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Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.
SEXTA-FEIRA · 31 DE JULHO DE 2026
☕ Bom dia
Os juros do cartão bateram recorde no mesmo ano em que os juros básicos caíram. Adivinha quem paga a conta.
A tarifa americana já tem alvo certo: calçado, móvel, madeira e máquina. E o governo barrou dois enviados de Trump que vinham falar de urna eletrônica.
E o desemprego caiu ao menor nível já registrado pra um segundo trimestre, com a renda subindo acima da inflação. O Banco Central foi o único que não sorriu. ☕


Crédito · O corte que não desce
Os juros básicos caíram para 14,25%, e os de quem não paga a fatura inteira foram a 442,4%
O rotativo do cartão, aquele que você passa a pagar quando não quita a fatura inteira, chegou a 442,4% ao ano em junho, segundo as estatísticas de crédito do Banco Central. O parcelado do cartão ficou em 191,4%, e a taxa média do cartão bateu recorde, 97,4% ao ano.
A inadimplência acompanhou. O atraso no crédito total do sistema financeiro ficou em 4,7% em junho, o maior da série que começa em março de 2011. E as concessões do rotativo para pessoa física caíram de R$ 39,3 bilhões em maio para R$ 38,6 bilhões.
Os juros básicos caíram. O cartão, não.
Fonte: Banco Central, estatísticas de crédito (taxas médias, % ao ano) · Elaboração: Daily Brew |
Em dezembro, os juros básicos estavam em 15% e o rotativo cobrava 442,41% ao ano. Três cortes depois, os juros básicos estão em 14,25% e o rotativo cobra 442,44%. Mexeu três centésimos, pra cima. No meio do caminho até cedeu, foi a 429% em janeiro, mas voltou pro exato mesmo lugar. E a média geral do cartão foi na contramão dos cortes e subiu pro recorde.
Os juros básicos quase não entram nesse preço, por três motivos. O rotativo é um crédito sem garantia nenhuma, tomado por quem acabou de mostrar que não conseguiu pagar a fatura, então o banco precifica o calote, que está no recorde. Desde 2017 ele só pode durar 30 dias, depois o banco é obrigado a oferecer parcelamento, o que o transformou numa ponte de emergência que nenhum banco disputa baixando preço. E tem a jabuticaba: o parcelado sem juros, coisa que praticamente só existe no Brasil. O crédito de graça de quem divide a geladeira em dez vezes custa caro pro sistema, e parte dessa conta cai sobre quem escorrega no rotativo. Nessa matemática, os 14,25% dos juros básicos viram arredondamento perto dos 442%.
Pra fatura sentir, uma de três coisas precisa acontecer. A inadimplência cair de forma sustentada, e ela está indo pro lado contrário. O parcelado sem juros ser redesenhado, discussão que se arrasta desde 2023 entre bancos, maquininhas, varejo e Banco Central e que até hoje só produziu o teto de 2024, que impede a dívida de passar do dobro mas não mexe na taxa. Ou a concorrência alcançar esse crédito, e a porta já existe: desde 2024 dá pra levar a dívida do cartão pra outro banco, de graça, pela portabilidade. O corte que o Copom, o comitê do Banco Central que define os juros básicos, discute na terça e na quarta pode baratear o financiamento do carro e o crédito da empresa. A fatura só sente quando uma dessas três portas abrir.
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Comércio exterior · A conta chega ao chão de fábrica
Onde a tarifa de 37,5% deve virar demissão
A tarifa americana já tem endereço. Uma sobretaxa de 25% somada a outra de 12,5% chega a 37,5% sobre parte do que o Brasil vende aos Estados Unidos, e o Ministério do Desenvolvimento calcula que a medida atinge US$ 6,6 bilhões em exportações. São máquinas e equipamentos, madeira, gorduras e óleos, calçados, móveis e confecções.
O estrago já aparece no total. Depois do recorde de US$ 40,4 bilhões em 2024, as vendas ao mercado americano caíram para US$ 37,7 bilhões em 2025, e o primeiro semestre de 2026 fechou em US$ 17,4 bilhões, 13% abaixo do mesmo período do ano passado.
No meio disso, na sexta passada, o Itamaraty negou visto a dois funcionários do Departamento de Estado americano que vinham a Brasília tratar da confiabilidade da urna eletrônica com autoridades eleitorais. O Planalto diz que missão de observação eleitoral segue liberada, e que o barrado foi outra coisa, reunião política com representantes de governo estrangeiro.
Calçado é Franca e o Vale dos Sinos. Móvel é Bento Gonçalves. Confecção é o interior de São Paulo e de Santa Catarina. São cidades onde uma fábrica emprega meio bairro, e é aí que o emprego recorde do país corre mais risco de rachar primeiro. Ninguém demite no mês em que a tarifa entra, demite no trimestre em que o pedido não chega.
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Economia · A boa notícia que trava os juros
Desemprego cai a 5,4%, o menor pra um junho, e é isso que complica o corte dos juros
O desemprego fechou o trimestre de abril a junho em 5,4%, divulgou o IBGE. É o menor nível já registrado para um segundo trimestre desde que a pesquisa começou, em 2012. Era 5,6% no trimestre até maio e 5,8% um ano atrás. A renda média do trabalhador subiu para R$ 3.738, alta de 2,8% em doze meses, e o país chegou a 103,1 milhões de pessoas ocupadas.
Parece notícia boa pro corte dos juros de 5 de agosto, e é o contrário: emprego forte é hoje o principal argumento de quem defende que o Copom pare de cortar.
No pior momento da pandemia, quase 15 de cada 100 brasileiros que procuravam trabalho não achavam. Agora são pouco mais de 5.

Com pouca gente disponível, a empresa que precisa contratar tem que pagar mais, e está pagando, porque a renda subiu acima da inflação. Salário maior vira consumo maior e vira custo maior em tudo que é feito de gente, do corte de cabelo à mensalidade da escola e ao conserto do carro. Serviço é a parte da inflação que mais depende de salário e a que mais demora a ceder. O Copom olha o emprego de hoje e enxerga o preço do serviço daqui a um ano.
Quem quer cortar olha o preço, não o emprego. A prévia da inflação de julho ficou em 0,06%, praticamente parada, e o acumulado de doze meses caiu de 4,80% para 4,52%. A tese desse lado é que os juros a 14,25% já estão fazendo efeito, e que apertar além da conta cobra o preço depois, em emprego.
O Fed, o banco central americano, manteve os juros de lá com três dirigentes votando por alta, a primeira vez desde 2016 que três discordam apontando na mesma direção. Juros maiores nos Estados Unidos puxam o dólar, e dólar puxa preço aqui. É mais um peso do lado do freio.
No fim não é bem uma contradição, é uma disputa sobre qual dado vale mais: a inflação que já caiu ou o mercado de trabalho que ainda pode empurrá-la de volta. Um lado dirige olhando o retrovisor, o outro olhando a estrada. É por isso que o mercado está rachado entre um corte de 0,25 ponto e uma pausa.
🎓 O que a teoria diz: por que emprego em alta pode virar inflação?
A resposta clássica é a curva de Phillips (Economica, 1958): quanto menos gente desempregada, mais as empresas precisam disputar trabalhador no salário, e parte desse salário volta no preço. Friedman (Am. Econ. Rev., 1968) e Phelps acrescentaram um limite, a taxa natural de desemprego. Abaixo dela, diz a teoria, o desemprego só continua caindo se a inflação for subindo junto. O problema prático é que ninguém sabe onde essa linha fica no Brasil, e a briga do Copom mora exatamente aí. Quem acha que 5,4% já passou dela pede pausa. Quem acha que não, pede corte. Vale o aviso: a relação entre emprego e inflação ficou bem mais fraca nas últimas décadas, e há economista sério dos dois lados dessa mesa.
E daí?
Você sente os dois lados ao mesmo tempo. Achar emprego está mais fácil do que em qualquer outro segundo trimestre desde 2012, e o salário está ganhando da inflação. A contrapartida é que o financiamento do carro, a prestação da casa e o limite do cartão devem demorar mais para baratear, porque essa mesma força do seu salário é um dos motivos que o Banco Central usa para não ter pressa.
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📊 Mercados · Fechamento de quinta (30/07)
Fontes: B3, InfoMoney, Reuters e Yahoo Finance · fechamento de quinta (30/07), variação no dia · Elaboração: Daily Brew |
📚 Vale ler
Juros do rotativo do cartão sobem a 442,4% ao ano em junho As estatísticas de crédito do Banco Central que abrem a edição, taxa por taxa. CNN Brasil · Macroeconomia · jul/2026 |
Tarifa de 37,5% dos EUA atinge US$ 6,6 bi em exportações do Brasil A conta do Ministério do Desenvolvimento e a lista completa dos setores atingidos. Agência Brasil · Economia · jul/2026 |
Governo nega entrada a enviados de Trump que vinham discutir a eleição Quem são os dois funcionários barrados e o que o Planalto alegou. Poder360 · Governo · jul/2026 |
Desemprego no 2º trimestre é de 5,4%, o menor já registrado no período A divulgação do IBGE por trás da notícia do título, com renda, ocupação e carteira assinada. Agência Brasil · Economia · jul/2026 |
Desemprego cai a 5,4% e segue travando o corte dos juros básicos Por que emprego forte é o argumento de quem quer pausa em 5 de agosto. InfoMoney · Economia · jul/2026 |
A decisão do Fed não foi unânime: veja quem votou por alta Os três dirigentes que discordaram e por que isso pesa na conta do Copom. Exame · Mercados · jul/2026 |
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