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Segunda-feira · 09 de março de 2026
☕ Bom dia

Segunda chegou com o mundo em chamas — literalmente. O petróleo Brent abriu esta manhã acima de US$ 111 por barril, o maior nível desde 2022, depois de um fim de semana em que Israel atacou depósitos de petróleo em Teerã, o Irã anunciou um novo líder supremo e mais três países do Golfo reduziram produção. O Estreito de Ormuz segue funcionalmente fechado.

No Brasil, o Banco Central divulga o Boletim Focus às 8h30 em um cenário radicalmente diferente do da semana passada. A Selic está em 15% ao ano, o Copom se reúne em 9 dias, e a pergunta que antes era "0,25 ou 0,50 ponto de corte?" agora é: o BC corta alguma coisa?

📌 O número do dia
US$ 111
Petróleo Brent na abertura desta segunda
Alta de mais de 20% em relação ao fechamento de sexta (US$ 92,69). É a primeira vez que o Brent ultrapassa US$ 100 desde julho de 2022. Analistas já falam em US$ 130 se o Estreito de Ormuz não reabrir em duas semanas.
📰 História 1 de 4
Geopolítica · O que está acontecendo em Ormuz
Petróleo acima de US$ 111: o fim de semana que mudou os mercados

No sábado, Israel atacou depósitos de petróleo em Teerã, quatro navios-tanque e um terminal de transferência. O Iraque, Kuwait e Emirados Árabes Unidos começaram a reduzir produção porque os tanques de armazenamento estão enchendo sem conseguir exportar — o Estreito de Ormuz segue praticamente fechado. Na abertura desta segunda, o Brent subiu 20% para US$ 111,04 e o WTI subiu 22%.

Nos EUA, o galão de gasolina já chegou a US$ 3,45 — 47 centavos a mais do que na semana anterior. O diesel está a US$ 4,60. Os futuros do Dow Jones caíam mais de 2% na noite de domingo. A Coreia do Sul avalia teto de preço para o petróleo pela primeira vez em 30 anos. A China ordenou que refinarias suspendam exportações de diesel e gasolina.

Trump disse em suas redes que a alta do petróleo no curto prazo é um preço "muito pequeno" a pagar pela segurança. "Só tolos pensariam diferente!", escreveu — e anunciou que os EUA considerarão novos alvos no Irã que antes estavam fora da lista.

🎓 O que a teoria diz
Choque de oferta: uma interrupção súbita no fornecimento de um insumo essencial que eleva preços e reduz o crescimento ao mesmo tempo. A última vez que o mundo viu algo parecido foi o embargo árabe de 1973. A diferença agora é a velocidade de como o mercado globalizado será impactado.
E daí?
Ormuz não é só petróleo. Por ali também passa quase 20% do GNL mundial — e o Catar suspendeu parte da produção. A Europa, que ainda se recuperava da dependência energética da Rússia, vê sua segurança energética ameaçada pela segunda vez em quatro anos. Cada dia fechado é mais uma semana de atraso nos navios que dão a volta pelo Cabo da Boa Esperança.
📰 História 2 de 4
Geopolítica · Irã
Filho de Khamenei é o novo líder supremo — e isso complica tudo

Neste domingo, a Assembleia de Especialistas do Irã anunciou o aiatolá Mojtaba Khamenei, 56, filho do líder supremo morto em 28 de fevereiro, como o terceiro líder supremo da República Islâmica. A Guarda Revolucionária jurou lealdade imediata: "pronta para completa obediência e sacrifício", declarou em comunicado.

Mojtaba é considerado linha-dura, próximo da Guarda Revolucionária, e apoiou a repressão aos protestos de 2009. Sua eleição contraria um dos princípios da Revolução de 1979 — o fim do poder hereditário — mas a guerra tornou essa questão secundária. Trump havia dito que todos os candidatos que tinha em mente para liderar o Irã pós-guerra "estão mortos". Mojtaba estava fora da lista.

🎓 O que a teoria diz
Em teoria das relações internacionais, chama-se continuidade de regime a capacidade de um sistema político de manter sua estrutura de poder após uma ruptura violenta. A eleição de Mojtaba — filho do líder morto, aliado da Guarda Revolucionária — é o sinal mais claro até agora de que o Irã não vai capitular. Para os mercados, isso significa que o conflito tende a se prolongar.
E daí?
Trump queria um Irã sem liderança consolidada após a morte de Khamenei. Saiu o oposto: um novo líder linha-dura, com apoio militar imediato e discurso de resistência. As chances de acordo diplomático no curto prazo caíram — e com elas, as chances de reabertura do Estreito de Ormuz.
📰 História 3 de 4
Sistema Financeiro · Brasil
FGC exige R$ 32,5 bilhões dos bancos: o tamanho real do buraco do Master

O FGC determinou na quinta (5) que todos os bancos antecipem R$ 32,5 bilhões em contribuições até 25 de março — 60 meses de aportes futuros. O rombo total do conglomerado de Vorcaro chegou a R$ 51,8 bilhões, o maior da história do sistema financeiro brasileiro. Até agora, o fundo já pagou R$ 38,4 bilhões a 675 mil credores.

Para não sufocar a liquidez do setor, o BC autorizou abater os valores do compulsório. Mesmo assim, o plano vai até 2028: sete anos de receitas futuras do fundo consumidos em três.

🎓 O que a teoria diz
Economistas chamam de risco moral a situação em que a existência de uma rede de proteção — como o FGC — incentiva comportamentos mais arriscados por parte de quem sabe que será resgatado. Bancos menores conseguiram captar bilhões oferecendo CDBs acima do mercado justamente porque investidores sabiam que o FGC cobria até R$ 250 mil por CPF. O problema: quando o buraco é grande demais, o fundo que deveria proteger o sistema vira o próprio problema.
E daí?
O FGC cumpriu seu papel — mas o sistema inteiro vai pagar a conta por anos. O caso reacende o debate sobre limites de emissão de CDBs por bancos menores e sobre como o BC deixou o Master crescer tanto por tanto tempo. Uma CPI pode estar a caminho para investigar sete anos de omissão regulatória.
📰 História 4 de 4
Política Fiscal · Brasil
Guerra impõe conservadorismo na gestão fiscal — e a conta ainda não fechou

A equipe econômica se reúne nesta segunda para a primeira rodada de discussões sobre o relatório bimestral, previsto para 24 de maio. O cenário é complexo: a alta do petróleo traz receitas extras (a LOA projetou Brent a US$ 64,93 — ele está acima de US$ 111), mas a incerteza geopolítica recomenda cautela. A meta de superávit primário de 2026 é de 0,25% do PIB, equivalente a R$ 34,3 bilhões.

Há variáveis em aberto: o Redata (isenção fiscal para datacenters) perdeu validade sem ser votado pelo Congresso, liberando R$ 5,2 bilhões não previstos. A nova faixa de isenção do IR até R$ 5 mil ainda precisa ter sua neutralidade fiscal comprovada. E o TCU limitou acordos de transação tributária que renderiam R$ 20 bilhões.

🎓 O que a teoria diz
Em finanças públicas, chama-se conservadorismo fiscal anticíclico a estratégia de apertar o orçamento justamente quando há receitas extras inesperadas — como uma commodity em alta — para criar reserva contra a reversão futura. É o oposto do que governos populistas fazem: gastar o extraordinário como se fosse permanente. A sinalização da equipe econômica de conter despesas mesmo com arrecadação acima do esperado é, tecnicamente, o movimento correto.
E daí?
O governo reteve R$ 43,4 bilhões no decreto de programação orçamentária de janeiro. Se a arrecadação surpreender para cima — o que o petróleo alto sugere — essa reserva pode ser liberada no fim do ano. Mas em ano eleitoral, a pressão para gastar antes de julho é real: a LDO proíbe transferências a estados e municípios após esse mês.
📈 Mercados — referência domingo à noite
Ibovespa (sex.) 179.364 pts ▼ -4,99% na semana
Dólar x real (sex.) R$ 5,2414 ▲ +2,08% na semana
Petróleo Brent US$ 111,04 ▲ +20% vs. sexta
WTI (EUA) US$ 107,20 ▲ +18% vs. sexta
💬 A frase
"O nível psicológico de US$ 100 por barril pode ser apenas uma meta de curto prazo, caminhando para patamares mais altos à medida que o conflito se prolonga."
— Andy Lipow, presidente da Lipow Oil Associates
Tradução do economês: US$ 100 não é o teto — e pode ser apenas o piso. Lipow é um dos analistas mais respeitados do mercado de petróleo. Quando ele fala "patamares mais altos", o mercado ouve.
📅 Agenda
8h30 Boletim Focus — primeiro Focus após o choque do petróleo; mercado revisa projeções de IPCA e Selic ALTO IMPACTO
Dia todo Oriente Médio — abertura dos mercados globais com petróleo acima de US$ 110; qualquer novo ataque à infraestrutura energética move todos os ativos ALTO IMPACTO
Qui
9h00
IPCA de fevereiro — IBGE divulga a inflação oficial; será o dado mais monitorado da semana pelo Copom ALTO IMPACTO
⚡ Mais rápido
Filho de Khamenei é eleito novo líder supremo do Irã — Mojtaba Khamenei, 56, assume o posto; linha-dura com apoio imediato da Guarda Revolucionária reduz chances de acordo diplomático
Petróleo ultrapassa US$ 111 por barril — EAU, Kuwait e Iraque reduzem produção; Arábia Saudita intercepta drones em direção ao campo de Shaybah; analistas falam em US$ 130
Guerra impõe conservadorismo na gestão fiscal — equipe econômica inicia hoje discussões sobre relatório bimestral de maio; petróleo alto traz receita extra, mas incerteza recomenda cautela
📚 Vale ler hoje
Bolsas do Japão e da Coreia do Sul caem mais de 6% neste domingo
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InfoMoney
Caso Master amplia pressão sobre o STF, avaliam ministros da Corte
Envolvimento de Toffoli no caso Vorcaro coloca a Corte em posição delicada; ministros avaliam que a crise respinga na credibilidade institucional do Tribunal
Valor Econômico
Preço do petróleo ultrapassa os US$ 100 com agravamento da guerra no Irã e anúncio do novo líder
Primeira vez acima de US$ 100 desde julho de 2022; analistas alertam que pode ser "demais para a economia global suportar"
Estadão / AP
🎯 Boa semana
Esta semana vai testar a resiliência de quem investe, de quem governa e de quem tenta entender o que está acontecendo. O petróleo acima de US$ 110, um novo líder supremo no Irã e o Copom a 9 dias — raramente tantas variáveis se cruzaram ao mesmo tempo.

A paciência vale mais que o pânico. Café na mão e olho no mercado.

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