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TERÇA-FEIRA · 05 DE MAIO DE 2026
☕ Bom dia
Ontem foi o primeiro pregão pós-feriado, e a B3 voltou no vermelho: Ibovespa em 185.600, queda de 0,92%. Lá fora, Wall Street devolveu uma parte do recorde — S&P 500 caiu 0,41%, Dow 1,13%, Nasdaq 0,19%. O Brent fez o caminho oposto: gap up de US$ 108,83 na sexta para US$ 114,44 na segunda, em reação à geopolítica do fim de semana.
No câmbio, paradoxo: apesar do petróleo voltar, a PTAX de segunda fechou em R$ 4,9587 — o real apreciou cerca de 60 bps em relação ao último fix de quinta. Fluxo pós-feriado e juro real alto seguraram o câmbio mesmo com choque externo de volta.
Hoje é o dia da ata do Copom (8h). Depois, ISM Serviços e JOLTS de março nos EUA (11h BRT). Amanhã o ADP, sexta o payroll. A semana está na primeira curva.
Café em pé. ☕
Brasil · A ata é hoje
Copom · Ata · Selic · Curva DI · IPCA-15 · Brent
A ata sai às 8h. Foi escrita com Brent em queda — mas o Brent já voltou.
A ata da reunião de 28-29 de abril sai hoje às 8h. Ela vai detalhar como o Copom justificou o corte de 25 pb (Selic em 14,50%) num cenário em que o Brent vinha caindo da máxima de US$ 118, com IPCA-15 acelerando para 0,89% em abril e expectativas de IPCA 2026 subindo de 4,86% para 4,89% na última leitura. O comunicado de quarta-feira passada já havia sido cauteloso — falava em ambiente externo incerto e indefinição sobre os conflitos no Oriente Médio.
O detalhe importante: a decisão e o comunicado nasceram num ambiente em que o Brent vinha em refluxo. A ata será lida hoje contra um cenário já diferente, com o barril de volta à casa de US$ 114 depois do gap up de segunda. Quem ler o documento vai precisar separar o que está descrito do que mudou no caminho — e o mercado vai precificar isso na curva DI. A pergunta é quanto o BC enxerga o choque do Brent como temporário (e segue a porta de junho aberta) ou como persistente (e segura o ritmo).
A curva DI fechou ontem com leve abertura, sinalizando que parte do mercado já desconta uma ata mais dura. Se o tom vier mais hawkish do que o comunicado, abre mais; se vier mais dovish, ajusta para baixo. O verbo principal será "monitorar" — e a pressão de risco será medida em centavos de PTAX.
🎓 O que a teoria diz
Look-through e o limite dele: em choque de oferta, banco central tenta separar primeiro efeito de segundo efeito. Alta de petróleo encarece combustíveis e transporte, mas isso não exige resposta automática se for temporário. O problema começa quando o choque muda expectativas, salários, preços administrados e núcleos. É aí que o look-through vira risco de complacência. A ata mostra qual lado pesa mais hoje — e em que momento o BC começaria a sair do "olhar através".
E daí?
Procurar na ata: verbos como "vigilante", "parcimonioso", "acomodatício" e "monitorar" calibram o tom — quanto mais hawkish o vocabulário, menor a porta de junho. Cenário mais hawkish: Selic alta por mais tempo, carry preservado, mas custo em atividade — Ibovespa pode sofrer, real tende a se sustentar. Cenário mais dovish: corte gradual continuando, atividade respira, mas diferencial cai e câmbio fica mais sensível ao Brent. Dispersão: mesa precificou ata mais dura nos últimos pregões; se o tom não confirmar, há espaço para devolver prêmio na curva curta. Calendário: primeira leitura nova das expectativas vem na base diária do BCB; o Relatório Focus consolidado sai segunda.
Mundo · Recorde devolveu uma parte
S&P · Dow · Nasdaq · Brent · ISM Serviços · JOLTS
Wall Street caiu na primeira sessão pós-recorde. O Brent saltou 5,8% para US$ 114,44.
Wall Street terminou a segunda no vermelho, devolvendo parte dos recordes de sexta. O S&P 500 caiu 0,41% para 7.200,75; o Dow recuou 1,13% para 48.941,90 — na sexta tinha flertado com os 50 mil pontos, com máxima de 49.988; o Nasdaq cedeu 0,19% para 25.067,80, ainda acima dos 25 mil pontos que cravou pela primeira vez no fechamento de sexta 01/05. O movimento foi de ajuste de posição pós-recorde, não de reversão de tese.
O Brent foi na direção oposta. Fechou a sexta em US$ 108,83, devolvendo cerca de US$ 10 do pico de US$ 118 da semana anterior. Na segunda saltou 5,8% para US$ 114,44, em reação a notícias de geopolítica do fim de semana — tensões renovadas em Ormuz e sinais de que o cenário de oferta ainda não se resolveu. O ouro também mexeu: a sessão prévia fechou em torno de US$ 4.520, mais baixo que o pico recente, com o dólar global ganhando força marginal.
Hoje, mais dado. ISM Serviços de abril sai às 11h BRT — ajuda a ler a parte mais persistente da inflação de serviços, com PCE núcleo ainda em 3,2%. JOLTS de março (vagas em aberto) sai junto. Amanhã vem o ADP, sexta o payroll. Powell encerra o mandato de chair em 15/05 (deve permanecer como governor); o próximo FOMC só em 16-17/06, o que dá ao mercado mais de um mês para precificar a transição sem nova decisão oficial.
🎓 O que a teoria diz
Pós-recorde não é reversão: depois de uma sequência em máxima histórica, queda pequena não é necessariamente virada de tendência — muitas vezes é ajuste de posição antes de dados relevantes. O que separa realização de virada não é a sessão em si: é o gatilho macro seguinte. ISM Serviços, payroll, juro longo e guidance de lucros decidem se a máxima fica como teto ou como degrau. Entre uma coisa e outra, o preço oscila em torno do ponto de fechamento de referência.
E daí?
Trigger seguinte: o que separa realização de virada não foi a sessão de ontem — é ISM Serviços hoje, payroll na sexta, ou earnings da semana. Brent vs equities: decoupling clássico em ambiente geopolítico — energia sobe quando Ormuz reaviva, equities globais sofrem na transmissão (custo + inflação implícita). Breakeven 5y: com Brent acima de US$ 114, inflação implícita nas Treasuries tende a abrir — TIPS competem com nominal. Rotação setorial: em ambiente de Brent forte, energia e financials costumam ganhar; tech e consumer cíclico costumam ceder no curto prazo.
Brasil · Real venceu de novo
PTAX · Real · Brent · Fluxo · Carry · Mercosul
O Brent voltou. O real apreciou mesmo assim. O carry está ganhando da geopolítica — por enquanto.
A PTAX de venda de segunda saiu em R$ 4,9587, ante R$ 4,9886 da quinta-feira anterior. São cerca de 60 bps de apreciação do real em uma sessão, com B3 reabrindo pós-feriado e o dólar global ganhando força marginal contra outras moedas. O ponto importante: o real apreciou no mesmo dia em que o Brent gapped up de US$ 108 para US$ 114. Em livro-texto, alta de petróleo costuma pressionar moeda de país importador líquido. Aqui não pressionou.
Por quê? Três vetores que ficaram fortes ao mesmo tempo. Primeiro, o carry: Selic em 14,50%, com Fed em 3,50-3,75%, gera diferencial de juros reais que atrai fluxo. Segundo, fluxo de exportação: agro mantendo embarque pesado, com o Mercosul-UE em aplicação provisória desde sexta como pano de fundo de médio prazo — não como causa direta do movimento do dia. Terceiro, posicionamento: muita mesa entrou no feriado vendida em real e cobriu na reabertura, comprimindo o preço.
Não significa que o real está blindado. A ata de hoje mexe na conta — uma ata mais hawkish (preservando Selic alta por mais tempo) tende a sustentar o carry e o real, ao custo de aperto maior na atividade. Uma ata mais dovish reduz o diferencial esperado na margem; com o Brent voltando, esse seria o mix mais desconfortável para o câmbio.
🎓 O que a teoria diz
UIP (Uncovered Interest Parity) e seus desvios: a paridade de juros não coberta diz que diferencial de juros entre dois países tende a ser anulado pela variação cambial esperada — ou seja, em equilíbrio, não existe carry trade lucrativo sem risco. Na prática, o desvio é persistente: moedas de juro alto tendem a apreciar no curto prazo (forward premium puzzle). O real em 2026 é um caso clássico — o diferencial real de juros está entre os maiores do mundo, e o fluxo segue o número. Até o dia em que choque externo (ou desancoragem fiscal) muda a ponderação de risco.
E daí?
Posicionamento: com mesa ainda parcialmente short real do feriado, qualquer notícia local hawkish puxa cobertura — efeito de curto prazo amplificado. Vol implícita do real: ATM 1m do BRL recuou na sessão, mas segue acima da média do mês passado — mercado ainda paga prêmio por incerteza. Cupom cambial: abre se a ata vier dovish; comprime se hawkish — leitura inversa à do DI nominal. Para a ata de hoje: ata hawkish (Selic alta por mais tempo) tende a sustentar o carry e o real, ao custo de aperto maior na atividade; ata dovish reduz diferencial e, com Brent em alta, é o mix mais desconfortável para o câmbio.
📈 Gráfico do dia
Brent · Últimos 30 dias
O barril subiu, caiu, gapped up. A ata de hoje vai ler um cenário que mudou no caminho.
Fonte: yfinance (BZ=F, contrato contínuo) · Elaboração: Daily Brew

A linha mostra o fechamento diário do Brent (série contínua via yfinance) nos últimos 30 dias. A semana anterior trouxe o pico em torno de US$ 118; a queda de quinta (-5,94%) e sexta (-4,54%) levou o barril para US$ 108,83. Na segunda — primeira sessão pós-feriado — o gap up devolveu cerca de US$ 5, em reação à geopolítica do fim de semana. Settlements de contrato específico podem divergir da série contínua — o que importa aqui é a amplitude do movimento, não o nível exato. A ata do Copom de hoje foi escrita ao longo da semana passada, com o barril ainda em refluxo.
📌 O número do dia
+5,2%
BRENT · SEX 1º/05 → SEG 04/05
Brent saiu de US$ 108,83 (sexta) para US$ 114,44 (segunda) — gap up que devolveu cerca de metade da queda de duas sessões. Foi reação à geopolítica do fim de semana, com tensões renovadas em Ormuz. A decisão do Copom da semana passada nasceu em ambiente em que o barril ainda vinha em refluxo — a ata de hoje vai ser lida contra um cenário já diferente.
📈 Mercados — Fechamento de segunda 04/05
| Ativo | Fechamento | Dia | Mín / Máx |
|---|---|---|---|
| Ibovespa | 185.600,12 pts | ↓ −0,92% | 185.538 / 187.666 |
| Dólar PTAX venda | R$ 4,9587 | ↓ −0,60% | — |
| Dólar comercial venda | R$ 4,9677 | ↑ +0,30% | — |
| Brent ⭐ | US$ 114,44 | ↑ +5,79% | 105,55 / 115,30 |
| Ouro Comex front-month | US$ 4.519,50 | ↓ −2,38% | 4.513 / 4.581 |
| S&P 500 | 7.200,75 pts | ↓ −0,41% | 7.174,12 / 7.244,54 |
| Dow Jones | 48.941,90 pts | ↓ −1,13% | 48.913,06 / 49.441,43 |
| Nasdaq Composite | 25.067,80 pts | ↓ −0,19% | 24.913,12 / 25.210,47 |
| Bitcoin | US$ 79.828 | ↑ +1,61% | 78.224 / 80.685 |
⭐ Brent: salto de cerca de 5,8% no primeiro pregão pós-feriado em reação à geopolítica do fim de semana — Ormuz voltando ao centro da tela. Devolveu cerca de metade da queda da semana anterior.
Fonte: B3 (Ibovespa, seg 04/05), BCB PTAX (seg 04/05), mesa local (dólar comercial), WSJ/Investing (Brent settlement), Comex front-month (ouro), AP/Reuters (índices US), Investing (Bitcoin, referência 04/05) · Elaboração: Daily Brew · 04/05/2026.
💬 A frase do dia
“Inflation is always and everywhere a monetary phenomenon.”
— Milton Friedman · The Counter-Revolution in Monetary Theory · 1970
A frase é clássica, mas a ata de hoje vai tratar do caso difícil: quando um choque real — petróleo — começa a ameaçar uma variável monetária por excelência, as expectativas de inflação.
📅 O que vem hoje e na semana
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Hoje 05/05 |
Ata do Copom (BCB, 8h) · ISM Serviços EUA (10h ET) · JOLTS março (10h ET) — primeira leitura formal do corte de 25 pb com IPCA-15 acelerando, expectativas de IPCA 2026 em 4,86% e Brent que voltou ontem para a casa de US$ 114. Quanto da porta de junho ficou aberta. Nos EUA, ISM Serviços ajuda a ler a parte mais persistente da inflação de serviços. Alto impacto |
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Qua 06/05 |
ADP de emprego abril (8h15 ET) · PMI Serviços global — dado privado lido pelo mercado como aperitivo do payroll de sexta. Sinal antecipado se a desaceleração do trabalho americano ganhou tração em abril. Médio impacto |
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Qui 07/05 |
Pedidos de seguro-desemprego EUA (semana, 8h30 ET) — nos EUA, o termostato semanal do mercado de trabalho continua na cadeira. No Brasil, acompanhar a base diária de expectativas do BCB para ver se o consenso reage à ata; o Relatório Focus consolidado sai segunda. Médio impacto |
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Sex 08/05 |
Payroll EUA — abril (BLS, 8h30 ET) — primeiro relatório de emprego americano depois do choque do petróleo, com Powell ainda na cadeira até 15/05 (próximo FOMC só em 16-17/06). No Brasil, o IPCA cheio de abril sai na semana seguinte (IBGE, 12/05). Alto impacto |
📚 Vale ler
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Ata do Copom: o que muda no balanço de riscos depois do corte de 25 pb. Valor: leitura ao vivo da ata, com foco em como o comitê tratou o ambiente externo (Brent, Ormuz, condições financeiras globais) e em como ler o tom para a porta de junho. VALOR ECONÔMICO · Política Monetária · 05/05/2026 |
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Brent salta no primeiro pregão de maio com tensões renovadas em Ormuz. Reuters: cobertura do gap up de cerca de US$ 5 no pregão de segunda. Detalhes do que disparou o movimento — manchetes do fim de semana sobre passagem em Ormuz e sinais de que o cenário de oferta não se resolveu. REUTERS · Energy · 04/05/2026 |
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Wall Street recua na primeira sessão pós-recorde, mas mantem níveis históricos. Investing: leitura do recuo de S&P, Dow e Nasdaq depois da semana fechando em recorde. Foco em como ISM Serviços e payroll vão testar o nível de preço atual; técnica diz que recordes precisam de novo catalisador para sustentar. INVESTING.COM · Equities · 04/05/2026 |
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Real apreciou na primeira sessão pós-feriado — mesmo com Brent em alta. Folha: análise do paradoxo que marcou o câmbio de segunda. PTAX em R$ 4,9587 contra R$ 4,9886 da quinta-feira anterior, com mesa atribuindo a apreciação ao carry trade, fluxo de exportação e cobertura de posições vendidas. FOLHA DE S.PAULO · Câmbio · 04/05/2026 |
☕ Boa terça
A ata sai às 8h.
O Brent voltou ontem.
O real apreciou mesmo assim.
A semana está na primeira curva. ☕
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