Daily Brew

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SÁBADO · 02 DE MAIO DE 2026

☕ Bom sábado

A semana entrou cara, saiu de pé. Começou com Brent acima de US$ 118 e medo de regime. Terminou com Brent perto de US$ 108, S&P em novo recorde e o Senado dizendo não ao indicado de Lula para o STF pela primeira vez desde 1894.

No meio do caminho, um detalhe que esperava há vinte e seis anos: o acordo Mercosul−UE entrou em vigor na sexta. Quase ninguém tinha tempo de prestar atenção — estavam ocupados olhando o petróleo. Mas o tratado mexe com 720 milhões de pessoas e US$ 22 trilhões de PIB, e nem com isso virou primeira manchete.

Na conta da semana, Wall Street ganhou. O Brasil empatou. O atacado mandou recado — IGP-M de abril foi o maior em cinco anos. O real apreciou, voltou para baixo de R$ 5, e o ouro insiste em subir, como quem ainda não acredita no final feliz.

Hoje é sábado. Bolsa fechada. Ainda tem café. ☕

Brasil · Acordo de 26 anos

Mercosul · União Europeia · Lula · Tarifas · Agro · Indústria

A negociação nasceu no século passado. Entrou em vigor na sexta. O custo de adaptação chega na próxima década.

Em 1º de maio entrou em vigor, em caráter provisório, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. Foram mais de 25 anos entre a primeira rodada formal de negociação e o decreto presidencial. O bloco sul-americano vai zerar tarifas sobre 91% dos bens europeus em até 15 anos. A UE elimina sobre 95% dos bens vendidos pelo Mercosul em até 12 anos. Já na largada, mais de cinco mil produtos brasileiros passam a ter tarifa zero no mercado europeu, segundo estimativas da CNI — e, do outro lado, bens europeus entram em cronograma gradual de abertura no Mercosul.

Em escala, é um dos maiores pactos comerciais já assinados. Junta 31 países, 720 milhões de habitantes e cerca de US$ 22 trilhões de PIB conjunto. Para o Brasil, abre acesso a 450 milhões de consumidores europeus em prazos definidos — e tira por definição tarifária a maior parte das barreiras históricas para agro, mineral e parte da manufatura exportadora. O outro lado da moeda: setores industriais expostos à concorrência europeia no mercado doméstico vão ter de competir com produto chegando em volume crescente.

A reposta dos preços foi modesta porque o tratado já estava precificado há meses — e a sexta foi feriado por aqui. O efeito real não virá em pregão; virá em planilha de empresa olhando linha de custo, em Brasília montando salvaguarda, e nas associações industriais escolhendo o que defender.

🎓 O que a teoria diz

Vantagem comparativa com fricção de ajuste: a teoria de Ricardo diz que livre comércio aumenta bem-estar agregado, mas não promete paz setorial. Ganhos aparecem onde o país tem vantagem relativa; perdas aparecem onde a abertura bate em estrutura de custo, imposto, produtividade e escala. Por isso o cronograma importa: a tarifa cai por calendário, mas capital, emprego e planta industrial não se reorganizam no mesmo ritmo.

E daí?

Agro e mineral: ganham espaço tarifário em mercado de alto poder de compra — carne, soja, suco, minério entram com cronograma de redução claro. Indústria: ajuste assimétrico — exportadores brasileiros para a UE também podem ganhar (a CNI projeta abertura para parte da manufatura), enquanto setores expostos à concorrência europeia no doméstico têm que renegociar custo, produtividade e salvaguarda. Câmbio: efeito líquido ambíguo no médio prazo — depende de volume exportado, termos de troca, fluxo de investimento e ritmo de importação de bens de capital. Política: o tratado é do governo Lula no papel; o custo político fica para quem governar a próxima janela de implementação.

Mundo · Recorde com tudo contra

S&P 500 · Nasdaq · Apple · ISM · Brent · Ormuz

S&P e Nasdaq fecharam a semana em recorde. O Brent recuou US$ 10. A Apple disse adeus a Tim Cook por cima.

Wall Street fechou a semana em alta. Na sexta, S&P 500 subiu 0,29% para 7.230 pontos — novo recorde. Nasdaq fez +0,89% e cravou 25.114, primeiro fechamento acima dos 25 mil. Dow caiu 0,31%, depois de flertar com os 50 mil pontos no intraday (máxima de 49.988). O motor foi a Apple: receita de US$ 111,2 bilhões no trimestre fiscal, +17% em relação ao ano anterior, acima do guidance da companhia. Com a sucessão já anunciada desde 20/04, Tim Cook chega ao último balanço como CEO por cima — John Ternus assume em setembro, e a ação subiu mais de 4%.

No macro, o ISM de manufatura veio em 52,7 em abril — primeiro indicador de atividade depois do FOMC e do PIB do 1º trimestre. Acima de 50 significa expansão. Componente de novos pedidos sustentou o número. É um tipo de dado que pode reforçar a tese de pouso suave depois do choque do petróleo — mas o componente de preços pagos seguiu desconfortável, lembrando que o canal de custo ainda está aberto.

Nos preços, o petróleo cedeu mais. Brent fechou em US$ 108,83, queda de 4,54% só na sexta — e mais de US$ 10 abaixo do pico de US$ 118 da semana anterior. Irã continua restringindo passagem em Ormuz, mas o mercado optou por olhar mais para o estoque do que para a manchete. O ouro fechou em US$ 4.629,60, alta de 1,5% no dia (settlement Reuters), com dólar global mais fraco a favor de metais. O Bitcoin fez +2,67%, voltando a US$ 78 mil. Contra o real, a PTAX voltou a fechar abaixo de R$ 5, em R$ 4,9886 — ainda que aqui dentro o feriado tenha tirado o preço do mapa na sexta.

🎓 O que a teoria diz

Risk-on quando o choque parece temporário; cautela quando o núcleo não cede: a literatura clássica de política monetária distingue choques temporários de choques persistentes. Quando o preço de commodity cai e o mercado decide tratar o evento como temporário, a curva de juros futura embute corte e ativos de risco sobem. O problema vem se o núcleo não cooperar: o PCE cheio de março em 3,5% e o núcleo em 3,2% lembram que serviços e salários ainda não convergiram para a meta. O resultado é assimétrico — bolsa em recorde, título longo cauteloso, ouro firme.

O que vem

Ata do Copom (terça, 8h): primeira leitura formal do corte de 25 pb com IPCA-15 acelerando — e mostra quanto da porta de junho ficou aberta. ADP de emprego (qua, 8h15 ET): prévia privada do payroll. Payroll EUA — abril (sex, 8h30 ET): primeiro relatório de emprego depois do choque do petróleo. IPCA cheio de abril (12/05): sai só na semana seguinte — e é o próximo capítulo do que o IGP-M antecipou.

Brasil · Real venceu, conta ficou

Dólar · PTAX · IGP-M · IPCA · Copom · Atacado

O dólar fechou a semana abaixo de R$ 5. O atacado fechou a semana com a conta na mão. Os dois fatos não se anulam — eles dividem o trabalho.

A PTAX de quinta veio em R$ 4,9886, com o real apreciando contra o dólar global; o spot terminou perto de R$ 4,95. No mês de abril, o dólar caiu cerca de 4,4% contra o real (PTAX de venda saiu de R$ 5,2194 em 31/03 para R$ 4,9886 em 30/04). Por trás da queda: fluxo de exportação, juros internos ainda altos (Selic em 14,50%), Brent cedendo, e dólar global perdendo força contra moedas emergentes. O recado de preço foi de alívio cambial.

Em paralelo, a FGV divulgou IGP-M de abril em +2,73%, contra +0,52% em março — maior alta mensal em cinco anos. Por dentro, o IPA (atacado) disparou +3,49%; o INCC (construção) fez +1,04%. O choque do Brent do começo de abril, quando o barril rompeu US$ 118, já aparece no índice de produtor. O canal externo aliviou no fim da semana; o canal doméstico do atacado está digerindo o choque com defasagem de 30 a 60 dias.

A leitura combinada importa para a curva de juros. O DI futuro ainda preserva apostas de novos cortes do Copom em 2026 — o consenso de mercado projeta a Selic terminando o ano em torno de 13%. Mas a ata da reunião passada sai na terça, e é a próxima referência formal: quanto do choque externo o comitê trata como temporário, e quanto já entrou no balanço de riscos.

🎓 O que a teoria diz

Pass-through cambial vs pass-through de atacado: em economias abertas, choque de preço em commodity importada chega ao consumidor por dois canais distintos — o câmbio (que pode amortecer ou amplificar) e o atacado (que captura o choque na origem). Os dois canais andam no mesmo sentido em geral, mas não no mesmo timing. Câmbio aprecia rapidamente quando o fluxo melhora; atacado leva semanas para repassar o custo. Resultado: períodos em que câmbio aliviou e atacado ainda não — exatamente onde o Brasil terminou a semana.

E daí?

Aluguel: quem reajusta agora pelo IGP-M acumulado em 12 meses ainda paga base baixa (0,61%). O salto vai aparecer nas próximas janelas. NTN-B curta: segue defensável se o IPCA corrente vier pressionado, com juro real ainda alto e real abaixo de R$ 5 — mas a ata do Copom de terça vai dizer se o BC enxerga o choque do petróleo como temporário ou se já incorporou no balanço de riscos. DI Jan/27: a curva ainda embute cortes, mas a margem de erro ficou menor — a ata de terça redefine quanto. Importadores: janela de planejamento mais favorável com dólar abaixo de R$ 5; quem ainda não travou, agora tem referência melhor.

📈 Gráfico do dia

Brent · Últimos 30 dias

A semana subiu — e devolveu boa parte. O barril desfez US$ 10 em dois pregões.

Fonte: yfinance (BZ=F, contrato contínuo) · Elaboração: Daily Brew

A linha mostra o fechamento diário do Brent (série contínua via yfinance) nos últimos 30 dias. O pico em torno de US$ 118 ficou na quarta passada; a queda de 5,94% na quinta e mais 4,54% na sexta tirou cerca de US$ 10 do barril em dois pregões. Settlements de contrato específico podem divergir da série contínua — aqui o que importa é a amplitude, não o nível exato.

📌 O número do dia

26 anos

DA NEGOCIAÇÃO DO ACORDO MERCOSUL−UE ATÉ A ENTRADA EM VIGOR · 1999 — 2026

A primeira rodada formal foi em 1999. De lá para cá, passaram cinco presidentes pelo Planalto, a Argentina trocou de regime cambial várias vezes, a União Europeia perdeu o Reino Unido — e o acordo finalmente entrou em vigor em 1º de maio de 2026, num feriado, sem mercado, em que poucos repararam.

💬 A frase do dia

“A demanda saiu da escala.”

— Tim Cook, sobre a demanda por novos produtos da Apple no balanço do 2º trimestre fiscal · 30/04/2026

Cook disse a frase no último balanço que apresentará antes de passar a chefia para John Ternus em setembro. Receita +17%, US$ 111,2 bi, ação subindo mais de 4%. Quem chega aplaudido não costuma sair contestado — e Cook aproveitou.

📅 A semana que vem

Seg 04/05

B3 e câmbio reabrem — primeiro preço brasileiro depois do feriado, com Brent em US$ 108 e dólar abaixo de R$ 5. Mercado vai testar quanto do alívio externo a curva incorpora num país onde o IGP-M de abril veio em +2,73% (maior alta mensal em cinco anos). Médio impacto

Ter 05/05

Ata do Copom (BCB, 8h) · ISM Serviços EUA (10h ET) · JOLTS março (10h ET) — primeira leitura formal de como o comitê explicou o corte de 25 pb com IPCA-15 acelerando. Quanto da porta de junho ficou aberta, qual o peso atribuído ao choque externo. Nos EUA, ISM de serviços mede a parte mais persistente do PCE; JOLTS mostra vagas em aberto. Alto impacto

Qua 06/05

ADP de emprego abril (8h15 ET) · PMI Serviços global — prévia privada do payroll de sexta. Mercado vai ler como sinal antecipado se a desaceleração do mercado de trabalho americano ganhou tração em abril, depois do ISM manufatura em 52,7 e do PCE núcleo ainda em 3,2%. Médio impacto

Qui 07/05

Pedidos de seguro-desemprego EUA (semana, 8h30 ET) — mercado ainda digere o BoE da semana anterior (decisão foi em 30/04; próxima reunião do MPC só em 18/06). Sem catalisador interno na Europa, o foco volta para o termostato semanal de emprego dos EUA, na contínua leitura de quanto o mercado de trabalho desacelerou em abril. Médio impacto

Sex 08/05

Payroll EUA — abril (BLS, 8h30 ET) — primeiro relatório de emprego americano depois do choque do petróleo, com Powell ainda na cadeira até a posse de Warsh. No Brasil, o IPCA cheio de abril fica para a semana seguinte (IBGE, 12/05) — a leitura cheia chega com IGP-M em alta de cinco anos como ruído de fundo. Alto impacto

📚 Vale ler

Lula assina decreto que promulga acordo UE−Mercosul — vigor a partir de 1º/05.

Agência Brasil: o decreto torna oficial a entrada em vigor provisória do tratado. Mercosul zera tarifas sobre 91% dos bens europeus em até 15 anos; UE elimina sobre 95% dos bens do Mercosul em até 12. Mais de 5 mil produtos brasileiros passam a ter tarifa zero no mercado europeu (estimativa CNI); produtos europeus entram em cronograma gradual de abertura no Mercosul.

AGÊNCIA BRASIL · Comércio Exterior · 28/04/2026

Apple bate consenso com receita de US$ 111,2 bi e anuncia transição de CEO.

CNBC: receita +17% YoY, lucro líquido US$ 29,6 bi, EPS US$ 2,01. iPhone 17 e MacBook Neo puxaram crescimento. Tim Cook deixa o cargo em setembro depois de 15 anos — sucessor é John Ternus, atual chefe de hardware.

CNBC · Big Tech · 30/04/2026

Semana à frente nos EUA: Payroll, ISM Serviços, inflação da zona do euro e transição no Fed.

Investing.com: roteiro do que move preço entre 5 e 8 de maio. ISM Serviços na terça, ADP na quarta, payroll na sexta. No fundo, o debate sobre a sucessão de Powell, com Warsh já nomeado e mercado tentando ler o tom da próxima cadeira.

INVESTING.COM · Macro EUA · 30/04/2026

Preços do petróleo cedem na semana com sinais de menor tensão em Ormuz.

ADVFN: Brent fechou a sexta na casa dos US$ 108, cerca de US$ 10 abaixo do pico recente. Irã segue restringindo passagem em Ormuz e EUA seguem limitando exportações iranianas, mas o mercado optou por olhar para inventário e não para manchete.

ADVFN · Commodities · 01/05/2026

☕ Bom sábado

A semana começou cara.

Terminou em recorde.

No meio, o atacado entregou a conta.

O Senado entregou recado.

A Apple entregou balanço.

E o Mercosul entregou um acordo de vinte e seis anos.

Nem todo sábado fecha em recorde —
mas todo sábado tem café. ☕

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