Daily Brew
Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.
Quarta-feira · 18 de março de 2026
☕ Bom dia

Chegou. A Super Quarta. O dia que o mercado financeiro esperava com a ansiedade de vestibulandinho na véspera da prova — exceto que aqui ninguém dorme, ninguém para de falar e todo mundo já tem a resposta antes de ver a pergunta. Hoje o Copom anuncia o resultado da reunião de dois dias, e o Fed faz o mesmo lá nos EUA. Dois bancos centrais, dois comunicados, uma tarde inteira de tuítes de economistas que vão contradizer uns aos outros com absoluta convicção.

Para quem ainda está acordordando: o Copom é o comitê do Banco Central que decide a taxa Selic — o juro básico que baliza tudo, do crédito do seu cartão ao rendimento do seu Tesouro Direto. Está em 15% ao ano desde junho de 2025, o nível mais alto em quase duas décadas. Em janeiro, o BC prometeu começar a cortar em março. O mercado apostou nisso. Depois mudou de aposta. Voltou para a aposta original. Mudou de novo. O consenso atual é um corte de 0,25 ponto percentual — o menor corte possível, o tipo de movimento que diz "estamos começando, mas com muita cautela, e se alguém perguntar, negamos".

Enquanto isso, o Tesouro Nacional entrou em campo nos últimos dois dias e gastou R$ 36,6 bilhões recomprando a própria dívida para segurar a curva de juros — porque a guerra no Irã estava bagunçando tudo antes mesmo do Copom falar qualquer coisa. O governo literalmente comprou tempo. E hoje à noite descobre se valeu.

Copom / Selic
Brasil · Política Monetária
Prometeu em janeiro, confirmou em fevereiro. Hoje tem que pagar. O mercado já mudou de aposta mais vezes do que a Seleção trocou de técnico

Em junho de 2025, o Copom encerrou um ciclo de altas deixando a Selic em 15% ao ano. Cinco reuniões depois, nada mudou. Em janeiro de 2026, o BC foi mais explícito do que o costume: comprometeu-se com o corte em março, desde que o cenário se confirmasse. O cenário, com o espírito colaborativo que lhe é peculiar, não colaborou. Veio guerra no Oriente Médio, o petróleo disparou mais de 40%, a inflação surpreendeu para cima e o Focus revisou a Selic final de ano de 12,13% para 12,25%. O mercado, que apostava em 0,50 ponto percentual de corte, recuou para 0,25. Alguns bancos chegaram a colocar alguma probabilidade de manutenção. Uma corrente mais ousada chegou a falar em alta — o que, dada a sinalização pública do BC, seria o equivalente a rasgar o próprio comunicado de janeiro ao vivo, em rede nacional, e depois fingir que foi mal-entendido.

O resultado sai esta noite, por volta das 18h30. Mas o número em si — 14,75% ou 15% — é quase secundário. O que o mercado vai dissecar é o comunicado que vem junto: cada adjetivo, cada advérbio, cada vírgula. "Gradual" ou "cauteloso"? "Adequado" ou "restritivo"? A diferença entre essas palavras pode mover o Ibovespa em 1%. Galípolo vai precisar escrever o texto com a precisão de quem está desarmando uma bomba — e a bomba é o petróleo, a inflação, o câmbio e as expectativas ao mesmo tempo.

🎓 O que a teoria diz
Ciclo de afrouxamento monetário: Quando um banco central inicia cortes graduais e sequenciais de juros, isso se chama ciclo de afrouxamento. A lógica é simples: juros altos freiam a inflação, mas também freiam o crescimento. Quando a inflação está sob controle, o BC pode aliviar o freio. O ponto delicado é que o mercado não espera o BC agir — ele antecipa o ciclo inteiro nas taxas futuras assim que acredita que os cortes vão vir. É por isso que um simples comunicado pode mover mais o mercado do que o próprio corte. A expectativa precede o fato, e às vezes o substitui.
E daí?
Um corte de 0,25 ponto leva a Selic para 14,75%. Na sua conta corrente, isso não vai aparecer amanhã. Os bancos ajustam spreads com defasagem, e o crédito mais barato demora meses para chegar no consumidor final. O impacto real é o sinal: o BC está abrindo o ciclo. Para o mercado, esse gatilho já reprecifica ações alavancadas e fundos imobiliários hoje. Para você, o efeito prático chega em 6 a 12 meses — se o ciclo se confirmar, se o petróleo cooperar e se mais ninguém resolver entrar em guerra.
Fed / Dot Plot / Tesouro Nacional
Economia Global · Brasil · Política Monetária
Powell fala às 16h. O mundo todo vai fingir que é só mais uma reunião. O Tesouro já gastou R$ 36,6 bilhões para que isso parecesse verdade

Hoje às 15h (horário de Brasília), o Fed anuncia sua decisão de juros — com 99% de probabilidade de manutenção em 3,5%–3,75%. A decisão em si é o menor evento do dia. O que importa é o que vem depois: o dot plot, o gráfico trimestral em que cada membro do FOMC marca anonimamente onde acha que os juros devem estar no futuro. Se o consenso atual (um corte em 2026) migrar para zero, o dólar fortalece, os emergentes sangram e o Copom perde espaço de manobra antes mesmo de abrir a boca. Tudo isso por causa de pontinhos num gráfico que 99% da população nunca vai ouvir falar — mas vai sentir no extrato.

O contexto de Powell é digno de roteiro: dois membros do FOMC já dissideram em janeiro pedindo corte imediato — entre eles Stephen Miran, indicado pelo próprio Trump, que simultaneamente pressiona pela guerra que pressiona a inflação que impede os cortes. A incoerência é de alto nível. Para completar, o mandato de Powell termina em maio. Trump já indicou Kevin Warsh como substituto — considerado mais hawkish. Esta pode ser uma das últimas reuniões de Powell, e o mercado vai ler o comunicado como se fosse uma carta de despedida.

E antes de tudo isso acontecer, o Tesouro Nacional já havia entrado em campo. Na segunda e terça (16 e 17/03), em duas rodadas de intervenções extraordinárias, o Tesouro recomprou R$ 36,6 bilhões em títulos públicos prefixados e indexados à inflação — e cancelou os leilões regulares da semana inteira. O motivo: a guerra no Irã empurrou o petróleo, que empurrou a inflação esperada, que empurrou os juros futuros para cima de forma tão rápida que a curva de DI abriu mais de 40 pontos-base em um único dia. O Tesouro comprou os próprios papéis de volta para segurar esse movimento — injetando demanda, reduzindo as taxas longas e impedindo que o mercado de renda fixa travasse antes da Super Quarta.

🎓 O que a teoria diz
Operações de Mercado Aberto (OMO) e a curva de juros: Quando o Tesouro recompra seus próprios títulos no mercado secundário, está fazendo uma operação expansionista: retira papel do mercado, injeta liquidez e derruba as taxas dos títulos equivalentes. O efeito é direto na curva de juros — a linha que conecta as taxas de curto, médio e longo prazo. Quando essa curva "abre" (taxas sobem), o crédito fica mais caro em toda a economia. Quando o Tesouro intervém e fecha a curva, está essencialmente dizendo ao mercado: "pode segurar seus papéis, a gente está aqui". O dot plot do Fed atua pelo lado oposto: se sinalizar menos cortes, a curva americana sobe, puxa os juros globais, e o trabalho do Tesouro brasileiro dos últimos dois dias pode desfazer em uma tarde.
E daí?
Juros futuros mais altos no Brasil significam crédito mais caro para empresa e consumidor — independente do que o Copom decidir hoje à noite. Os bancos não emprestam com base na Selic de hoje; eles olham para a curva inteira. Quando o Tesouro conseguiu derrubar os DIs com as recompras de segunda e terça, deu um alívio real para quem toma crédito. Se o dot plot do Fed reverter esse movimento hoje à tarde, a fatura chega antes do café da manhã de amanhã.
Imposto de Renda 2026
Brasil · Finanças Pessoais
Copom, Fed, guerra, petróleo — e a Receita Federal lembrando que o prazo do IR começa em 23 de março. O Leão não lê jornal

Na segunda-feira, enquanto o Tesouro gastava bilhões segurando a curva de juros, a Receita Federal realizava coletiva de imprensa para anunciar as regras do IR 2026. Prazo: 23 de março a 29 de maio. Declarações esperadas: 44 milhões. Novidade que mais vai pegar as pessoas de surpresa: ganhos em apostas esportivas (bets) acima de R$ 28.467 em 2025 agora precisam ser declarados. Saldo acima de R$ 5 mil nessas plataformas em 31 de dezembro também. O país que discute reforma tributária há três décadas finalmente criou um campo específico no programa do IR para a indústria das bets. Prioridades.

Outras novidades: restituição em quatro lotes em vez de cinco, declaração pré-preenchida disponível desde o primeiro dia do prazo, e um cashback automático para cerca de 4 milhões de contribuintes isentos que têm valores a receber. Uma ressalva importante que vai confundir muita gente: a isenção para quem ganha até R$ 5 mil — sancionada em novembro de 2025 — não vale para a declaração deste ano. O IR 2026 é sobre os rendimentos de 2025, quando as regras antigas valiam. A isenção aparece no IR de 2027. Alguém esqueceu de avisar as pessoas antes que elas reorganizassem as finanças.

🎓 O que a teoria diz
Efeito renda e efeito substituição no imposto: Quando o imposto de renda sobe, dois comportamentos emergem. O efeito renda leva o contribuinte a trabalhar mais para compensar a perda de poder de compra. O efeito substituição faz o oposto: com a renda líquida menor, trabalhar mais parece menos atraente — o lazer fica "mais barato" na margem. A discussão sobre isenção até R$ 5 mil gira nesse eixo: isentar renda mais baixa estimula consumo e atividade, mas cria pressão fiscal. Alguém vai pagar essa conta — e o princípio da equivalência ricardiana avisa: imposto adiado é apenas imposto que ainda não chegou na fatura.
E daí?
Quem declara cedo recebe a restituição antes — o primeiro lote sai em 29 de maio. Quem usa a declaração pré-preenchida e opta por Pix tem prioridade na fila. Quem deixa para o final de maio vai disputar o sistema com milhões de pessoas ao mesmo tempo, na semana em que o servidor da Receita tradicional fica lento como um DI de 2031 em dia de guerra. A multa mínima por atraso é R$ 165,74. Pouco para quem tem muito a declarar. Muito para quem achava que estava isento pela nova regra e descobriu que não está.
📌 O número do dia
R$ 36,6 bi
Tesouro Nacional · Recompra extraordinária de títulos · 16–17/03/2026
Em dois dias, o Tesouro recomprou R$ 36,6 bilhões da própria dívida para segurar a curva de juros bagunçada pela guerra no Irã — antes mesmo de o Copom ou o Fed dizerem uma palavra sequer. É o equivalente financeiro de limpar a casa antes dos convidados chegarem. Os convidados chegam hoje.
📊 O gráfico do dia
Trajetória da Selic — do fundo do poço ao pico histórico (mai/25–mar/26)
Fonte: Banco Central do Brasil · Ponto laranja = decisão esperada hoje à noite
A Selic saiu de 10,5% em maio de 2025 e chegou a 15% em agosto — quatro altas de 0,50 ponto percentual. Ficou parada em 15% por cinco reuniões consecutivas. O ponto laranja é o que o mercado espera para hoje: 14,75%. Se confirmar, é o primeiro corte em mais de um ano. Se não confirmar, é outra história.
📈 Mercados — fechamento de terça-feira (17/03)
Ativo Fechamento Dia Máx / Mín
Ibovespa 180.410 pts ↑ +0,30% 182.800 / 179.850
Dólar (BRL) R$ 5,199 ↓ −0,58% 5,242 / 5,177
Petróleo Brent US$ 103,50 ↑ +3,28% 104,98 / 100,76
S&P 500 6.716,19 pts ↑ +0,25% 6.754,30 / 6.710,80
Dow Jones 46.993,87 pts ↑ +0,10% 47.428,12 / 46.975,52
Nasdaq 22.479,53 pts ↑ +0,47% 22.569,64 / 22.409,08
Bitcoin US$ 74.547,59 ↑ +0,41% 75.991,20 / 73.460,70
Fonte: Investing.com · Fechamento de terça-feira, 17/03/2026.
💬 A frase
"Prefiro tê-los mais cedo. Todos os quatro cortes. A urgência do movimento é real."
— Stephen Miran, diretor do Fed indicado por Trump · sobre o ritmo de cortes em 2026 · Infomoney, mar/2026
Miran foi indicado ao Fed pelo Trump. O mesmo Trump que lidera a guerra que pressiona o petróleo que pressiona a inflação que impede os cortes que Miran está pedindo. O ciclo é completo, a ironia é gratuita e o mercado vai fingir que é tudo muito normal.
📅 Agenda
Hoje · 16h Fed — decisão de juros + dot plot (16h) + Powell fala (16h30) — Manutenção esperada em 3,5%–3,75%. O dot plot é o evento real. Powell é o comentarista. Cada palavra vai ser dissecada por mil analistas ao mesmo tempo. ALTÍSSIMO IMPACTO
Hoje · ~18h30 Copom — decisão da Selic — O mercado espera 14,75%. O comunicado que vem junto importa mais que o número. Galípolo vai precisar escolher as palavras com cuidado cirúrgico. ALTÍSSIMO IMPACTO
Qui 19/03 BCE decide juros (zona do euro) — Lagarde tem seu próprio dilema entre guerra, energia cara e inflação teimosa. MÉDIO IMPACTO
Qui 19/03 Pedidos de auxílio-desemprego EUA (9h30 ET) — Termômetro semanal do mercado de trabalho americano. MÉDIO IMPACTO
Sex 20/03 Programa do IR 2026 disponível para download (Receita Federal) — Prazo de entrega começa em 23/03. Quem deixar para a última semana de maio vai competir com 40 milhões de pessoas pelo mesmo servidor. INFORMATIVO
📚 Vale ler hoje
Tesouro recompra R$ 36,6 bi em dois dias para conter escalada dos juros
O Tesouro cancelou os leilões regulares da semana inteira e entrou em campo com intervenções extraordinárias para segurar a curva de juros bagunçada pela guerra. O detalhe revelador: recomprou a dívida a taxas mais altas do que emitiu — o que é benigno para o contribuinte, irônico para o gestor.
Jornal de Brasília
Como o choque do petróleo pode mudar o dot plot do Fed hoje
Análise do cenário para o FOMC de março: por que o gráfico de pontos importa mais que a decisão em si, e o que uma mudança na mediana de um para zero cortes em 2026 significaria para os mercados emergentes — incluindo o Brasil.
Infomoney
Copom de março: por que o comunicado vai importar mais que o número
O Safra revisou sua expectativa de 0,50 para 0,25 ponto de corte e explica os vetores do cenário: petróleo, IPCA acima do esperado e o papel do texto do comunicado na precificação dos próximos passos do ciclo.
Banco Safra
O que a recompra do Tesouro muda para quem tem renda fixa
Para prefixados e IPCA+, as intervenções trouxeram alívio na marcação a mercado. Para o Tesouro Selic, analistas dizem que o papel continua rendendo bem mesmo no cenário de cortes menores. Uma leitura prática para o investidor pessoa física.
CNN Brasil
🎯 Boa Super Quarta
Às 16h, Powell fala e três continentes prendem a respiração.
Às 18h30, Galípolo decide e o mercado brasileiro vai para casa mais cedo ou fica acordado até meia-noite relendo o comunicado.

O café de hoje precisa ser duplo, forte e sem açúcar. ☕☕
📲 Siga @dailybrewbr no Instagram
Receba os bastidores do mercado em primeira mão.

Keep Reading