Chegou. A Super Quarta. O dia que o mercado financeiro esperava com a ansiedade de vestibulandinho na véspera da prova — exceto que aqui ninguém dorme, ninguém para de falar e todo mundo já tem a resposta antes de ver a pergunta. Hoje o Copom anuncia o resultado da reunião de dois dias, e o Fed faz o mesmo lá nos EUA. Dois bancos centrais, dois comunicados, uma tarde inteira de tuítes de economistas que vão contradizer uns aos outros com absoluta convicção.
Para quem ainda está acordordando: o Copom é o comitê do Banco Central que decide a taxa Selic — o juro básico que baliza tudo, do crédito do seu cartão ao rendimento do seu Tesouro Direto. Está em 15% ao ano desde junho de 2025, o nível mais alto em quase duas décadas. Em janeiro, o BC prometeu começar a cortar em março. O mercado apostou nisso. Depois mudou de aposta. Voltou para a aposta original. Mudou de novo. O consenso atual é um corte de 0,25 ponto percentual — o menor corte possível, o tipo de movimento que diz "estamos começando, mas com muita cautela, e se alguém perguntar, negamos".
Enquanto isso, o Tesouro Nacional entrou em campo nos últimos dois dias e gastou R$ 36,6 bilhões recomprando a própria dívida para segurar a curva de juros — porque a guerra no Irã estava bagunçando tudo antes mesmo do Copom falar qualquer coisa. O governo literalmente comprou tempo. E hoje à noite descobre se valeu.
Em junho de 2025, o Copom encerrou um ciclo de altas deixando a Selic em 15% ao ano. Cinco reuniões depois, nada mudou. Em janeiro de 2026, o BC foi mais explícito do que o costume: comprometeu-se com o corte em março, desde que o cenário se confirmasse. O cenário, com o espírito colaborativo que lhe é peculiar, não colaborou. Veio guerra no Oriente Médio, o petróleo disparou mais de 40%, a inflação surpreendeu para cima e o Focus revisou a Selic final de ano de 12,13% para 12,25%. O mercado, que apostava em 0,50 ponto percentual de corte, recuou para 0,25. Alguns bancos chegaram a colocar alguma probabilidade de manutenção. Uma corrente mais ousada chegou a falar em alta — o que, dada a sinalização pública do BC, seria o equivalente a rasgar o próprio comunicado de janeiro ao vivo, em rede nacional, e depois fingir que foi mal-entendido.
O resultado sai esta noite, por volta das 18h30. Mas o número em si — 14,75% ou 15% — é quase secundário. O que o mercado vai dissecar é o comunicado que vem junto: cada adjetivo, cada advérbio, cada vírgula. "Gradual" ou "cauteloso"? "Adequado" ou "restritivo"? A diferença entre essas palavras pode mover o Ibovespa em 1%. Galípolo vai precisar escrever o texto com a precisão de quem está desarmando uma bomba — e a bomba é o petróleo, a inflação, o câmbio e as expectativas ao mesmo tempo.
Hoje às 15h (horário de Brasília), o Fed anuncia sua decisão de juros — com 99% de probabilidade de manutenção em 3,5%–3,75%. A decisão em si é o menor evento do dia. O que importa é o que vem depois: o dot plot, o gráfico trimestral em que cada membro do FOMC marca anonimamente onde acha que os juros devem estar no futuro. Se o consenso atual (um corte em 2026) migrar para zero, o dólar fortalece, os emergentes sangram e o Copom perde espaço de manobra antes mesmo de abrir a boca. Tudo isso por causa de pontinhos num gráfico que 99% da população nunca vai ouvir falar — mas vai sentir no extrato.
O contexto de Powell é digno de roteiro: dois membros do FOMC já dissideram em janeiro pedindo corte imediato — entre eles Stephen Miran, indicado pelo próprio Trump, que simultaneamente pressiona pela guerra que pressiona a inflação que impede os cortes. A incoerência é de alto nível. Para completar, o mandato de Powell termina em maio. Trump já indicou Kevin Warsh como substituto — considerado mais hawkish. Esta pode ser uma das últimas reuniões de Powell, e o mercado vai ler o comunicado como se fosse uma carta de despedida.
E antes de tudo isso acontecer, o Tesouro Nacional já havia entrado em campo. Na segunda e terça (16 e 17/03), em duas rodadas de intervenções extraordinárias, o Tesouro recomprou R$ 36,6 bilhões em títulos públicos prefixados e indexados à inflação — e cancelou os leilões regulares da semana inteira. O motivo: a guerra no Irã empurrou o petróleo, que empurrou a inflação esperada, que empurrou os juros futuros para cima de forma tão rápida que a curva de DI abriu mais de 40 pontos-base em um único dia. O Tesouro comprou os próprios papéis de volta para segurar esse movimento — injetando demanda, reduzindo as taxas longas e impedindo que o mercado de renda fixa travasse antes da Super Quarta.
Na segunda-feira, enquanto o Tesouro gastava bilhões segurando a curva de juros, a Receita Federal realizava coletiva de imprensa para anunciar as regras do IR 2026. Prazo: 23 de março a 29 de maio. Declarações esperadas: 44 milhões. Novidade que mais vai pegar as pessoas de surpresa: ganhos em apostas esportivas (bets) acima de R$ 28.467 em 2025 agora precisam ser declarados. Saldo acima de R$ 5 mil nessas plataformas em 31 de dezembro também. O país que discute reforma tributária há três décadas finalmente criou um campo específico no programa do IR para a indústria das bets. Prioridades.
Outras novidades: restituição em quatro lotes em vez de cinco, declaração pré-preenchida disponível desde o primeiro dia do prazo, e um cashback automático para cerca de 4 milhões de contribuintes isentos que têm valores a receber. Uma ressalva importante que vai confundir muita gente: a isenção para quem ganha até R$ 5 mil — sancionada em novembro de 2025 — não vale para a declaração deste ano. O IR 2026 é sobre os rendimentos de 2025, quando as regras antigas valiam. A isenção aparece no IR de 2027. Alguém esqueceu de avisar as pessoas antes que elas reorganizassem as finanças.

Fonte: Investing.com · Fechamento de terça-feira, 17/03/2026.
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Tesouro recompra R$ 36,6 bi em dois dias para conter escalada dos juros
O Tesouro cancelou os leilões regulares da semana inteira e entrou em campo com intervenções extraordinárias para segurar a curva de juros bagunçada pela guerra. O detalhe revelador: recomprou a dívida a taxas mais altas do que emitiu — o que é benigno para o contribuinte, irônico para o gestor.
Jornal de Brasília
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Como o choque do petróleo pode mudar o dot plot do Fed hoje
Análise do cenário para o FOMC de março: por que o gráfico de pontos importa mais que a decisão em si, e o que uma mudança na mediana de um para zero cortes em 2026 significaria para os mercados emergentes — incluindo o Brasil.
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Às 18h30, Galípolo decide e o mercado brasileiro vai para casa mais cedo ou fica acordado até meia-noite relendo o comunicado.
O café de hoje precisa ser duplo, forte e sem açúcar. ☕☕