2015. A conta foi para quem não pode sair e para quem nunca entrou: o índice de Estado de Direito do Brasil caiu de −0,04 para −0,45 em 14 anos.
Instituição é a promessa que sobrevive a quem prometeu.
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📅 O que vem
Domingo, 04/10
Primeiro turno.
O canal que moveu os preços em setembro foi o eleitoral, e ele segue no comando.
Domingo, 25/10
Segundo turno, se houver.
O resultado define quanto tempo o próximo governo terá para se comprometer.
Fim de outubro
BC publica as contas externas de setembro.
É o primeiro dado oficial de fluxo estrangeiro durante a crise do STF.
Terça e quarta, 3 e 4/11
Copom.
Depois do corte para 13,75% em setembro, o ritmo dos próximos passos.
Segunda, 14/12
Fim do prazo da vista de Dino.
O limite de 90 dias para o caso voltar ao plenário.
📚 Vale ler
Comitê do Nobel (2024), "Scientific Background"
O documento oficial que explica o prêmio, com os modelos.
O paper da mortalidade dos colonos.
Acemoglu (2003), "Why Not a Political Coase Theorem?", Journal of Comparative Economics
Por que a política não negocia até a solução eficiente.
O investimento direto recua antes de eleições; o portfólio, não.
Banco Mundial, Worldwide Governance Indicators
A série de Estado de Direito do Brasil e de outros 200 países.
Por que as nações fracassam (Acemoglu e Robinson, 2012): a versão para o grande público, com o caso de Nogales.
O melhor investimento de hoje: mandar esse link.
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