Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.
QUINTA-FEIRA · 30 DE ABRIL DE 2026
☕ Bom dia
A Super Quarta entregou os números que o mercado já sabia — e cobrou pelas frases que ainda estavam em disputa.
O Fed saiu com o mercado aberto. Manteve os juros em 3,50–3,75%, mas o placar foi oito a quatro: um queria cortar; três aceitavam manter, mas não queriam prometer corte no comunicado. Wall Street cambaleou no statement, respirou na coletiva e fechou sem direção limpa. A curva, menos educada, vendeu Treasury. O dólar global ganhou força — a PTAX local, no Brasil, ainda fechou em queda.
No Brasil, o Copom saiu depois do fechamento. Cortou a Selic para 14,50%, como esperado, mas a bolsa já tinha dado seu voto antes: Ibovespa -2,05%, sexto pregão no vermelho, com Vale, bancos, Brent em US$ 118 e DI longo pedindo prêmio. O mercado não reagiu ao comunicado no fechamento — chegou ao comunicado já desconfiado. A prova fica para a abertura de quinta.
No after-market, as Magníficas entregaram receita. O capex cobrou. Microsoft, Alphabet e Amazon mostraram cloud forte; Meta mostrou que IA vende anúncio, mas também come caixa. Apple reporta hoje — com Tim Cook no retrovisor e John Ternus no para-brisa.
Quinta sem decisão de juros. Só PIB, PCE, PNAD e o silêncio constrangido de quem percebeu que o número veio. A confiança, não. Café passado. ☕
EUA · A briga foi pelo verbo
FOMC · Powell · Warsh · Brent · Estoques EUA · Treasuries
O Fed manteve a taxa. A briga foi pelo verbo — e a curva falou mais alto que o índice.
O Fed manteve a faixa de 3,50–3,75%, como o CME FedWatch precificava em 100%. O placar foi outro: oito a quatro. Stephen Miran votou para cortar 25 pb. Beth Hammack, Neel Kashkari e Lorie Logan votaram a favor da manutenção, mas se opuseram à inclusão de um viés de afrouxamento no comunicado — o famoso “additional adjustments”, que o mercado lê como promessa de corte futuro. Trocou-se a questão do número pela questão da promessa. Quatro dissensos foi o máximo em 34 anos — e o fato de virem em direções opostas é ainda mais incômodo do que a contagem.
A coletiva foi provavelmente a última de Powell como Chair. Ele citou quatro choques de oferta da era recente: pandemia, guerra na Ucrânia, tarifas e o petróleo do Irã. Disse que a independência do Fed importa para garantir decisões baseadas em análise, e não em resultado político. E afirmou que continuará no Board of Governors por prazo indefinido, sem atuar como “shadow chair”, num momento em que a transição para Warsh e as pressões políticas sobre o Fed ainda não estão totalmente encerradas.
A reação veio em duas etapas: Wall Street piorou no statement, com Dow chegando a cair perto de 0,8% e S&P/Nasdaq em torno de -0,4%; respirou na coletiva e fechou misto: S&P -0,04%, Nasdaq +0,04%, Dow -0,57%. Quem não respirou foi a curva: Treasuries venderam após o Fed, com a yield de 10 anos próxima de 4,42%, e o dólar global ganhou força com Fed dividido e petróleo segurando demanda por proteção — a PTAX local, no Brasil, ainda fechou em queda. O ouro caiu 0,60%, para US$ 4.563.
O detalhe global atravessou o comunicado. O Brent fechou em US$ 118,03, alta de cerca de 6%, com estoques americanos de petróleo caindo 6,2 milhões de barris na semana, gasolina e destilados apertados, e os EUA virando exportador líquido semanal de cru pela primeira vez desde a Segunda Guerra. Ormuz segue parcialmente travado. O choque deixou de ser só manchete geopolítica e virou choque físico de balanço de oferta.
🎓 O que a teoria diz
Credibilidade intertemporal e promessa cara: banco central não precifica só a taxa de hoje — precifica a função de reação de amanhã. Quando o chair está saindo, o sucessor avança no Senado e o comitê racha sobre o viés do comunicado, o mercado para de olhar o Fed funds e começa a olhar o regime. O risco aparece no prêmio de termo, na inclinação da curva e no dólar — não necessariamente no índice no mesmo dia.
E daí?
Treasuries: a parte longa carrega o prêmio da transição — e mostrou na quarta. Dólar global: ganhou força no fechamento; pode começar a embutir Warsh antes de Warsh assumir. Brasil: Fed dividido tira a cobertura externa do Copom — BC local cortando não conta com vento global para ajudar. Ouro: caiu no dia, mas segue como termômetro de incerteza institucional. Petróleo: com estoque caindo e EUA exportando líquido, o prêmio ganhou lastro físico — não é mais só manchete de Ormuz. Ainda não prova novo regime, mas dificulta chamar o choque de puramente temporário.
Brasil · Cortou no consenso
Copom · Selic · IPCA-15 · Brent · Ibovespa · Curva DI
O Copom cortou no consenso. O mercado chegou desconfiado — e deixou o teste para quinta.
A decisão saiu como esperado: corte de 25 pb para 14,50%, unânime, segundo corte do ciclo — em linha com 31 dos 35 economistas consultados pela Reuters. O detalhe que muda a leitura: o comunicado foi divulgado depois das 18h30 BRT, com a B3 já fechada. A queda do Ibovespa de 2,05%, a 184.750 pontos — sexto pregão seguido no vermelho — não foi reação ao corte. Foi reação ao Fed aberto, ao Brent em US$ 118, a Vale e bancos pesando, e a uma curva DI que já tinha subido na tarde — DI Jan/28 em 13,985% (ajuste anterior 13,743%) e DI Jan/35 em 13,88% (ajuste anterior 13,631%).
As expectativas de mercado para o IPCA 2026 subiram há oito semanas seguidas, de 4,71% para 4,86%. A Selic projetada para o fim de 2026 saiu de 12,50% para 13,00% no mesmo período. O IPCA-15 de abril veio em 0,89%, acelerando o acumulado em 12 meses para 4,37%, contra 3,90% em março. O comitê preservou o corte sem parecer complacente: tratou o choque do petróleo como risco, não como novo regime — mas deixou a porta de junho aberta e dependente dos próximos dados.
Em uma frase: no Fed, o mercado não brigou com a taxa — brigou com o viés, e brigou em tempo real. No Copom, não brigou com o corte — brigou com a confiança, mas só tem espaço para apresentar o argumento na abertura de quinta. Nos dois, o mesmo problema: quando inflação e petróleo pioram, promessa de afrouxamento fica cara.
🎓 O que a teoria diz
Credibilidade e custo de errar: banco central não espera a inflação corrente voltar à meta para cortar juros — ele corta quando acredita que, no horizonte relevante, a inflação converge e as expectativas seguem ancoradas. O risco é errar o choque. Se petróleo e câmbio viram persistência, o BC reancora depois com mais juros e mais custo de produto. O Copom apostou credibilidade ao cortar com IPCA 2026 em 4,86%. A curva já tinha pedido prêmio para carregar essa aposta — antes mesmo do comunicado.
E daí?
NTN-B longa: abriu na quarta porque o mercado pediu prêmio para carregar Tesouro até o fim do ciclo. DI curto: já precificava o corte antes do comunicado; a abertura de quinta vai dizer se o mercado comprou a porta aberta para junho ou passou a negociar pausa. Bolsa: sexto pregão no vermelho com Vale e bancos pesando — e ainda sem ler o comunicado. O teste de fato começa na abertura. Câmbio: R$ 4,99 com Brent em US$ 118 é equilíbrio frágil — segura enquanto o externo não piora.
Tecnologia · Receita veio. O capex cobrou
Microsoft · Alphabet · Meta · Amazon · Apple · Cook · Ternus
As Magníficas entregaram receita. O capex apresentou a conta. Apple decide hoje — com o sucessor já nomeado.
No pós-mercado da quarta, quatro Magníficas abriram envelope com a mesma manchete e leituras diferentes. Microsoft entregou US$ 82,9 bilhões de receita (+18%), EPS de US$ 4,27 e Azure crescendo 40%. Alphabet veio com cerca de US$ 110 bilhões (+22%), EPS de US$ 5,11 e Google Cloud acelerando 63%. Meta bateu forte em receita (US$ 56,3 bi, +33%) e lucro (EPS US$ 10,44), mas a ação caiu no after ao elevar guidance de capex de IA. Amazon reportou US$ 181,5 bilhões (+17%), AWS em US$ 37,6 bilhões (+28%) e EPS de US$ 2,78, com fluxo de caixa pressionado pelo ciclo de investimento.
Microsoft mostrou Azure. Alphabet mostrou Cloud. Amazon mostrou AWS. Meta mostrou que IA vende anúncio — e também come caixa. O problema da IA deixou de ser fé e virou orçamento. Em janeiro, leituras de mercado colocavam o capex combinado das quatro na casa de US$ 600–650 bilhões para 2026. Os balanços de hoje sugerem que o número sobe — e o mercado vai cobrar a contrapartida em margem, caixa e guidance.
Apple reporta hoje, no fim do dia em NY. Mas o mercado vai ouvir duas empresas na mesma call: a de Tim Cook, que vira executive chairman em 1º de setembro, e a de John Ternus, que assume como CEO no mesmo dia. É o primeiro balanço em quase quinze anos sem o conforto de uma assinatura só.
🎓 O que a teoria diz
Capex e retorno marginal: em IA, gastar mais deixou de ser virtude automática. O próximo dólar investido precisa gerar retorno acima do custo de capital. Em 2025, o mercado premiou o anúncio de capex; em 2026, cobra prova de monetização. Microsoft, Alphabet e Amazon mostraram cloud acelerando; Meta mostrou receita e lucro fortes, mas também capex maior. A pergunta mudou: não é “quem cresce”, é “quem transforma GPU em margem”.
E daí?
Microsoft: Azure validou IA como receita. Alphabet: Cloud acelerou e EPS surpreendeu — a pergunta vira qualidade do lucro e capex futuro. Meta: resultado veio forte, mas capex derrubou o after — IA paga, mas custa caro. Amazon: AWS acelerou; o mercado vai olhar fluxo de caixa. Apple: hoje vale mais pelo guidance e pela sucessão Ternus-Cook do que pelo número do trimestre.
📊 Gráfico do dia
Ibovespa · últimos 30 pregões
Sexto pregão no vermelho. A bolsa chegou ao Copom de cara fechada.
Fonte: B3 / yfinance · Elaboração: Daily Brew

Antes do comunicado, o Ibovespa já tinha caído 2,05%, com Brent em US$ 118, curva DI longa pressionada (DI Jan/28 saltou de 13,743% para 13,985% no ajuste de quarta), Vale e bancos pesando. O comunicado do Copom saiu depois das 18h30 BRT, com a B3 fechada — o teste do corte ficou para a abertura de quinta. Série usada: ^BVSP (yfinance, fechamento diário).
📌 O número do dia
8 × 4
VOTAÇÃO DO FOMC EM 29/04 · MAIOR DISSENSÃO DESDE OUTUBRO/1992
Quatro dissidentes — Miran (queria cortar), Hammack, Kashkari e Logan (queriam manter sem viés de afrouxamento). Desde outubro de 1992, o Fed não via quatro dissensos no mesmo placar. Powell se despediu com o Fed dividido em duas direções ao mesmo tempo. Quando isso acontece, o mercado para de extrapolar a função de reação — e começa a precificar regime novo.
📈 Mercados — Fechamento Quarta 29/04
| Ativo | Fechamento | Dia | Mín / Máx |
|---|---|---|---|
| Ibovespa ⭐ | 184.750,42 pts | ↓ −2,05% | 184.504,19 / 188.709,95 |
| Dólar PTAX | R$ 4,9878 | ↓ −0,11% | 4,97 / 5,04 |
| Brent ⭐ | US$ 118,03 | ↑ +6,05% | 110,96 / 119,40 |
| Ouro futuro | US$ 4.563,80 | ↓ −0,60% | 4.550,80 / 4.566,90 |
| S&P 500 | 7.135,95 pts | ↓ −0,04% | 7.107,86 / 7.145,63 |
| Dow Jones | 48.861,81 pts | ↓ −0,57% | 48.708,57 / 49.163,78 |
| Nasdaq Composite | 24.673,24 pts | ↑ +0,04% | 24.532,70 / 24.724,11 |
| Bitcoin | US$ 75.752 | ↓ −0,78% | 75.018 / 77.881 |
⭐ Ibovespa: sexto pregão seguido de queda. A bolsa fechou antes do comunicado do Copom (B3 encerrou às 18h, decisão saiu depois das 18h30 BRT). A queda foi reação ao Fed aberto, ao Brent em US$ 118 e à curva DI longa subindo — não ao corte de 25 pb. O teste do comunicado fica para a abertura de quinta.
⭐ Brent: alta de cerca de 6%, fechando em US$ 118,03 — Ormuz parcialmente travado, estoques americanos caindo 6,2 milhões de barris na semana e EUA virando exportador líquido semanal pela primeira vez desde a Segunda Guerra. Referência: Brent ICE Jul/26 (Reuters).
Fonte: B3, BCB PTAX (dólar), Brent ICE Jul/26 (Reuters), CME, yfinance (índices US, ouro, BTC) · Elaboração: Daily Brew · 29/04/2026.
💬 A frase do dia
“A independência do Fed importa para garantir que o banco central tome decisões com base em análise, e não em resultados políticos.”
— Jerome Powell, presidente do Fed (em tradução livre) · Coletiva FOMC · 29/04/2026
Frases assim, ditas na saída, valem como editorial. Powell não estava só falando de hoje — estava tentando deixar uma régua para o próximo regime. Com Warsh já aprovado no Comitê Bancário do Senado, a fronteira entre coletiva e legado ficou estreita.
📅 O que vem aí
|
Hoje 30/04 |
PIB EUA prévia 1T26 + Personal Income/Outlays (BEA, 8h30 ET) — primeiro retrato oficial do trimestre após o choque do petróleo, junto com o PCE de março — métrica de inflação preferida do Fed. Define se o cenário de Warsh nasce com folga ou com dever de casa atrasado. Alto impacto |
|
Hoje 30/04 |
PNAD Contínua trimestre móvel jan-fev-mar (IBGE, 9h) — depois de três leituras seguidas em alta (5,1% → 5,4% → 5,8%), o mercado quer saber se o desemprego virou tendência ou continuou anomalia. Entra direto na conta de fiscal e na próxima ata do Copom. Médio impacto |
|
Hoje 30/04 |
Apple earnings (after-market NY) — primeiro balanço desde o anúncio da saída de Tim Cook em 1º de setembro. Foco em iPhone, Serviços e guidance — e em qualquer linha de coletiva que sinalize transição. Alto impacto |
|
Seg 04/05 |
Boletim Focus — primeira leitura pós-Copom (BCB, 8h30) — o mercado vai dizer no papel se acreditou no comunicado. Foco em IPCA 2026, Selic fim de 2026 e câmbio. Informativo |
|
Sex 08/05 |
Payroll EUA — abril (BLS, 8h30 ET) — primeiro relatório de emprego após o choque do petróleo. Desemprego, salários e participação já entram no radar do regime Warsh antes mesmo da posse. Alto impacto |
📚 Vale ler
|
Fed manteve juros em 3,50–3,75% — quatro dissensos, maior dissensão desde 1992. Statement oficial do FOMC: Miran queria cortar; Hammack, Kashkari e Logan votaram para manter, mas rejeitaram o viés de afrouxamento no comunicado. Quatro dissidentes em direções opostas pela primeira vez em 33 anos. Powell sinalizou permanência no Board por prazo indefinido, sem atuar como “shadow chair”. FEDERAL RESERVE · Política monetária · 29/04/2026 |
|
Copom cortou por unanimidade, mas reforçou cautela com cenário externo. Agência Brasil: comitê reduziu a Selic em 25 pb pela segunda reunião seguida, com IPCA-15 de abril em 0,89% e expectativas para o IPCA 2026 em 4,86%. A porta de junho fica mais dependente de petróleo, câmbio e expectativas. AGÊNCIA BRASIL · Brasil · 29/04/2026 |
|
Microsoft, Alphabet, Meta e Amazon: IA virou teste de retorno marginal. CNBC + releases das empresas: receita combinada veio forte (MSFT US$ 82,9 bi/+18%, GOOGL ~US$ 110 bi/+22%, META US$ 56,3 bi/+33%, AMZN US$ 181,5 bi/+17%); o mercado cobrou capex, margem e fluxo de caixa. Meta caiu no after com guidance de capex maior; Amazon mostrou AWS +28%, com FCF pressionado. CNBC · Earnings · 29/04/2026 |
|
Ibovespa cai 2% antes do comunicado do Copom — bolsa fechou desconfiada. CNN Brasil: bolsa fechou em 184.750 pontos às 18h, sexto pregão seguido no vermelho. Comunicado saiu depois das 18h30 BRT, com a B3 já fechada. Vale e bancos puxaram para baixo, Petrobras não salvou apesar do Brent em US$ 118. CNN BRASIL · Mercados · 29/04/2026 |
☕ Boa quinta
O Fed saiu com mercado aberto. Mexeu na curva.
O Copom saiu com a bolsa fechada. Deixou bilhete.
As Magníficas entregaram receita. O capex apresentou a conta.
Powell saiu. Cook também.
O mercado votou antes. A confiança ficou para depois. ☕
| 📱 Siga @dailybrewbr no Instagram |
Os bastidores da economia antes de todo mundo.