Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.
QUARTA-FEIRA · 13 DE MAIO DE 2026
☕ Bom dia
Terça foi dia de dois IPCAs no mesmo CEP. O daqui veio mais comportado no mês, mas o acumulado em 12 meses encostou no teto da meta. O de lá veio quente, no maior nível desde 2023. Mesmo show, narrativas opostas.
Wall Street comeu o CPI pelas beiradas — cortes do Fed agora vivem em modo "talvez não". Aqui, Petrobras divulgou o 1T26 com lucro forte, mas dividendos abaixo do consenso. O mercado leu o número, ergueu a sobrancelha e vendeu PETR4 mesmo assim.
No Oriente Médio, Trump fez ar de quem não vai dobrar. Brent voltou pros US$ 107. Hoje sai PMC do varejo e PPI americano. Café em pé. ☕
🇺🇸 EUA · Infởação teimosa
CPI · Núcleo · Fed · Wall Street · Trump · Xi
O CPI cheio veio 3,8% e o núcleo 2,8%. O Fed ganhou um problema novo.
O BLS divulgou ontem o CPI de abril dos EUA. O cheio veio em +0,6% no mês e +3,8% em 12 meses — subindo dos 3,3% de março. O núcleo (sem alimentos e energia) avançou +0,4% mensal e ficou em +2,8% ao ano, o maior nível desde maio de 2023 e bem acima da meta de 2% do Fed. Quem esperava +0,3% no núcleo levou 0,4 — um décimo não resolve nada sozinho, mas quando vira tendência, vira problema.
A pressão não veio só do barril. Moradia, alimentos, vestuário e serviços contribuíram. Em outras palavras: a inflação tem ramificações e não se explica só pelo Brent acima de US$ 100. O choque externo já está chegando na cesta.
A leitura de preço foi rápida. Os traders cortaram a aposta em corte de juros pelo Fed até o fim do ano e elevaram para perto de 30% a probabilidade de uma alta — sim, alta (segundo CME FedWatch). Wall Street recuou dos recordes: S&P 500 perdeu 0,16%, Nasdaq cedeu 0,71%, Dow se segurou com +0,11%. Goolsbee, presidente do Fed de Chicago, disse o que precisava: "poucos sinais positivos, preocupações reforçadas".
🎓 O que a teoria diz
Sticky inflation: Stock e Watson (2007) mostraram que o núcleo do CPI é melhor preditor de inflação futura do que o índice cheio — porque exclui choques temporários (energia, alimentos) e isola a pressão "de inércia". Quando o núcleo sobe junto com o cheio, não é mais só o choque do petróleo; é a inflação se generalizando pela cesta. Pra um banco central com mandato dual, isso muda o trade-off: cortar agora arrisca desancorar expectativas.
E daí?
O Fed só volta a se reunir em 16-17 de junho. Até lá, cada dado parcial pesa. PPI hoje (9h30 ET) é o primeiro teste — se vier quente, a curva americana abre mais e arrasta a brasileira junto. Para quem está em prefixados, o conforto da semana acabou.
🇧🇷 Brasil · IPCA colado no teto
IPCA · Meta · Alimentos · Serviços · Copom · Selic
IPCA desacelerou em abril. Mas o acumulado em 12m bateu 4,39% — e o teto da meta é 4,5%.
O IBGE divulgou ontem o IPCA de abril em +0,67%, uma desaceleração de 0,21 pp em relação aos 0,88% de março. Tudo bem, parece bom. Mas o acumulado em 12 meses subiu para 4,39% — vindo de 4,14%. Em termos práticos, o IPCA está a 11 centésimos do teto de 4,5%.
Quem segurou o resultado mensal: Educação e Transportes, ambos com +0,06%. O que apertou: Alimentação e Bebidas, com +1,34% — quase metade da composição do índice ao longo do mês veio da mesa. Serviços seguem rodando acima de 5% no acumulado, e habitação continua pressionada por energia elétrica.
Para o Copom, a leitura é agridoce. A ata da semana passada falou em "cautela com choque externo". Esse choque ainda não passou pelo varejo brasileiro — o IPCA-15 de abril já havia sinalizado (0,89%), e o cheio confirmou. Com Brent a US$ 107 e dólar oscilando perto de R$ 4,90, a aposta de corte em junho fica para depois das férias. O Focus consolidado de segunda-feira já trouxe a Selic 2027 subindo para 11,25%.
🎓 O que a teoria diz
Pass-through do câmbio e do petróleo: em economias pequenas e abertas (Calvo-Reinhart), choques externos chegam ao IPCA com 3 a 6 meses de defasagem. O Brent saltou para US$ 100+ desde fevereiro, com o fechamento do Ormuz; o IPCA começou a refletir agora. O núcleo subjacente importa mais do que o índice cheio para o Copom — mas o cheio é o que paga o aluguel, abastece o tanque e move a mídia.
E daí?
Se o IPCA estourar o teto em 2026, o presidente do BCB escreve carta aberta explicando. Mais relevante: o mercado já precifica Selic alta por mais tempo. Quem está em ativos prefixados curtos não foi machucado. Quem está em renda fixa pré longa, esse vê o preço do MTM cair toda vez que sai um dado desses.
⛓️ Geopolítica · Ormuz, ato N
Brent · Estreito de Ormuz · EUA · Irã · Trump · WTI
Trump disse não. Brent disse sim. O petróleo voltou pros US$ 107.
Segunda-feira: Trump descreveu a resposta iraniana à proposta de paz como "inaceitável". Terça-feira: na entrevista pela manhã, repetiu que o bloqueio marítimo está funcionando e que o Irã "chega a um acordo ou será dizimado". O mercado leu como sinal de que a janela diplomática está mais fina do que parecia na sexta. Brent fechou em US$ 107,77 (+3,42%). O WTI subiu mais, +4,19%, para US$ 102,18.
Pra contextualizar: o Estreito de Ormuz está com tráfego suspenso desde o início de março — 70 dias e contando. Em condições normais, 20% do petróleo marítimo global passa por lá. As refinarias asiáticas estão operando com estoques estratégicos e fretes redirecionados via Cabo da Boa Esperança, que adiciona 14 dias e custos. O barril a US$ 107 não é uma anomalia — é o preço de equilíbrio com Ormuz quebrado.
A AIE já calibrou o cenário base: se Ormuz reabrir em 60 dias, Brent volta para US$ 85 em 90 dias. Se passar de 180, o preço ancora em US$ 110-120 estrutural. Goldman, na semana passada, atualizou previsão para US$ 95 em fim de 2026 (vindo de US$ 85). Quanto mais o impasse dura, mais a curva de longa fica gorda.
🎓 O que a teoria diz
Prêmio de risco geopolítico: Kilian (2009) decompõe o preço do petróleo em três componentes: demanda agregada, oferta específica e demanda precaucionária. Em crises de Ormuz, esse terceiro componente domina — países, refinarias e fundos compram para estoque, não para uso imediato. O barril sobe sem aumento de consumo. É o tipo de pressão que cabeça com retorno rápido a normalidade quando a tensão cede, mas que destrói a demanda do consumidor enquanto dura.
O que vem
Sexta-feira: reunião Trump-Xi em Singapura. A pauta oficial é tarifa. A pauta paralela é Irã. A China é o maior comprador do petróleo iraniano e segue refinando — não vai fechar a torneira sem contrapartida. Se a reunião produzir qualquer sinal de cessar-fogo coordenado, Brent abre quinta-feira com 5% de queda. Se não, fica onde está.
📈 Gráfico do dia
A escada que ninguém queria subir — e ainda assim subiu.
IPCA acumulado em 12 meses, de jul/25 a abr/26. A barra laranja é o fechamento de ontem. A linha vermelha é o teto da meta (4,5%). Fonte: IBGE.

A leitura mensal até desacelerou em abril (de 0,88% para 0,67%) — mas como abr/25 trouxe um IPCA mês mais baixo, o efeito-base elevou o acumulado de 12m. É o tipo de movimento que assusta sem precisar de surpresa: a pressão estava na base, não no número novo. Próximo IPCA-15 sai em 27/05 — provavelmente outro round acima do conforto do Copom.
📌 O número do dia
2,8%
NÚCLEO DO CPI AMERICANO · ABRIL/2026
Maior nível desde maio de 2023. O núcleo (sem alimentos e energia) é o que o Fed olha pra calibrar juros — e ele acabou de avisar que cortar agora arrisca desancorar expectativas.
📈 Mercados — Fechamento de terça 12/05
| Ativo | Fechamento | Dia | Mín / Máx |
|---|---|---|---|
| Ibovespa ⭐ | 180.342,33 pts | ↓ −0,86% | 180.198 / 182.084 |
| Dólar comercial venda | R$ 4,9015 | ↑ +0,15% | 4,8771 / 4,8966 |
| Dólar PTAX venda | R$ 4,8932 | — | — |
| Brent ⭐ | US$ 107,77 | ↑ +3,42% | 104,11 / 108,42 |
| WTI | US$ 102,18 | ↑ +4,19% | 98,01 / 102,80 |
| Ouro Comex | US$ 4.713,72 | ↑ +0,93% | 4.682 / 4.751 |
| S&P 500 | 7.400,96 pts | ↓ −0,16% | 7.382,11 / 7.421,38 |
| Dow Jones | 49.760,56 pts | ↑ +0,11% | 49.512 / 49.842 |
| Nasdaq Composite ⭐ | 26.088,20 pts | ↓ −0,71% | 26.011 / 26.292 |
| Bitcoin | US$ 80.418 | ↓ −0,89% | 79.804 / 81.402 |
⭐ Ibovespa: queda puxada por Petrobras (PETR4 −1,62%) após 1T26 que veio com lucro forte (R$ 32,7 bi) mas dividendos abaixo do que o mercado esperava (R$ 9 bi, vs consenso próximo de R$ 12 bi). Vale e bancos também no negativo.
⭐ Brent: +3,42% para US$ 107,77. Vinha de US$ 104 segunda. Em duas sessões, voltou ao patamar de prê-discurso de Trump. Referência: Investing/front-month.
⭐ Nasdaq: −0,71%, pior que S&P porque o CPI quente machuca mais quem depende de juros baixos. Tech e IA continuam o ano em alta, mas o dia foi de realização.
Fonte: B3 (Ibovespa, ter 12/05), Agência Brasil (dólar comercial), BCB (PTAX 12/05), Investing/front-month (Brent, WTI), WSJ Comex settlement (ouro), Yahoo Finance (índices US), Investing (Bitcoin, referência 12/05) · Elaboração: Daily Brew · 12/05/2026.
💬 Frase do dia
“Os dados de inflação trouxeram poucos sinais positivos e reforçam as preocupações.”
Austan Goolsbee, presidente do Fed de Chicago · 12/05/2026
Tradução livre: o Fed não tem o luxo de cortar agora. É o tipo de frase que parece neutra até você lembrar que ela vem de um dovish histórico. Quando o dovish levanta a sobrancelha, a curva inteira escuta.
📅 O que vem aí
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Hoje 13/05 |
PMC do varejo · mar/26 (IBGE, 9h) · PPI EUA abril (9h30 ET) · Fluxo cambial semanal (BCB, 14h30) — PMC mostra se o consumidor brasileiro está segurando o pisão. PPI é o segundo round de pressão inflacionária americana — se vier acima de 0,4%, a curva americana abre mais e dólar volta a R$ 4,95+. Fluxo do BCB mede o humor do investidor estrangeiro. Alto impacto |
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Qui 14/05 |
Vendas no varejo dos EUA · abril (9h30 ET) · Pedidos de seguro-desemprego (semana) — depois de duas sessões de CPI/PPI quentes, varejo americano forte reforça tese de Fed sem corte. Fraco abre porta para narrativa de soft patch — mas com inflação no patamar atual, soft patch não vale corte. Médio impacto |
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Sex 15/05 |
Encontro Trump-Xi em Singapura · Fim do mandato de Powell como chair (vira governor) — reunião oficialmente sobre tarifa. Mas a pauta paralela é Irã: se a China sinalizar cooperação, Brent abre segunda em queda de 5%+. Se não, geopolítica continua dominando. Alto impacto |
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Próxima semana |
IPCA-15 maio (qua, 27/05 — final do mês) — primeira leitura de preços após o CPI EUA + IPCA Brasil. Aposta: Selic projetada para o fim de 2027 sobe mais um degrau. Médio impacto |
📖 Vale ler
IPCA varia 0,67% em abril e acumula 4,39% em 12 meses
A leitura mensal desacelerou, mas o acumulado em 12 meses se aproximou do teto da meta. Aliment&accedil;ão e Bebidas explicaram quase metade do número do mês. IBGE
Inflação no maior nível desde 2023 afasta Wall Street dos recordes
CPI cheio em 3,8% e núcleo em 2,8% mudaram a aposta para os próximos passos do Fed. Probabilidade de alta de juros até o fim do ano subiu para perto de 30%. Money Times
Petrobras lucra R$ 32,7 bi no 1T26 e anuncia R$ 9 bi em dividendos
EBITDA ajustado de R$ 61,7 bi, dívida bruta em US$ 71,2 bi dentro do teto do PN 2026-30. PETR4 caiu 1,62% — mercado esperava mais payout. Seu Dinheiro
Petróleo fecha em alta com escalada EUA-Irã e dúvidas sobre Ormuz
Brent +3,42% e WTI +4,19%. Mercado já precifica que o impasse vai durar mais. AIE: se Ormuz reabrir em 60 dias, Brent volta para US$ 85 em 90 dias. Diário do Grande ABC
☕ Boa quarta
O CPI veio quente.
O IPCA encostou no teto.
Trump endureceu.
E o Brent voltou pros US$ 107. Café em pé. ☕
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