Daily Brew
Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.
Terça-feira · 17 de março de 2026
☕ Bom dia

Hoje começa a reunião do Copom — a mais esperada do ano e, como de costume, a mais confusa. O BC havia prometido cortar em março "se o cenário esperado se confirmar". O cenário não confirmou. Veio guerra, crise do petróleo, Focus revisando a Selic para cima e o mercado trocando de aposta várias vezes na mesma semana. Agora a maioria fala em um corte mais discreto de 25 bps (era 50), uma minoria (crescente) fala em manutenção, e todo mundo fala com muita convicção sobre algo que ninguém sabe.

Na mesma semana, o Fed decide. O mercado atribui 96% de probabilidade de manutenção, a única coisa que o mercado espera de Powell é que ele não piore tudo. Uma expectativa bastante modesta para o homem mais observado do planeta. O ouro fechou em +2,10% — que é uma forma elegante de dizer que o mundo está com medo.

O Focus de ontem entregou o inevitável: IPCA a 4,10%, Selic a 12,25%, câmbio em R$ 5,40. O governo zerou o PIS/Cofins do diesel para "amortecer o choque" — ou seja, está pagando a conta do Estreito de Ormuz com o seu dinheiro. Educadamente.

Copom / Selic
Brasil · Política Monetária
A decisão mais esperada do ano começa hoje — e o mercado trocou de aposta mais vezes do que a aposta sobre a convocação do Neymar para a Copa

O Copom inicia hoje a reunião que vai definir o primeiro corte de juros desde junho de 2025. O BC sinalizou em janeiro que cortaria em março, mas o conflito no Oriente Médio complicou o roteiro: petróleo disparou, expectativas de inflação subiram, e o Focus desta semana mostrou o mercado elevando a projeção de Selic para 12,25% ao fim de 2026. A aposta majoritária é de corte de 25 bps — as apostas em 50 bps foram, na linguagem dos traders, "praticamente enterradas". O Banco Safra revisou de 50 para 25 bps. O BTG chegou a precificar alguma chance de alta. O mercado passou de euforia para angústia num intervalo que qualquer gestor chamaria de "semana normal de 2026".

O problema é estrutural: o Copom chega à reunião com sinais contraditórios. A atividade segue aquecida — IBC-Br de janeiro surpreendeu positivamente. A inflação de serviços continua pressionada. E o choque do petróleo ainda não apareceu nos dados — ele chega em março e abril, depois da decisão de hoje. O BC vai ter que decidir com um retrato do passado na mão e uma névoa à frente. Um cenário adorável para quem gosta de incerteza. Para todo o resto, menos.

🎓 O que a teoria diz
Forward guidance: Quando um banco central sinaliza antecipadamente o que vai fazer — uma promessa condicionada ao cenário. Funciona quando o cenário coopera. Quando não coopera (guerra, petróleo, surpresa inflacionária), o BC fica numa enrascada: cumpre a promessa e perde credibilidade técnica, ou recua e perde credibilidade de comunicação. O Copom prometeu cortar "se o cenário esperado se confirmar". O cenário não confirmou integralmente. Boa sorte ao Galípolo.
E daí?
Se o Copom cortar 25 bps, é o início de um ciclo cauteloso — bom para renda fixa curta, neutro para bolsa, alívio simbólico para o consumidor. Se manter em 15%, o mercado reage mal no curto prazo — mas o BC vai parecer técnico em vez de político, o que tem valor próprio. O pior cenário? Sinalização ambígua que cada analista interpreta diferente. O mercado ama e odeia isso ao mesmo tempo.
Oriente Médio / Petróleo
Economia Global · Commodities
Enquanto Trump implora por aliados no Estreito, o petróleo segue no seu próprio ritmo — em torno de US$ 100 e sem pedir licença

No fim de semana, alguns petroleiros voltaram a cruzar o Estreito de Ormuz com sucesso — o que, no contexto atual, é noticiado como vitória. O Brent cedeu dos picos de US$ 103 para a faixa de US$ 97. O mercado comemorou. O Pentágono, contudo, estima de 4 a 6 semanas ainda de conflito. Trump diz que o Irã "quer um acordo" — o mesmo Trump que há três semanas dizia que a guerra acabava "em breve". O secretário do Tesouro dos EUA disse não ver "problema na passagem de navios por enquanto". "Por enquanto" é uma das frases mais aterrorizantes da diplomacia internacional.

Para o Brasil, o quadro tem duas faces. Na positiva: câmbio depreciado favorece exportações agrícolas e de petróleo, Petrobras surfou a alta da commodity. Na negativa: o choque de preços ainda não chegou à inflação — a conta de março e abril está sendo calculada agora, depois da decisão do Copom. O governo zerou o PIS/Cofins do diesel para amortecer. Subsídio temporário não resolve problema estrutural — só empurra a conta para o futuro contribuinte.

🎓 O que a teoria diz
Choque de oferta: Quando um evento externo reduz a disponibilidade de um insumo básico — como o petróleo — os preços sobem sem que a demanda tenha crescido. É diferente da inflação de demanda, que o juro combate melhor. Um choque de oferta coloca bancos centrais numa enrascada: subir juros desacelera a economia, mas não aumenta a produção de petróleo. É como tomar analgésico para tratar osso quebrado — alivia, mas não resolve.
E daí?
O Brasil é, por acidente da geografia, bem posicionado num conflito energético: exporta petróleo, exporta alimentos, tem câmbio depreciado. O problema é que o brasileiro médio não exporta petróleo — ele compra gasolina, paga frete e come. E essas três coisas estão ficando mais caras. O subsídio no diesel é um remendo. A conta real chega nos dados de inflação de março e abril, que o Copom não vai ter na mão quando decidir amanhã. Perfeito.
Fed / Super Quarta
Economia Global · Política Monetária
Amanhã é "Super Quarta" — quando Copom e Fed decidem no mesmo dia e os analistas fingem que conseguem acompanhar tudo ao mesmo tempo

Amanhã, 18/03, Copom e Fed anunciam no mesmo dia. O Fed vai manter os juros entre 3,5% e 3,75% com probabilidade de 96% segundo o FedWatch. O debate americano agora é sobre quando o primeiro corte virá: o consenso migrou para setembro. O que o mercado quer ouvir de Powell é que ele não vai subir os juros por causa do petróleo. O que ele provavelmente vai dizer é que "acompanha os dados" — frase que, traduzida do banqueês, significa "não sei e tampouco vou me comprometer".

O fator complicador: o mandato de Powell termina em maio e Trump deve indicar Kevin Warsh como próximo presidente do Fed — considerado mais hawkish. O que é irônico num momento em que o próprio Trump pressiona publicamente por juros menores. A política monetária americana virou novela de horário nobre: elenco de personalidades fortes, roteiro imprevisível, audiência global compulsória.

🎓 O que a teoria diz
Independência do banco central: A teoria defende que bancos centrais tomem decisões isolados de pressão política — para fazer o tecnicamente correto sem olhar para eleições. Na prática, Trump abriu investigação criminal contra Powell, chamou o Fed de "estúpido" em pelo menos quatro ocasiões públicas e agora vai nomear o substituto. A independência está sendo testada em condições de laboratório.
E daí?
Para o Brasil, a decisão do Fed importa mais do que parece. Juros americanos altos atraem capital para os EUA, pressionam o dólar e encarecem importações — o que dificulta a vida do Copom. Se o Fed mantiver e sinalizar sem pressa para cortar, o espaço do BC brasileiro para afrouxar fica mais estreito. A cadeia vai de Washington até o financiamento do seu apartamento. Bonito.
📌 O número do dia
12,25%
Projeção Focus para a Selic ao fim de 2026 · Banco Central · 16/03/2026
Na semana passada era 12,13%. Antes disso, 12,00%. A trajetória de queda da Selic existe — mas está sendo negociada e revisada semana a semana, conforme o petróleo decide o que quer ser quando crescer.
📊 O gráfico do dia
Projeção Focus para a Selic ao fim de 2026 — evolução semanal (jan–mar/2026)
Fonte: Boletim Focus / Banco Central do Brasil
A projeção Focus para a Selic ao fim de 2026 saiu de 12,25% em 5/jan, caiu para 12,00% em meados de janeiro, e voltou a subir para 12,25% na última leitura (16/03). A piora reflete o conflito no Oriente Médio, inflação acima do esperado em fevereiro e redução das apostas em cortes mais agressivos pelo Copom.
📈 Mercados — fechamento de segunda-feira (16/03)
Ativo Fechamento Dia Máx / Mín
Ibovespa 179.875 pts ▲ +1,25% 181.255 / 177.656
Dólar (BRL) R$ 5,2321 ▼ −1,72% R$ 5,287 / R$ 5,226
Petróleo Brent US$ 99,97 ▼ −3,78% US$ 106,42 / US$ 99,60
S&P 500 6.699,40 pts ▲ +1,01% 6.729 / 6.674
Dow Jones 46.946,41 pts ▲ +0,83% 47.176 / 46.707
Nasdaq 22.374,18 pts ▲ +1,22% 22.521 / 22.316
Bitcoin US$ 74.036 ▲ +1,68% US$ 74.447 / US$ 72.307
* Ibovespa e Wall Street abriram a semana em alta com alívio no petróleo e otimismo pré-Super Quarta. Brent recuou 3,78% e voltou abaixo dos US$ 100, primeiro fechamento nesse patamar desde o início do conflito. Dólar cedeu com enfraquecimento global da moeda americana. Bitcoin acompanhou o apetite por risco.
💬 A frase
"Ninguém tem um 'best guess' do que vai acontecer nos próximos meses, e essa falta de previsibilidade reforça o cenário de cautela."
— Antonio Ricciardi, economista do Banco Daycoval · Infomoney, março/2026
A frase resume com precisão o dilema desta semana: bancos centrais, investidores e analistas estão todos operando no escuro, com dados atrasados e um conflito geopolítico que muda de intensidade diariamente. O "cenário-base" virou um conceito filosófico. A previsão, um ato de fé.
📅 Agenda
Hoje (Ter 17) 1º dia da reunião do Copom — O comitê se reúne hoje; decisão sai amanhã à noite (18/03). ALTO IMPACTO
Hoje (Ter 17) 1º dia da reunião do FOMC (Fed) — Decisão amanhã (14h ET / 15h Brasília). ALTO IMPACTO
Qua 18/03 Super Quarta — Copom + Fed — Dois bancos centrais, duas decisões, um dia de mercado em colapso existencial. ALTÍSSIMO IMPACTO
Qua 18/03 PPI (Preços ao Produtor) EUA — fevereiro (9h30 ET) — O que o produtor cobra hoje, o consumidor paga amanhã. Relevante para calibrar expectativas do Fed. MÉDIO IMPACTO
Qui 19/03 Pedidos de auxílio-desemprego EUA (9h30 ET) — Termômetro semanal do mercado de trabalho americano, que o Fed acompanha de perto. MÉDIO IMPACTO
Qui 19/03 BCE decide juros (zona do euro) — Lagarde enfrenta o mesmo dilema: guerra, energia cara e inflação resistente. A coletiva pode mover mercados globais. MÉDIO IMPACTO
Sex 20/03 Pesquisa Mensal de Serviços — IBGE (9h) — Setor responde por mais de 70% do PIB brasileiro. Termômetro de resistência da atividade com Selic a 15%. MÉDIO IMPACTO
📚 Vale ler hoje
Focus eleva IPCA para 4,10% e Selic para 12,25% em 2026
O relatório semanal do BC mostrou deterioração das expectativas em todas as frentes. Mais inflação, mais juro, menos espaço para o Copom cortar agressivamente. Os dados completos da segunda-feira.
Exame
O que esperar do Copom de março? Safra explica o dilema dos 25 bps
O Safra revisou de 50 para 25 bps e detalha por que o cenário externo complicou o roteiro do BC. Inclui projeção completa da trajetória da Selic até o fim de 2026.
Banco Safra
Semana de decisões sobre juros testa bancos centrais globais
Fed, Copom, BCE, Canadá — todos decidindo esta semana, todos diante do mesmo dilema: guerra, petróleo e inflação resistente. O mapa completo do que esperar de cada banco central.
Infomoney
Ibovespa em alta e dólar cede com alívio geopolítico e intervenção do Tesouro
Resumo do pregão de segunda: intervenção do Tesouro (cancelamento de leilões e recompra de prefixados) e otimismo cauteloso com navios voltando a cruzar o Estreito de Ormuz.
CNN Brasil
Economia brasileira deve desacelerar em 2026 — e o ano eleitoral é parte do problema
Analistas projetam PIB de 1,8%–1,9% em 2026: primeiro semestre mais forte, freio no segundo por causa das eleições e do ciclo de juros. Inclui projeções de Daycoval, PicPay e Suno Research.
Infomoney
🎯 Boa terça-feira
Copom e Fed decidem amanhã. O petróleo voltou abaixo dos US$ 100 — por ora. O mercado não sabe se corta 25 bps, 50 bps ou não corta nada. E o Neymar pode ou não ir à Copa.

Muita coisa incerta para uma semana só. O café precisa ser forte. ☕
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