
TERÇA-FEIRA · 27 DE OUTUBRO DE 2026
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O governador do Piauí, Rafael Fonteles, apontado em 2022 como o "Tarcísio da esquerda", é o mais cotado para a Fazenda.
A bolsa teve ontem a pior queda desde a pandemia, e o dólar subiu como não subia desde 1999.

1 · Fazenda · Rafael Fonteles
Rafael Fonteles, apontado como o "Tarcísio da esquerda", é o mais cotado para o Ministério da Fazenda
O governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, do PT, é o nome mais cotado para o Ministério da Fazenda no quarto mandato do Lula. Em 2022, quando se elegeu governador pela primeira vez, ele chegou a ser apontado como o "Tarcísio da esquerda", numa comparação com o governador de São Paulo, eleito no mesmo ano.
O Lula sinalizou a aliados que quer o Fonteles na equipe, e o governador já indicou a pessoas próximas do presidente que toparia renunciar ao governo do estado.
Ainda não há decisão. O vice-presidente Geraldo Alckmin é o plano B, e um nome do mercado não está descartado. Ontem, numa entrevista, o Fonteles negou ter conversado com o Lula sobre o cargo.
À noite, o Lula reuniu o ministro da Fazenda, Dario Durigan, e o do Planejamento, Bruno Moretti.
Mais cedo, o Durigan disse que o governo quer mudar a lei, ou a Constituição se for preciso, para perseguir o centro da meta de superávit, e não só o piso. A proposta deve sair ainda neste ano e permitiria congelar mais gastos do Orçamento.
O mercado quer saber se ele é ortodoxo, que põe o controle dos gastos em primeiro lugar, ou desenvolvimentista, que aposta no gasto e no crédito do governo para puxar o crescimento. A trajetória dele tem um pouco dos dois.
A formação é ortodoxa. Ele entrou na Universidade Federal do Piauí com a maior nota do vestibular de 2002, formou-se em matemática em dois anos e fez mestrado em economia matemática no IMPA, o Instituto de Matemática Pura e Aplicada, aos 21.
É a linha mais matemática e convencional da economia, próxima da FGV do Rio, e não a das escolas desenvolvimentistas, como a Unicamp. Ganhou medalhas em olimpíadas internacionais de química, em 2002, e de matemática para universitários, em 2004.
Na política, as raízes são outras. Ele é filho do Nazareno Fonteles, fundador do PT, e entrou no partido em 2003. Em 2021, o comitê dos secretários estaduais de Fazenda, que ele presidia, culpou a política de preços da Petrobras pela alta dos combustíveis.
No governo do Piauí, ele criou um teto para os gastos. Uma lei de 2025 limita o crescimento das despesas do dia a dia do governo, como salários e contratos, com uma regra parecida com a do arcabouço fiscal federal. Saúde e educação ficam fora. Se esse gasto passar de 95% da receita, ficam proibidos reajustes, concursos e novos cargos.
Também privatizou o serviço de água e esgoto. Num leilão em 2024, a empresa Aegea ficou com o serviço em 224 cidades por 35 anos. Vai pagar R$ 1 bilhão ao estado e às prefeituras, e o contrato prevê R$ 8,6 bilhões em investimentos.
À esquerda, foi criticado por fazer no Piauí o que o PT combatia em São Paulo, a privatização da Sabesp.
Ao mesmo tempo, pegou dinheiro emprestado para fazer obras. A dívida líquida do Piauí subiu de 51% para 71% da receita do estado entre 2022 e 2025, abaixo do limite de 200% da lei. Em agosto, disse que, enquanto o estado tiver direito a financiamento "porque fez o dever de casa", vai "tomar todo e qualquer financiamento para fazer obras".
O mercado gostou do nome. "O Fonteles pelo menos é alguém que entende de economia, com excelente formação", disse um gestor de investimentos à imprensa.
No discurso, fica com o Lula. Ontem disse que o presidente tem compromisso com as contas públicas, mas não governa só para o mercado.
🎓 O que a teoria diz
A dívida do governo brasileiro passou de 71,7% para 82,9% do tamanho da economia entre o fim de 2022 e agosto. Quanto mais ela sobe, mais caro quem empresta ao governo cobra pelo risco, e esse preço chega aos juros de todo o país. Na segunda, os juros futuros de prazo longo passaram de 15% ao ano.
Os economistas Cristina Arellano, Yan Bai e Luigi Bocola mediram quanto esse risco custou à economia da Itália na crise da dívida de 2011 a 2013, num estudo publicado em janeiro.
Pela conta dos autores, o risco do governo explica cerca de um terço da queda da produção italiana no período. Em 2012, o pior momento da crise, a produção ficou 6,4% abaixo da de 2007. Sem a crise da dívida, teria ficado 3,2% abaixo, como mostra o gráfico logo depois deste quadro.
O canal é o crédito. Quando o risco do governo sobe, os títulos públicos perdem valor, e os bancos que os carregam emprestam menos e mais caro. Na Itália, cada ponto a mais nos juros do governo virou cerca de 0,6 ponto a mais nos juros das empresas. As que mais dependiam de banco cortaram a produção. O estudo é sobre um país do euro, sem moeda própria.
Em meados de 2012, o Banco Central Europeu prometeu comprar títulos dos países em crise, e o risco caiu. Em 2013, a produção ainda caía, mas quase nada disso vinha mais do risco do governo.
No longo prazo, a direção da dívida pesa mais que o tamanho. Num estudo de 2017, os economistas Alexander Chudik, Kamiar Mohaddes, Hashem Pesaran e Mehdi Raissi olharam 40 países de 1965 a 2010, o Brasil entre eles.
Não acharam um número mágico de dívida. Acharam que a dívida subindo depois de 50% a 60% do tamanho da economia tira crescimento. Com a dívida em queda, mesmo um país muito endividado cresce tanto quanto países parecidos.
Se a lógica valer aqui, a tarefa do próximo ministro é virar a curva da dívida, e o ganho chega às empresas pelo preço do crédito.

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2 · Mercado · O dia seguinte à eleição
O Ibovespa cai 13,88% na pior queda desde a pandemia, e o dólar sobe 8,21% para R$ 5,40
O Ibovespa caiu 13,88% ontem e fechou em 176.608 pontos, no primeiro pregão depois da reeleição do Lula. Na abertura, a queda passou de 10% e acionou o circuit breaker, a pausa de 30 minutos que a B3 faz nesses casos. Na volta, o índice chegou a cair mais de 15%.
Foi a quinta maior queda num dia desde 1995 e a maior desde março de 2020. As quatro maiores vieram em crises que começaram fora do país, a asiática, a russa e a da covid, como mostra o gráfico.

O dólar à vista subiu 8,21%, para R$ 5,40, a maior alta num dia desde janeiro de 1999, o mês em que o real passou a flutuar. Nos primeiros minutos, chegou a R$ 5,60.
O motivo foi local. Em Nova York, as bolsas subiram, e o S&P 500 ganhou 0,7%. O EWZ, o fundo de ações brasileiras mais negociado por lá, caiu 19,8%.
O mercado tinha apostado no Flávio. As 12 pesquisas da véspera davam o Flávio na frente, e boa parte dos investidores estava posicionada para a vitória dele, com a expectativa de um ajuste nas contas públicas. A virada obrigou essa turma a desfazer as apostas de uma vez.
Bancos e empresas que dependem de crédito caíram mais:
- Banco do Brasil: -29,3%
- Bradesco: -21,7%
- Magazine Luiza: -58,2%
- Vale, que exporta e ganha em dólar: +4,0%
Os juros futuros subiram junto. A taxa para 2031 foi de 12,64% para 15,19% ao ano. Na sexta, o mercado dava como certo um corte dos juros básicos no Copom de 4 de novembro. No fim de segunda, já indicava a manutenção em 13,75%.
O Tesouro cancelou os leilões de títulos prefixados e atrelados à inflação desta semana e recomprou cerca de R$ 14,8 bilhões em títulos, em meio à disparada das taxas.
Para quem não tem ações, o efeito chega pelo dólar e pelo crédito. Se o dólar ficar perto de R$ 5,40, parte da alta costuma aparecer no preço de importados, de viagens e dos combustíveis. E os juros futuros mais altos encarecem o crédito com taxa fixa, como o financiamento de carro.
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📈 Mercados
| Ativo | Fechamento | No dia |
| Ibovespa | 176.608 pts | -13,88% |
| Dólar | R$ 5,40 | +8,21% |
| S&P 500 | 7.677 pts | +0,70% |
| Nasdaq | 26.169 pts | +0,82% |
| Petróleo (Brent) | US$ 115,81 | -0,78% |
| Ouro | US$ 4.038 | +0,76% |
Fechamento de segunda, 26 de outubro. Dólar à vista no fechamento. Petróleo: contrato Brent de dezembro na ICE. Ouro: contrato de dezembro na Comex. Fontes: B3, ICE e Comex.
📅 O que vem aí
QUARTA · 15h
Fed: a decisão dos juros americanos
O banco central dos EUA decide os juros depois da alta de setembro, que levou a taxa para a faixa de 3,75% a 4% ao ano.
SEXTA · 9h
PNAD: o desemprego de setembro
O IBGE divulga a pesquisa mensal de emprego.
SEXTA · 30/10
Fim do prazo do Simples
Micro e pequenas empresas escolhem o regime de impostos que vale a partir de janeiro, com a reforma tributária.
3 E 4/11
Copom
O Banco Central decide os juros básicos, hoje em 13,75% ao ano.
3/11
Eleições de meio de mandato nos EUA
Os americanos renovam a Câmara e parte do Senado.
📚 Vale ler
o que o Lula sinalizou e o que o governador respondeu. FOLHA · FAZENDA · 26/10/2026 |
Sovereign Default Risk and Firm Heterogeneity o estudo de Arellano, Bai e Bocola sobre o custo do risco do governo na Itália, em inglês. FED DE MINNEAPOLIS · ESTUDO · 01/2026 |
Is There a Debt-Threshold Effect on Output Growth? o estudo de Chudik, Mohaddes, Pesaran e Raissi sobre dívida e crescimento em 40 países, em inglês. FED DE DALLAS · ESTUDO · 07/2015 |
a queda da bolsa, o circuit breaker e o dólar a R$ 5,40. PODER360 · MERCADO · 26/10/2026 |
O dólar na maior alta desde 1999 e o mercado que estava posicionado para o Flávio. VALOR · CÂMBIO · 26/10/2026 |
o que ele disse sobre a eleição e sobre o Lula. CNN BRASIL · MUNDO · 26/10/2026 |
a nota do Valdemar e a ação por abuso de poder. VALOR · ELEIÇÃO · 26/10/2026 |

