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QUARTA-FEIRA · 29 DE JULHO DE 2026
☕ Bom dia
Juros. O Copom se reúne na semana que vem, e o mercado está dividido entre cortar a Selic de novo ou fazer uma pausa.
Urnas. Um rosto mais bonito rende cerca de 20% mais votos numa eleição de deputado, mostra um estudo com candidatos finlandeses.
Redes. A Austrália baniu menores de 16 nas redes sociais, e a adesão à regra já despencou para um em cada vinte.
Natalidade. Uma pesquisa sugere que o iPhone ajuda a explicar parte da queda de nascimentos nos EUA. ☕

Juros · Quarta decisiva
Copom · Selic · IPCA-15 · Banco Central · Inflação · Expectativas
O Copom decide os juros na semana que vem, e a aposta está dividida
Na próxima quarta (5 de agosto), o Copom, que é a reunião dos diretores do Banco Central que define a Selic (a taxa básica de juros do Brasil), volta a se reunir. A taxa está hoje em 14,25% ao ano, depois de três cortes seguidos de 0,25 ponto desde março. A pergunta que move o mercado é simples: o Banco Central corta de novo ou faz uma pausa?
De um lado, um empurrão fresco para cortar. O IPCA-15, que é a prévia da inflação oficial, saiu nesta terça (28) quase de lado, alta de só 0,06% em julho, bem abaixo do que o mercado esperava. Em 12 meses, a prévia recuou para 4,52%. Preço subindo devagar é justamente o cenário em que faz sentido aliviar o freio dos juros.
Do outro, um motivo para segurar a mão. O número de um mês anima, mas a inflação esperada para o fim de 2026 ainda ronda os 5,3%, acima do teto da meta perseguida pelo Banco Central, que é de 3% com tolerância até 4,5%. Enquanto a projeção não cede, parte do mercado prefere cautela. Por isso a leitura hoje está dividida: alguns apostam em mais um corte de 0,25 ponto, outros num compasso de espera, e a maioria vê a Selic terminando o ano perto de 14%.
Seja qual for a decisão, ela chega acompanhada do comunicado, o texto em que o Copom explica o raciocínio e sinaliza os próximos passos. Num momento tão embolado, o que o Banco Central escrever pode importar mais para o bolso do que os 0,25 ponto em si.
E daí?
A Selic é o preço base de quase todo dinheiro no país. Quando ela cai, empréstimo, financiamento e cartão tendem a ficar um pouco menos salgados com o tempo, e a bolsa costuma gostar; quando fica parada, o aperto continua. Para quem tem dinheiro aplicado na renda fixa, o efeito é o inverso: juro alto rende mais. Por isso a reunião de quarta mexe, em algum grau, com a conta de praticamente todo mundo.
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Eleições · A cara do voto
Beleza · Finlândia · Lista aberta · Deputado · Berggren · Journal of Public Economics
Ser mais bonito vale 20% mais votos nas urnas
A suspeita é antiga entre políticos, mas faltava uma medida. Os economistas Niclas Berggren, Henrik Jordahl e Panu Poutvaara reuniram fotos de 1.929 candidatos finlandeses e pediram que 10.011 avaliadores, em boa parte estrangeiros sem qualquer familiaridade com aqueles rostos, julgassem apenas a aparência de cada um, sem nome nem currículo à vista.
O resultado, publicado no Journal of Public Economics (uma das principais revistas acadêmicas de economia do setor público), é expressivo: um candidato estreante que sai da média e entra no grupo mais bem avaliado em aparência tende a receber cerca de 20% mais votos. Não se trata de um efeito marginal, mas de aproximadamente um quinto da votação associado ao rosto.
O caso finlandês interessa ao Brasil por causa do sistema eleitoral. A Finlândia adota lista aberta, o mesmo modelo da nossa eleição para deputado, em que o eleitor escolhe o nome, e não apenas o partido. Isso permite comparar candidatos estreantes de uma mesma legenda e, com isso, descontar a influência do partido, dos recursos de campanha e da posição na chapa. O que resta, depois desses controles, é sobretudo a aparência.
O achado mais desconfortável aparece na comparação com outros atributos. Os autores também mediram o quanto cada rosto transmitia de competência, inteligência, simpatia e confiabilidade, e a beleza previu o desempenho nas urnas melhor do que qualquer uma dessas percepções. Há ainda uma inversão digna de nota. Nos estudos clássicos sobre salários, a chamada vantagem da beleza costuma favorecer mais os homens, que tendem a receber um prêmio maior por serem bem avaliados na aparência. Nas urnas finlandesas, o padrão se inverteu: o ganho de votos associado à beleza foi maior entre as candidatas.
Antes de concluir que o eleitor é superficial, convém observar os incentivos. Numa eleição presidencial, a aparência de um candidato disputa a atenção com dois anos de cobertura da imprensa. Numa disputa para deputado, com centenas de nomes e pouca informação sobre cada um, a foto na urna acaba sendo o único dado disponível. O eleitor não age por frivolidade, e sim economiza esforço onde se informar sairia caro demais.
Nesse ponto, o achado deixa de ser só sobre política. Quando se informar custa caro, é natural decidir pela aparência, o sinal mais barato e imediato à mão. E isso não para na urna, vale para a contratação feita pela foto de um currículo ou pela primeira impressão numa entrevista. Faz sentido diante da pressa, mas cobra um preço: se a beleza diz pouco sobre um bom candidato, o voto ou a decisão sai pior.
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Redes · Proibir não bastou
Austrália · Redes sociais · Menores de 16 · Ponto de virada · Bursztyn · Sunstein · NBER
A Austrália baniu rede social para menor de 16, e a regra está desmoronando
Em dezembro de 2025, a Austrália tornou-se o primeiro país a proibir o acesso de menores de 16 anos às grandes redes sociais, medida que já está em discussão em mais de uma dezena de países. Um working paper do NBER (um estudo ainda preliminar da principal rede de pesquisa em economia dos Estados Unidos), assinado por Leonardo Bursztyn, Cass Sunstein e outros pesquisadores, foi verificar se a regra de fato pegou.
Os números apontam adesão baixa. Quatro meses após a lei entrar em vigor, menos de um em cada três adolescentes de 14 e 15 anos havia efetivamente deixado as redes, algo em torno de 27%. Em vez de crescer, o cumprimento encolheu: dois meses depois, apenas cerca de 6% seguiam a norma, um em cada vinte. Metade dos jovens relatou ter abandonado algum aplicativo em determinado momento, mas voltado atrás ao perceber que os colegas não haviam feito o mesmo.
A explicação está na lógica de grupo. Sair de uma rede social isoladamente tem custo, porque o valor da plataforma está justamente em reunir os amigos. Questionados, os adolescentes afirmaram que só abandonariam o aplicativo se cerca de dois em cada três colegas o fizessem antes. Como quase ninguém havia saído, ninguém quis ser o primeiro, e quem cumpria a regra era visto como menos popular. Todos os incentivos apontavam para permanecer.
Está aí a diferença em relação às proibições de cigarro ou bebida, fiscalizadas no ponto de venda. O acesso a uma rede social ocorre em qualquer lugar e é simples de contornar. Uma regra assim só se sustenta se a adesão ultrapassar um determinado limiar, a partir do qual abandonar a plataforma se torna o comportamento padrão e passa a se reforçar sozinho. Abaixo desse ponto, a proibição tende a se esvaziar até virar letra morta.
A conclusão dos autores não é que proibir seja inútil, mas que a proibição, isolada, não se sustenta. Eles sugerem combiná-la com incentivos e com medidas que desloquem a norma social, como vincular a regra à série escolar, e não à idade, para que o adolescente não conviva com colegas de turma abertamente conectados. É um alerta pertinente para qualquer país que estude restrições semelhantes para crianças e adolescentes, o Brasil incluído: sem alterar o comportamento do grupo, a lei sozinha dificilmente muda o hábito.
🎓 O que a teoria diz
Ponto de virada. Em decisões que dependem do que os outros fazem, cada pessoa só adere quando uma fatia mínima do grupo já aderiu. Existe um limiar: abaixo dele, cada desistência puxa a seguinte e o movimento se desfaz; acima dele, a adesão se reforça e se mantém por conta própria. Por isso uma proibição fácil de contornar raramente se acomoda num meio-termo estável, tendendo a consolidar-se ou a ruir conforme o ponto de partida em relação a esse limiar.
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Demografia · Culpado no bolso
NBER · Myers · Hooper · iPhone · AT&T · Fecundidade · Natalidade
O iPhone pode explicar parte da queda da natalidade nos EUA
A fecundidade americana (a média de filhos por mulher) caiu 22% desde 2007, e o repique que costuma vir depois de uma crise econômica nunca apareceu. Um working paper do NBER, assinado por Caitlin Myers e Ezekiel Hooper, aponta um suspeito improvável: o iPhone.
O que deu aos pesquisadores a chance de testar isso foi um acaso da tecnologia da época. Entre junho de 2007 e fevereiro de 2011, o iPhone só funcionava numa operadora, a AT&T, porque as concorrentes usavam uma tecnologia de rede incompatível com o aparelho. Por quase quatro anos, ter acesso ao primeiro smartphone moderno dependeu de morar onde a AT&T pegava bem, algo que nada tinha a ver com a vontade de ter filhos. Foi esse acaso que virou um experimento.
Os pesquisadores compararam então os condados (a divisão administrativa americana equivalente aos nossos municípios) onde a AT&T tinha ampla cobertura com aqueles onde ela quase não pegava. Onde o iPhone chegou, os nascimentos na faixa dos 15 aos 19 anos caíram entre 4,5% e 8%. Somando tudo, o aparelho explicaria de um terço a metade da queda da fecundidade no período. Nas redes das concorrentes o efeito era zero, e só apareceu em 2011, quando o Android chegou a elas. Ou seja, o que pesava era ter um smartphone na mão, não a operadora ou o sinal por trás dele.
O porquê é a parte mais instigante, e aqui os autores são honestos: propõem três explicações, mas nenhuma é comprovada pelo estudo. O primeiro é deslocamento: o celular ocupa o tempo presencial em que os encontros acontecem, e entre 2003 e 2024 os minutos por dia com amigos despencaram de 141 para 43 entre os jovens de 15 a 19 anos. O segundo é informação, com acesso mais fácil elevando o uso de contracepção, que entre adolescentes chegou a 94% na última relação, ante 84%. O terceiro é substituição, com a pornografia sempre à mão ocupando o lugar do sexo a dois.
O que o estudo mostra é que o efeito não é individual: o que desaparece não é a decisão de ter um filho, é o encontro que deixa de acontecer antes mesmo de a decisão existir. E é aqui que entra a economia. Todo o arsenal para estimular a natalidade, como transferência de renda, abatimento no imposto, creche e licença parental, foi desenhado para baratear a criança, supondo um casal já disposto a tê-la. Mas se cada vez menos relacionamentos chegam a se formar, esses incentivos encontram menos gente para convencer, e uma parte da queda fica fora do alcance do que o dinheiro público resolve.
🎓 O que a teoria diz
Experimento natural. É quando a vida real, sem querer, separa as pessoas em dois grupos parecidos, um exposto a algo e o outro não, do jeito que só um laboratório faria de propósito. A exclusividade do iPhone na AT&T fez isso: dividiu o país entre quem tinha e quem não tinha acesso ao aparelho por um motivo alheio à natalidade. É o que permite ao pesquisador desconfiar que o telefone causou a queda, e não só apareceu junto dela.
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📈 Mercados — Fechamento Terça 28/07
Fontes: B3, Reuters e Yahoo Finance · fechamento de 28/07 (cotações podem variar por contrato e horário) · Elaboração: Daily Brew. |
📅 O que vem aí
Quarta · 29/07
Fed. ainda hoje o Fed (o banco central dos Estados Unidos) anuncia sua decisão de juros. O tom da decisão mexe com o humor global e com o fluxo de dólares para países emergentes como o Brasil.
Sexta · 01/08
Payroll. os EUA divulgam o relatório mensal de criação de empregos (o payroll), um dos termômetros que o Fed observa para decidir os próximos passos dos juros.
Terça e quarta · 04-05/08
Copom. o Copom (a reunião do Banco Central que define a Selic, a taxa básica de juros) volta a se reunir, e a prévia fraca da inflação reacende a aposta em um novo corte.
📚 Vale ler
IPCA-15 é de 0,06% em julho
O dado que entra na conta do Copom na semana que vem: o comunicado do IBGE com a prévia da inflação de julho, grupo a grupo, e os itens que mais subiram e mais caíram.
IBGE
The Looks of a Winner: Beauty, Gender and Electoral Success
O estudo de Berggren, Jordahl e Poutvaara, publicado no Journal of Public Economics, com a metodologia por trás dos 20% e a comparação da beleza com competência, inteligência e confiabilidade.
IFN · Journal of Public Economics
Tipping Points and Australia's Social Media Ban
O working paper de Bursztyn, Sunstein e coautores sobre por que a proibição australiana desmorona: os limiares de adesão, a queda de 27% para 6% e as saídas para reverter o quadro.
NBER
Is the iPhone Birth Control? Causal Evidence from AT&T's 2007-2011 Carrier Monopoly
O trabalho de Myers e Hooper que usa a exclusividade do iPhone na AT&T como experimento natural, com os efeitos por condado e os três canais propostos para a queda de nascimentos.
NBER
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