Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.
Domingo · 31 de maio de 2026 · Edição especial
☕ Bom domingo
A queda é real. O Brasil está menos violento do que já foi.
O asterisco existe. Parte da melhora se escondeu numa gaveta de "mortes a esclarecer", e São Paulo lidera.
O medo não caiu junto. Quase todo brasileiro ainda tem medo de virar vítima — e, em outubro, é o medo que vota. ☕
Atlas da Violência 2026 · IPEA · FBSP · PCC · Goiás · São Paulo
📖 História 1 de 3
O Brasil matou 42.590 pessoas em 2024 — e, surpreendentemente, é o melhor número em uma década.
Em 2017, o Brasil chegou ao pico: 32,1 homicídios por 100 mil, mais de 65 mil mortes em um ano. Sete anos depois, o Atlas da Violência 2026 (IPEA/FBSP), divulgado na terça, registrou 20,1 por 100 mil em 2024 — 42.590 mortes, queda de 37% desde o pico e de 33% ante 2014. O melhor número da década.
Não há causa única. O país envelheceu, e o homem jovem — principal autor e vítima — virou fatia menor da população. Em São Paulo, uma interpretação recorrente é que a hegemonia do PCC reduziu as guerras entre facções (não é paz — é monopólio criminoso estável). E programas estaduais entregaram: Goiás, sob Caiado (PSD), caiu 58,4% na década; São Paulo, sob Tarcísio (Republicanos), aparece com 6,6 no Atlas (5,9 na conta da SSP) — das menores taxas do país.
Cada ponto a menos são cerca de duas mil vidas por ano — e o IPEA estima que a violência consome perto de 6% do PIB. Se a queda se mantiver, são dezenas de bilhões voltando à economia. A pergunta é se alguém, no Brasil, sente isso.
📊 A queda em três números
32,1 por 100 mil em 2017 (pico). 20,1 em 2024 (menor da série iniciada em 2014). 42.590 mortes — ainda 117 por dia, mas 7,4% abaixo de 2023.
🔗 A conexão
A queda é real. Mas dentro do mesmo Atlas há uma segunda planilha, que ninguém exibiu em coletiva — e que começa a explicar por que essa boa notícia não virou sensação de segurança na rua.
Homicídios ocultos · Subnotificação · São Paulo · Letalidade policial · IPEA
📖 História 2 de 3
As 7 mil mortes que a saúde registra como "causa indeterminada" — e que podem ser homicídios.
Há um segundo reservatório na estatística: as "mortes violentas por causa indeterminada" — quando a saúde não recebe informação para cravar se foi homicídio, suicídio ou acidente. O IPEA reclassifica parte delas, por modelo estatístico, como "homicídios ocultos". Em 2024 foram 7.083 — alta de 88,6% sobre 2023 (3.755), ou 14,3% do total estimado.
A concentração grita em São Paulo: 2.824 ocultos, quase 40% do país. Somando-os, a taxa paulista quase dobra — de 6,6 para 12,8 — e SP deixa de ser o menos violento. No agregado, 42.590 viram cerca de 49.673, e 20,1 vira 23,4. O detalhe incômodo: pela conta oficial, 2024 caiu 7,4% ante 2023; com os ocultos, a queda encolhe para 0,4% — quase estável. A tendência da década segue real; a melhora do último ano é que fica frágil.
Não é conspiração: o próprio IPEA aponta falha técnica na troca de dados entre saúde e segurança. Mas há um agravante de incentivo — a Lei de Goodhart: quando a medida vira meta de campanha, o sistema ganha motivo para empurrar o caso difícil para a categoria menos visível. Em paralelo, a letalidade policial paulista subiu pelo terceiro ano — 814 mortes em 2024, numa rubrica à parte do "homicídio doloso" que o estado exibe.
Eleição 2026 · América Latina · Chile · Equador · Colômbia · Datafolha · Quaest
📖 História 3 de 3
Os homicídios caíram um terço em uma década. O medo deles só cresce. É o medo que vota.
Em maio, o Datafolha/FBSP mostrou o outro lado: 96,2% dos brasileiros têm medo de pelo menos um dos 13 tipos de crime listados, e 57% mudaram algum hábito no último ano. Não é irracionalidade — o que assusta no dia a dia não é o homicídio. Foram 917 mil celulares roubados ou furtados em 2024, golpes digitais explodiram, crimes contra mulheres subiram. A manchete (mortes) não é o que o leitor sente entre a porta de casa e o ponto de ônibus.
A consequência eleitoral é brutal. A violência virou o "principal problema do Brasil" nas pesquisas — e não só na oposição: aparece no topo até entre eleitores de Lula. Só que o crédito da queda não vai para o agregado nacional (que atravessou três governos, sem dono claro) — vai para quem entrega na prática. Caiado usa Goiás (queda de 58,4%) como cartão de visita presidencial; Tarcísio usa São Paulo na reeleição. O governo federal não tem como contar a história oposta sem soar defensivo.
E o Brasil não vota no vácuo. O mesmo eixo — medo virando voto — redesenha a América Latina: o Equador reelegeu Noboa em 2025 prometendo mão dura; o Chile elegeu Kast com quase 58%, em campanha de segurança; a Bolívia encerrou vinte anos de MAS; e hoje, 31 de maio, a Colômbia vota o primeiro turno com a violência no topo. O Brasil de outubro é o próximo — e maior — capítulo.
🎓 O que a teoria diz
Voto retrospectivo (V. O. Key, 1966): o eleitor não vai à urna com a planilha do IPEA na mão. Ele julga pela sensação acumulada — formada no cotidiano (o assalto na esquina, o vídeo viral, o celular arrancado), não na série histórica. Por isso uma taxa em queda convive com um eleitorado que se sente mais inseguro. Pesquisa eleitoral não mede a estatística; mede a sensação.
E daí?
Enquanto roubo de celular, golpe digital e mortes "a esclarecer" seguirem piorando, a sensação de insegurança sobe mesmo com o homicídio em queda — e quanto mais ela domina a conversa, mais forte fica a oposição, que tem governador com número estadual para exibir. O indicador a acompanhar não é a intenção de voto, é "qual o principal problema do Brasil". A violência letal caiu de verdade; mas medo não se controla por planilha. Em outubro, é ele que entra na urna.
🧠 Economia para não economistas
Por que crime cai (e por que medo não cai junto)
Em 1968, Gary Becker mostrou que o crime responde a um cálculo: o benefício esperado de um lado; a chance de ser pego, a punição e a renda perdida no mercado legal do outro. A queda brasileira não é milagre — é a soma de quatro cálculos que melhoraram juntos: demografia, hegemonia de facção, investigação e mercado de trabalho.
Mas a economia do medo é outra. Quem deixa de sair à noite gasta mais com Uber; quem não usa o celular na rua deixa de usar o banco no app; cada hábito mudado por insegurança é uma transação que não acontece. Não aparece na estatística de homicídio — aparece no PIB, que a violência consome em cerca de 6% ao ano. Reduzir crime libera parte dessa conta; reduzir medo, outra. Esta semana ficou claro que a primeira está entregando, e a segunda não.
📊 O gráfico da edição
Brasil · Taxa de homicídios por 100 mil habitantes · 2010-2024
O pico foi em 2017. Desde lá, a curva só desce — em rota oposta à sensação de insegurança.
Fonte: SIM/Datasus · IPEA · Fórum Brasileiro de Segurança Pública (Atlas da Violência 2026) · Elaboração: Daily Brew

Taxa anual de homicídios por 100 mil habitantes (SIM/Datasus, base do Atlas da Violência 2026). O quadrante laranja (2010-2017) é o regime alto, com pico de 32,1 em 2017; o verde (2017-2024), o ciclo de queda mais longo já visto (queda de 37%). O ponto de 2024 (20,1) é a estatística oficial; somando os homicídios ocultos do IPEA, a taxa real sobe a 23,4. A curva desce nas duas leituras — mas nenhuma conversa com a sensação de quem vive na cidade.
📌 O número da edição
96,2%
DOS BRASILEIROS TÊM MEDO DE VIRAR VÍTIMA DE PELO MENOS UM DOS 13 CRIMES LISTADOS · DATAFOLHA / FBSP · MAIO 2026
No mesmo mês em que o IPEA divulgou a menor taxa de homicídios em uma década (20,1 por 100 mil em 2024, queda de 33% desde 2014), o Datafolha/FBSP mostrou que praticamente toda a população adulta vive com medo de virar vítima — e que 57% já mudaram pelo menos um hábito por causa da insegurança. É o paradoxo desta edição em um número.
💬 A frase da edição
"O declínio da violência pode ser o desenvolvimento mais significativo — e o menos reconhecido — da história da nossa espécie."
— Steven Pinker · "The Better Angels of Our Nature: Why Violence Has Declined" · Penguin, 2011
A frase de Pinker, escrita sobre séculos de história humana, aparece hoje em escala brasileira de uma década. A violência letal caiu um terço em dez anos. Quase ninguém percebeu. E ninguém que decide sua rotina pela sensação de medo se importa.
📅 O que vem aí
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Segunda 1/06 |
PMI Industrial Brasil e EUA — o primeiro termômetro de junho do setor manufatureiro nos dois países. Brasil tem rodado em expansão modesta (perto de 51-52); EUA próximo da linha dos 50. Sinaliza se o ciclo industrial aguenta os juros altos. Informativo |
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Sexta 5/06 |
Payroll dos EUA de maio — primeiro grande dado de emprego americano do mês. O número anterior decepcionou; se vier fraco de novo, reforça o corte do Fed em 16-17/06; se vier forte, joga os cortes para o segundo semestre. Move o Treasury de 10 anos — e o piso da curva brasileira. Alto impacto |
☕ Boa semana
O medo dela bate recorde no mesmo mês.
A planilha e a rua viraram dois países diferentes.
E em outubro, é a rua que vota. ☕
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