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Domingo · 22 de março de 2026
☕ Bom dia

É domingo. Você não precisa estar lendo sobre política monetária agora.

Mas se está aqui, é porque a semana levantou perguntas que o noticiário diário não respondeu. O Copom cortou a Selic em 0,25pp — metade do que o mercado esperava há duas semanas. O Tesouro Nacional interveio na curva de juros com uma agressividade que não se via há anos. E o dot plot do Fed ficou dividido ao meio: metade acha que não vem mais nenhum corte em 2026, a outra metade aceita no máximo um.

A edição de hoje é diferente. Menos manchetes, mais fundo. Vamos contar a história de como uma ameaça a um campo de gás no Irã chegou até a decisão do Copom na quarta-feira — e o que isso significa para o seu bolso. Sem pressa. ☕

🔢 O número da semana
0,25pp
O corte que virou metade
Em janeiro, o mercado apostava 95% de chance num corte de 0,50pp em março. Na semana da decisão, a guerra no Estreito de Ormuz já havia mudado o cálculo. O Copom cortou 0,25pp — e o mercado leu como vitória da cautela sobre o otimismo.
Política Monetária · O que aconteceu no mercado brasileiro
📖 História 1 de 2
A curva de juros brasileira abriu — e o Tesouro Nacional precisou intervir com força

No Brasil, a curva de juros que mais importa para o dia a dia é a curva do DI — os contratos futuros de juros negociados na B3 que mostram quanto o mercado espera que a Selic vai estar em 1 ano, 2 anos, 5 anos. Quando investidores ficam pessimistas com a inflação futura, eles exigem juros mais altos para os contratos de longo prazo. A curva "abre": a distância entre os juros de curto e longo prazo aumenta.

Antes do conflito no Oriente Médio, a curva de DI estava precificando exatamente o que o mercado queria ouvir: Selic caindo de 15% para algo perto de 12,5% ao longo de 2026. Isso animava a bolsa, segurava o câmbio e deixava o Copom confortável para cortar 0,50pp em março.

Quando o Brent foi de US$ 80 para US$ 119 em menos de três semanas, a curva de DI se moveu de forma abrupta. Os contratos futuros para 2027 e 2028 dispararam. O mercado passou a precificar menos cortes — e alguns contratos chegaram a embutir a possibilidade de o Copom pausar o ciclo antes mesmo de começar de verdade. Essa abertura da curva levou o dólar junto, porque juros futuros mais altos no Brasil atraem menos capital estrangeiro.

Foi nesse cenário que o Tesouro Nacional entrou com força. A intervenção foi agressiva e com objetivo claro: conter a pressão de alta sobre as taxas futuras de juros antes que o estresse contaminasse o mercado de crédito e os títulos públicos perdessem liquidez de forma desordenada.

Por que o Tesouro Nacional interveio?
Ao entrar no mercado recomprando títulos públicos, o Tesouro Nacional buscou reduzir a pressão de alta sobre as taxas futuras de juros — impactadas diretamente pelo conflito militar no Irã. A lógica é simples: quando o governo recompra seus próprios títulos, aumenta a demanda por esses papéis, o preço sobe e o juro implícito cai. O governo sinalizou também que garantiria liquidez ao mercado — ou seja, que compraria títulos sempre que o estresse ameaçasse travar as negociações. O recado era: "Não vamos deixar a curva explodir por causa de uma guerra que não começamos." A intervenção foi descrita por fontes do mercado como a mais agressiva em anos. (Infomoney, 19/03/2026)

A ação do Tesouro foi bem-sucedida no curto prazo — a curva recuou parcialmente. Mas o alívio é condicional: se o petróleo continuar acima de US$ 110 por mais tempo, a pressão volta. O Tesouro pode comprar tempo. Não pode comprar paz no Estreito de Ormuz.

📊 Gráfico da semana
Curva de Juros Brasileira (DI) — antes e depois dos ataques ao Estreito de Ormuz
Taxas dos contratos DI futuros por vencimento · Jan–Fev vs. Mar 2026 · Fonte: B3 / Bloomberg
A curva de DI estava precificando cortes consecutivos da Selic em janeiro. Com o choque do petróleo, os contratos futuros de longo prazo dispararam — o mercado passou a descontar menos cortes. O Tesouro Nacional interveio recomprando títulos para conter a abertura e garantir liquidez ao mercado.
🎓 O que a teoria diz
Curva de juros como termômetro inflacionário: economistas usam a curva de juros como um dos indicadores mais confiáveis de expectativas futuras. Quando a curva fica muito inclinada — com o longo prazo muito acima do curto —, o mercado está dizendo que espera inflação persistente. Em 2006, a curva ficou invertida (curto prazo acima do longo) e antecipou a recessão de 2008. Desta vez, o movimento é diferente: a curva está inclinando para cima na ponta longa — sinal não de recessão iminente, mas de medo inflacionário de longo prazo provocado pelo choque de energia.
E daí?
A intervenção do Tesouro americano comprou tempo, não solução. Enquanto o petróleo ficar acima de US$ 100 e o Estreito de Ormuz permanecer sob ameaça, a curva vai continuar pressionada. Para o Fed, cada semana com Brent alto reduz o espaço para cortar juros. Para o Copom, cada dólar acima de R$ 5,20 adiciona pressão inflacionária via câmbio. São dois bancos centrais tentando controlar uma inflação que nasceu num estreito de 33 quilômetros que nenhum deles controla.
🔗 A Conexão
O que acontece em Washington não fica em Washington. O Brasil importa cerca de 15% do seu petróleo — mas o Brent determina o preço que a Petrobras cobra na refinaria. Quando o Brent sobe, a Petrobras pode subir o preço na refinaria. Quando sobe na refinaria, a distribuidora repassa. Quando a distribuidora repassa, o posto cobra mais. Quando o posto cobra mais, o caminhoneiro cobra mais frete. Quando o frete sobe, tudo que veio de caminhão fica mais caro. Isso é pass-through cambial e inflação de custos — e ela começa num estreito que a maioria das pessoas nunca vai ver no mapa. Além disso, a abertura da curva de juros americana empurra o dólar para cima no mundo todo, incluindo aqui. Dólar mais caro é mais um canal de inflação para o Brasil — independente de qualquer decisão do Copom.
Economia Brasileira · O que Ormuz significa aqui
📖 História 2 de 2
O Copom cortou metade do que ia cortar — e a guerra tem culpa

Em janeiro de 2026, o mercado tinha um plano bem claro para o Brasil. O Boletim Focus apontava Selic encerrando o ano em 12,5%. O caminho seria uma sequência de cortes de 0,50pp a partir de março, chegando suavemente a uma taxa mais civilizada ao longo do segundo semestre. Esse plano tinha uma premissa implícita: que o mundo cooperaria. O Oriente Médio não estava nos modelos.

Quando os ataques ao Estreito de Ormuz começaram no fim de fevereiro, três coisas aconteceram ao mesmo tempo no Brasil: o Brent disparou, pressionando os custos de combustíveis e fretes; o dólar foi de R$ 5,20 para R$ 5,35 na pior semana; e as expectativas de inflação do Focus para 2026 subiram de 3,9% para 4,3%. O Banco Central tem uma meta de 3% com margem de 1,5 ponto. Quando as expectativas chegam a 4,3%, o BC precisa decidir: segue o plano ou revisa?

O Copom revisou. O corte de 0,25pp foi uma mensagem — não uma derrota. O comunicado foi cirúrgico na cautela: "gradual", "parcimônia", "ambiente externo deteriorado". Galípolo não disse que o ciclo acabou. Disse que vai devagar enquanto a guerra não mostrar para onde vai. E Powell disse o mesmo, do outro lado do Atlântico, com palavras diferentes.

Há aqui um paradoxo que vale entender. O Brasil é, simultaneamente, prejudicado e beneficiado pela crise do petróleo. O lado ruim é óbvio: combustíveis caros, inflação, câmbio pressionado, Copom travado. O lado bom é mais discreto: o Brasil é o 9º maior exportador de petróleo do mundo, e o nosso petróleo não passa pelo Estreito de Ormuz. A Petrobras subiu 7% na semana, e 67% do nosso óleo já vai direto para a Ásia. Mas esse benefício fica nos acionistas. A conta do combustível caro chega para todo mundo — e o Banco Central não pode usar a receita da Petrobras para controlar a inflação. É por isso que o Copom está com dor de cabeça: o problema não nasceu aqui, mas vai ser resolvido aqui.

O que mudou no Focus
Em três semanas, o Boletim Focus revisou para cima a expectativa de inflação para 2026 em quase 0,5 ponto percentual. A projeção de Selic para o final do ano passou de 12,5% para 13,25% — o mercado descontou dois cortes inteiros do plano original. Alguns economistas já colocam manutenção total da Selic em maio na mesa se o Brent continuar acima de US$ 110. Rogério Ceron, secretário do Tesouro, resumiu o dilema: se o petróleo bater US$ 120 por mais de duas semanas, o ciclo de cortes pode ter que parar antes de começar de verdade.
🎓 O que a teoria diz
Dilema de política monetária: economistas chamam de "dilema" a situação em que um banco central enfrenta inflação alta e crescimento baixo ao mesmo tempo. Se sobe juros para controlar a inflação, aprofunda a desaceleração. Se corta para estimular a economia, a inflação piora. Não existe saída boa — só a menos ruim. Nos anos 1970, quando o choque do petróleo árabe criou essa situação nos EUA, o Fed demorou anos para resolver. O Brasil de 2026 tem uma vantagem que os EUA de 1973 não tinham: sabe o que está vindo, porque já viu o filme.
E daí?
Para o investidor: renda fixa com proteção inflacionária (IPCA+) passou a semana sendo a queridinha dos gestores. Prefixado ficou mais arriscado — se o Copom pausar em maio, quem comprou prefixado apostando em cortes vai perder. Para quem tem dívida em CDI: a Selic está descendo, mas mais devagar do que parecia. Para quem tem financiamento imobiliário: o alívio vai chegar, mas chegou 6 meses mais tarde do que o planejado. E para quem não tem nada disso: o diesel mais caro vai chegar na conta do supermercado antes de qualquer decisão do Copom.
💬 A frase da semana
"Tivemos o choque de tarifas, tivemos a pandemia e agora podemos ter um choque de energia de duração que não sabemos. Nos preocupamos com as expectativas de inflação, mas estamos muito comprometidos em fazer o possível para manter a inflação a 2%."
— Jerome Powell, presidente do Fed · coletiva pós-FOMC · 18/03/2026
Powell enumerou três crises em uma frase. Na terceira, admitiu não saber a duração. É raro um banqueiro central ser tão explicitamente incerto — e esse é exatamente o problema. O mercado precifica o futuro. Quando o futuro vira incógnita, o prêmio de risco sobe em toda a curva.
🧠 Economia para não economistas
Por que a guerra num estreito afeta o juro do seu financiamento

Pode parecer distante. Estreito de Ormuz, campo de gás iraniano, curva de DI. O que isso tem a ver com a parcela do seu carro ou do seu apartamento?

A resposta é: mais do que parece. Quando o petróleo sobe, o diesel fica mais caro. Quando o diesel fica mais caro, o frete fica mais caro. Quando o frete fica mais caro, tudo que é transportado de caminhão fica mais caro — que é praticamente tudo que você compra. Isso é inflação de custos: diferente da inflação de demanda, essa sobe mesmo quando a economia está desacelerando.

O problema do Banco Central é que seu único remédio — subir ou manter juros altos — não resolve a causa. Juros altos seguram a demanda, mas não baixam o preço do petróleo. É como tomar antitérmico para uma infecção: a febre cai, mas o vírus continua lá.

Enquanto isso, a curva de DI — os juros futuros negociados na B3 — abriu. Isso significa que os bancos passaram a se financiar mais caro. E quando o banco se financia mais caro, ele repassa para o crédito. Antes de qualquer decisão do Copom, o seu financiamento já ficou mais caro.

Quando o Copom decide cortar menos do que o mercado esperava, o custo é que os juros ficam altos por mais tempo — e o seu financiamento demora mais para ficar mais barato.

🔭 O que olhar na semana que começa
1
Brent acima ou abaixo de US$ 110
Essa é a linha que separa "ambiente desafiador" de "BC muda o plano". Cada dólar acima de US$ 110 por mais de uma semana aumenta a probabilidade de pausa total do Copom em maio. Acompanhe o petróleo como se fosse o Ibovespa.
2
Boletim Focus de segunda (23/03)
Primeiro relatório pós-Super Quarta. Se a expectativa de IPCA para 2026 subir acima de 4,5%, o sinal de alerta do BC acende mais forte. É o primeiro teste do humor do mercado após a semana mais movimentada do ano.
3
Desdobramentos do Estreito — cessar-fogo ou escalada
O noticiário geopolítico virou indicador econômico. Qualquer sinalização de negociação faz o petróleo cair e a curva fechar — bom para o BC. Qualquer escalada faz o contrário. O mercado está operando no modo "cada declaração importa".
📅 Agenda — semana de 23 a 27/03
Seg · 23/03 Boletim Focus — Primeiro relatório pós-Super Quarta. Expectativas de inflação e Selic para 2026 no centro das atenções. ALTO IMPACTO
Seg · 23/03 Início do IR 2026 — Prazo começa. Declarar cedo = restituição cedo. O Leão não sabe o que é Estreito de Ormuz. INFORMATIVO
Semana toda Dados de inflação e atividade — Cada número recalibra as apostas para o Copom de maio. Com Brent em US$112, o viés é de cautela redobrada. MÉDIO IMPACTO
Semana toda Oriente Médio — desdobramentos — Qualquer notícia de negociação ou escalada move o petróleo, a curva e o dólar. O termômetro mais rápido do mercado esta semana. ALTO IMPACTO
🎯 Boa semana
A previsão era corte de 0,5%.
Um campo de gás no Irã mudou o plano.
O Copom cortou metade. O Fed não cortou nada.

O Estreito tem 33 quilômetros. O impacto, infinito. ☕
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