☕ Bom dia

Quem descansou o feriado volta a um mundo diferente. O cessar-fogo EUA–Irã venceu na madrugada, mas Trump anunciou prorrogação unilateral a pedido do Paquistão — Teerã não se comprometeu com novas conversas. O petróleo subiu 3,75%, com o Brent Jun/26 fechando em US$ 99,06. Ormuz segue largamente travado: cerca de 20 mil tripulantes e 2 mil embarcações parados no Golfo, segundo a IMO; no quadro de terça, a Reuters reportou só três passagens em 24 horas.

Nova York não gostou. S&P 500 −0,63%, Nasdaq −0,59%, Dow Jones −0,59%. O ouro — que em tese deveria ter subido — caiu 2,26%. Bitcoin recuou 0,61%. O único hedge que funcionou ontem foi o petróleo. Quem paga a conta de entrada é a Europa.

O Brasil reabre hoje com petróleo US$ 4 acima de onde o Focus foi calibrado. O Copom decide semana que vem. Galípolo volta pro escritório com mais uma linha na coluna errada da planilha. Café passado. ☕

Geopolítica · O dia seguinte

EUA · Irã · Ormuz · Brent · Ouro · VIX

O cessar-fogo foi o único que respeitou o prazo.

O acordo de duas semanas entre EUA e Irã, assinado em 8 de abril, venceu durante a madrugada — e foi prorrogado unilateralmente por Trump, a pedido do Paquistão, que media as negociações. A condição para encerrar o impasse: o Irã apresentar uma “proposta unificada”. Teerã não se comprometeu; disse que poderia participar se Washington abandonasse pressão e ameaças. A visita de J.D. Vance a Islamabad foi adiada sem nova data. O bloqueio naval aos portos iranianos segue. Brent Jun/26 fechou em US$ 99,06 (+3,75%). Ormuz segue funcionalmente travado — no quadro de terça, a Reuters reportou só três passagens em 24 horas, e a IMO estima cerca de 20 mil tripulantes e 2 mil embarcações presos no Golfo Pérsico.

O mais curioso: Wall Street abriu em alta com Retail Sales dos EUA surpreendendo (+1,7% em março), mas virou. S&P 500 −0,63%. Nasdaq −0,59%. O ouro, que deveria ter sido o safe-haven do dia, caiu 2,26% — US$ 4.719,60. Bitcoin também recuou. Em dia de aversão a risco clássica, quem correu foi o petróleo, sozinho.

O Goldman voltou ao mesmo script: mais um mês de Ormuz funcionalmente travado e o petróleo passa a negociar acima de US$ 100 o ano inteiro. A extensão do cessar-fogo comprou tempo diplomático; não comprou petróleo. Enquanto Teerã não responder, cada dia sem tráfego normal no Golfo é novo parágrafo no relatório.

🎓 O que a teoria diz

Risco de oferta com elasticidade zero (Hamilton, 2003): o petróleo não precifica o evento, precifica a distribuição de probabilidade de disrupção. O prêmio sobe em horas quando Ormuz fecha e recua em dias quando abre — a mesma assimetria que explica por que o barril voltou a US$ 99 mais rápido do que levou para recuar de US$ 119 em março.

E daí?

Brent: roll-over jun/jul ficou caro — stop virou custo. Petrobras: beta positivo no curto prazo, mas o overhang de refino barato segue mordendo o múltiplo. Copom: Focus de segunda envelheceu em 24 horas. Se Ormuz reabrir até a reunião, a banca recompõe o corte de 0,25pp; se não, a pausa cresce. Galípolo decide com petróleo a US$ 99 na mesa — e Picchetti já tinha dito que desancoragem preocupa.

Europa · Conta que chega primeiro

BCE · Lagarde · Alemanha · França · PMI · Zona euro

Quando o petróleo acorda, a Europa é quem paga a conta.

Na segunda (20/04), Christine Lagarde discursou na recepção anual da Associação dos Bancos Alemães. Usou uma palavra que costuma ser evitada em documentos oficiais do BCE: “incerteza inédita”. Reafirmou o compromisso com a meta de 2% no médio prazo — e disse que o BC precisa de “mais informações antes de tirar conclusões definitivas”.

O problema da Europa é estrutural: importa perto de 60% do que consome em energia, enquanto os EUA são exportadores líquidos. Mesmo choque de petróleo, conta diferente. O FMI projeta energia +19% em 2026. Analistas europeus desenharam cenário com Brent a US$ 100 e gás a €60/MWh: inflação média da zona euro em 2,4% no ano, com pico acima de 3% no 2º trimestre. Crescimento desaceleraria para ~0,8%. Alemanha tem o pára-choque de um pacote de infraestrutura de €500 bi. A França, não.

Amanhã (quinta, 23/04) saem os PMIs flash de abril para zona euro, Alemanha e França. É a primeira leitura de atividade depois do choque energético. Lagarde manteve o tom de data dependence — sem pré-sinalizar próxima decisão. O dado, não o discurso, vai definir se o BCE acelera ou segura.

🎓 O que a teoria diz

Nem todo choque de petróleo é igual (Kilian, 2009): oferta, demanda e precaução movem o mesmo barril com efeitos inflacionários opostos. O episódio atual é puro choque de oferta — o pior caso para importadores líquidos. Por isso o mesmo petróleo que vira receita para os produtores domésticos dos EUA vira imposto regressivo para o consumidor europeu — e BCE e Fed nunca reagem no mesmo ritmo.

E daí?

Euro: paridade contra o dólar voltou ao radar. Bunds: spread 10Y–2Y abriu depois do discurso de Lagarde. PMIs de quinta: abaixo de 48 na Alemanha aciona o botão de corte; acima de 50 segura a pausa. Subexposição à Europa deixou de ser default em portfólio global — e isso é o oposto do que se dizia em janeiro.

Brasil · Volta pior do feriado

Ibovespa · Petrobras · Copom · Focus · Brent · IPCA

O Brasil volta de Tiradentes num mercado diferente.

A B3 reabre hoje. Enquanto o Brasil descansava, o petróleo passou de US$ 95 para US$ 99, o ouro Jun/26 caiu 2,26%, Wall Street recuou cerca de 0,6% em todos os índices e o cessar-fogo EUA–Irã foi prorrogado unilateralmente por Trump — com Teerã sem se comprometer com novas conversas. Um feriado razoável para todo mundo menos quem tinha petróleo comprado na sexta.

O Focus divulgado na segunda, pré-feriado, já tinha piorado forte: Selic terminal 2026 de 12,50% para 13,00%, IPCA 2026 de 4,71% para 4,80%. Mas essa conta foi calibrada com petróleo em US$ 95. Hoje, são US$ 99. O diesel brasileiro é o canal mais rápido: quando o barril sobe, o combustível reajusta em poucas semanas — e o IPCA aparece logo depois.

O Copom se reúne em 28–29/04 — seis pregões úteis. Na semana passada, o consenso era corte de 0,25pp. Depois do Focus de segunda, virou meio a meio entre cortar e manter. Com petróleo em US$ 99, a conta volta a rodar. Galípolo vai decidir quanto da fatura global o Brasil precisa pagar agora.

🎓 O que a teoria diz

Inflação importada: países importadores líquidos de combustível absorvem choques de preço internacional via transporte, logística e custo industrial. O Brasil é autossuficiente em petróleo bruto, mas importador líquido de diesel e gasolina refinados — o que faz com que o petróleo mova IPCA mais rápido do que o intuitivo.

E daí?

Curva de DI deve abrir na abertura. Petrobras deve subir (carry do petróleo). Vale, lateral. Quem carregou NTN-B 2029 sobre o feriado voltou melhor. Se Ormuz permanecer fechado por mais um mês, o Copom perde a opção de cortar — e o mercado já começa a reprecificar a próxima reunião, não só a de semana que vem.

📈 Gráfico do dia

Brent Jun/26 · 28 fev – 21 abr 2026 (US$/barril)

Oito semanas de Brent: ~40% de alta, três fechamentos e um cessar-fogo que virou ontem.

Fonte: ICE Brent jun/26 · Elaboração: Daily Brew

Em 28/02, o Brent estava em cerca de US$ 70, às vésperas do ataque EUA–Israel ao Irã. Disparou para mais de US$ 119 em 19/03 no primeiro fechamento de Ormuz. Recuou até US$ 90 na trajetória do cessar-fogo (08/04) e subiu de novo a cada vez que o estreito travou. Fechou 21/04 em US$ 99,06, com o acordo estendido por Trump e Teerã recusando novas conversas.

📌 O número do dia

~20 mil

tripulantes presos no Golfo Pérsico · fonte: IMO

O bloqueio que move os mercados também move pessoas. Enquanto o petróleo testa os US$ 100, 20 mil tripulantes e cerca de 2 mil navios esperam permissão para atravessar 33 km de mar. A crise tem rosto — mas o mercado só vê o barril.

📈 Mercados — Fechamento terça 21/04

Ativo Fechamento Dia Mín / Máx
Ibovespa (feriado local) — / —
Dólar (sem PTAX / feriado local) — / —
Brent (ICE jun/26) US$ 99,06 ↑ +3,75% 93,87 / 101,10
Ouro (COMEX jun/26, settlement) US$ 4.719,60 ↓ −2,26% — / —
S&P 500 7.064,01 ↓ −0,63% 7.050 / 7.137
Dow Jones 49.149,60 ↓ −0,59% 49.047 / 49.846
Nasdaq 24.259,96 ↓ −0,59% 24.199 / 24.538
Bitcoin (às ~18h BRT) US$ 75.377 ↓ −0,61% — / —

Brent jun/26: maior alta diária em três semanas. Cessar-fogo EUA–Irã venceu na madrugada e foi prorrogado unilateralmente por Trump; Ormuz continua funcionalmente travado. B3 e BCB não operaram por Tiradentes — sem referência doméstica do dia para Ibovespa, IBrX 50 e PTAX.

Fonte: ICE Brent jun/26 (settlement) · COMEX Ouro jun/26 (settlement) · Yahoo Finance (índices EUA) · CoinDesk (BTC, snapshot ~18h BRT) · Corte: fechamento de 21/04/2026

💬 A frase do dia

“Hoje, enfrentamos mais incerteza sobre a direção da Europa do que em qualquer momento desde então.”

— Christine Lagarde, presidente do BCE · Recepção Anual da Associação dos Bancos Alemães · 20/04/2026

Lagarde chamou a isso de “dupla incerteza” — a duração do choque e a transmissão para os preços. No dialeto do BCE, significa que os modelos não calibram mais o cenário e a decisão de juros passa a depender mais de julgamento do que de regra.

📅 O que vem aí

Qui 23/04

PMIs flash de abril — zona euro, Alemanha, França e EUA — primeira leitura de atividade depois do choque energético. Se vier fraco na Europa, BCE acelera decisão. Alto impacto

Qui 23/04

Petrobras (PETR4) ex-dividendo — ações passam a negociar sem direito ao JCP de R$ 0,6525/ação (duas parcelas de R$ 0,3263, em 20/05 e 22/06), referente ao exercício de 2025. A remuneração total de R$ 41,2 bi aprovada em 16/04 inclui proventos já antecipados. Médio impacto

Qua 29/04

Decisão do Copom + FOMC — Galípolo e Powell decidem no mesmo dia. Consenso virou meio a meio entre corte de 0,25pp e manutenção; pausa direta deixou de ser cauda. Alto impacto

📚 Vale ler

Brent oil nears $100 as doubts grow about Iran peace talks with ceasefire set to end soon — CNBC

Cerca de 20 mil tripulantes e 2 mil navios seguem presos no Golfo Pérsico segundo a IMO. Bloqueio naval americano continua; Teerã mantém ameaça de retaliação.

CNBC · Oil & Energy · 21/04/2026

BCE: Lagarde reforça empenho por estabilidade de preços em meio à guerra — CNN Brasil

Discurso de 20/04 na Associação de Bancos Alemães. BCE admite “incerteza inédita” e “risco de prêmio salarial” com o choque energético — e diz que precisa de mais dados antes de decidir.

CNN Brasil · Macroeconomia · 20/04/2026

Focus: mercado aumenta projeção de Selic de 12,5% para 13% em 2026 — Exame

Boletim de 20/04 reprecifica metade do ciclo de corte. IPCA também sobe para 4,80% — 30 bps acima do teto da meta.

Exame · Economia · 20/04/2026

Trump estende cessar-fogo com o Irã indefinidamente até o fim das negociações — CBS News

Prorrogação unilateral anunciada horas antes do prazo vencer, a pedido do Paquistão. Teerã não se comprometeu com novas conversas; visita de Vance a Islamabad foi adiada. Bloqueio naval continua.

CBS News · Mundo · 21/04/2026

☕ Boa quarta

O feriado terminou.

O cessar-fogo virou prorrogação.

O petróleo passou dos US$ 99.

A Europa já fez contas.

O Copom volta para a mesa com mais uma linha.

O Brasil reabre o pregão.

A conta chega pontualmente. ☕

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