Daily Brew

Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.

TERÇA-FEIRA · 12 DE MAIO DE 2026

☕ Bom dia

Domingo à noite, Trump leu a resposta do Irã à proposta de paz, escreveu "totalmente inaceitável" no Truth Social e devolveu o Brent para US$ 103 já na abertura de ontem. Ormuz segue fechado. O Ibovespa abriu vendido e a Petrobras, dona da semana, virou pressão — comprada demais para reagir bem ao petróleo subindo.

No meio do pregão, o Focus piorou pela nona semana seguida: IPCA 2026 em 4,91%, Selic 2027 saltando para 11,25%. A curva incorporou o recado. À noite, a Petrobras entregou o balanço do 1T26.

Hoje sai o IPCA cheio de abril — primeiro depois do choque do petróleo. E nos EUA, o CPI. Dois números, mesma pergunta: o repasse já começou? Café em pé. ☕

Geopolítica · O fim de semana virou o pregão

Trump · Irã · Ormuz · Brent · Petrobras

"Totalmente inaceitável." E o Brent encostou em US$ 104 antes do café da manhã.

Na noite de domingo, Trump publicou no Truth Social que a resposta iraniana à proposta dos EUA era "totalmente inaceitável". Quatro palavras. Suficientes para o Brent abrir ontem em alta de 2,47%, a US$ 103,79, segundo a ADVFN. O WTI seguiu o vizinho, +2,54%, a US$ 97,84. Toda a queda de 6% da semana passada — construída no otimismo de que Ormuz reabriria em dias — foi devolvida em uma manhã.

O Ibovespa abriu vendido e descolou da regra. Apesar do petróleo subindo, Petrobras encabeçou as quedas — papel está comprado demais, mercado já precificou o cenário de barril alto, e o que faltava era reabertura do estreito para destravar mais alívio. Foi exatamente o que não aconteceu. Pelo Bloomberg, o gás natural liquefeito do Qatar até atravessou Ormuz pela primeira vez desde fevereiro, mas com rota negociada caso a caso — não é reabertura, é exceção.

À noite, depois do fechamento, a Petrobras divulgou o balanço do 1T26 — primeiro trimestre rodado com petróleo acima de US$ 100. Mercado vai ler hoje em duas chaves: tamanho do dividendo extraordinário e o que a companhia sinaliza sobre política de preços com Brent ainda no triple-digit.

🎓 O que a teoria diz

Prêmio de risco geopolítico: em choques de oferta com baixa elasticidade — petróleo é o caso clássico — o preço carrega um adicional sobre o fundamento, que sobe e cai com a probabilidade percebida de ruptura. Quando essa probabilidade muda por uma frase do tomador de decisão, o ajuste não é gradual: é instantâneo, como ontem na abertura.

E daí?

Petrobras: com papel comprado e Brent voltando a subir, a alavanca é o dividendo do balanço — sem extraordinário robusto, o repique do petróleo não compensa. Refinarias e químico: margem de refino segue beneficiada; Braskem reporta amanhã e tem cenário mais favorável. NTN-B longa: juro real volta a embutir prêmio geopolítico; carrego melhora, mas com volatilidade. Dólar: Focus cortou projeção para R$ 5,20 — risco maior é o BC ter que defender a queda se Ormuz reabrir mesmo.

Brasil · A curva escutou

Focus · IPCA · Selic · DI · Expectativas

Nove semanas. E agora 2027 também entrou na conta.

O Focus de ontem mexeu em três lugares ao mesmo tempo. A mediana do IPCA 2026 subiu de 4,89% para 4,91% — nona alta consecutiva, longe do teto da meta de 4,5%. Considerando só as 58 estimativas atualizadas nos últimos cinco dias úteis, o número já está em 4,95%, segundo o Seu Dinheiro. A piora não desacelerou: o consenso ainda está marcando para cima.

A novidade veio em 2027: a projeção de Selic para o fim daquele ano saltou de 11% para 11,25% — primeira alta depois de várias semanas estáveis. Tradução: o mercado deixou de comprar o cenário de juro convergindo rápido para o neutro. Para 2026, a Selic seguiu em 13%. A diferença é fina, mas relevante — o ajuste foi no horizonte, não na decisão imediata.

No câmbio, contramão: a mediana do dólar para o fim de 2026 caiu de R$ 5,25 para R$ 5,20. Há um mês, estava em R$ 5,37. Real apreciando, juro real subindo — clássico carry sustentado, agora com prêmio geopolítico de volta no preço.

🎓 O que a teoria diz

Desancoragem de expectativas: em regime de metas, a inflação esperada funciona como âncora informal — quando a mediana se descola da meta por muitas leituras seguidas, o BC começa a perder a opção de "olhar através" do choque. A teoria de Kydland-Prescott trata isso como inconsistência intertemporal: a credibilidade depende menos do que o BC diz hoje e mais do que o mercado projeta para amanhã.

E daí?

DI Jan/28: o repricing veio aqui, não no curto — vértice mais sensível à porta de 2027. NTN-B longa: juro real volta a subir; carrego atrativo, mas marcação negativa no curto se desancoragem continuar. Pré curto: 2026 segue em 13% — quem operou com Selic terminal de 12% leva ajuste menor que quem operou 2027. O que olhar hoje: o IPCA cheio de abril diz se o consenso de 4,91% já está atrasado ou ainda tem espaço para subir.

Mundo · Dois ônibus em sentidos opostos

S&P 500 · Nasdaq · Payroll · Fed · CPI

Lá fora, recorde com payroll forte. Aqui dentro, curva subindo com Focus pior. O CPI é hoje.

Wall Street fechou a semana passada com S&P 500 em 7.398,93 (+0,84% na sexta) e Nasdaq em 26.247,08 (+1,71%) — ambos em máxima histórica. Na semana, Nasdaq disparou 4,4%, S&P 500 subiu 2,3%, Dow ficou estável. O motor foi o payroll de abril, que veio bem acima do esperado segundo o Departamento do Trabalho — taxa de desemprego estável em 4,3%.

A leitura do mercado foi imediata: Fed segura juro entre 3,50% e 3,75% até o fim do ano, pelas apostas que rodaram na sexta segundo a CNN Brasil. Powell encerra o mandato em 15 de maio — sexta-feira que vem — e Kevin Warsh ainda no Senado para confirmação. Próximo FOMC só em 16-17 de junho, sob o novo regime, e com payroll forte e CPI ainda a sair, a função de reação do sucessor virou o jogo macro principal de Wall Street.

A divergência com o Brasil ficou nítida ontem. Lá: bolsa em máxima, mercado precificando pausa do Fed. Aqui: Ibovespa em queda, curva subindo, Focus na nona alta. Mesmo choque externo de petróleo, dois canais de transmissão diferentes — e duas funções de reação ainda mais distintas. O CPI de abril nos EUA sai hoje. Primeiro número cheio depois do payroll forte.

🎓 O que a teoria diz

Canal de transmissão monetária: o mesmo choque externo (Brent a US$ 103) entra em economias diferentes por canais distintos. Em economia com âncora consolidada e mercado de trabalho forte, o BC pode tratar como ruído de oferta; em economia emergente com expectativas já desancorando, vira inflação subjacente via pass-through cambial e câmbio importado. A teoria do Mundell-Fleming explica por que duas curvas reagem em direções opostas.

E daí?

S&P/Nasdaq: recorde precisa de CPI dócil — número alto reanima dúvida sobre quanto o Fed pode segurar, ainda mais com transição de cadeira. Brazil-EUA spread: diferencial de juro real ajuda o real no curto, mas se o sucessor de Powell vier hawkish, a história inverte rápido. Tech brasileiro listado lá fora: beneficia do beta com Nasdaq, mas absorve o spread do país. O que olhar hoje: CPI cheio dos EUA às 10h30 (ET) — primeiro número de inflação depois do payroll forte.

📊 Gráfico do dia

IPCA 2026 · Mediana Focus · Semana a semana

Nove semanas, nove altas. A mediana saiu de 4,31% e chegou a 4,91% — meio ponto acima do teto da meta.

FONTE: BOLETIM FOCUS / BANCO CENTRAL DO BRASIL · ELABORAÇÃO: DAILY BREW · 12/05/2026

A série acima é da mediana semanal das projeções para o IPCA cheio de 2026 no Boletim Focus. Quatro semanas atrás, a expectativa era de 4,86%. Há nove semanas, 4,31%. A subida não desacelerou — apenas mudou de inclinação. Hoje sai o IPCA de abril.

📌 O número do dia

11,25%

Selic projetada para o fim de 2027 (mediana Focus · 11/05/2026)

Subiu de 11% para 11,25% em uma semana. Não é a Selic de hoje, nem a do fim deste ano — é a do horizonte que o mercado mais respeita como sinal. O consenso parou de comprar a tese de juro convergindo rápido para o neutro. E ainda faltam o IPCA de abril e o CPI americano para a curva fechar a conta.

📈 Fechamento de mercado

Ativo Fechamento Dia Mín / Máx
Ibovespa 181.908,87 pts ↓ −1,19% 181.614 / 184.530
Dólar (BRL · PTAX) R$ 4,8973 ↓ −0,05% 4,890 / 4,900
Brent US$ 104,21 ↑ +2,69% 103,24 / 105,97
Ouro Futuro US$ 4.683,04 ↓ −0,36% 4.655 / 4.714
S&P 500 7.412,84 pts ↑ +0,19% 7.384 / 7.428
Dow Jones 49.704,47 pts ↑ +0,19% 49.475 / 49.771
Nasdaq 26.274,13 pts ↑ +0,10% 26.135 / 26.310
Bitcoin US$ 81.893,70 ↓ −0,36% 80.620 / 82.187

Brent: +2,69% logo na abertura, depois de Trump rejeitar a resposta iraniana no domingo à noite. O barril devolveu em uma sessão quase metade da queda de 6% da semana passada — Ormuz segue fechado e o mercado deixou de operar reabertura iminente.

Ibovespa: −1,19% mesmo com S&P 500 e Nasdaq batendo novo recorde. A bolsa abriu na contramão com Petrobras pressionada (papel comprado demais para o petróleo subindo ajudar) e curva de juros longa abrindo após o Focus piorar pela nona semana seguida.

Fonte: B3 e BCB PTAX (Ibovespa e dólar, fechamento 11/05) · Investing.com (S&P 500, Dow, Nasdaq) · Investidor10 e IFC Markets (Brent, Ouro futuro, Bitcoin) · Broadcast Estadão e InfoMoney (destaques setoriais) · Elaboração: Daily Brew · 12/05/2026.

💬 A frase do dia

"Acabei de ler a resposta dos supostos representantes do Irã. Não gosto — totalmente inaceitável."

— Donald Trump, no Truth Social · domingo, 10/05/2026

Quinze palavras, US$ 2,50 a mais no barril, e a expectativa de Selic 2027 subiu 25 pontos. A diplomacia do petróleo cabe num post.

📅 Hoje no radar

Alto impacto

IPCA cheio de abril (IBGE, 9h)

Primeira leitura do índice oficial depois do choque do petróleo. Vai dizer se o IPCA-15 de abril (0,89%) e o IGP-M de +2,73% já estavam contaminando o varejo — e se o consenso de 4,91% no Focus está atrasado.

Alto impacto

CPI núcleo de abril nos EUA (10h30 ET)

Primeiro número cheio depois do payroll forte. Se vier acima do esperado, mercado começa a duvidar da pausa do Fed e o dólar reage. Powell encerra mandato em 15/05 — quem vai precificar é o sucessor.

Médio impacto

Teleconferência da Petrobras sobre 1T26

Balanço saiu ontem à noite. Hoje o mercado ouve o que importa: política de preços com Brent acima de US$ 100, capex revisado e tom sobre dividendos extraordinários. Pregão da PETR4 vai oscilar em cada frase.

Médio impacto

Balanços Banco do Brasil (BBAS3) e Nubank (ROXO34)

Penúltimo grande banco do calendário do 1T26. Foco em inadimplência e provisões — depois do trimestre fraco dos pares, o mercado vai checar se BB segue na contramão ou alinha com Itaú e Bradesco.

Baixo impacto

Discurso de John Williams (Fed de NY)

Última fala relevante de um diretor com voto antes do silêncio de transição. Vale pelo termômetro de quanto o Fed atual ainda quer condicionar o sucessor.

📰 Vale ler

Inflação fora da meta e câmbio em queda: IPCA 2026 passa para 4,91%, mas mercado corta projeção do dólar.

Seu Dinheiro: dentro da última leva do Focus, considerando só as 58 estimativas atualizadas nos últimos cinco dias úteis, a mediana já está em 4,95% — mais relevante para entender a velocidade da desancoragem do que o número oficial.

Seu Dinheiro · Macro · 11/05/2026

Trump rejeita resposta do Irã: "totalmente inaceitável".

Público / Reuters: cobertura do impasse na noite de domingo, com o detalhe de que Teerã quer cessar-fogo e abertura de Ormuz antes de discutir o programa nuclear. Inclui a primeira travessia de carga do Qatar pelo estreito desde fevereiro.

Público · Geopolítica · 11/05/2026

Petrobras: o que esperar do balanço do 1T26.

Seu Dinheiro: projeções dos analistas para lucro (faixa de R$ 23 bi a R$ 32 bi, mediana ~R$ 29 bi), Ebitda e dividendos antes do balanço sair. Útil para comparar com o número real e ler a teleconferência de hoje.

Seu Dinheiro · Empresas · 11/05/2026

Wall Street: Nasdaq e S&P 500 fecham em recorde após payroll forte.

ADVFN: o relatório completo do fechamento de sexta — quais setores puxaram o recorde, o quanto a queda do rendimento do Treasury de 10 anos ajudou (-2,8 pb) e por que o mercado já trabalha com Fed parado até o fim do ano.

ADVFN · Mercados · 08/05/2026

☕ Boa terça

Quatro palavras no Truth Social.

Brent de volta a US$ 103.

Focus na nona alta.

O IPCA cheio é hoje. ☕

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