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Daily Brew

Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.

DOMINGO · 16 DE AGOSTO DE 2026

☕ Bom domingo

As campanhas eleitorais começam oficialmente hoje. Nas próximas sete semanas o país vai discutir quem merece ganhar. Na edição de hoje a gente te conta o que acontece depois que alguém ganha as eleições municipais.

Responder isso é mais difícil do que parece. Cidade que troca o partido da prefeitura não é igual a cidade que não troca. Ou cidade que escolheu candidato com certa característica não é igual a cidade que não elegeu o mesmo tipo de candidato. Comparar as duas é errado. A saída é olhar municípios onde um candidato perdeu por pouquíssimo, comparados com aqueles onde ele ganhou por pouquíssimo. Entre esses dois grupos, quem assumiu é quase sorteio.

É com esse quase sorteio que cinco estudos foram medir o que muda na escola do seu bairro, na fila do emprego público e na cabeça de quem decide se vai fazer o vestibular. Sem pressa. ☕

🧠 Economia para não economistas

Por que uma eleição apertada é experimento para pesquisador

Para saber se um remédio funciona, os pesquisadores fazem um teste e separam, através de sorteio, um grupo que vai tomar o remédio e um grupo que não toma. O sorteio é o que garante que os dois grupos sejam parecidos em tudo o mais: idade, peso, estado de saúde. Se no fim um grupo passa melhor que o outro, foi o remédio.

Com prefeito ninguém pode fazer isso. Não dá para sortear qual cidade vai ser governada por qual partido. Mas existe uma situação em que a realidade faz esse sorteio sozinha: a eleição decidida por pouquíssimos votos. Quando um candidato ganha por algumas dezenas de votos, o que separou a vitória da derrota foi acaso. A chuva no domingo, o ônibus que não passou, o cabo eleitoral que dormiu. Ninguém controla um resultado assim.

É disso que os pesquisadores se aproveitam. Eles montam dois grupos de cidades. No primeiro, as cidades que elegeram o tipo de candidato que se quer estudar, e que venceu por muito pouco. No segundo, as cidades onde esse mesmo tipo de candidato perdeu por uma diferença igualmente mínima. Como o desfecho foi acaso, a única diferença que sobra entre os dois grupos é quem assumiu a prefeitura. Aí basta olhar o que aconteceu depois de um lado e do outro. O método tem nome complicado, regressão de descontinuidade, mas a ideia é essa: comparar quem quase perdeu com quem quase ganhou. No contexto político, a gente chama isso de método de “eleições apertadas”.

O gráfico abaixo faz essa comparação de um jeito visual, e vem do estudo das escolas, o primeiro de hoje. As cidades aparecem enfileiradas pela diferença de votos entre o primeiro e o segundo colocado: as vitórias mais folgadas de um lado, as derrotas mais folgadas do outro, e os empates técnicos bem no meio. Cada ponto é um grupo de cidades, e mostra em quantas delas a escola estava com diretor novo.

Se o que definisse a frequência de troca de diretores nas escolas fosse o perfil da cidade, e não o resultado da eleição, a diferença apareceria aos poucos: a linha vermelha subiria devagar de uma ponta à outra, sem sobressalto. O que aparece é um degrau, e ele aparece exatamente na linha do meio, onde a vitória e a derrota estavam separadas por um punhado de votos e o desfecho foi sorte. Não é que as cidades do lado direito troquem mais de diretor por serem diferentes das outras. Elas trocam porque, ali, o partido que governava perdeu.

No eixo vertical, a fatia de escolas cujo diretor está naquela escola há menos de dois anos. Figura 4(a) de Akhtari, Moreira e Trucco, American Economic Review, 2022 (versão pública dos autores), com legendas traduzidas e eixo horizontal convertido para porcentagem pela Daily Brew.

Onde o método pode falhar

O ponto fraco é conhecido: se algum candidato conseguisse controlar o resultado de uma eleição decidida por poucos votos, ela deixaria de ser sorteio. Os próprios estudos testam isso, e nas eleições municipais brasileiras o sorteio se sustenta.

Há uma ressalva importante, levantada por John Marshall em uma das principais revistas de ciência política. Essa ressalva vale para os estudos que comparam características de quem venceu, como raça, gênero ou ficha criminal. Um candidato que enfrenta mais barreira e mesmo assim chega ao empate técnico costuma ser melhor que o adversário em outras coisas. O número medido junta tudo: a característica e esse resto. Os autores do estudo sobre prefeitos negros, o do terceiro e último bloco desta edição, dizem isso com todas as letras, que mediram o efeito de eleger aquele prefeito, e não o efeito da raça.

Eleições · O dia seguinte

Prefeituras · Diretores · Professores · Rede municipal · Prova Brasil · Chile

Quando a prefeitura troca de partido, a escola troca de diretor e a nota do aluno cai

Mitra Akhtari, Diana Moreira e Laura Trucco olharam para as eleições municipais brasileiras de 2008 e 2012 e, usando o método das eleições apertadas, mediram o que acontece nas escolas quando o partido do prefeito muda. O estudo saiu na American Economic Review em 2022, uma das revistas mais influentes da economia. O resultado não é nada animador.

Um ano depois da posse, nas cidades onde a eleição derrubou o partido da prefeitura, 72% das escolas tinham diretor novo. Nas cidades do outro lado da linha, onde esse partido se manteve por uma diferença igualmente mínima, eram 44%. É o degrau do gráfico do bloco anterior. Com os professores aconteceu o mesmo, em escala menor: 11 pontos percentuais a mais de gente nova na escola. E não era gente entrando a mais, porque o número de professores por escola ficou igual. Era gente trocando de lugar.

Quem pagou a conta foi o aluno. Nas escolas da rede municipal, as notas da Prova Brasil, o exame que o governo federal aplicava nas escolas públicas, caíram. Para dar tamanho à perda: ela equivale a cerca de um terço de tudo o que se ganha com as políticas educacionais que comprovadamente funcionam, como diminuir o número de alunos por turma. É muito estrago para uma coisa que ninguém votou para que acontecesse.

A prova de que o problema é a prefeitura, e não a cidade, estava na esquina. Nos mesmos municípios, nas escolas estaduais, que o prefeito não administra, não houve troca de diretor nem queda de nota. Se fosse crise na economia local ou onda de violência, teria pegado as duas redes de ensino. Pegou só a que o prefeito controla. E pegou mais onde dói mais: nos municípios de renda mais baixa, a troca de diretores subiu 39 pontos; nos de renda mais alta, 13. Onde a cobrança das famílias é mais fraca, o prefeito troca mais.

Uma ressalva antes de virar regra universal: um estudo de 2023 aplicou o mesmo método ao Chile e não encontrou efeito nenhum sobre as notas. A diferença entre os dois países não está na eleição, está em quem escolhe o diretor. No Chile, desde 2011, ele é selecionado por concurso público conduzido pelo serviço civil. No Brasil, cerca de 65% dos diretores da rede municipal chegam ao cargo por indicação. O estrago não vem de trocar de governo. Vem de deixar a escola ao alcance de quem troca.

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Máquina pública · O andar de baixo

Cargos · Concurso · Indicação · Folha da prefeitura · Ficha criminal · Mortalidade infantil

Apoiar quem vence a eleição dá 47% mais chance de emprego público

A troca de diretores que você acabou de ler é um pedaço de uma coisa maior. Quando o partido da prefeitura muda, muda também quem consegue emprego dentro dela. Dois estudos foram atrás dessa conta, cada um por um caminho, e chegaram ao mesmo lugar.

O primeiro é de Emanuele Colonnelli, Mounu Prem e Edoardo Teso, também publicado na American Economic Review. Eles juntaram duas listas que ninguém tinha cruzado antes. De um lado, o registro de todo mundo que teve emprego público no Brasil entre 1997 e 2014. Do outro, cerca de dois milhões de pessoas que trabalharam por um partido numa eleição municipal: gente que se candidatou a vereador por aquele partido e gente que doou dinheiro para a campanha dele, todos identificados pelo CPF. Com as duas listas na mão, dava para acompanhar a vida profissional de cada apoiador e ver o que acontecia com ela conforme o partido dele ganhava ou perdia a prefeitura.

A comparação foi entre quem apoiou o partido do prefeito eleito e quem apoiou o partido do segundo colocado, nas eleições apertadas. Entre os que apostaram no segundo colocado, 22,5% tinham emprego público. Entre os que apostaram no vencedor, 33%. São 10,5 pontos percentuais de diferença, ou 47% a mais. E não para no emprego: somando o que essas pessoas ganhavam dentro e fora do setor público, a renda delas subiu 25%. A vantagem se concentra nas vagas que não exigem concurso, que são exatamente aquelas em que o prefeito decide sozinho quem entra.

A explicação simpática para isso seria afinidade: o partido contrata quem pensa como ele. Os autores testaram e não colou, por dois motivos. O primeiro é que quem trocou de lado pouco antes da eleição recebeu praticamente a mesma vantagem de quem era fiel ao partido havia anos. O segundo é que o apoiador só se dá bem no município onde ele fez campanha, e não na cidade vizinha governada pelo mesmo partido. Se o que contasse fosse pensar igual, a divisa entre dois municípios não faria diferença nenhuma. O que está sendo pago não é a opinião do apoiador. É o serviço que ele prestou ali.

Falta a parte incômoda. Os autores quiseram saber quem, entre os apoiadores, mais se beneficia da conexão política: os mais preparados para o cargo ou os menos preparados. Mediram isso de três jeitos, entre eles a escolaridade que a vaga exige e o quanto a pessoa ganhava antes na iniciativa privada. Nas três medidas a resposta foi a mesma: quem mais ganha com a conexão política é o menos preparado. O apoio político entra no lugar da qualificação, e não em cima dela.

O segundo estudo vira a lente para o outro lado do balcão: não quem é contratado, mas quem assina a contratação. E olha para um tipo específico de vencedor, o que tem ficha criminal. Diogo Britto, Gianmarco Daniele, Marco Le Moglie, Paolo Pinotti e Breno Sampaio cruzaram os processos criminais de toda a população brasileira com as listas de candidatos. Na população adulta, 2,3% respondem a alguma acusação criminal. Entre os candidatos estreantes de 2012 a 2020, 4,4%. Entre os que se elegeram, 5,1%. O padrão se repete em todos os partidos e em todos os níveis de governo, e continua de pé quando se comparam pessoas de mesma idade, raça, escolaridade e profissão anterior. Uma ressalva que os próprios autores fazem questão de registrar: eles trabalham com acusação, não com condenação. Quem já foi condenado por certos crimes é inelegível e nem apareceria na conta.

Quando esses candidatos vencem por pouco, a conta aparece no posto de saúde. Nesses municípios, a fatia de bebês que nascem abaixo do peso sobe 8% e a mortalidade infantil sobe 21%, na comparação com as cidades onde quem venceu, por uma margem igualmente apertada, foi o adversário de ficha limpa. O gasto público não muda, o que descarta a explicação de que faltou dinheiro. O que muda é quem foi contratado: os apoiadores desses prefeitos ganham 3,3 empregos públicos por ano, contra 2,3 dos vencedores sem acusação, e a diferença está concentrada exatamente na saúde. Em educação, esses mesmos prefeitos não fazem pior. O estrago aparece exatamente onde eles colocaram os seus apoiadores.

🎓 O que a teoria diz

Seleção política. A ideia, formalizada por Francesco Caselli e Massimo Morelli e por Timothy Besley, parte de uma constatação incômoda: quem se candidata não é uma amostra aleatória da população. Se o cargo paga mais do que a pessoa ganharia fora dele, e se dá para extrair alguma vantagem enquanto se está lá, então quem tem menos a perder no mercado e menos escrúpulo tem mais motivo para se candidatar. É o que os números deste bloco mostram: quem responde a processo criminal tem o dobro de chance de se candidatar, e de se eleger.

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Representação · O espelho

Enem · Universidade · Ensino superior · Aspiração · Representação · Prefeitas

Onde um candidato negro venceu por pouco, 38% mais jovens negros entraram na universidade

Até aqui a eleição apareceu como distribuidora de cargos na prefeitura. Falta a parte que não passa pelo orçamento, e que é a mais surpreendente das três.

Jorge Ikawa, Clarice Martins, Pedro Sant'Anna e Rogério Santarrosa acabam de publicar no Journal of Public Economics um estudo com o mesmo desenho dos anteriores, aplicado às disputas apertadas entre um candidato negro e um branco. Dois anos depois da eleição, nos municípios onde o candidato negro levou, os estudantes negros se inscreveram 26% mais no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio, a porta de entrada da maior parte das universidades brasileiras) do que os estudantes de cidades onde esse candidato perdeu por uma diferença igualmente mínima. Seis anos depois, 40% mais. Oito anos depois, perto de 50% mais, ou seja, muito depois de o mandato ter acabado.

A inscrição na prova é só a intenção. O que aconteceu depois é o que importa. Jovens negros nascidos nesses municípios têm 38% mais chance de estar matriculados no primeiro ano de uma faculdade, e a diferença chega a 60% oito anos após a eleição. Em números de gente, são cerca de 15 a 24 calouros negros a mais por município, sobre uma base de aproximadamente 40. E eles concluem o curso: o efeito sobre formatura também aparece, e nas universidades bem avaliadas.

O primeiro instinto é procurar a política pública que explique isso. Os autores foram atrás e não acharam. Ensino médio e superior não são atribuição de prefeito, então não há alavanca óbvia para puxar. Não houve mudança em recursos das escolas, em gasto, em nota, nem na composição racial dos gestores municipais. E os alunos brancos não perderam nada: o efeito sobre eles é pequeno e positivo, o que descarta a leitura de que é uma vaga tirada de um para dar a outro.

A pista mais forte está em quem foi afetado. O salto nas inscrições é igualmente grande entre alunos negros de escola particular, que não dependem em nada da rede municipal. E também não aparece entre alunos brancos de escola pública, que dependem. Nenhum canal de orçamento produz esse desenho. Sobra a explicação que os autores defendem, e ela dispensa teoria: o exemplo. Quando alguém parecido com você ocupa o cargo mais visível da cidade, muda o que você acha possível para si mesmo. O prefeito eleito não criou uma vaga sequer na universidade. Ele mexeu numa conta que o adolescente faz sozinho, em silêncio: vale a pena pagar a inscrição do Enem e tentar uma vaga na faculdade?

Mas os próprios autores põem um freio. O canal da aspiração, dizem eles, é sugestivo, não provado: pode haver política que eles não observaram, ou diferença no jeito de comunicar. E fazem questão de dizer que o que mediram é o efeito de eleger aquele prefeito, não o efeito da raça isolada.

📊 E quando quem vence é mulher

Fernanda Brollo e Ugo Troiano usaram o mesmo método para olhar as disputas apertadas entre um homem e uma mulher. Onde a mulher venceu, a prefeitura apareceu com menos corrupção. Mesmo assim, as prefeitas se reelegeram menos que os prefeitos. Para os autores, a explicação está no jogo que elas não jogaram: contrataram menos gente sem concurso no ano em que a próxima eleição aconteceu e levantaram menos dinheiro de campanha para disputá-la. Os homens jogam mais o jogo, e o jogo dá voto.

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📚 Vale ler

Os cinco estudos da edição, dois por bloco. Todos em inglês.

Political Turnover, Bureaucratic Turnover, and the Quality of Public Services

O estudo das escolas, na versão aberta dos autores. É de onde saiu o gráfico da edição.

Akhtari, Moreira e Trucco

Political Turnover Negatively Affects the Quality of Public Services: A Replication

A conferência do resultado brasileiro e o teste no Chile, que não achou efeito nenhum.

Sebastian Gallegos

Patronage and Selection in Public Sector Organizations

O estudo do emprego público, com a abertura por tipo de cargo e as três medidas de preparo.

Colonnelli, Prem e Teso

A Few Bad Apples? Criminal Charges, Political Careers, and Policy Outcomes

O estudo da ficha criminal, aberto, com os números de mortalidade infantil e de contratação de apoiadores.

Britto, Daniele, Le Moglie, Pinotti e Sampaio

Elections that inspire: Effects of Black mayors on educational attainment

Publicado neste ano e de acesso livre. Traz os efeitos ano a ano e as explicações que os autores descartaram.

Ikawa, Martins, Sant'Anna e Santarrosa

What happens when a woman wins an election? Evidence from close races in Brazil

O estudo das prefeitas, com a parte sobre auditorias e corrupção que ficou de fora daqui.

Brollo e Troiano

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