Daily Brew — 14 de março de 2026
Daily Brew
Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.
Sábado · 14 de março de 2026
📋 Edição Especial · Resumo Semanal
☕ Bom dia

O que se esperar de uma semana que termina numa sexta-feira, 13? Assombração. De segunda a sexta, o Brasil viveu cinco episódios distintos de aversão a risco — com o Oriente Médio ditando o ritmo, o petróleo desenhando montanhas-russas e o mercado doméstico tentando, na medida do possível, andar com as próprias pernas.

No balanço da semana: o Ibovespa encerra em 177.653 pontos — bem abaixo da máxima histórica de 192 mil tocada há apenas duas semanas. O Estreito de Ormuz segue bloqueado. O barril do Brent fechou a US$ 103,50 com 3% de alta na sexta. E o dólar encostou em R$ 5,32.

Por aqui, havia uma segunda camada de drama: Haddad deixa o governo, o Copom se reúne na próxima semana para o esperado primeiro corte da Selic, e o governo zerou PIS/Cofins do diesel para tentar conter o fogo. Foi muita coisa para cinco dias. Boa leitura.

Uma decisão difícil
Política Monetária · Brasil
O Copom prometeu cortar. O barril prometeu não deixar.

Na próxima terça e quarta-feira (17 e 18), o Copom se reúne para, segundo toda a sinalização feita desde janeiro, promover o primeiro corte da Selic em mais de um ano — de 15% para 14,5%. Era, no começo da semana passada, um evento de baixíssimo risco de surpresa. Então o Brent voltou a cruzar os US$ 100 — e fechou sexta a US$ 103,50.

O problema é que petróleo caro não é apenas um problema de motorista. É inflacionário por construção — frete, energia, insumos industriais, alimentos processados: tudo segue o barril. E o IPCA de fevereiro já veio acelerando: 0,70%, o maior nível em um ano, mesmo sem o choque de Ormuz ter chegado plenamente às prateleiras. Com esse pano de fundo, as taxas de DI de curto prazo subiram na quinta — o DI para janeiro de 2027 foi a 14,035%, ante 13,995% no ajuste anterior — e o mercado passou a precificar 70% de chance de corte de apenas 25 bips, contra 30% apostando nos 50 bips originalmente esperados.

A leitura dominante ainda é de corte, mas com comunicado cauteloso. O próprio comunicado de janeiro já havia escrito que o cenário "exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por tensão geopolítica". A tensão chegou. Gabriel Galípolo agora precisa decidir se aplica a frase que o Copom escreveu — ou se a ignora para honrar o forward guidance. É o tipo de dilema que não aparece nos modelos de curso de política monetária, mas que vai aparecer na ata de março.

🎓 O que a teoria diz
Choque de oferta vs. choque de demanda: quando a inflação sobe por um choque de oferta — guerra, bloqueio de canal de transporte — a teoria macroeconômica clássica recomenda não reagir com aperto monetário. O choque é temporário, apertar juros penaliza a atividade sem resolver o problema de preço. A armadilha está em "temporário": no caso do Estreito de Ormuz, ninguém sabe quanto tempo dura — o que torna qualquer decisão do Copom, neste momento, um exercício de apostas geopolíticas com verniz técnico.
E daí?
Se o Copom cortar na quarta, os DIs comemoram no curto prazo. Mas fique de olho no comunicado — ele vale mais do que a decisão em si. Se a linguagem sinalizar que o ritmo futuro depende da evolução do conflito, o ciclo pode ser menor do que os 2,75 pontos percentuais que o mercado esperava no início do ano. Isso tem impacto direto em qualquer coisa atrelada ao CDI: financiamento imobiliário, dívida corporativa, renda fixa pós-fixada.
O vazio que fica
Fiscal · Política
Haddad vira candidato. Durigan vira ministro. O mercado vira a chave.

Fernando Haddad confirmou nesta semana que deixa o Ministério da Fazenda já na próxima, para lançar formalmente sua candidatura ao governo de São Paulo no dia 19, ao lado de Lula, no Expocenter Norte. A candidatura que ele resistia há meses — citando o favoritismo de Tarcísio de Freitas, que lidera as pesquisas com 44% a 31% no Datafolha — virou realidade quando Lula converteu o pedido em algo mais parecido com uma ordem política.

O nome cotado para assumir a Fazenda é Dario Durigan, atual secretário-executivo. Durigan tem domínio técnico da máquina e boa relação com o presidente. O que Durigan não carrega — e o mercado sabe disso — é o capital político que Haddad acumulou para, ao menos em algumas ocasiões, barrar impulsos de gasto do Planalto. Não que Haddad tenha sido um bastião de austeridade. Mas havia um freio. Com Lula em ano eleitoral e um ministro sem mandato político próprio, a pergunta relevante é quem diz não quando o Palácio pede para dizer sim.

A saída não derrubou o câmbio porque já estava precificada. Criou, porém, um risco difuso: o de que 2026 — um ano com petróleo caro, inflação ressurgente e Selic em ciclo de queda — passe a ter uma Fazenda em modo de campanha permanente. O arcabouço fiscal não muda no papel. Muda na prática quando o responsável pelo papel está na rua pedindo voto.

🎓 O que a teoria diz
Ciclo político-econômico (Political Business Cycle): conceito de William Nordhaus (1975) que descreve a tendência de governantes em ampliar gastos e estimular a economia em anos eleitorais, independentemente da sustentabilidade fiscal. O Brasil tem histórico sólido de validação da teoria. A diferença agora é que existe formalmente um arcabouço para impedir esse movimento. O problema é que regras fiscais precisam de pessoas dispostas a enforçá-las — e "enforçar" fica mais difícil quando a cadeia de comando inteira está pensando em outubro.
E daí?
Fique de olho no resultado primário mês a mês. Vai dizer mais sobre a gestão Durigan do que qualquer discurso de austeridade pronunciado no auditório da Fazenda. Se as metas começarem a escorregar no segundo trimestre, o câmbio vai notar antes de todo mundo.
📌 O número da semana
+53,05%
Alta do Brent em um mês · de ~US$ 67,75 para US$ 103,50
Impossível passar batido e não impactar o resto do mundo. Em menos de trinta dias, o barril fez o que levou anos para desfazer depois de 2022. Desta vez, o Estreito de Ormuz está fisicamente bloqueado — e não existe rota alternativa para 20% do petróleo global.
📊 O gráfico da semana
Ibovespa — cinco dias, cinco humores (9–13 de março)
A semana começa com euforia de "guerra praticamente encerrada" e termina com três dias seguidos de queda. A barra de quinta-feira conta tudo: foi o momento em que o mercado capitulou ao Brent acima de US$ 100, ao IPCA acelerando e à incerteza sobre o Copom. A barra da sexta é menor — mas também é vermelha.
📈 Mercados — fechamento de sexta (13/03)
Ativo Fechamento Dia Semana
Ibovespa 177.653 pts ▼ −0,91% ▼ −0,95%
Dólar (BRL) R$ 5,3200 ▲ +1,40% ▲ +1,45%
Petróleo Brent US$ 103,50 ▲ +3,00% ▲ +11,2%
S&P 500 6.637 pts ▼ −0,52% ▼ −1,52%
Dow Jones 46.597 pts ▼ −0,17% ▼ −1,90%
Nasdaq 22.100 pts ▼ −0,95% ▼ −1,28%
* Variação semanal: fechamento 13/03 vs. fechamento 06/03. Ibovespa 06/03: 179.364,82 pts · Dólar 06/03: R$ 5,2438 · Dow 06/03: 47.501,55 · S&P 06/03: 6.740,02 · Nasdaq 06/03: 22.387,68 · Brent 06/03: ~US$ 93,10.
💬 A frase da semana
"Petrobras deve fazer novos aumentos de preço no diesel em breve."
— Goldman Sachs · relatório de análise · sexta-feira, 13 de março de 2026
Tradução do economês: O Brasil importa cerca de 25% da sua oferta de diesel, e um descolamento elevado entre preços locais e internacionais pode, em última instância, desestimular importadores independentes a trazer produto com prejuízo — gerando risco de desabastecimento. O reajuste de R$ 0,38/litro de sexta foi o começo, não o fim.
📅 Agenda
Ter–Qua
17–18/03
Reunião do Copom — decisão da Selic às 18h30 de quarta. Mercado precifica 70% de chance de corte de 25 bips. O comunicado importa mais do que o número. ALTO IMPACTO
Qua
18/03
Reunião do Fed (FOMC) — sem expectativa de corte nos EUA. Mas o mercado vai ouvir o que Powell diz sobre guerra, energia e inflação. ALTO IMPACTO
Qui
19/03
Lançamento oficial de Haddad candidato — Expocenter Norte, São Paulo. Durigan assume a Fazenda no mesmo dia. MÉDIO IMPACTO
📚 Vale ler hoje
Ibovespa fecha com nova queda e emenda terceira semana seguida no negativo
O melhor resumo da sexta-feira 13 nos mercados brasileiros — completo com um glossário de fobias que você não sabia que precisava, da parascevedecatriafobia à peniafobia.
InfoMoney
AIE: conflito cria maior interrupção de fornecimento de energia da história
Liberar 400 milhões de barris de reservas emergenciais e não mover o preço diz mais sobre a gravidade do bloqueio do Estreito de Ormuz do que qualquer comunicado diplomático.
CNN Brasil
Haddad diz acreditar que Durigan assumirá a Fazenda, mas prerrogativa é de Lula
A troca no comando da Fazenda em pleno ano eleitoral. Quem é Durigan, o que muda na condução fiscal — e o que o mercado já começa a precificar.
Reuters · Investing.com
🎯 Boa semana
Três semanas seguidas no vermelho. Um dólar acima de R$ 5,30. Um barril acima de US$ 100. Um ministro da Fazenda que vai ser candidato. Um Copom que precisa decidir entre honrar o que prometeu e reagir ao que o mundo mudou.

Se tudo correr bem na semana que vem, o Copom corta, o comunicado tranquiliza, o Estreito dá sinal de reabertura e Durigan faz um discurso que o mercado interpreta como "continuidade". Se correr mal, você nos vê de volta na segunda com uma edição que começa assim: "A semana foi longa."

O café desta manhã ainda está quente. Aproveita o sábado para um slow morning. Necessário ultimamente.
@dailybrewbr

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