Foi a semana do acordo que nunca foi — e do prazo que virou dois prazos. Trump anunciou conversas produtivas na segunda. O Irã negou na terça. O Paquistão se ofereceu para mediar na quarta. O prazo vencia nesta sexta. Na quinta, Trump prorrogou para 6 de abril. A narrativa do cessar-fogo virou um ativo financeiro negociado em ciclos de 24 horas.
No meio de tudo isso: a ata do Copom confirmou que não sabe o que vai fazer em maio. O BC publicou o Relatório de Política Monetária e usou as palavras "significativo e duradouro" para descrever o impacto da guerra. O IPCA-15 de março veio em 0,44% — tecnicamente uma desaceleração, praticamente uma meia-verdade, já que a coleta capturou menos da metade dos dias de guerra.
O Ibovespa terminou a semana em 181.557 pontos — alta de 3,03% em relação ao fechamento de sexta passada (176.219), apesar dos tombos de quinta e sexta. Na conta da semana, segunda e quarta salvaram o saldo. O novo prazo de Trump é 6 de abril. A semana que vem começa com o relógio zerado — de novo.
Na segunda-feira, Trump postou no Truth Social que havia tido "conversas produtivas" com o Irã e adiou por 5 dias qualquer ataque a instalações energéticas iranianas. O Brent despencou 10% — de US$ 109 para US$ 95. O Ibovespa subiu 3,24%. Wall Street subiu 1,38%. O mercado comprou a narrativa antes de checar os fatos.
Os fatos chegaram na terça: o Irã negou qualquer negociação. O Brent voltou a US$ 102. Na quarta, Washington enviou ao Irã um plano de 15 pontos via Paquistão. O mercado voltou a subir. Ibovespa +1,6%. Na quinta, o ministro iraniano das Relações Exteriores disse que o Irã "não tem intenção de negociar". O Ibovespa caiu 1,45%. Na sexta, com o prazo prestes a vencer, Trump prorrogou para 6 de abril — dizendo que o Irã havia permitido a passagem de 10 petroleiros pelo Estreito como "presente". O Brent subiu para US$ 104. O Ibovespa caiu mais 0,64%.
O saldo da semana: um prazo que virou dois prazos, um acordo que ninguém confirmou e um petróleo que encerrou a semana mais caro do que começou. O mercado passou os cinco dias comprando e vendendo a mesma narrativa — com margem de lucro dependendo de quando você entrou e saiu.

A ata do Copom saiu na terça sem nenhuma pista sobre maio — o BC vai depender de dados, e os dados dependem do Brent. Na quinta, o Relatório de Política Monetária foi mais direto: a guerra pode ter impacto "significativo e duradouro" no PIB e na inflação brasileiros. Foi a primeira vez no ano que o BC usou essa combinação de palavras no mesmo documento.
O IPCA-15 de março veio em 0,44% — abaixo dos 0,84% de fevereiro, o que tecnicamente é uma desaceleração. O problema é que a coleta terminou em 17/03, capturando apenas 17 dos 33 dias de guerra. O IPCA cheio de março, divulgado em abril, vai contar a história completa. Os vilões já se revelaram: açaí +29,95%, feijão +19,69%, ovo +7,54%. Os combustíveis ainda apareceram tímidos — a guerra chegou tarde na coleta.
Moraes aceitou a prisão domiciliar de Bolsonaro na terça. O ex-presidente, condenado a 27 anos por tentativa de golpe e internado com pneumonia desde 13/03, poderá cumprir pena em casa. Para o mercado, impacto neutro no curto prazo — mas o radar eleitoral acendeu. Flávio Bolsonaro empata com Lula em segundo turno nas últimas pesquisas. O investidor estrangeiro voltou a olhar para o calendário de 2026.
O caso Banco Master voltou às manchetes com o número que ninguém queria ver: R$ 60 bilhões de rombo no FGC — um terço do patrimônio do fundo. Para recompor o caixa, os bancos tiveram que antecipar 60 meses de contribuição. Esse custo vai aparecer no spread dos próximos anos. BTG, Nubank e XP estão na mira da Justiça por terem distribuído os CDBs a 140% do CDI usando o FGC como argumento de venda. E o governo quer propor teto de juros no consignado privado — boa intenção, péssimo histórico, e um Working Paper do próprio BC explicando por que não funciona.
Variação semanal: fech. 28/03 vs. fech. 20/03. Fonte: B3, Investing.com · 2026
|
|
|
Wall Street sobe com acordo que o Irã diz não existir
A semana em uma manchete: o mercado comprou o acordo antes de confirmar com o vendedor.
CNN Brasil · Qua 25/03
|
|
BC: guerra pode ter impacto "significativo e duradouro"
O Relatório de Política Monetária colocou em preto e branco o que o mercado já precificava — mas dói mais quando o BC confirma.
Poder360 · Qui 26/03
|
|
IPCA-15 veio em 0,44% — mas o açaí subiu 30% e o feijão 20%
O índice geral desacelerou. Os itens da cesta básica não receberam o comunicado.
Agência Brasil · Qui 26/03
|
|
Copom vê guerra como potencial cenário estagflacionário
Análise do Valor: o BC alinhando seu diagnóstico ao de outros bancos centrais — não é um choque passageiro.
Valor Econômico · Qui 26/03
|
O prazo venceu e virou outro prazo. O Brent fechou mais caro do que abriu.
O Ibovespa subiu 3% mesmo assim.
O novo prazo é 6 de abril. A guerra não tem prazo. ☕☕
| 📲 Siga @dailybrewbr no Instagram |