O que se esperar de uma semana que termina numa sexta-feira, 13? Assombração. De segunda a sexta, o Brasil viveu cinco episódios distintos de aversão a risco — com o Oriente Médio ditando o ritmo, o petróleo desenhando montanhas-russas e o mercado doméstico tentando, na medida do possível, andar com as próprias pernas.
No balanço da semana: o Ibovespa encerra em 177.653 pontos — bem abaixo da máxima histórica de 192 mil tocada há apenas duas semanas. O Estreito de Ormuz segue bloqueado. O barril do Brent fechou a US$ 103,50 com 3% de alta na sexta. E o dólar encostou em R$ 5,32.
Por aqui, havia uma segunda camada de drama: Haddad deixa o governo, o Copom se reúne na próxima semana para o esperado primeiro corte da Selic, e o governo zerou PIS/Cofins do diesel para tentar conter o fogo. Foi muita coisa para cinco dias. Boa leitura.
Na próxima terça e quarta-feira (17 e 18), o Copom se reúne para, segundo toda a sinalização feita desde janeiro, promover o primeiro corte da Selic em mais de um ano — de 15% para 14,5%. Era, no começo da semana passada, um evento de baixíssimo risco de surpresa. Então o Brent voltou a cruzar os US$ 100 — e fechou sexta a US$ 103,50.
O problema é que petróleo caro não é apenas um problema de motorista. É inflacionário por construção — frete, energia, insumos industriais, alimentos processados: tudo segue o barril. E o IPCA de fevereiro já veio acelerando: 0,70%, o maior nível em um ano, mesmo sem o choque de Ormuz ter chegado plenamente às prateleiras. Com esse pano de fundo, as taxas de DI de curto prazo subiram na quinta — o DI para janeiro de 2027 foi a 14,035%, ante 13,995% no ajuste anterior — e o mercado passou a precificar 70% de chance de corte de apenas 25 bips, contra 30% apostando nos 50 bips originalmente esperados.
A leitura dominante ainda é de corte, mas com comunicado cauteloso. O próprio comunicado de janeiro já havia escrito que o cenário "exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por tensão geopolítica". A tensão chegou. Gabriel Galípolo agora precisa decidir se aplica a frase que o Copom escreveu — ou se a ignora para honrar o forward guidance. É o tipo de dilema que não aparece nos modelos de curso de política monetária, mas que vai aparecer na ata de março.
Fernando Haddad confirmou nesta semana que deixa o Ministério da Fazenda já na próxima, para lançar formalmente sua candidatura ao governo de São Paulo no dia 19, ao lado de Lula, no Expocenter Norte. A candidatura que ele resistia há meses — citando o favoritismo de Tarcísio de Freitas, que lidera as pesquisas com 44% a 31% no Datafolha — virou realidade quando Lula converteu o pedido em algo mais parecido com uma ordem política.
O nome cotado para assumir a Fazenda é Dario Durigan, atual secretário-executivo. Durigan tem domínio técnico da máquina e boa relação com o presidente. O que Durigan não carrega — e o mercado sabe disso — é o capital político que Haddad acumulou para, ao menos em algumas ocasiões, barrar impulsos de gasto do Planalto. Não que Haddad tenha sido um bastião de austeridade. Mas havia um freio. Com Lula em ano eleitoral e um ministro sem mandato político próprio, a pergunta relevante é quem diz não quando o Palácio pede para dizer sim.
A saída não derrubou o câmbio porque já estava precificada. Criou, porém, um risco difuso: o de que 2026 — um ano com petróleo caro, inflação ressurgente e Selic em ciclo de queda — passe a ter uma Fazenda em modo de campanha permanente. O arcabouço fiscal não muda no papel. Muda na prática quando o responsável pelo papel está na rua pedindo voto.

* Variação semanal: fechamento 13/03 vs. fechamento 06/03. Ibovespa 06/03: 179.364,82 pts · Dólar 06/03: R$ 5,2438 · Dow 06/03: 47.501,55 · S&P 06/03: 6.740,02 · Nasdaq 06/03: 22.387,68 · Brent 06/03: ~US$ 93,10.
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Reuters · Investing.com
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Se tudo correr bem na semana que vem, o Copom corta, o comunicado tranquiliza, o Estreito dá sinal de reabertura e Durigan faz um discurso que o mercado interpreta como "continuidade". Se correr mal, você nos vê de volta na segunda com uma edição que começa assim: "A semana foi longa."
O café desta manhã ainda está quente. Aproveita o sábado para um slow morning. Necessário ultimamente.