Daily Brew — Sexta-feira, 13 de março de 2026
Daily Brew
Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.
Sexta-feira · 13 de março de 2026
☕ Bom dia

A quinta-feira foi daquelas que o mercado financeiro prefere esquecer rápido — mas que o bolso demora mais para superar.

O Ibovespa derreteu 2,55% ontem e o dólar disparou para R$ 5,24. O padrão já está ficando familiar: conflito no Oriente Médio escala, commodity sobe, mercados caem, e os comunicados oficiais tentam dar a impressão de que a situação está sob controle.

O petróleo fechou a US$ 100,46 na quinta-feira, alta de 6,65% no dia. Diante disso, o governo brasileiro anunciou que vai zerar o PIS/Cofins sobre o diesel — mas vai custar caro: R$ 30 bilhões. Tem café? Você vai precisar.

O Copom e o pior timing do ano
Política Monetária · Brasil
O IPCA de fevereiro veio alto — e o BC decide os juros em quatro dias

O número chegou às 9h de ontem: IPCA de fevereiro em 0,70%, acima dos 0,64% que o mercado esperava. A educação puxou, como todo começo de ano. Mas o que preocupa não é o componente sazonal — é a composição por baixo: serviços ainda pressionados, alimentação fora do domicílio sem trégua, e núcleos de inflação que não cedem na velocidade que o Copom gostaria.

O problema é que esse dado ainda não viu o petróleo caro. O choque real — no diesel, no frete, na energia — aparece no IPCA de março e de abril. O BC sabe disso. O mercado sabe disso. E os dois sabem que o Copom vai se reunir antes de ver esse número.

A decisão de terça ficou mais difícil. Antes do IPCA, o mercado precificava corte de 50 pontos-base. Agora, a aposta majoritária migrou para 25 bps — com uma taxa terminal de 14,75%. Cortar mais agressivamente com inflação surpreendendo para cima e petróleo em três dígitos é arriscado. Não cortar seria uma guinada hawkish que o governo certamente não aplaudiria. O novo imposto de exportação sobre petróleo que financia o pacote do diesel é a primeira vez que o Brasil taxa exportações de commodity dessa forma em muitos anos — e manda um sinal ruim para o investidor estrangeiro de olho no setor de energia brasileiro.

🎓 O que a teoria diz
Inércia inflacionária: quando serviços e núcleos de inflação resistem mesmo com juros altos, o BC se depara com a tendência dos preços de hoje contaminarem os preços de amanhã via contratos, salários e expectativas.
E daí?
Para o consumidor: a desinflação está mais lenta do que parecia em janeiro, e o crédito não fica mais barato tão cedo. Para o governo: cada reunião do Copom que não corta significa bilhões a mais no serviço da dívida pública — numa equação fiscal que já estava apertada antes da guerra.
R$ 30 bilhões para segurar o posto
Fiscal · Energia · Brasil
O governo subsidiou o diesel com dinheiro que não tem, garantido por petróleo que pode baixar

A lógica do pacote anunciado ontem pelo governo é simples de explicar e difícil de defender: o Brasil vai deixar de arrecadar R$ 20 bilhões em PIS/Cofins sobre o diesel e gastar mais R$ 10 bilhões em subvenção direta a produtores e importadores — num total de R$ 30 bilhões — para reduzir o preço do combustível em R$ 0,64 por litro nas bombas. A conta, segundo Haddad, será paga por um novo imposto de exportação de 12% sobre o petróleo bruto, que o governo estima render exatamente os mesmos R$ 30 bilhões.

O problema é que essa matemática só fecha se o petróleo continuar caro. A arrecadação do imposto de exportação depende do volume exportado multiplicado pelo preço do barril — duas variáveis que o próprio conflito que motivou o pacote torna imprevisíveis. O economista Cláudio Frischtak, ex-Banco Mundial, reconhece que os números podem se aproximar em cenário de Brent elevado. Mas, como ele mesmo pontuou, o cálculo envolve grande margem de incerteza.

Ou seja: se a guerra arrefecer e o petróleo recuar para US$ 70, a compensação some — e o buraco fiscal fica.

🎓 O que a teoria diz
Controle de preços via subsídio: quando o Estado intervém para segurar o preço de um insumo essencial como o diesel, resolve o sintoma no curto prazo mas cria distorções no médio. Produtores recebem sinal de preço errado, o ajuste de oferta e demanda não acontece, e o custo recai sobre o contribuinte — não sobre quem consome mais combustível. A literatura econômica é farta em exemplos de subsídios "temporários" que viram permanentes à medida que o calendário eleitoral avança.
E daí?
Para o consumidor: o diesel pode ficar R$ 0,64 mais barato na bomba — se o repasse realmente acontecer, o que a própria MP condiciona à "comprovação". Para o contribuinte: todos os pagadores de imposto do Brasil vão arcar com os R$ 30 bilhões, independentemente de dirigirem ou não. Para o mercado: o novo imposto de exportação derrubou as ações da Petrobras ontem — mesmo num dia em que o barril subiu 6,65%. Esse é o tipo de contradição que analistas de risco-país anotam com caneta vermelha.
📌 O número do dia
2,55%
Queda do Ibovespa ontem (12/03) · B3
O índice fechou aos 179.284 pontos — o pior dia do mês — devolvendo boa parte dos ganhos acumulados no trimestre. Petróleo caro, IPCA acima do esperado, expectativa de juros altos por mais tempo e Wall Street no vermelho empurraram os investidores para o lado da cautela.
📊 O gráfico do dia
Preço do Petróleo Brent: de US$ 70 a US$ 100 em poucos dias
Fonte: Refinitiv · Março de 2026
O petróleo saiu de US$ 68,80 em 10 de fevereiro e fechou em US$ 100,46 ontem (12/03), após atingir US$ 98,99 no pico de 9 de março. Recuou levemente com as declarações de Trump sobre o fim iminente da guerra, mas voltou a superar a marca dos US$ 100. O Estreito de Ormuz — por onde passa 20% do petróleo mundial — segue no centro do tabuleiro geopolítico. Enquanto ele não reabrir com segurança, o preço do barril vai continuar ditando o humor dos mercados globais.
📈 Mercados — fechamento de quinta-feira (12/03)
Ativo Fechamento Variação Máx / Mín do dia
Ibovespa 179.284 pts ▼ -2,55% 183.991 / 178.494
Dólar (BRL) R$ 5,24 ▲ +1,67% R$ 5,26 / R$ 5,16
Petróleo Brent US$ 100,46 ▲ +6,65% US$ 100,46 / US$ 91
S&P 500 6.673 pts ▼ -1,52% 6.727 / 6.650
Dow Jones 42.454 pts ▼ -1,56% 43.125 / 42.340
Nasdaq 20.963 pts ▼ -1,78% 21.340 / 20.880
Bitcoin US$ 82.400 ▼ -2,1% US$ 84,2k / US$ 81,5k
* Sessão marcada por aversão global ao risco: Brent voltou a pressionar US$ 100 com novos ataques no Golfo. No Brasil, o IPCA de fevereiro (0,70%) veio acima do esperado e o dólar devolveu a estabilidade da véspera. Wall Street fechou no vermelho em todas as bolsas, com Nasdaq liderando as perdas.
💬 A frase
"O Estreito de Ormuz deve permanecer fechado como ferramenta para pressionar o inimigo."
— Mojtaba Khamenei · Novo líder supremo do Irã, nomeado em 9 de março · 12 de março de 2026
Traduzindo do geopolítico para o português do mercado: o petróleo a US$ 100 não é um acidente — é política. E enquanto for política, os modelos de inflação precisam incorporar um fator que não aparece em nenhum relatório Focus: a disposição de líderes de usar energia como arma.
📅 Agenda
Hoje (13/03) Banco Central da Austrália — decisão de juros — segunda economia do Indo-Pacífico sobe juros em contexto de inflação ligada ao petróleo. MÉDIO IMPACTO
17/03 (seg) PIB do Japão (4T25) — dado relevante para avaliar o impacto do choque de Ormuz nas cadeias de produção asiáticas. MÉDIO IMPACTO
18/03 (ter) Reunião do Copom — decisão sobre a Selic — o BC brasileiro decide os juros com o IPCA acima do esperado e o petróleo pressionando. A aposta majoritária migrou para corte de apenas 25 bps. ALTO IMPACTO
📚 Vale ler hoje
PEC da escala 6×1: relator prevê votação na CCJ da Câmara em abril
O cronograma foi adiado e o debate tende a se complicar com a disputa entre governo e oposição sobre o texto final. Tudo o que você precisa saber sobre onde a proposta está agora — e o que pode mudar.
Metrópoles
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Geraldo Alckmin deixará o ministério no dia 4 de abril para se desincompatibilizar e disputar as eleições de 2026. A reorganização do Esplanada já começou — e o Mdic, ministério estratégico para o setor industrial, é o primeiro a trocar de titular.
CNN Brasil
Bolsas despencam e dólar supera R$ 5,24 com disparada do petróleo e IPCA acima do previsto
O Valor Econômico acompanhou ao vivo a sessão de ontem — a mais pesada da semana. Um bom resumo do dia e contexto sobre os movimentos simultâneos de câmbio, renda variável e commodities.
Valor Econômico
🎯 Boa sexta-feira
A semana foi pesada: petróleo perto de US$ 100, Ibovespa de volta aos 179 mil, dólar em R$ 5,24 e a escala 6×1 empurrada para mais um mês.

Na terça-feira, o Copom decide os juros com o pior timing possível — e qualquer que seja a escolha, alguém vai reclamar.

O café de hoje ainda está quente. Aproveita.
Daily Brew
Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.

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