Daily Brew

Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.

SEXTA-FEIRA · 29 DE MAIO DE 2026

☕ Bom dia · o dia em 3 linhas

PCC e CV terroristas. Os EUA carimbam as duas facções após pedido de Flávio Bolsonaro.

Lula se consolida à frente. Após o áudio, ele lidera as pesquisas — mas os institutos discordam do tamanho.

PIB às 9h. Sai o 1º trimestre, com expectativa de recuperação.

Brasil · O carimbo

EUA · PCC · Comando Vermelho · Marco Rubio · Flávio Bolsonaro · FTO

Washington carimbou PCC e CV de terroristas. O que muda começa no dinheiro.

O Departamento de Estado americano — pela caneta do secretário Marco Rubio — classificou o Comando Vermelho e o PCC como "terroristas globais especialmente designados" (SDGT), medida que já vale, e anunciou que vai inscrevê-los também como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO, na sigla em inglês) a partir de 5 de junho. São as duas maiores facções do país, com milhares de integrantes e, segundo o comunicado, redes que passam das fronteiras brasileiras.

O rótulo não manda prender ninguém. O que ele faz é financeiro. A designação bloqueia ativos sob jurisdição dos EUA e torna crime, para quem está sujeito à jurisdição americana, prestar "apoio material" aos grupos. O efeito grande, porém, é indireto: bancos do mundo inteiro — brasileiros inclusive — passam a evitar qualquer operação que chegue perto das facções, para não arriscar o próprio acesso ao sistema de pagamentos em dólar. Quando Washington aperta um parafuso na tubulação financeira global, o aperto se sente longe dali.

E o carimbo não caiu do céu. Flávio Bolsonaro revelou ter pedido a designação pessoalmente a Trump — no mesmo encontro no Salão Oval que abriu a semana passada. Do outro lado, o governo brasileiro vinha tentando evitar a medida e agora sinaliza desconforto: o assessor especial da Presidência, Celso Amorim, criticou a decisão e disse que ela pode virar "pretexto para intervenção". Uma ação vendida como combate ao crime organizado entra no Brasil também com etiqueta eleitoral — e as duas leituras vão conviver, a poucos meses do primeiro turno.

🎓 O que a teoria diz

Interdependência como arma (Henry Farrell e Abraham Newman, 2019, Weaponized Interdependence): a economia global é uma rede, e alguns pontos dela são nós por onde quase tudo passa. Os EUA controlam pontos críticos dessa rede — sobretudo a infraestrutura financeira em dólar, trilho da maior parte do comércio e das finanças do planeta. Quem controla esses pontos pode transformá-los em instrumento de coerção: basta ameaçar fechar a passagem. Por isso uma designação feita em Washington alcança muito além do território americano — não porque obrigue outros países, mas porque nenhum banco quer ser o próximo a perder a porta do dólar. O poder não está na lei estrangeira; está na topologia da rede.

E daí?

Na prática, pouca coisa muda amanhã para o brasileiro comum, e o impacto direto sobre as facções tende a ser limitado. O que muda é o custo de compliance e o risco para quem, mesmo de longe, tangencia o dinheiro delas: bancos, fintechs, importadores, casas de câmbio. E muda o clima político: a poucos meses da eleição, o tema do crime organizado ganha selo americano e padrinho declarado. Vale separar as duas coisas — o efeito financeiro é técnico e real; o efeito eleitoral é disputa de narrativa, e narrativa em ano de urna não falta.

Brasil · A consolidação

Lula · Flávio Bolsonaro · Meio/Ideia · Agregador · 2º turno · Rejeição

Nova pesquisa mantém Lula em primeiro, cinco pontos à frente de Flávio.

A pesquisa Meio/Ideia divulgada hoje consolida a dianteira de Lula: 46,5% a 41,4% sobre Flávio Bolsonaro no segundo turno, com o presidente vencendo os oito adversários testados. É a leitura mais recente — e uma das mais favoráveis — de uma vantagem que vem se firmando nas últimas semanas.

A média confirma o movimento: no agregador do O POVO, Lula aparece com 45,7% contra 43,4%, e levantamentos recentes — Vox, AtlasIntel, Indexa — vão na mesma direção. Nem todos cravam o mesmo tamanho (Datafolha e Genial/Quaest ainda viam empate técnico), mas a maioria e a média mostram a frente do presidente se consolidando.

Há ainda um dado que tempera tudo: a rejeição. Lula é o nome mais rejeitado, seguido justamente de Flávio — os dois que lideram a intenção de voto lideram também a resistência. Numa disputa entre dois favoritos de teto baixo, quem decide um segundo turno costuma ser menos o entusiasmo e mais a rejeição — e é ela, não a dianteira de hoje, o número que mais vai pesar na reta final.

Brasil · A primeira foto

PIB · IBGE · FGV · Selic 14,5% · Agro · IBC-Br

A economia parou no fim de 2025. Hoje o país descobre se voltou a andar.

Ontem os Estados Unidos serviram o aperitivo: a revisão do PIB do primeiro trimestre e o PCE de abril, a medida de inflação preferida do Fed. Hoje às 9h vem o prato principal em versão brasileira — o PIB do primeiro trimestre de 2026, a primeira foto cheia da atividade ainda sob juros muito restritivos. O dado sai com a Selic hoje em 14,5%, mas o trimestre (janeiro a março) transcorreu antes do corte do fim de abril — ou seja, sob juros ainda mais altos.

O ponto de partida não anima. Depois de crescer 1,5% na margem no começo de 2025, a economia foi perdendo fôlego trimestre a trimestre: +0,3%, 0,0% e +0,1% nas três leituras seguintes. Praticamente parou no segundo semestre. Em março, o IBC-Br — a prévia de atividade do Banco Central — caiu 0,67%. Contra esse pano de fundo, o Monitor do PIB da FGV, prévia privada divulgada em maio, estimou +0,9% na margem e +1,5% ante um ano antes — um pouco abaixo do consenso de mercado, que trabalha com algo perto de +1,0% na margem e +1,8% no interanual.

O curinga é o agro — e ele engana. Uma safra forte pode segurar o número cheio quase sozinha, sem dizer muito sobre a demanda interna que os juros altos vêm freando. Se o crescimento vier concentrado na agropecuária, a manchete pode parecer robusta sem mudar tanto a leitura de atividade doméstica; se vier de serviços e consumo, aí sim incomoda mais o Banco Central, que vigia a inflação de serviços. Por isso o detalhe importa mais que o total. Às 9h o IBGE abre a foto inteira.

📊 Gráfico do dia

PIB · variação ante o trimestre anterior (ajuste sazonal) · 1T24 — 1T26

Do salto ao quase-zero: a margem do PIB perdeu fôlego em 2025.

Fonte: IBGE / SIDRA tabela 5932 (Contas Nacionais Trimestrais) · Projeção 1T26: consenso de mercado · Elaboração: Daily Brew

Variação do PIB ante o trimestre imediatamente anterior, com ajuste sazonal — a chamada "margem", que mede o ritmo mais recente da economia. As barras azuis são dados realizados do IBGE; depois do pico de 1,7% em meados de 2024, o ritmo perdeu fôlego e praticamente parou no segundo semestre de 2025 (0,0% e +0,1%). A barra laranja hachurada (1T26) é projeção, não dado realizado: o consenso de mercado trabalha com cerca de +1,0% na margem. O número oficial sai hoje às 9h, no IBGE.

📌 O número do dia

66,8%

DÍVIDA LÍQUIDA DO SETOR PÚBLICO (% DO PIB) — MARÇO/2026

É a dívida líquida do setor público consolidado, pela série do Banco Central — ante 65,5% em fevereiro. O detalhe esperto: a razão dívida/PIB tem o PIB nominal no denominador. Se a economia vem mais forte, o indicador fica menos pressionado, sem que se corte um centavo de despesa. É alívio estatístico, não ajuste fiscal — e por isso crescimento e dívida andam sempre de mãos dadas.

📈 Mercados — Fechamento Quinta 28/05

Ativo Fechamento Dia Mín / Máx
Ibovespa 175.063 pts ↓ −0,39% 174.686 / 176.627
Dólar (spot) R$ 5,03 ↓ −0,57% 5,02 / 5,07
Petróleo (Brent) US$ 94,68 ↑ +0,4% 92,50 / 97,00
Ouro (futuro) US$ 4.532 ↑ +1,1% 4.388 / 4.540
S&P 500 7.564 pts ↑ +0,58% 7.508 / 7.569
Dow Jones 50.669 pts ↑ +0,05% 50.314 / 50.764
Nasdaq 26.917 pts ↑ +0,91% 26.589 / 26.935
Bitcoin (24h) US$ 73.613 ↓ −0,98% 72.641 / 74.446

Ouro: tocou mínima de cerca de dois meses no intradiário, mas o contrato futuro fechou cerca de 1,1% acima, sustentado pela busca por proteção em meio à tensão geopolítica — o velho papel de ativo de refúgio.

Fonte: B3 (Ibov) · Reuters / Poder360 (Dólar spot, −0,57%) · AP / Yahoo Finance (S&P, Dow, Nasdaq) · Reuters (Ouro, settlement do futuro) · ICE / Reuters (Brent, settlement do contrato de referência; intradiário chegou perto de US$ 97) · Bitcoin: cotação e variação em 24h no fechamento da edição · Elaboração: Daily Brew · 28/05/2026

💬 A frase do dia

"Após três trimestres consecutivos de crescimentos modestos, próximos a estabilidade, a economia voltou a crescer mais fortemente no primeiro trimestre de 2026, apesar do contexto externo conturbado com o avanço dos conflitos no Oriente Médio."

— Juliana Trece, coordenadora do Núcleo de Contas Nacionais do Ibre/FGV, sobre o Monitor do PIB-FGV do 1º trimestre (prévia privada divulgada em maio)

A prévia é da FGV; a confirmação é do IBGE, às nove. "Voltar a crescer" depois de três trimestres parados não é uma régua muito alta — mas "mais fortemente", ainda sob juros muito restritivos, sugere que a economia entrou em 2026 mais resiliente do que parecia no fim de 2025. Resiliente não é o mesmo que acelerando. O número oficial dirá qual dos dois.

📅 O que vem aí

Hoje 29/05

PIB do Brasil — 1º trimestre (IBGE) — divulgação às 9h. Consenso de mercado: cerca de +1,0% na margem e +1,8% no interanual. Primeira leitura cheia da atividade ainda sob juros muito altos — o trimestre (jan-mar) transcorreu antes do corte do fim de abril, que levou a Selic a 14,5%. Composição importa mais que a manchete. Alto impacto

Segunda 1/06

Balança comercial de maio (MDIC/Secex) — o saldo vinha forte, com superávit em torno de US$ 5,7 bi até a 3ª semana do mês. O fechamento de maio é o próximo termômetro do setor externo. Médio

1–2/06

PMIs industriais de maio — começa a temporada: o ISM de manufatura dos EUA sai na segunda (1/6), seguido pelos índices de Brasil e China. Primeiro retrato da indústria já no começo do 2º trimestre, logo depois do PIB de hoje. Informativo

📚 Vale ler

EUA classificam PCC e Comando Vermelho como terroristas

O comunicado assinado por Marco Rubio anuncia a designação das duas facções como Organizações Terroristas Estrangeiras a partir de 5 de junho — o que torna ilegal, para quem está sob jurisdição dos EUA, prestar "apoio material" aos grupos. A cobertura traça o contexto e a reação política no Brasil.

CNN BRASIL · INTERNACIONAL · 28/05/2026

Pesquisa Meio/Ideia: Lula lidera todos os cenários de 1º e 2º turno

Os números completos da pesquisa feita entre 23 e 27 de maio (1.500 entrevistados, margem de 2,5 pontos): Lula vence os oito adversários no segundo turno e abre cinco pontos sobre Flávio Bolsonaro (46,5% a 41,4%), revertendo o empate técnico do início do mês.

GAZETA DO POVO · ELEIÇÃO 2026 · 28/05/2026

Economistas esperam crescimento perto de 1% no PIB do 1º trimestre

Às vésperas do dado do IBGE, a reportagem reúne as projeções de mercado para o PIB do primeiro trimestre: algo próximo de +1,0% na margem, puxado por agro e serviços, com a indústria mais fraca. Bom mapa para ler o número de hoje.

METRÓPOLES · ECONOMIA · 28/05/2026

Monitor do PIB-FGV: economia cresceu 0,9% no primeiro trimestre

A prévia privada da FGV estimou alta de 0,9% na margem e 1,5% em relação a um ano antes, com contribuição positiva de agropecuária, indústria e serviços. Serve de termômetro para o número oficial do IBGE.

ADVFN · ECONOMIA · 19/05/2026

☕ Boa sexta

Washington carimbou PCC e CV. Flávio comemorou; o Planalto, não.

Duas pesquisas, dois retratos do mesmo páreo.

Às nove, o PIB diz se a economia andou.

Bom fim de semana. ☕

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