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SEXTA-FEIRA · 28 DE AGOSTO DE 2026

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☕ Bom dia

O desemprego caiu ao menor nível já registrado num trimestre encerrado em julho, e dessa vez quem saiu da fila foi trabalhar.

A Nvidia faturou mais que o dobro do ano passado e, pela primeira vez, disse quanto espera crescer no ano inteiro.

E o novo chefe do banco central americano estreia hoje num mundo que voltou a falar em subir juros. ☕

A edição de hoje tem 2.313 palavras, uma leitura de 9 minutos.

1 · Trabalho · O desemprego de 5,3% por dentro

O desemprego caiu ao menor nível para um julho desde 2012, e quase metade do 1 milhão de pessoas a mais trabalhando está sem carteira

A taxa de desemprego ficou em 5,3% no trimestre encerrado em julho, informou o IBGE nesta quinta, a menor pra esse período desde que a pesquisa começou, em 2012. São 103,3 milhões de pessoas trabalhando, o maior número já registrado.

Só que essa conta tem regras próprias. Pro IBGE, desempregado é só quem procurou emprego nos últimos 30 dias e estava livre pra começar — quem desistiu de procurar some da estatística. E ocupado é quem trabalhou ao menos uma hora remunerada na semana da pesquisa. O bico de sábado conta, a corrida de aplicativo conta.

Por isso uma taxa de desemprego pode cair sem que uma única vaga seja criada. Quem joga a toalha some das duas contas ao mesmo tempo, a de desempregado e a de gente no mercado. Se 500 mil desistissem de procurar hoje, o desemprego iria de 5,3% pra 4,9% sem ninguém contratar ninguém.

A queda desta quinta passou nos quatro testes:

  • 1 milhão de pessoas a mais trabalhando em três meses, e a fila do desemprego encolheu 503 mil, pra 5,8 milhões.
  • A força de trabalho, todo mundo que trabalha ou procura vaga, cresceu 499 mil e chegou a 109,2 milhões, outro recorde.
  • A fatia da população de 14 anos ou mais no mercado ficou em 62,2%, contra 62,0% no trimestre anterior. O IBGE trata como estável, e o que importa aqui é que ela não caiu.
  • Os desalentados, quem queria trabalhar mas desistiu de procurar por achar que não ia encontrar, encolheram 9,7%, pra 2,3 milhões.

A queda veio da porta certa, a do emprego. Mais gente entrou na disputa por vaga e, mesmo assim, o desemprego caiu. A régua longa mostra de onde o país veio:

Taxa de desemprego nos trimestres encerrados em julho, de 2012 a 2026. Fonte: IBGE.

O porém mora na comparação longa. O Brasil tem hoje 66,4 milhões de pessoas de 14 anos ou mais fora do mercado de trabalho, quase 5,5 milhões a mais do que no fim de 2019, e no último ano esse grupo cresceu mais rápido do que o de quem trabalha ou procura vaga.

Fomos ver quem é essa multidão, e o palpite mais comum explica menos do que parece. Quem entrou nesse grupo desde o fim de 2019 é, em nove de cada dez casos, gente de 60 anos ou mais, e a fatia dos idosos que segue trabalhando até aumentou. Não é desistência, é o país envelhecendo.

Só que a demografia não explica tudo. O próprio Banco Central calcula que ela responde por cerca de metade do encolhimento da fatia de gente no mercado desde 2019. A outra metade é comportamento, e o pedaço mais visível dela são as mulheres: a participação feminina caiu de 54,2% para 52,6% no período, enquanto a dos homens voltou ao patamar de antes da pandemia.

Na outra ponta, os jovens de 14 a 24 anos fora do mercado diminuíram 792 mil desde 2019, e o que se vê é mais tempo de escola: entre 15 e 29 anos, a parcela que não trabalha, não estuda nem se qualifica caiu de 22,4% pra 17,5% em seis anos.

E o Bolsa Família, o suspeito de sempre nesse debate? O efeito existe, mas tem endereço. Daniel Duque, pesquisador do FGV Ibre, comparou famílias que ficaram logo abaixo e logo acima da linha de corte do benefício em 2023, uma diferença de R$ 8 na renda por pessoa. Entre as que passaram a receber, o efeito equivale a uma família saindo do mercado de trabalho a cada duas que entraram no programa, e apareceu só entre homens, concentrado nos mais jovens do Norte e do Nordeste.

O Ipea, instituto de pesquisa do próprio governo, mediu outro pedaço da história e achou um efeito menor. Quando o piso do benefício, que então se chamava Auxílio Brasil, subiu de R$ 400 pra R$ 600, em agosto de 2022, a chance de um beneficiário estar no mercado de trabalho caiu entre 2 e 5 pontos até o começo de 2023. E quem saiu deixou, na maior parte, bico precário.

O saldo aparece num exercício do FGV Ibre com o trimestre de abril a junho. Os pesquisadores refizeram a conta tirando o efeito do envelhecimento e do aumento da escolaridade acumulado desde 2012: o desemprego seria de 6,6%, e não os 5,4% do período. Pela conta deles, mais de um ponto da diferença vem de o país ter envelhecido e estudado mais. A parte da escolaridade é ganho de verdade, porque gente mais estudada se emprega melhor. A do envelhecimento é aritmética.

Mas nem todo emprego novo é emprego bom. Quase metade da alta veio da vaga sem carteira, que cresceu 477 mil dentro de 1 milhão de ocupados a mais, enquanto a carteira assinada ficou estável no recorde de 39,4 milhões. A fatia dos que trabalham sem carteira ou por conta própria sem CNPJ, a informalidade, ficou em 37,5%, ante 37,2% três meses antes.

O salário médio, de R$ 3.762, andou de lado no trimestre e sobe 3,3% em um ano.

O outro termômetro conta a mesma história por outro ângulo. O Caged, registro do governo pras vagas com carteira, teve o pior maio e o pior junho desde 2020, ainda no positivo. O número de julho sai hoje à tarde e fecha o retrato do trimestre.

🎓 O que a teoria diz: existe desemprego baixo demais?

Pra economia, sim. Existe um nível de desemprego abaixo do qual falta gente, as empresas passam a disputar trabalhador com aumento e os salários sobem mais rápido do que a produção por pessoa. Esse custo extra vira preço, principalmente em serviços, que são feitos de gente. Esse ponto não é fixo nem dá pra medir direto, só estimar, e cada casa chega num número: a XP calcula entre 7% e 7,5%, o Itaú fica perto de 8% e o FGV Ibre trabalha com 8,5% a 9,5%. Todas ficam bem acima dos 5,3% de agora, o que ajuda a explicar por que a inflação de serviços demora tanto a ceder.

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2 · Tecnologia · O balanço da Nvidia

A Nvidia vendeu US$ 96 bilhões em três meses e, pela primeira vez, prometeu quanto vai crescer no ano inteiro

A fabricante dos chips que fazem a inteligência artificial funcionar faturou US$ 96,2 bilhões no trimestre, mais que o dobro de um ano antes. Anunciou na quarta à noite, e a ação subiu 8,7% na quinta.

Quase tudo vem de um negócio só: os galpões de computadores que rodam a inteligência artificial renderam US$ 89 bilhões. De cada US$ 100 de receita, cerca de US$ 75 sobram depois do custo do produto e antes das despesas da empresa, margem que quase nenhuma indústria alcança.

Mas o que fez a ação subir foi uma frase sobre o futuro, não o trimestre que passou. Na conversa com analistas, a empresa fez o que nunca tinha feito em toda a sua história: projetou um ano inteiro à frente. Espera crescer cerca de 70% no ano fiscal que termina em janeiro de 2028, e o mercado apostava em 44%.

O que trava o crescimento, disse Jensen Huang, não é falta de cliente, é falta de chip pra entregar.

E tem um detalhe que vale a leitura, esse colado no trimestre em curso. A previsão de US$ 108 bilhões não inclui um centavo de venda de chip de data center pra China. A empresa diz que zerou essa linha por incerteza geopolítica: de um lado, Washington só libera a venda com licença, de outro, Pequim desestimula a compra. Mesmo assim a China rendeu US$ 7,9 bilhões nesse trimestre, cerca de 8% de tudo que a Nvidia vendeu, somando todas as linhas de produto.

Chama atenção porque nos seis balanços anteriores a ação caiu em cinco, mesmo com números fortes. Quando o preço já embute o cenário ótimo, entregar o ótimo não basta. É tirar 9 numa prova em que todo mundo apostava 9,5.

A Nvidia sozinha vale mais de 8% do índice das 500 maiores empresas americanas, mais que o setor de energia inteiro, e ganhou cerca de US$ 440 bilhões de valor em um único dia. Na quinta o índice subiu, mas a versão dele em que as 500 empresas pesam igual caiu. A alta do dia foi de uma empresa, não do mercado.

Aqui o efeito é de mão dupla. O recibo da Nvidia negociado na B3 também subiu mais de 8%, então quem tinha o papel comemorou. Do outro lado, o estrangeiro já tirou mais de R$ 20 bilhões da bolsa brasileira em agosto. E uma coisa puxa a outra. Como resumiu Caio Ignácio, da Boa Brasil Capital, quando a confiança na inteligência artificial cresce, o dinheiro sai daqui e volta pra tecnologia americana. Pesam também o quadro fiscal, a eleição de outubro e o juro americano alto.

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3 · Juros · A estreia de Warsh em Jackson Hole

Trump escolheu o chefe do Fed apostando em juros mais baixos, e hoje ele estreia em Jackson Hole com o mercado falando em alta

Kevin Warsh discursa às 11h de Brasília em Jackson Hole, no Wyoming, o encontro anual de banqueiros centrais. Ele assumiu o Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, em maio, e desde então deu duas coletivas e passou dois dias depondo no Congresso. Mas nunca tinha feito um discurso como presidente do Fed, e é a primeira vez que ocupa esse palco no cargo.

O palco importa porque é ali que o chefe do Fed costuma explicar como pensa. E é justamente isso que ninguém sabe direito sobre Warsh. Ele encurtou o comunicado do Fed pela metade, tirou dele a parte que dava pistas sobre os próximos passos e disse que apresentar a própria projeção de juros não ajuda em nada.

A situação tem uma ironia que Trump provavelmente não previu. Ele escolheu Warsh em janeiro, no auge da campanha pública por juros mais baixos, depois de anos hostilizando o antecessor. Warsh presidiu duas reuniões e manteve os juros exatamente onde encontrou. E o próprio comitê já sinaliza o contrário do que Trump queria: nas projeções de junho, a mediana para o fim de 2026 subiu de 3,4% para 3,8%.

A virada foi rápida. Até o fim do ano passado a dúvida era de quanto o Fed ainda ia cortar: foram seis cortes entre setembro de 2024 e dezembro de 2025, com uma pausa de nove meses no meio. Agora a pergunta é se vai ter que subir. O que mudou o humor foi a inflação, em 3,7% pelo índice que o Fed acompanha, quase o dobro da meta de 2%.

Os números que o mercado olha antes de ele abrir a boca:

  • O juro americano está parado entre 3,50% e 3,75% ao ano desde o corte de dezembro.
  • Na última reunião, três dos doze votos foram por subir a taxa e nenhum por cortar. É a primeira vez desde setembro de 2016 que três dirigentes divergem na mesma direção.
  • Os contratos futuros dão cerca de um terço de chance de alta em setembro. O cenário majoritário ainda é juro parado.

O grupo chegou ao Wyoming rachado. O anfitrião, Jeffrey Schmid, disse que a inflação segue teimosa e que não sabe o que a taxa de hoje está segurando. Beth Hammack foi além: para ela, é hora de agir. E Susan Collins, que discursou em Boston na segunda, avalia que a política atual é levemente restritiva, mas que subir os juros pode ser apropriado se a inflação não der sinal de ceder.

Por que isso chega no seu bolso: juro americano alto é dinheiro rendendo bem no lugar mais seguro do mundo, o que tende a puxar capital de volta pra lá e a pressionar o câmbio aqui. E dólar mais caro por tempo suficiente acaba aparecendo no combustível, no trigo do pão e no celular importado.

Um dos motivos que seguram dinheiro no Brasil é a diferença de juros: descontada a inflação, o nosso rende 9,3% ao ano, contra 0,97% do americano. É o segundo maior entre as 40 maiores economias no ranking da MoneYou, atrás só da Rússia. Quando essa distância encolhe, some parte do motivo de investir por aqui.

E o calendário encaixa os dois. Fed e Copom decidem nos mesmos dois dias, 15 e 16 de setembro, o que acontece em seis das oito reuniões deste ano. O que Warsh disser nesta manhã entra direto na conversa do Copom, dali a menos de três semanas.

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📈 Mercados

AtivoFechamentoNo dia
Ibovespa175.135 pts+0,31%
Dólar (Ptax)R$ 5,1642+0,07%
S&P 5007.731 pts+0,72%
Nasdaq26.541 pts+1,57%
Petróleo (Brent)US$ 88,56+0,82%
OuroUS$ 4.654,40estável

Fechamento de quinta 27/08 contra quarta 26/08. Dólar pela Ptax de venda do Banco Central nas duas pontas. Ouro: contrato de dezembro na Comex, variação no mesmo contrato. Fontes: B3, Banco Central, Reuters.

📅 O que vem aí

Hoje · 8h

IGP-M: o índice que reajusta o aluguel

O que vai no contrato não é o número do mês, e sim o acumulado de 12 meses, hoje em 2,8%. Ele voltou ao positivo em abril, depois de cinco meses seguidos negativos, quando quem renovava ganhava desconto.

Hoje · 11h

Kevin Warsh discursa em Jackson Hole

A estreia do chefe do Fed, três semanas antes da reunião que decide os juros americanos.

Hoje · 14h30

Caged: as vagas com carteira abertas em julho

Contratações menos demissões no mês. Junho foi o pior para o mês desde 2020, e o número de hoje fecha o trimestre.

Hoje

A bandeira da conta de luz de setembro

Agosto está na bandeira amarela, com R$ 1,89 a mais a cada 100 kWh. Estamos no meio da seca.

📚 Vale ler

Santa Catarina tirou São Paulo do topo depois de 14 anos

No ranking do Centro de Liderança Pública, o estado subiu sete posições em educação e em eficiência da máquina.

Poder360 · Economia · 27/08/2026

Mais da metade da dívida do país anda colada nos juros básicos

Já são 51% do estoque, e o Tesouro elevou o teto do ano para 53%. É por isso que juros a 14% doem no Orçamento.

Agência Brasil · Economia · 26/08/2026

O imposto sobre dividendos rendeu bem menos que o prometido

Até julho entrou menos de um quinto do previsto pro ano, e a Receita diz que o fluxo não é linear.

Agência Brasil · Economia · 26/08/2026

O Rio tenta trocar o petróleo por galpões de computador

São R$ 327,6 bilhões mapeados até 2028, e o óleo ainda responde por 60% deles.

InfoMoney · Brasil · 27/08/2026

O STF começou a julgar se motorista de aplicativo tem vínculo

A decisão deve orientar milhares de processos parecidos e pode mudar o custo das plataformas.

Gazeta do Povo · Economia · 27/08/2026