Hoje começa a reunião do Copom — a mais esperada do ano e, como de costume, a mais confusa. O BC havia prometido cortar em março "se o cenário esperado se confirmar". O cenário não confirmou. Veio guerra, crise do petróleo, Focus revisando a Selic para cima e o mercado trocando de aposta várias vezes na mesma semana. Agora a maioria fala em um corte mais discreto de 25 bps (era 50), uma minoria (crescente) fala em manutenção, e todo mundo fala com muita convicção sobre algo que ninguém sabe.
Na mesma semana, o Fed decide. O mercado atribui 96% de probabilidade de manutenção, a única coisa que o mercado espera de Powell é que ele não piore tudo. Uma expectativa bastante modesta para o homem mais observado do planeta. O ouro fechou em +2,10% — que é uma forma elegante de dizer que o mundo está com medo.
O Focus de ontem entregou o inevitável: IPCA a 4,10%, Selic a 12,25%, câmbio em R$ 5,40. O governo zerou o PIS/Cofins do diesel para "amortecer o choque" — ou seja, está pagando a conta do Estreito de Ormuz com o seu dinheiro. Educadamente.
O Copom inicia hoje a reunião que vai definir o primeiro corte de juros desde junho de 2025. O BC sinalizou em janeiro que cortaria em março, mas o conflito no Oriente Médio complicou o roteiro: petróleo disparou, expectativas de inflação subiram, e o Focus desta semana mostrou o mercado elevando a projeção de Selic para 12,25% ao fim de 2026. A aposta majoritária é de corte de 25 bps — as apostas em 50 bps foram, na linguagem dos traders, "praticamente enterradas". O Banco Safra revisou de 50 para 25 bps. O BTG chegou a precificar alguma chance de alta. O mercado passou de euforia para angústia num intervalo que qualquer gestor chamaria de "semana normal de 2026".
O problema é estrutural: o Copom chega à reunião com sinais contraditórios. A atividade segue aquecida — IBC-Br de janeiro surpreendeu positivamente. A inflação de serviços continua pressionada. E o choque do petróleo ainda não apareceu nos dados — ele chega em março e abril, depois da decisão de hoje. O BC vai ter que decidir com um retrato do passado na mão e uma névoa à frente. Um cenário adorável para quem gosta de incerteza. Para todo o resto, menos.
No fim de semana, alguns petroleiros voltaram a cruzar o Estreito de Ormuz com sucesso — o que, no contexto atual, é noticiado como vitória. O Brent cedeu dos picos de US$ 103 para a faixa de US$ 97. O mercado comemorou. O Pentágono, contudo, estima de 4 a 6 semanas ainda de conflito. Trump diz que o Irã "quer um acordo" — o mesmo Trump que há três semanas dizia que a guerra acabava "em breve". O secretário do Tesouro dos EUA disse não ver "problema na passagem de navios por enquanto". "Por enquanto" é uma das frases mais aterrorizantes da diplomacia internacional.
Para o Brasil, o quadro tem duas faces. Na positiva: câmbio depreciado favorece exportações agrícolas e de petróleo, Petrobras surfou a alta da commodity. Na negativa: o choque de preços ainda não chegou à inflação — a conta de março e abril está sendo calculada agora, depois da decisão do Copom. O governo zerou o PIS/Cofins do diesel para amortecer. Subsídio temporário não resolve problema estrutural — só empurra a conta para o futuro contribuinte.
Amanhã, 18/03, Copom e Fed anunciam no mesmo dia. O Fed vai manter os juros entre 3,5% e 3,75% com probabilidade de 96% segundo o FedWatch. O debate americano agora é sobre quando o primeiro corte virá: o consenso migrou para setembro. O que o mercado quer ouvir de Powell é que ele não vai subir os juros por causa do petróleo. O que ele provavelmente vai dizer é que "acompanha os dados" — frase que, traduzida do banqueês, significa "não sei e tampouco vou me comprometer".
O fator complicador: o mandato de Powell termina em maio e Trump deve indicar Kevin Warsh como próximo presidente do Fed — considerado mais hawkish. O que é irônico num momento em que o próprio Trump pressiona publicamente por juros menores. A política monetária americana virou novela de horário nobre: elenco de personalidades fortes, roteiro imprevisível, audiência global compulsória.

* Ibovespa e Wall Street abriram a semana em alta com alívio no petróleo e otimismo pré-Super Quarta. Brent recuou 3,78% e voltou abaixo dos US$ 100, primeiro fechamento nesse patamar desde o início do conflito. Dólar cedeu com enfraquecimento global da moeda americana. Bitcoin acompanhou o apetite por risco.
|
|
|
Focus eleva IPCA para 4,10% e Selic para 12,25% em 2026
O relatório semanal do BC mostrou deterioração das expectativas em todas as frentes. Mais inflação, mais juro, menos espaço para o Copom cortar agressivamente. Os dados completos da segunda-feira.
Exame
|
|
O que esperar do Copom de março? Safra explica o dilema dos 25 bps
O Safra revisou de 50 para 25 bps e detalha por que o cenário externo complicou o roteiro do BC. Inclui projeção completa da trajetória da Selic até o fim de 2026.
Banco Safra
|
|
Semana de decisões sobre juros testa bancos centrais globais
Fed, Copom, BCE, Canadá — todos decidindo esta semana, todos diante do mesmo dilema: guerra, petróleo e inflação resistente. O mapa completo do que esperar de cada banco central.
Infomoney
|
|
Ibovespa em alta e dólar cede com alívio geopolítico e intervenção do Tesouro
Resumo do pregão de segunda: intervenção do Tesouro (cancelamento de leilões e recompra de prefixados) e otimismo cauteloso com navios voltando a cruzar o Estreito de Ormuz.
CNN Brasil
|
|
Economia brasileira deve desacelerar em 2026 — e o ano eleitoral é parte do problema
Analistas projetam PIB de 1,8%–1,9% em 2026: primeiro semestre mais forte, freio no segundo por causa das eleições e do ciclo de juros. Inclui projeções de Daycoval, PicPay e Suno Research.
Infomoney
|
Muita coisa incerta para uma semana só. O café precisa ser forte. ☕