Daily Brew

Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.

QUINTA-FEIRA · 07 DE MAIO DE 2026

☕ Bom dia

Ontem a Câmara aprovou o marco de minerais críticos — horas antes de Lula encontrar Trump em Washington. O Brasil quer trocar “exportar pedra com nome chique” por “vender acesso à cadeia”. Uma coisa é ter a mina; outra é capturar o refino, o óxido separado e o ímã.

Lá fora, o Brent capitulou: caiu quase 8% para US$ 101 com sinal de avanço EUA-Irã. Wall Street subiu em bloco — S&P e Nasdaq em recorde, Dow voltou perto dos 50 mil. Ouro também subiu: quando safe haven anda no mesmo carro do risco, o medo não é a bolsa. É a moeda.

Hoje Lula-Trump em Washington. Amanhã payroll. Terça IPCA e CPI. Café coado, mapa do mundo na mesa. ☕

Brasil · Pedra na mesa

PL 2780/24 · Câmara · Lula-Trump · USA Rare Earth · Serra Verde · ANM · China

A Câmara aprovou o marco de minerais críticos na véspera de Lula encontrar Trump. O timing foi apresentado como sinal de posição nacional.

O PL 2780/24 cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. Ainda vai para o Senado, mas o sinal já foi dado. O texto traz instrumentos para estimular processamento, transformação e industrialização local — o Brasil cansou do roteiro “exporta pedra com nome chique, importa tecnologia cara”. Vem junto um fundo garantidor de R$ 5 bilhões, com R$ 2 bilhões aportados pela União, além de instrumentos de incentivo ao beneficiamento e transformação local.

A pressa tem nome e sobrenome. USA Rare Earth comprou a Serra Verde, em Goiás, por US$ 2,8 bilhões — controle de uma mina rica em terras raras pesadas, com financiamento americano e contrato de offtake de 15 anos. Em paralelo, a China responde por cerca de 90% do processamento global de terras raras. As reservas brasileiras estão entre as maiores do mundo (referência USGS de 21 milhões de toneladas; estimativa recente da ANM revisou para 11,4 milhões — segundo lugar mundial nas duas contas), e o mapeamento geológico do território segue incompleto. A aprovação às vésperas de Lula-Trump foi apresentada politicamente como sinal de que o Brasil chega à mesa com posição nacional, não com página em branco.

O ponto sensível era o controle sobre fusões e aquisições de mineradoras. Saiu a versão dura de “anuência prévia” ampla do Executivo; entrou uma triagem pelo conselho e pela ANM, ainda dependente de regulamentação. Não é estatização — e também não é mercado livre “passa o Pix e leva a mina”. É moldura para negociar com americanos sem parecer entrega de soberania, e sem afastar o capital que os próprios projetos exigem.

🎓 O que a teoria diz

Renda de cadeia: em minerais críticos, a renda não fica necessariamente com quem tem a jazida. Ela fica onde está o gargalo — separação química, refino, tecnologia, escala industrial, financiamento e acesso ao comprador final. O Brasil tem a pedra; a China tem a cadeia. O PL tenta mover o país de “fornecedor de concentrado” para “participante do midstream”. A diferença parece técnica, mas é onde mora o dinheiro.

E daí?

Setor mineral brasileiro: projetos de terras raras ganham clareza regulatória — janela de re-rating possível para empresas listadas e privadas no segmento, se a regulamentação reduzir incerteza sem travar M&A e capital externo. USA Rare Earth (USAR): a compra da Serra Verde virou benchmark de valuation para ativos brasileiros de terras raras — mas o preço de US$ 2,8 bi reflete o pacote estratégico (Pela Ema + offtake de 15 anos + financiamento + posição na cadeia ocidental), não só a mina. Reunião Lula-Trump: a pauta de minerais críticos entra com o Brasil tendo já um quadro nacional — menor risco de virar concessão assimétrica. Risco vivo: se a regulamentação descer pesada (triagem genérica, veto político, insegurança jurídica), capital foge e o Brasil vira mais um caso de jabuticaba regulatória.

Commodities · Capitulação

Brent · Ormuz · EUA-Irã · Petrobras · S&P 500

O barril desistiu de Ormuz num único pregão. Brent caiu quase 8%, fechou em US$ 101,27 (settlement Reuters) e tocou US$ 96,75 na mínima.

Por trinta dias o Brent oscilou no compasso de manchete: ataque na Ahvaz, barril sobe; cessar-fogo verbal na Casa Branca, barril cede. Ontem a sala virou a chave. Brent abriu próximo de US$ 110, vendeu o dia inteiro e fechou em US$ 101,27 (settlement Reuters, −7,83%). Na mínima, o barril tocou US$ 96,75 — o primeiro nove na frente desde março.

Três coisas pesaram juntas. A principal: aumentou a percepção de que EUA e Irã poderiam caminhar para um acordo inicial, reduzindo o risco percebido em Ormuz. A segunda: o mercado já estava carregado de proteção depois de semanas de manchete — quem tinha comprado em US$ 110 desmontou em US$ 105. A terceira: os dados de estoques americanos não foram suficientes para sustentar o prêmio — o crude caiu 2,3 milhões de barris, contra expectativa de queda maior, de 3,3 milhões, e a leitura de demanda doméstica veio fraca. Quando a manchete diplomática virou, a tese inteira virou junto.

A onda de alívio se espalhou rápido. Ibovespa fechou em 187.690, S&P 500 fez novo recorde, ouro subiu 2,77% — sinal de que o ativo de referência do pregão era o dólar mais fraco, não a fuga de risco. A Petrobras, que tinha sido a coautora involuntária da escalada, viu a defasagem em relação à paridade derreter da noite para o dia — com efeito secundário: a pressão política por reajuste, que ninguém queria vocalizar, desapareceu da pauta.

🎓 O que a teoria diz

Cascata informacional (Bikhchandani-Hirshleifer-Welch, 1992): em mercados onde cada agente decide observando o que os outros estão fazendo, posições empilham mesmo quando a informação privada de cada um é fraca. A sequência se sustenta enquanto a manchete confirma a posição — ataque, prazo, risco. Quando a manchete vira (“acordo possível”, “risco em Ormuz menor”), o trade deixa de ser seguro e vira fila de saída. Commodities não desmontam tese com educação britânica; elas derrubam a mesa.

E daí?

Petrobras: defasagem zerou no atacado — tese de risco político de reajuste sai do radar curto. Curva DI: menos petróleo no IPCA prospectivo abre espaço adicional para a desinclinação que começou na terça. Setor aéreo / petroquímica: combustível e insumos mais baratos aliviam custo no curto prazo; para petroquímica, o efeito líquido depende também do preço dos produtos finais e dos spreads. Real: a tendência de 30 dias ainda é de apreciação, mas no fechamento local de quarta o dólar subiu levemente; alívio externo neutralizado por ajuste técnico local. Risco vivo: a cascata que desempilhou ontem pode se reorganizar em uma manhã — um drone, uma manobra naval, uma nota da Casa Branca. A capitulação não é o fim da história, é a pausa.

Mundo · Tudo subindo ao mesmo tempo

S&P 500 · Nasdaq · Dow · Ouro · Dólar · Déficit fiscal

S&P e Nasdaq fizeram recorde, o Dow voltou perto de 50 mil e o ouro saltou 2,77%. Quando o safe haven sobe junto do risco, é sinal de que o ativo de referência é outro: a moeda.

A regra antiga: ouro sobe quando ação cai. Quarta jogou a regra fora. O metal Comex front-month fechou em US$ 4.681,90, alta de 2,77%, no mesmo pregão em que o S&P 500 fechou em 7.365,12 e o Nasdaq em 25.838,94 — ambos novos recordes históricos de fechamento. O Dow voltou a se aproximar dos 50 mil (49.910,59 no fechamento), nível que já havia sido superado em fevereiro. O Dollar Index recuou no ano. Quando a moeda-base se enfraquece, todos os ativos reais sobem ao mesmo tempo — não é contágio de risco, é translação de moeda.

A leitura curta: o ouro deixou de ser apenas hedge contra crise e virou hedge contra moeda. Mesmo em correção em relação ao all-time de janeiro (US$ 5.318,40), o metal segue defensável num cenário em que bancos centrais (compras líquidas de 244 toneladas no 1T26, segundo o World Gold Council) e ETFs (entrada líquida de 62 t no trimestre) reabastecem posições drenadas durante a alta de juros americana de 2023-24.

O pano de fundo macro ajuda a explicar a anomalia. Projeções do CBO apontam déficit fiscal americano em torno de 5,8% do PIB em 2026, com dívida federal em rota dos 120% do PIB ao longo da próxima década; o Fed cortou em 2025, mas o mercado está dividido sobre novos cortes em 2026 — petróleo e inflação seguem complicadores. A combinação gera pressão sobre o dólar e suporte para tudo que é ativo real — o que se traduz em ações americanas em recorde e ouro firme. Não é risco-on clássico; é uma translação de moeda.

🎓 O que a teoria diz

Ouro como hedge contra o numéraire: quando o investidor começa a desconfiar da moeda em que tudo é medido, ativos reais podem subir juntos. Ações sobem porque lucros nominais e múltiplos reagem ao dólar mais fraco; ouro sobe porque não tem risco de crédito soberano e tem oferta inelástica. Não é que o ouro deixou de ser seguro — é que, nesse pregão, o risco protegido não era “queda da bolsa”; era perda de poder de compra do dólar.

E daí?

Carteira: o pregão lembra que ouro nem sempre protege contra queda de bolsa — às vezes protege contra moeda. Para quem usa ouro como hedge dentro da carteira, a premissa de descorrelação com ações ficou menos limpa naquele dia. Dólar: Dollar Index segue defensivo no ano; não confundir com USD/BRL local, que no dia até subiu de leve. NTN-B: juro real brasileiro alto continua atraente para investidor global atraído por carry — conexão com a tese do ouro é indireta (mesma família de hedge contra perda de poder de compra), não automática. Risco vivo: uma reabertura do choque de petróleo ou um payroll quente reanima o dólar e desfaz a coreografia — ouro virou correlacionado com ação, não blindado dela.

📈 Gráfico do dia

Brent · 30 dias até a capitulação

Trinta dias no compasso de Ormuz. O barril foi a USD 118 em 29/04 — e capitulou para USD 101 nesta quarta. Queda de quase 8% num único pregão.

Fonte: Yahoo Finance (BZ=F) · settlement Reuters no fechamento · Elaboração: Daily Brew

A linha mostra o fechamento diário do Brent (BZ=F, Yahoo Finance) nos últimos 30 pregões. A trajetória conta a história do prêmio geopolítico: início de abril em torno de USD 109, queda forte para USD 90 em 17/04 (cessar-fogo verbal de Trump), recuperação gradual até o pico de USD 118 em 29/04 (escalada de manchetes em Ormuz), e capitulação no último ponto — o settlement Reuters de quarta saiu em USD 101,27, queda de 7,83% num único pregão, com mínima intradia em USD 96,75. Driver da queda: percepção de avanço em acordo EUA-Irã reduziu o prêmio de Ormuz; estoques americanos vieram com drawdown abaixo do esperado, coadjuvante.

📌 O número do dia

−7,83%

QUEDA DO BRENT (SETTLEMENT REUTERS) · QUARTA 06/05

Saiu de US$ 109,87 e fechou em US$ 101,27, depois de tocar US$ 96,75 na mínima. A queda mais forte num único pregão desde o auge do choque de Ormuz desfez de uma vez boa parte do prêmio geopolítico acumulado nas duas semanas anteriores. Quem operava o roteiro do barril teve que reescrever o esboço no meio do pregão.

📈 Mercados — Fechamento de quarta 06/05

Ativo Fechamento Dia Mín / Máx
Ibovespa 187.690,86 pts ↑ +0,50% 186.762 / 188.674
Dólar (USD/BRL spot local) R$ 4,9207 ↑ +0,18% 4,8880 / 4,9352
Dólar PTAX venda (BCB) R$ 4,9274 ↑ +0,06% referência 06/05
Brent settlement ⭐ US$ 101,27 ↓ −7,83% 96,75 / 110,45
Ouro Comex (front-month) ⭐ US$ 4.681,90 ↑ +2,77%
S&P 500 ⭐ 7.365,12 pts ↑ +1,46% 7.294 / 7.367
Dow Jones 49.910,59 pts ↑ +1,24% 49.442 / 50.008
Nasdaq Composite ⭐ 25.838,94 pts ↑ +2,03% 25.464 / 25.840
Bitcoin (referência 24h) US$ 81.444,60 ↑ +0,66% 80.799 / 82.791

⭐ Brent: queda de quase 8% num único pregão (settlement Reuters −7,83%, mínima intradia US$ 96,75) — primeiro nove na frente desde março. Driver principal: avanço em sinalização de acordo EUA-Irã reduziu o prêmio de Ormuz; estoques americanos vieram com drawdown abaixo do esperado, coadjuvante.

⭐ Ouro Comex: subiu 2,77% no front-month, no mesmo pregão em que ações renovaram máximas. Sinal de que o ativo de referência não é o medo de bolsa — é o dólar mais fraco.

⭐ S&P 500 / Nasdaq: novos recordes de fechamento (S&P 7.365,12; Nasdaq 25.838,94 pelo dado AP). Alívio do petróleo + chips/IA + earnings sustentando.

Fonte: B3 (Ibovespa) · AP (S&P, Dow, Nasdaq) · Reuters (Brent settlement) · WSJ/DJ Market Data (Ouro Comex front-month) · BCB (PTAX venda 06/05) · Money Times/R7 (Dólar à vista local) · Investing (Bitcoin referência 24h) · Elaboração: Daily Brew · 06/05/2026.

💬 A frase do dia

O prêmio geopolítico não cai — ele evapora. Ontem foi o dia em que o calendário venceu o medo.

— Síntese de mesa · Daily Brew · 06/05/2026

Quem comprou proteção em US$ 110 desmontou em US$ 105. Quem aguentou café sem manchete teve razão pela primeira vez em duas semanas.

📅 O que acompanhar hoje

Hoje 07/05

Reunião Lula-Trump (Washington) — primeira cúpula bilateral do mandato Trump 2.0 com o Brasil. Pauta esperada inclui comércio/tarifas, segurança/crime organizado e minerais críticos. Câmara entregou na véspera o PL 2780/24 — o Brasil chega com posição, não com página em branco. Alto impacto

Hoje 07/05

Pedidos de seguro-desemprego EUA (semana, 8h30 ET) — termômetro semanal antes do payroll de sexta. Em ambiente de Fed sem reunião em maio (próximo FOMC só em 16-17/06), cada dado parcial pesa mais na curva. Médio impacto

Sex 08/05

Payroll EUA — abril (BLS, 8h30 ET) — primeiro relatório de emprego depois do choque do petróleo. Powell encerra o mandato como chair em 15/05; o termo dele como governor vai até jan/2028. Número forte demais reanima medo de Fed segurando; fraco demais reanima medo de recessão. Alto impacto

Ter 12/05

IPCA cheio de abril (IBGE, 9h) · CPI EUA — abril (BLS, 8h30 ET) — dia duplo de inflação. No Brasil, teste de quanto da pressão vista no IPCA-15 (0,89%) chegou ao consumidor. O IGP-M (+2,73%) ajuda a medir pressão de atacado/contratos, mas não é índice de varejo. Acima de 0,90% reabre prêmio na curva curta; abaixo de 0,80% ajuda o roteiro de corte. No meio, o mercado vai olhar composição — serviços, núcleos e combustíveis. Alto impacto

Próxima semana

PPI EUA (BLS, qua 13/05) · preços import/export (BLS, qui 14/05) — sequência que completa o quadro de inflação americana após o CPI. PPI calibra repasse do petróleo no atacado; preços de import/export medem o pass-through cambial. Médio impacto

Ter 19/05

IBC-Br mar/2026 (BCB, 9h) — calibra a leitura de atividade brasileira pós-PNAD em 6,1%. Em ambiente de Selic em 14,5% e câmbio em apreciação de 30 dias, primeiro sinal sobre se a desaceleração ainda é sustentada. Médio impacto

📚 Vale ler

Câmara aprova marco de minerais críticos às vésperas de Lula-Trump em Washington.

Agência Câmara: PL 2780/24 cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, com fundo garantidor de R$ 5 bilhões (R$ 2 bi aportados pela União), além de instrumentos de incentivo ao beneficiamento e transformação local. Texto vai ao Senado. Aprovação foi apresentada politicamente como sinal de posição nacional às vésperas da reunião presidencial.

AGÊNCIA CÂMARA · Política industrial · 06/05/2026

USA Rare Earth fecha compra da Serra Verde por US$ 2,8 bi e põe Goiás no centro da disputa de terras raras.

Reuters (cobertura ao longo de abr-mai/26): a transação cash-and-stock dá à americana controle da mina Pela Ema, rica em terras raras pesadas (insumo de ímãs para veículos elétricos e defesa), com financiamento americano e contrato de offtake de 15 anos. Cria a referência de preço para o setor brasileiro. China detém cerca de 90% do processamento global.

REUTERS · M&A em commodities

Brent slumps as Iran deal optimism builds and Ormuz risk premium evaporates.

Reuters Energy: cobertura do dia em que o Brent settlement caiu 7,83%, fechou em US$ 101,27 e tocou US$ 96,75 na mínima. Driver principal: percepção de avanço em acordo inicial EUA-Irã reduziu o prêmio de Ormuz; estoques americanos vieram com drawdown de 2,3 mi b (abaixo da expectativa de 3,3 mi) — coadjuvante, não protagonista.

REUTERS · Energia · 06/05/2026

Dow voltou perto de 50 mil enquanto petróleo despenca e rali de IA leva os três benchmarks para cima.

WSJ Markets: Dow voltou a se aproximar dos 50 mil — nível já superado em fevereiro — e fechou em 49.910,59 (a 89 pontos da marca). S&P em 7.365,12, Nasdaq em 25.838,94, ambos em recorde de fechamento. Alívio do petróleo combinado a chips/IA e earnings sustentando.

WSJ · Mercados US · 06/05/2026

☕ Boa quinta

O Brent saiu de US$ 110 e fechou em US$ 101.

S&P e Nasdaq bateram recorde; o Dow voltou perto dos 50 mil.

O dólar fechou em R$ 4,92.

A geopolítica avisou que volta. O calendário decidiu não esperar. ☕

📱 Siga @dailybrewbr no Instagram

Os bastidores da economia antes de todo mundo.

Keep Reading