Daily Brew

Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.

SEGUNDA-FEIRA · 27 DE ABRIL DE 2026

☕ Bom dia

Sexta fechou com sinais mistos: Nasdaq nas máximas, dólar à vista rondando R$ 5 e petróleo ainda preso ao noticiário de Ormuz. Pareceu um dia calmo — foi um dos raros dias da quinzena que terminou sem manchete nova de Teerã ou Washington.

Aqui dentro, a discussão estrutural é o desemprego em 5,8%, o menor para um trimestre encerrado em fevereiro desde 2012. O dado foi divulgado em março e não é novidade da semana — mas continua sendo a evidência mais ruída contra a tese de que política monetária contracionista já está mordendo a atividade.

Quarta-feira o Copom decide com Selic em 14,75%. Dado curto melhor, expectativa pior, câmbio mais leve, petróleo ainda volatíl. Quase todos os sinais apontam para corte de 0,25 — quase todos. O Copom escolhe a intenção; o comunicado escolhe os ouvintes.

Café passado. ☕

Brasil · Quarta de decisão

Copom · Selic · Expectativas · Dólar · Brent · Comunicado · XP · Santander

O Copom chega com quatro sinais. Três pedem corte. O quarto pede silêncio.

Quarta-feira, 29 de abril, o comitê decide com a Selic em 14,75%. O consenso de mesa — XP, Santander, Bank of America — converge para corte de 25 pontos-base. Seria o segundo corte consecutivo do ciclo iniciado em 18 de março — mas o primeiro com as expectativas claramente jogando contra desde o início do afrouxamento.

O ambiente curto ajuda: Brent oscila em torno de US$ 105 sem novo escalonamento, dólar ronda R$ 5 e o IPCA acumulado em 12 meses segue contido em 4,14%. Três sinais para o gatilho.

O quarto vai na direção oposta. As projeções de IPCA 2026 sobem pela sexta semana consecutiva, agora em 4,80% — oficialmente acima do teto da meta. A Selic projetada para o fim de 2026 subiu de 12,50% para 13,00% no mesmo período. Cortar é técnico; explicar é político.

🎓 O que a teoria diz

Forward guidance: bancos centrais modernos influenciam a curva não apenas pela decisão de hoje, mas pela sinalização do que farão adiante. O comunicado vale tanto quanto o número. Quando expectativas começam a desancorar já durante o ciclo de corte, o BC perde o luxo de cortar e calar — precisa cortar e ainda assim soar duro. A frase que sair de Brasília na quarta vai mover mais a curva do que os 25 pontos.

E daí?

DI curto: já embute corte de 25; surpresa estaria em manutenção ou em sinalização de pausa em junho. NTN-B 2030: bônus se o tom for hawkish; prejuízo se o Copom abrir porta para acelerar. Dólar: rondando R$ 5 ajuda hoje, mas comunicado dovish ressuscita o R$ 5,10 na sexta. Ibovespa: setor bancário pede corte; commodities preferem dovish. O Copom escolhe quem decepcionar.

Energia · Prêmio teimoso

Brent · Ormuz · EUA · Irã · IEA · Petrobras · Goldman

O petróleo corrigiu na semana. O risco não saiu do preço.

O Brent settlement de sexta ficou em US$ 105,33 (+0,3%). Na série contínua usada no gráfico, o range dos últimos 30 pregões foi de aproximadamente US$ 90–118, com fechamento perto de US$ 100,69. E, nas primeiras telas asiáticas de segunda, o contrato voltou a rondar US$ 106–107 com a piora das negociações EUA-Irã. O ponto não é o nível exato de cada tela — é a amplitude: o petróleo deixou de ter preço de equilíbrio e passou a operar como ativo de manchete.

O fluxo por Ormuz segue, na prática, severamente restringido — a Reuters reportou apenas cinco navios transitando em 24 horas. A IEA não mudou o discurso. O Goldman elevou o cenário-base de 4T26 para US$ 90 no Brent, mantendo cauda relevante para cima nos cenários adversos. Ninguém está disposto a tirar o prêmio de risco da planilha. O que mudou foi apenas a dispersão intradiária do operador, que parou de comprar a cada acenação de escalada e a cada acenação de trégua — e passou a operar o range.

Devolução parcial de prêmio não é normalização. O piso de referência do mercado segue acima do observado antes do choque de março. O que era surpresa em janeiro virou linha de partida em abril.

🎓 O que a teoria diz

Choque de oferta com baixa elasticidade: quando uma ruptura na oferta não tem substituto imediato — e a demanda mal responde a preço no curto prazo — o equilíbrio se desloca por reset, não por ajuste. O preço sobe até encontrar agentes dispostos a estocar pelo medo, não pela necessidade. Quando o medo recua sem que a oferta volte, o preço cai — mas para um patamar mais alto que o anterior. É assim que choques deixam de ser eventos e viram cenário base.

E daí?

Petrobras: patamar US$ 105 ainda é carry positivo, mas vol semanal travou decisão de hedge. Diesel: parte do reajuste de maio já parece precificada na curva; quem ainda não repassou tende a repassar. IPCA de maio/junho: combustível pode aparecer com defasagem; corte do Copom não desfaz isso. Ibovespa: exportadores sustentam o índice mesmo na vol do barril — o bônus de ter minério quando ninguém sabe pra onde vai o petróleo.

Brasil · Resistência incômoda

PNAD · IBGE · Desemprego · Selic · Renda · Copom

Selic em 14,75%. Desemprego segue em piso para fevereiro. O Copom decide quarta sem nova leitura da PNAD.

A taxa de desocupação do trimestre encerrado em fevereiro veio em 5,8% — a menor para um trimestre encerrado em fevereiro desde o início da série em 2012. São 6,2 milhões de desempregados, 1,1 milhão a menos que há um ano. A renda média real subiu 5,2% em 12 meses para R$ 3.679. Os números foram divulgados em 27 de março — não são leitura nova, são realidade que persiste.

A leitura comum diz que política monetária contracionista esfria o mercado de trabalho. Aqui, não esfriou. Na prática, esquentou. O que mantém o emprego elevado não é o cenário de crédito — é o ciclo fiscal: gasto público em patamar elevado, transferência de renda em volume expressivo, serviços girando demanda doméstica.

A PNAD do trimestre encerrado em março sai só na quinta, 30 de abril — um dia depois do Copom. O comitê decide sem esse dado. O número, quando sair, vai recalibrar a leitura do comunicado de quarta — não orientá-lo. Se a tendência se confirmar, o BC fica com a fadiga que justifica corte ainda invisível na PNAD.

🎓 O que a teoria diz

Dominância fiscal: quando a expansão do gasto público passa a determinar mais a dinâmica de renda e preços do que a taxa de juros, a política monetária perde tração. O canal de crédito se enfraquece, o emprego resiste mesmo com juro alto, e a inflação de serviços fica grudada. O BC tem que subir mais para o mesmo efeito — ou aceitar conviver com inflação acima da meta. Os dois resultados têm custo. Nenhum vem com aplauso.

E daí?

Varejo: resultados do 1T26 vão vir surpreendentemente firmes — massa salarial real em alta sustenta consumo essencial. Bancos: spread em queda no crédito ao consumo, mas inadimplência ainda controlada. Serviços: inflação do segmento é o que segura o IPCA acima de 4% — e não cede com Selic. Comunicado do Copom: se mencionar "mercado de trabalho aquecido", é sinal de que o corte vem com ressalva — não é início de ciclo.

📊 Gráfico do dia

Brent · Série contínua de futuros · 30 dias

Em 30 pregões, o barril testou US$ 118 e US$ 90. Variou US$ 28 entre extremos — e voltou pra perto de onde começou.

Fonte: Yahoo Finance (BZ=F, futuro contínuo) · Elaboração: Daily Brew

A série contínua de futuros (Yahoo) pode divergir do settlement de referência (Reuters US$ 105,33 na sexta) conforme o contrato vigente. O que importa não é o nível exato em cada tela — é a amplitude: o ponto médio do período é mais alto que o de qualquer mês anterior dos últimos doze. O barril deixou de ter preço de equilíbrio e passou a ter range de operação.

📈 Mercados — Fechamento Sexta 24/04

Ativo Fechamento Dia Mín / Máx
Ibovespa 190.745 pts ↓ −0,33% 189.963 / 191.390
Dólar PTAX ⭐ R$ 5,0083 ↑ +1,10%
Brent settlement ⭐ US$ 105,33 ↑ +0,30% 103,41 / 107,48
Ouro futuro US$ 4.740,90 ↑ +0,36% 4.672,20 / 4.757,10
S&P 500 7.165,08 pts ↑ +0,80% 7.112,82 / 7.168,59
Dow Jones 49.230,71 pts ↓ −0,16% 49.085,75 / 49.393,34
Nasdaq ⭐ 24.836,60 pts ↑ +1,63% 24.524,37 / 24.854,04
Bitcoin US$ 77.432 ↓ −1,06% 77.297 / 78.526

💬 A leitura do dia

Síntese de mesa

Cortar 25 é técnico. Explicar por que se cortou em meio a expectativas que pioraram desde o início do ciclo — isso é o desafio.

No fim, a coletiva pesa mais que o número. E o número já estava precificado.

📅 O que vem aí

Ter-Qua 28-29/04

Copom — decisão da Selic — o comitê decide com Selic em 14,75%. Consenso é corte de 25 pb (segundo do ciclo), mas comunicado vai mover mais a curva que a decisão em si. Anúncio na quarta à noite. Alto impacto

Ter-Qua 28-29/04

FOMC — decisão do Fed — o comitê decide na mesma semana do Copom; coletiva é na quarta à tarde. Mercado precifica manutenção do Fed Funds Rate; o tom do comunicado define o dólar global na quinta. Alto impacto

Qui 30/04

PIB EUA — prévia 1T26 (BEA, 8h30 ET) — primeiro retrato oficial do 1T26 após o choque do petróleo. Define se o Fed continua tendo espaço para esperar ou se a desaceleração já bate na porta. Alto impacto

Qui 30/04

PNAD Contínua — trimestre encerrado em março — IBGE divulga taxa de desocupação do tri jan-fev-mar, um dia depois do Copom. Não orienta a decisão, mas reprecifica o comunicado. Médio impacto

📚 Vale ler

Desemprego em 5,8% é o menor para um trimestre encerrado em fevereiro desde 2012. E o BC tem que decidir o que fazer com isso na quarta.

PNAD do trimestre encerrado em fevereiro mostra renda real média em R$ 3.679 e população desempregada em 6,2 milhões. Tabela de aberturas por setor ajuda a separar o que é serviço privado e o que é absorção pelo público.

IBGE · Trabalho · Divulgado em 27/03/2026

Goldman eleva projeção de Brent para US$ 90 no 4T26 — e mantém cauda relevante para cima.

Banco revisa cenário-base com premissa de normalização mais lenta dos fluxos do Golfo. Para o WTI, a projeção sobe para US$ 83. Tema central: prêmio de risco geopolítico continua precificado.

Reuters · Energia · 26/04/2026

Brent oscila US$ 28 em 30 dias. O barril deixou de ter preço e passou a ter range.

Análise sobre o quadro estrutural de Ormuz: produção desviada, rotas alternativas saturadas, oferta marginal sem elasticidade de curto prazo. Por que preço-piso subiu mesmo quando o medo recua.

IEA · Oil Market Report · 14/04/2026

FMI corta previsão global, mas eleva PIB do Brasil. O paradoxo da resiliência.

Reuniões de Primavera fecharam com projeção melhor para o Brasil que para o agregado. Nota técnica argumenta que a expansão fiscal continua sendo o principal motor — e o principal fator de risco.

Agência Brasil · FMI · 14/04/2026

☕ Boa segunda

Brent oscila.

Dólar ronda R$ 5.

Expectativa não para de subir.

Desemprego segue no piso de fevereiro.

Quatro vetores, uma decisão.

Quarta à noite. Boa semana. ☕

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