Daily Brew

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SEXTA-FEIRA · 1º DE MAIO DE 2026

☕ Bom dia

Quinta foi a virada. O Senado disse não a Messias por 42 a 34 — primeira rejeição de indicado ao STF desde Floriano Peixoto. O ritual virou recado, lido em Brasília como mensagem ao Supremo, não ao indicado.

Nos preços, o pano de fundo afrouxou. O Brent caiu quase 6% num único pregão. O Ibovespa quebrou seis pregões de queda. Wall Street comprou o pacote — só o Fed ficou olhando o núcleo do PCE e segurando entusiasmo.

No Brasil, o petróleo de abril já começou a aparecer na conta. O IGP-M veio no maior nível mensal em cinco anos. O desemprego subiu para 6,1%, mas continua sendo a menor taxa para o trimestre encerrado em março desde 2012.

Hoje é 1º de maio. B3 fechada. Wall Street aberta. Bom feriado. Café passado. ☕

Brasil · Recado de 132 anos

Senado · STF · Messias · Lula · Moraes · Gilmar

O Senado rejeitou um nome para o STF pela primeira vez desde 1894. O voto foi sobre Messias. O recado, não.

Por 42 votos a 34, o plenário do Senado rejeitou a indicação de Jorge Messias, então Advogado-Geral da União, para a vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal. Messias precisava de 41 votos favoráveis para ser aprovado — teve 34. É a primeira vez que o Senado barra um nome enviado pela Presidência da República para a Corte desde 1894 — cento e trinta e dois anos. Para o governo Lula, derrota rara num campo em que, desde 1894, o Executivo não perdia.

A leitura nos bastidores foi uníssona: o voto foi menos sobre o currículo de Messias e mais sobre o desgaste acumulado entre Senado e STF. Foi lido em Brasília como recado a Alexandre de Moraes e a Gilmar Mendes, que costuraram tardiamente em favor do indicado. Gilmar saiu na quinta dizendo que a decisão "é soberana e deve ser respeitada" — e classificou Messias como "um dos maiores juristas da história recente do Brasil". Tradução de mercado: quando o elogio vem depois da derrota, já virou controle de danos.

No mercado, o sinal foi pequeno e indireto. Câmbio na quinta foi para R$ 4,96 com fluxo de exportação e alívio do petróleo no externo, não por conta da rejeição. Bolsa subiu por commodities, não por institucional. Quem quiser ler o episódio precisa olhar fora dos preços — porque o que mudou estava em Brasília, não na curva.

🎓 O que a teoria diz

A caneta indica. O voto confirma. O presidente escolhe o nome, mas o Senado decide se compra. Em coalizão fragmentada, uma votação não mede só o indicado; mede a força de quem indica. Quando o placar fecha em 42 a 34 contra o governo, a notícia deixa de ser jurídica e vira política: o Planalto não tinha os votos.

E daí?

É sobre custo de governar. A bolsa subiu porque o mundo ajudou. O recado de Brasília foi outro: a maioria ficou mais cara, mais incerta ou simplesmente não estava lá. Se o governo recalibrar e aprovar outro nome rápido, o episódio morre como tropeço. Se virar queda de braço com Senado e STF, vira teste maior de governabilidade.

Mundo · Alívio cruzado

Brent · PIB EUA · PCE · Wall Street · Dólar · Ouro

O Brent caiu 6%. Wall Street subiu 1%. O PIB acelerou. O PCE não cooperou. Quatro alívios e um aviso.

O Brent (Jul/26) fechou em US$ 111, queda de 5,94% num único pregão. Saiu do US$ 118 da quarta para a casa dos US$ 111 da quinta. O que parecia regime voltou a parecer manchete. Seis altas seguidas viraram uma queda num único pregão, com sinais de Ormuz menos tenso e estoques se ajustando. O ouro foi na contramão e subiu 1,88%, para US$ 4.630 — segue como hedge de quem ainda não acredita.

Nos EUA, o BEA divulgou o PIB do 1º trimestre em +2,0% anualizado (advance) — abaixo do consenso de 2,3%, mas acelerando em relação aos +0,5% do 4T25. Consumo das famílias veio fraco — serviços ainda persistentes, custo de financiamento alto. A parte desconfortável ficou na inflação: o PCE de março veio em +3,5% em 12 meses, com núcleo em +3,2% — bem acima do conforto do Fed e da meta de 2%. Atividade melhorou, mas a inflação ainda não deu ao Fed o sinal verde que ele queria.

Wall Street comprou o pacote: S&P 500 +1,02% a 7.209, Dow +1,62% a 49.652, Nasdaq +0,89% a 24.892, com Alphabet subindo mais de 7% depois do balanço da quarta. O dólar global perdeu força contra moedas de mercado emergente — com Brent em queda e PIB acelerando, virou risk-on. O recado: o mercado lê o pacote (PIB melhor + petróleo aliviando) como espaço para Treasuries respirarem — mas o núcleo do PCE em 3,2% segura entusiasmo.

🎓 O que a teoria diz

Choque temporário vs choque persistente: banco central não reage ao petróleo por si só; reage ao risco de o choque virar inflação mais ampla. Se fica concentrado em energia e não contamina expectativas, salários e núcleo, a autoridade monetária pode olhar através dele. Se persiste e começa a aparecer em serviços, administrados e expectativas, vira problema de política monetária. Um dia de Brent -6% melhora o humor, mas não resolve a pergunta. O núcleo do PCE em 3,2% lembra que a inflação ainda não convergiu para 2%.

E daí?

Treasuries: espaço para a parte longa respirar com Brent caindo — mas PCE em 3,2% segura entusiasmo. Dólar global: perdeu força, ajudou pares de mercado emergente. Brasil: alívio externo (Brent -6%, dólar fraco) explicou parte do +1,39% no Ibovespa — não foi institucional, foi commodity. Ouro: subiu apesar do risk-on — segue como hedge de regime. Próximos dias: ISM manufatura hoje e Payroll de abril em 08/05 testam se a aceleração do PIB tem perna ou perde fôlego com o consumo fraco.

Brasil · Atacado entregou a conta

IGP-M · IPA · PNAD · Desemprego · INCC · FGV

O IGP-M de abril foi o maior em cinco anos. O atacado já começou a pagar pelo petróleo — agora é questão de quanto chega no balcão.

A FGV divulgou: IGP-M de abril em +2,73%, contra +0,52% em março. É a maior alta mensal em cinco anos. No acumulado de 12 meses, o índice ainda está em apenas 0,61% — o que dá uma idéia de quanto a base de 2025 estava deflacionada antes do choque. Por dentro, o Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA) disparou 3,49% no mês, contra +0,61% em março. O choque do Brent virou choque de atacado em uma janela de quatro semanas.

A PNAD Contínua trimestral veio em 6,1% para o trimestre encerrado em março, acima dos 5,1% do trimestre anterior — mas ainda é o menor para um trimestre encerrado em março desde o início da série em 2012. A população desocupada chegou a 6,6 milhões; ocupada ficou em 102,0 milhões; informalidade em 37,3%. O mercado de trabalho perdeu tração na margem, mas segue forte no nível.

A leitura combinada é incômoda: o atacado já começou a capturar o choque do petróleo do começo de abril, e a inflação ao consumidor entra em maio com base mais alta — mesmo com Brent voltando aos US$ 111. Para o Copom, isso não muda a decisão de 14,50% que já saiu, mas pesa sobre a leitura da próxima reunião. O comitê deixou a porta de junho dependente dos dados. Os dados de hoje não ajudam a abrir a porta.

🎓 O que a teoria diz

Pass-through de atacado para varejo: choques de preço em commodity entram primeiro nos índices de produtor (IPA, no Brasil), depois migram para os índices de consumidor (IPCA), com defasagem que costuma rodar entre 30 e 90 dias para itens administrados (combustíveis, energia) e mais para itens livres (alimentação fora, transporte). Quanto mais persistente o choque no atacado, maior a probabilidade de o repasse virar reajuste — e não só variação pontual. O IPA em +3,49% num mês só não é ruído se vier outro mês parecido em maio.

E daí?

Aluguel: quem reajusta agora pelo IGP-M acumulado em 12 meses ainda pega um número baixo, de 0,61%. O problema é o carrego: a alta mensal de abril entrou na janela e, se maio repetir o choque, os próximos aniversários deixam de ser benignos. Construção civil: INCC de abril em +1,04% — contra +0,36% em março — bate em obra em andamento, contrato de empreitada e orçamento de construção. IPCA: a leitura cheia de abril sai em maio; quanto do IPA chega ao consumidor dita o tom da próxima reunião do Copom. PNAD: 6,1% no 1T não é deterioração forte; é normalização em nível ainda historicamente baixo. Mas a direção mensal vale atenção.

📌 O número do dia

132 anos

DESDE A ÚLTIMA REJEIÇÃO DO SENADO A INDICADO AO STF · 1894 — 2026

A última vez foi no governo Floriano Peixoto. De lá para cá, o Brasil atravessou República Velha, Estado Novo, ditadura, redemocratização e a Constituição de 1988 — e nenhum nome enviado ao STF tinha sido devolvido pelo Senado. Ontem, voltou a ser. O placar foi 42 a 34. O nome era Messias. O recado era maior.

📈 Mercados — Fechamento Quinta 30/04 (semana brasileira fechada por feriado)

Ativo Fechamento Dia Mín / Máx
Ibovespa ⭐ 187.317,64 pts ↑ +1,39% 184.758 / 187.920
Dólar à vista R$ 4,96 ↓ −0,74% 4,95 / 5,01
Brent ⭐ US$ 111,02 ↓ −5,94% 110 / 118 (range)
Ouro futuro US$ 4.630,60 ↑ +1,88% 4.550,80 / 4.658,80
S&P 500 7.209,01 pts ↑ +1,02% 7.126,15 / 7.219,83
Dow Jones 49.652,14 pts ↑ +1,62% 48.762 / 49.753
Nasdaq Composite 24.892,31 pts ↑ +0,89% 24.491 / 24.935
Bitcoin US$ 76.431 ↑ +0,87% 75.397 / 76.601

⭐ Ibovespa: primeiro pregão no verde depois de seis no vermelho. Recuperação veio do externo (Brent caindo, dólar fraco), não do doméstico. No mês, ainda fecha em queda; no ano, sustenta valorização de cerca de 14,7%.

⭐ Brent: queda de 5,94% num único pregão, após seis altas seguidas que levaram o barril a US$ 118,03 na quarta. Sinais de menor tensão operacional em Ormuz e ajuste de inventário. Referência: ICE Brent Jul/26 (Reuters).

Fonte: B3, BCB PTAX (dólar), Brent ICE Jul/26 (Reuters), CME, yfinance (índices US, ouro, BTC) · Elaboração: Daily Brew · 30/04/2026.

💬 A frase do dia

“A decisão dos senadores é soberana e deve ser respeitada.”

— Gilmar Mendes, ministro do STF, após a rejeição de Messias · 30/04/2026

Frases assim, ditas pelo articulador tardio do nome derrotado, valem como rendição protocolar. Gilmar elogiou Messias como "um dos maiores juristas da história recente do Brasil" e respeitou o rito. Tradução de mesa: o desgaste com o Senado não vai ser resolvido na próxima indicação.

📅 O que vem aí

Hoje 1º/05

Feriado no Brasil · Wall Street operando · ISM Manufatura abril (10h ET) — B3 fechada, câmbio fechado. Nos EUA, primeira leitura da indústria depois do choque do petróleo. Componente de preços pagos vai ditar o tom: se vier alto, reforça a leitura de inflação americana persistente; se vier baixo, ajuda a tese de que o choque de custos está arrefecendo — mesmo com o PCE ainda desconfortável. Médio impacto

Ter 05/05

Ata do Copom (BCB, 8h) — primeira leitura formal de como o comitê explica o corte de 25 pb com IPCA-15 acelerando e expectativas em 4,86%. Quanto da porta de junho está aberta, qual o peso do choque externo no balanço de riscos. Tom da ata pesa mais do que vinha pesando. Alto impacto

Qua 06/05

ADP Emprego abril (8h15 ET) — prévia privada do payroll oficial. Mercado vai ler como sinal antecipado se a desaceleração do mercado de trabalho ganhou tração em abril. Com PCE em 3,2% no núcleo, qualquer sinal de fraqueza no emprego entra direto no debate sobre afrouxamento do Fed sob Warsh. Médio impacto

Sex 08/05

Payroll EUA — abril (BLS, 8h30 ET) — primeiro relatório de emprego após o choque do petróleo. Desemprego, salários e participação entram no radar do regime Warsh antes mesmo da posse. Em paralelo, o IPCA cheio de abril sai na semana — com IGP-M em +2,73%, a mesa vai medir quanto do atacado chegou no consumidor. Alto impacto

📚 Vale ler

Senado rejeita indicação de Messias para o STF — primeira derrota desde 1894.

Agência Brasil: por 42 a 34, o plenário rejeitou o nome enviado pelo presidente Lula. Nos bastidores, o voto foi lido como recado a Moraes e Gilmar — e não sobre o currículo do indicado.

AGÊNCIA BRASIL · Política · 30/04/2026

IGP-M dispara 2,73% em abril — maior alta mensal em cinco anos, com IPA puxando.

FGV IBRE: o índice intensificou frente aos +0,52% de março. IPA acelerou para +3,49%, INCC para +1,04%. No acumulado de 12 meses, o índice ainda está em apenas +0,61% — mas a base mensal subiu junto com o petróleo.

FGV IBRE · Inflação · 30/04/2026

PIB EUA do 1º trimestre cresce 2,0% (advance) — acelerando em relação ao 4T25.

BEA: alta anualizada de 2,0% no 1T26, abaixo do consenso de 2,3%, mas acima dos +0,5% do 4T25. Consumo das famílias veio fraco — atividade melhora, mas a inflação (núcleo do PCE em 3,2%) ainda não dá ao Fed o sinal verde.

BEA · Macro EUA · 30/04/2026

Desemprego sobe a 6,1% no 1º trimestre — menor para o período desde o início da série em 2012.

IBGE: PNAD Contínua mostrou alta da taxa de desocupação para 6,1% no trimestre encerrado em março. População desocupada chegou a 6,6 milhões; ocupada ficou em 102,0 milhões; informalidade em 37,3%.

IBGE · Mercado de trabalho · 30/04/2026

☕ Bom feriado

O Senado disse não.

A bolsa respirou.

O atacado pagou pelo barril.

O Fed segue olhando o núcleo do PCE.

Hoje, sem pregão aqui. Mas sempre tem café. ☕

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