Daily Brew
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Segunda-feira · 13 de abril de 2026
☕ Bom dia

O fim de semana prometia paz. Deu 21 horas de reunião em Islamabad, sem acordo, com as duas delegações saindo pela porta dos fundos culpando a outra. O Brent amanheceu a semana com apetite. O Ibovespa vai ter que decidir o que fazer com isso.

Enquanto isso, o Datafolha publicou: reprovação de Lula em 51%, positiva em 29%. A seis meses do primeiro turno, o governo acelerou o pacote de bondades — subsídio de combustível, Desenrola 2, reversão de tarifas. O remédio é doce. A conta, não.

Hoje não tem mercado local para olhar — foi feriado nos EUA. Mas tem bastante coisa para pensar. ☕

Geopolítica · O acordo que durou uma semana
Islamabad · JD Vance · Irã · Ormuz · Brent · Bomba nuclear
21 horas de reunião. Nenhum acordo. Trump ameaça de novo. O Brent agradece

As negociações de paz entre EUA e Irã em Islamabad terminaram domingo de manhã sem acordo, depois de 21 horas de conversas. O vice-presidente JD Vance fez o comunicado: o Irã se recusou a assumir compromisso de não buscar arma nuclear. "Esse é o objetivo central do presidente", disse Vance, com o ar de quem acabou de perder uma reunião de condomínio.

Trump não demorou. Postou que o Irã "nunca terá uma arma nuclear", que as forças americanas estão "prontas para a ação" e que o país persa deveria reabrir Ormuz "o mais rápido possível". Era o primeiro domingo sem ultimato desde fevereiro — durou pouco. O cessar-fogo de duas semanas segue tecnicamente de pé, mas Trump ameaçou bloquear o Estreito e impor tarifas de 50% à China se Pequim ajudar militarmente o Irã.

O Brent fechou a semana em US$ 95,20. Com Islamabad sem acordo e Ormuz ainda restrito, a pressão volta. O cessar-fogo tem prazo até 21 de abril. Se não houver avanço, o petróleo que caiu 13% na semana passada pode recuperar parte do terreno — e o Copom vai ter que sentar em cima das mãos novamente.

🎓 O que a teoria diz
Negociação de um passo: quando duas partes entram numa negociação com exigências mutuamente excludentes — EUA querem "enriquecimento zero", Irã quer direito ao programa nuclear — a primeira rodada raramente resolve. É um jogo de sinalização: cada lado mostra até onde vai. A boa notícia é que sentaram à mesa pela primeira vez em 47 anos. A má é que o relógio do cessar-fogo está correndo.
E daí?
O cessar-fogo vence em 21/abr. Se não houver nova rodada de negociação até lá, Trump vai ter que escolher entre blefar de novo — perdendo ainda mais credibilidade — ou agir. O mercado vai precificar essa dúvida toda semana. Coloque o Brent na sua lista de acompanhamento diário. Você vai precisar.
Geopolítica · O pedágio mais caro do mundo
Ormuz · Irã · Cripto · Israel · Líbano · Hezbollah
Irã quer cobrar pedágio em cripto em Ormuz. A inovação financeira chegou à guerra

O Irã está limitando Ormuz a 15 navios por dia — e, segundo o Financial Times, pretende cobrar o pedágio em criptomoedas. A lógica é simples: cripto não passa por SWIFT, não sofre sanções e não tem banco central que congele a conta. O Irã inventou o DeFi das guerras.

No Líbano, Netanyahu propôs "negociações diretas". O Hezbollah recusou. O governo libanês disse que não conversa "sob fogo". Israel continuou os ataques. As bolsas europeias caíram com "cautela sobre o cessar-fogo" — que é a forma elegante de dizer que ninguém está convencido de que isso vai durar.

O FMI avisou: a guerra deve gerar demanda de US$ 20–50 bilhões em apoio financeiro ao Fundo. O choque já cortou 13% do fluxo diário de petróleo e 20% do GNL mundial. A chefe do FMI chamou de "teste à economia global" — com a delicadeza de quem sabe que o teste ainda não acabou.

🎓 O que a teoria diz
Sanções e inovação financeira: países sob sanções severas historicamente desenvolvem mecanismos alternativos de pagamento. O Irã usando cripto não é uma novidade — é a aceleração de uma tendência. O problema: cripto em transações de petróleo cria rastreabilidade difícil para os EUA e pressiona o argumento de que sanções funcionam.
E daí?
Enquanto Ormuz tiver 15 navios/dia, o Brent não cai muito abaixo de US$ 95. Se a Otan garantir passagem livre — o que Trump quer em "dias" — o petróleo despenca mais. Para o Brasil, cada US$ 10 de queda no Brent alivia cerca de 0,2pp no IPCA. A matemática é simples. A geopolítica não.
Brasil · O governo que descobriu o Natal em abril
Lula · Datafolha · Pacote · Eleições · Selic · Risco moral
Reprovação em 51%. Seis meses para o primeiro turno. O pacote chegou

O Datafolha de abril confirmou o que as pesquisas anteriores já sinalizavam: 51% desaprovam o trabalho de Lula, 40% avaliam o governo como ruim ou péssimo, e o presidente aparece tecnicamente empatado com Flávio Bolsonaro num eventual segundo turno — 46% a 45%, dentro da margem de erro. Primeira vez que um Bolsonaro aparece à frente de Lula numa simulação de segundo turno. A família tem talentos variados.

A resposta do Palácio do Planalto foi rápida e previsível: pacote de bondades. Subsídio de combustível, Desenrola 2 para renegociação de dívidas, reversão da taxa das blusinhas. O diagnóstico interno é que a alta dos combustíveis — inflada pela guerra no Irã — está derrubando a aprovação. A solução é segurar o preço na bomba e torcer para que Ormuz abra antes das eleições. Plano sólido.

O problema é estrutural: 80,2% das famílias brasileiras estão endividadas — recorde histórico da série da CNC. A inadimplência voltou a subir. A percepção de piora na economia atingiu 48% segundo a Genial/Quaest. Subsídio não resolve endividamento. Desenrola não resolve Selic a 13,25%. E a conta do pacote chega em algum momento. Provavelmente depois de outubro.

🎓 O que a teoria diz
Risco moral e seleção adversa em ano eleitoral: pacotes de renegociação com desconto de até 80% criam dois problemas clássicos. Risco moral: quem pagou em dia se sente lesado e perde o incentivo de pagar no futuro. Seleção adversa: quem tem capacidade de pagar prefere esperar o próximo Desenrola. O mercado de crédito fica mais caro para todos — exatamente o oposto do que o governo precisa antes de uma eleição.
E daí?
A Selic alta não é culpa do Lula — é consequência do risco-país elevado e do arcabouço fiscal que o mercado não acredita totalmente. A taxa de crédito cara é culpa da Selic, do spread bancário e agora do risco moral que o pacote vai criar. Gerar mais incerteza fiscal num ano eleitoral para ganhar dois pontos nas pesquisas é a definição de problema que piora a solução. O Copom vê tudo isso. E não pode blefar.
Eleições · A conta que vai chegar em outubro
Flávio Bolsonaro · Caiado · Zema · Direita · Copom · Arcabouço
A direita tem mais votos. O governo tem mais pacotes. Nenhum dos dois tem margem

Somando as intenções de voto de Flávio Bolsonaro, Caiado e Zema, a direita e o centro-direita já concentram mais de 45% das intenções de voto no primeiro turno. Lula aparece com 38%. Não é eleição ainda, mas o sinal é claro: o eleitorado que migrou do PT nos últimos anos não voltou — e parte dele foi parar em candidaturas que sequer eram conhecidas há seis meses.

O problema do pacote de benesses não é só econômico — é político. Cada subsídio anunciado confirma a narrativa da oposição: o governo está comprando votos. Cada Desenrola lançado seis meses antes da eleição virou meme antes de virar política pública. A comunicação do governo precisa transformar benefício em direito antes que a oposição transforme em escândalo. Isso é difícil de fazer quando o timing é tão óbvio.

O cenário macro complica tudo: se Ormuz não reabrir, o Brent sobe, o IPCA sobe, o Copom segura o corte e o pacote resolve menos do que o governo espera. Se Ormuz reabrir, o Brent cai, a inflação cede, o Copom corta — e o governo vai ter que explicar por que lançou um pacote de emergência que não era tão emergencial assim. Não tem saída boa.

🎓 O que a teoria diz
Ciclo político do crédito: governos em ano eleitoral tendem a expandir gastos e crédito subsidiado, gerando crescimento de curto prazo e inflação de médio prazo. O eleitor percebe o benefício agora e a inflação depois — geralmente após a eleição. O problema é que o mercado precifica esse risco antes, pressionando câmbio e juros longos já no período pré-eleitoral.
E daí?
Fique de olho nos DIs longos e no câmbio nas próximas semanas. Se o mercado interpretar o pacote como sinal de afrouxamento fiscal, o dólar pode voltar para R$ 5,20 e o Copom perde o argumento para cortar. Se o Brent ajudar — com Ormuz abrindo — os números podem melhorar independentemente do pacote. Geopolítica virou variável eleitoral.
📊 Gráfico do dia
Brent — dos ultimatos de Trump ao cessar-fogo (US$/barril)
Fonte: Yahoo Finance · ICE · elaboração Daily Brew · 13/04/2026
Em 23 de março o Brent caiu 10,9% com o 1º prazo sem efeito. Em 1º de abril despencou 14,5% com o acordo falso. Em 7 de abril — "uma civilização morrerá esta noite" — variou −0,46%. Nada. Em 8 de abril, com o cessar-fogo, caiu 13,3%. O gráfico desta semana pode parecer diferente. Islamabad não fechou.
📌 O número do dia
80%
Desconto máximo previsto no pacote de renegociação de dívidas
O governo estuda um Desenrola com desconto de até 80% para dívidas de famílias endividadas — o maior da série. Para quem não pagou, ótima notícia. Para quem pagou em dia, uma ponderação: da próxima vez, talvez valha esperar. É assim que o risco moral funciona — e é assim que o crédito fica mais caro para todo mundo.
📈 Mercados — fechamento sexta 10/04
Mercados fechados hoje nos EUA (feriado). Referência: último fechamento disponível.
Ativo Fechamento Dia Semana
Ibovespa 197.324 pts ↑ +1,12% ↑ +4,93%
Dólar (BRL) R$ 5,011 ↓ −1,03% ↓ −2,90%
Brent Jun 26 US$ 95,20 ↓ −0,75% ↓ −12,88%
S&P 500 6.816,89 ↓ −0,11% ↑ +3,03%
Ouro Jun 26 US$ 4.787,40 ↓ −0,64%
Bitcoin US$ 72.981 ↑ +1,43% ↑ +4,22%
Referência: fechamento sexta 10/04. Mercados americanos fechados hoje (feriado). Acompanhe o Brent — Islamabad não fechou acordo. Fonte: Yahoo Finance · B3 · ICE · 10/04/2026
💬 A frase do dia
"Já estamos nisso há 21 horas e tivemos várias discussões substanciais com os iranianos. Essa é a boa notícia. A má notícia é que não conseguimos avançar."
— JD Vance, vice-presidente dos EUA · Islamabad, 12/04/2026
21 horas de reunião para dizer que não houve acordo. É o tipo de frase que resume bem a diplomacia moderna — e explica por que o Brent vai abrir a semana nervoso.
📅 O que vem aí
Hoje Mercados fechados nos EUA — Feriado americano. B3 abre normalmente. O Brent vai dar o tom do dia. ATENÇÃO
Semana Cessar-fogo vence em 21/abr — Sem nova rodada confirmada. O Irã disse que "a diplomacia não termina". Trump disse que está "pronto para agir". Alguém está errado. ALTO IMPACTO
16/abr AGO da Petrobras — Guilherme Mello entra no conselho. Com Brent em queda e guerra ainda viva, o debate sobre política de preços vai esquentar. MÉDIO IMPACTO
Semana Detalhes do pacote de benesses — Formato final do Desenrola 2 ainda não anunciado. Mercado vai calibrar o impacto fiscal. DIs longos e câmbio vão reagir. ALTO IMPACTO
Abril Copom — Corta ou não corta? Com IPCA em 4,14%, Islamabad sem acordo e pacote fiscal na mesa, o BC vai ter que ser muito convincente em qualquer direção. ALTO IMPACTO
📚 Vale ler
Negociações EUA-Irã fracassam após 21 horas em Islamabad — CNN Brasil
JD Vance confirma: sem compromisso iraniano sobre o programa nuclear, não há acordo. O cessar-fogo de duas semanas ainda está de pé — por enquanto.
CNN Brasil · 12/04/2026
Datafolha: reprovação de Lula sobe para 51% a menos de 6 meses do primeiro turno — ND Mais
Aprovação em 45%, reprovação em 51%. Avaliação positiva do governo em 29%. E Flávio Bolsonaro pela primeira vez à frente no segundo turno, dentro da margem de erro.
ND Mais · 12/04/2026
Da segurança às dívidas: as pendências de Lula a seis meses da eleição — Metrópoles
80,2% das famílias endividadas, inadimplência voltando a subir, percepção de piora na economia em 48%. O pacote de bondades é a aposta. A conta chega depois de outubro.
Metrópoles · 10/04/2026
☕ Boa semana
Islamabad não fechou.
O Brent abriu a semana com saudade do conflito.
Lula tem 51% de reprovação e um pacote de bondades.
O Copom tem um problema que nenhum dos dois resolve.

Mas os mercados americanos estão fechados hoje.
Então pelo menos isso. ☕
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