Daily Brew

Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.

SEGUNDA-FEIRA · 04 DE MAIO DE 2026

☕ Bom dia

Foi um fim de semana cheio sem mercado por aqui. Wall Street fechou em recorde, a Apple marcou a transição de Tim Cook por cima, o Mercosul−UE entrou em aplicação provisória e o Senado já tinha vetado o indicado de Lula para o STF pela primeira vez em 132 anos.

Hoje a B3 reabre — e reabre antes da ata do Copom, que sai amanhã. O comitê cortou 25 pb na quarta passada com tom cauteloso. No meio-tempo, as expectativas para o IPCA de 2026 voltaram a subir, e a Selic projetada para o fim do ano subiu junto. O comitê tem mais conta para fazer.

O resto da semana é checagem: ISM Serviços e JOLTS amanhã, ADP na quarta, payroll na sexta. Café em pé. ☕

Brasil · Conta de chegada

Selic · IPCA · IPCA-15 · DI · Copom · Expectativas

Antes da ata, o consenso voltou a piorar. A curva tem mais a fazer.

Na quarta-feira passada, o Copom cortou a Selic em 0,25 pp, para 14,50% — segundo corte consecutivo, com tom cauteloso. Nas semanas que antecederam o corte, porém, a expectativa do mercado para o IPCA de 2026 voltou a subir: foi de 4,31% há um mês para 4,86% na última leitura, segundo o BCB. A projeção de Selic no fim do ano também subiu — de 12,5% para 13,0%. O consenso está comprando menos cortes do que comprava há quatro semanas.

Por dentro: o IPCA-15 de abril veio em 0,89%, depois de 0,44% em março, segundo o IBGE. O IGP-M de abril fechou em +2,73%, maior alta mensal desde maio de 2021 — o atacado já pagou pelo Brent que rompeu US$ 118 no começo do mês. E o IPCA cheio acumulado em 12 meses voltou a subir em março: 4,14%, contra 3,81% em fevereiro. A água que entrou no atacado pelos canais de combustível e alimentos já começa a pressionar a leitura de varejo.

A curva DI ainda preserva apostas em novos cortes — mas com margem de erro menor. A ata da reunião passada sai amanhã (8h). É a próxima régua formal: quanto do choque externo o comitê trata como temporário, quanto já entrou no balanço de riscos, e quanto da porta de junho ainda está aberta.

🎓 O que a teoria diz

Ancoragem de expectativas: em regime de metas, a credibilidade do banco central depende de manter a inflação esperada próxima da meta. Quando o consenso começa a subir, o BC perde graus de liberdade — cortar mais rápido corre o risco de desancorar mais. Por isso a ata pesa: ela mostra como o comitê trata o próprio sinal de expectativas. Pode dizer "ruído temporário do choque externo" e seguir cortando, ou "movimento que entra no balanço" e segurar a porta.

E daí?

NTN-B curta: carrego real segue atraente e protege se o IPCA cheio confirmar a pressão do IPCA-15 — mas não é "sem risco": se a ata vier mais dura e a curva real abrir, há marcação negativa, ainda que menor que na duration longa. DI Jan/27: a curva ainda compra corte, mas a margem ficou menor — e o contrato vai virando o instrumento de leitura da "porta de junho". Pré curto: para posição já comprada, ata mais dovish ajuda; ata sugerindo pausa tende a abrir taxa. Para entrada nova, uma abertura pós-ata pode melhorar o ponto de carrego. Base diária de expectativas: a primeira leva de dados depois da ata vai mostrar se o consenso começa a reancorar ou se a piora continua — o Relatório Focus consolidado sai só na segunda seguinte.

Mundo · Recorde no calendário cheio

S&P 500 · Nasdaq · Apple · Payroll · Powell · Warsh

Wall Street defende recorde com payroll na sexta. Powell encerra o mandato em 15/05 — e o próximo FOMC só em 16-17/06.

Wall Street terminou a semana passada em alta. S&P 500 fechou em 7.230,12 (+0,29% na sexta), novo recorde. Nasdaq cravou 25.114,44 (+0,89%) — primeiro fechamento acima dos 25 mil. Dow caiu 0,31% mas só depois de flertar com os 50 mil no intraday (máxima de 49.988). O motor da semana foi a Apple: receita de US$ 111,2 bi no trimestre fiscal, +17% em relação ao ano anterior, EPS de US$ 2,01. Ação subiu 3,3% na sexta no pregão regular, segundo a AP.

Esta semana a máquina precisa entregar de novo. Antes do payroll, a terça traz ISM Serviços e JOLTS de março; na quarta vem o ADP de emprego — dado privado que o mercado costuma ler como aperitivo do payroll oficial, com poder preditivo limitado. O relatório cheio do BLS sai sexta, primeiro depois do choque do petróleo. Cada um desses números entra no debate sobre a velocidade de afrouxamento.

No fundo, há uma transição de cadeira para precificar. Powell encerra o mandato de chair em 15 de maio — a reunião de 28-29 de abril foi o último FOMC regular sob sua presidência. Kevin Warsh, indicado para sucedê-lo, ainda precisa concluir o processo de confirmação no Senado. O próximo FOMC regular é em 16-17 de junho — e o mercado já vem precificando a função de reação do próximo comando.

🎓 O que a teoria diz

Risco de transição em política monetária: mudança de comando em banco central aumenta a incerteza sobre a função de reação. Mesmo sem decisão nova, a curva pode se mexer porque o mercado reprecifica comunicação, independência institucional e tolerância à inflação. Se o sucessor for lido como menos tolerante à inflação, a parte curta tende a incorporar juros mais altos; se for lido como mais sujeito à pressão política por cortes, o efeito vai mais para prêmio de risco, dólar e inclinação da curva. O preço, nesse intervalo, reflete expectativa — não decisão.

E daí?

S&P/Nasdaq: recorde precisa ser defendido com payroll razoável; número forte demais reanima medo de Fed segurando, fraco demais reanima medo de recessão. Dólar/Treasuries: nas próximas semanas o mercado vai negociar menos "Warsh hawk ou dove" e mais "qual a independência da função de reação" — isso aumenta volatilidade implícita e pode colocar prêmio na curva longa. Apple/Big Tech: com Ternus assumindo em setembro, o mercado precifica continuidade operacional — quem espera disrupção deve esperar 12 a 18 meses para ler o tom da nova gestão. Calendário: sem FOMC em maio, a janela até 16-17/06 é basicamente leitura de dado — payroll, CPI, ISM Serviços.

Brasil · Próxima função de reação

PNAD · Desocupação · Renda real · Phillips · Copom · IBGE

A taxa de desemprego subiu trimestre a trimestre. Saiu depois da decisão do Copom — mas entra na próxima rodada.

A taxa de desocupação medida pela PNAD Contínua subiu trimestre móvel a trimestre móvel: 5,4% no encerrado em janeiro, 5,8% em fevereiro, 6,1% em março. São 0,7pp em três leituras consecutivas — primeira sequência clara de alta depois de vários trimestres em queda. A leitura saiu em 30/04 (IBGE), um dia depois da decisão do Copom — então não entrou na decisão desta rodada. Mas entra no debate da próxima.

Por que importa? Porque o Copom está cortando a Selic, mas com inflação corrente acelerando. Atividade desacelerando ajuda a tese de mais cortes (hiato de produto se abre, pressão de demanda cede). Mas inflação subindo na origem — IGP-M, IPCA-15, IPCA cheio — freia. O que acontece entre os dois movimentos é o que a curva de Phillips de curto prazo prevê: deslocamento, não estabilidade.

O detalhe é que a composição ainda não grita recessão. O rendimento médio real habitual continuou crescendo no trimestre encerrado em março — alta de 1,6% contra o trimestre anterior e 5,5% em relação ao mesmo período de 2025, segundo o IBGE. O sinal, por enquanto, é mais de perda de tração no emprego do que de colapso da renda. O canal de transmissão do juro alto chega aqui — crédito mais caro, contratação mais lenta — mas ainda não derramou na renda corrente.

🎓 O que a teoria diz

Curva de Phillips de curto prazo: em horizonte trimestral, há trade-off entre desemprego e inflação — mais atividade pressiona preços, menos atividade alivia. Em horizonte longo, a curva é vertical no nível da NAIRU. O choque brasileiro de 2026 veio do lado da oferta (petróleo, câmbio), não da demanda. Atividade mais fraca não desfaz o choque inicial — mas pode reduzir repasses, esfriar serviços e impedir que vire inflação persistente. É aí que o BC decide entre olhar através do choque ou reagir para proteger expectativas.

E daí?

Crédito ao consumo: com desemprego subindo na margem mas renda real ainda crescendo, o quadro é mais de perda de tração que de colapso — bancos vão monitorar inadimplência por linha (rotativo, consignado, pessoal) antes de mexer em precificação. Varejo e serviços: emprego perde tração, mas renda ainda sustenta consumo básico — quem investe em essencial sofre menos no curto prazo. Salário real: seguiu crescendo no trimestre fechado em março; a próxima leitura vai dizer se o emprego mais fraco começa a chegar à renda. Para a próxima rodada: o trade-off mais difícil é entre inflação acelerando e atividade desacelerando — e nenhum dos dois lados resolve sozinho.

📌 O número do dia

4,86%

EXPECTATIVA DE IPCA PARA 2026 (MEDIANA, BCB · 24/04/2026)

Há um mês, em 27/03, a mediana estava em 4,31%. Em 24/04 chegou a 4,86%. O consenso não se mexeu por gosto pelo jogo — mexeu porque Brent, câmbio e risco de repasse saíram dos eixos no caminho. IPCA-15 e IGP-M, divulgados depois (em 28/04 e 29/04), reforçaram a história. A ata de amanhã explica como o Copom lê isso.

📈 Mercados — Fechamento da semana passada (B3 fechada na sexta por feriado)

Ativo Fechamento Dia Mín / Máx
Ibovespa (qui 30/04) 187.317,64 pts ↑ +1,39% 184.758 / 187.920
Dólar PTAX venda (qui 30/04) R$ 4,9886 ↓ −0,20% spot intraday: 4,95 / 5,01
Brent ⭐ US$ 108,83 ↓ −4,54% 106,27 / 112,43
Ouro fut. (Comex jun/26) US$ 4.629,60 ↑ +1,49% ~4.560 / ~4.640
S&P 500 ⭐ 7.230,12 pts ↑ +0,29% 7.229 / 7.272
Dow Jones 49.499,27 pts ↓ −0,31% 49.496 / 49.988
Nasdaq Composite ⭐ 25.114,44 pts ↑ +0,89% 24.967 / 25.223
Bitcoin (referência 1º/05) US$ 78.344 ↑ +2,67% 76.307 / 78.797

⭐ Brent: a queda de 4,54% na sexta foi a segunda forte da semana — em dois pregões o barril desfez cerca de US$ 10. A B3 reabre hoje precificando esse refluxo, e a curva DI começa o dia testando o quanto alívio externo se converte em alívio interno.

⭐ S&P 500: recorde foi feito com Apple no centro — receita de US$ 111,2 bi e troca anunciada de CEO em setembro. Esta semana o teste é macro: ADP qua, payroll sex.

⭐ Nasdaq: primeiro fechamento acima dos 25 mil. ISM manufatura em 52,7 ajudou a tese de pouso suave; PCE cheio em 3,5% e núcleo em 3,2% seguram o entusiasmo até o próximo dado de emprego.

Fonte: B3 (qui 30/04), BCB PTAX (qui 30/04), yfinance front-month (Brent BZ=F, contrato contínuo — settlement AP/mercado: US$ 108,17), Comex contrato jun/26 (ouro, sex 1º/05), yfinance (demais ativos US e Bitcoin, referência sex 1º/05) · Elaboração: Daily Brew · 03/05/2026.

💬 A frase do dia

“O ambiente externo permanece incerto, em função da indefinição a respeito da duração, extensão e desdobramentos dos conflitos geopolíticos no Oriente Médio e seus possíveis efeitos sobre as condições financeiras globais.”

— Comunicado do Copom · reunião de 29 de abril de 2026

Tradução livre: o Copom cortou, mas não comprou a tese de céu limpo lá fora. A ata de amanhã explica.

📅 A semana que começa

Ter 05/05

Ata do Copom (BCB, 8h) · ISM Serviços EUA (10h ET) · JOLTS março (10h ET) — primeira leitura formal do corte de 25 pb com IPCA-15 acelerando e expectativas em 4,86%. Quanto da porta de junho ficou aberta, qual o peso atribuído ao choque externo. Nos EUA, ISM Serviços ajuda a ler a parte mais persistente da inflação de serviços; JOLTS mostra vagas em aberto. Alto impacto

Qua 06/05

ADP de emprego abril (8h15 ET) · PMI Serviços global — dado privado lido pelo mercado como aperitivo do payroll de sexta. Sinal antecipado se a desaceleração do trabalho americano ganhou tração em abril, depois do ISM manufatura em 52,7 e do PCE núcleo ainda em 3,2%. Médio impacto

Qui 07/05

Pedidos de seguro-desemprego EUA (semana, 8h30 ET) — nos EUA, o termostato semanal do mercado de trabalho continua na cadeira. No Brasil, acompanhar a base diária de expectativas do BCB para ver se o consenso começa a reancorar pós-ata; o Relatório Focus consolidado só sai na segunda seguinte. Médio impacto

Sex 08/05

Payroll EUA — abril (BLS, 8h30 ET) — primeiro relatório de emprego americano depois do choque do petróleo, com Powell ainda na cadeira até 15/05 (próximo FOMC só em 16-17/06). No Brasil, o IPCA cheio de abril fica para a semana seguinte (IBGE, 12/05) — com IGP-M em alta de cinco anos como ruído de fundo. Alto impacto

📚 Vale ler

Prévia da ata: o que esperar do Copom depois do corte de 25 pb.

Valor: leitura de mesa antes da ata de terça. Foco em como o comitê vai redigir o trecho sobre balanço de riscos depois do IPCA-15 acelerando, IGP-M em alta de cinco anos e expectativas para 2026 voltando a subir.

VALOR ECONÔMICO · Política Monetária · 04/05/2026

Apple já começa a precificar a era Ternus — e o que muda na cadeia.

CNBC: o que se sabe sobre John Ternus, atual chefe de hardware, e como o mercado está lendo a transição anunciada para setembro depois do trimestre fiscal de US$ 111,2 bi. Continuidade operacional é o cenário base.

CNBC · Big Tech · 03/05/2026

Prévia do payroll: o número que o regime Warsh herda.

BLS / Bloomberg: roteiro do que o mercado espera para o relatório de abril, sai sexta. Consenso aponta criação em desaceleração, taxa de desemprego perto de 4,2%, salários médios em alta moderada. Cada componente entra na precificação do FOMC de junho, primeiro depois da troca de chair.

BLS · Macro EUA · 03/05/2026

Mercosul-UE: primeiros embarques sob tarifa zero começam esta semana.

Mapa / Agência Brasil: cobertura dos primeiros movimentos comerciais após a entrada em aplicação provisória do acordo na sexta. Carne, suco e minério entram com cronograma claro de redução; manufatura entra em pauta de salvaguarda.

MAPA · Comércio Exterior · 02/05/2026

☕ Boa segunda

A B3 reabre.

A ata do Copom sai amanhã.

As expectativas voltaram a piorar.

A semana ainda tem payroll na sexta. ☕

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