Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.
SEXTA-FEIRA · 10 DE JULHO DE 2026
☕ Bom dia
Pra tomar dinheiro emprestado, o governo está pagando o preço mais alto em anos, um sinal de desconfiança.
E esses juros caríssimos já começaram a sufocar as empresas, que correm pros credores pra renegociar dívida.
Lá fora, o Trump virou uma espécie de trader e comprou ações das empresas que as decisões dele fizeram subir. ☕

Brasil · Dívida pública
O prêmio que o governo paga na dívida está no maior patamar desde 2008
Tem um jeito simples de sentir quanto o mercado confia, ou desconfia, do Brasil: o preço que o governo paga pra tomar dinheiro emprestado. E esse preço está salgado. Pra se financiar, o governo vende títulos, e um dos principais deles, o Tesouro IPCA+, paga a inflação cheia mais uma taxa fixa por cima. No fechamento de quinta (09/07), essa taxa fixa rondava 8,3% ao ano.
Traduzindo: quem empresta pro governo comprando esse papel trava a inflação mais quase 8% de ganho de verdade, o que sobra no bolso depois que a inflação come a parte dela. Naquele fechamento, o Tesouro IPCA+ que vence em 2035 pagava por volta da inflação mais 8,3%; o que vence em 2045, com juros semestrais, uns 7,7%; e um papel de taxa fixa de 2029, uns 14,3% cravados. Segundo levantamentos de mercado, são os maiores níveis de juros reais desde a crise de 2008, um patamar que apareceu em menos de 10% do tempo na última década.
Por que tão gordo? Esse prêmio é o preço da desconfiança. A dívida do governo saltou de uns 72% de tudo o que o país produz num ano, no fim de 2022, para mais de 83% projetados para o fim de 2026, e as projeções só sobem daqui pra frente. Em ano de eleição, o mercado teme mais gasto. E as expectativas de inflação seguem desancoradas, o jeito técnico de dizer que o mercado não acredita que ela volta pra meta tão cedo, e a vê acima do alvo até 2028. Pra segurar papel do governo por tantos anos, o investidor cobra caro.
O prazo pesa nessa conta. Quanto mais longo o título, mais anos você está apostando em como estarão as contas do país lá na frente, e maior o prêmio que o governo precisa oferecer. Tem uma pegadinha junto: o papel protege da inflação se você levar até o fim, mas se precisar vender antes e os juros subirem mais, o preço cai e dá pra sair no prejuízo. A tensão é tanta que, no fim de junho, a volatilidade e a dificuldade de formar preço levaram o próprio Tesouro a cancelar um leilão de títulos; em julho as taxas recuaram um pouco, mas seguem lá em cima.
No fim, essas taxas funcionam como um termômetro do risco que o mercado enxerga. Não medem só a confiança no governo: entram também a inflação esperada, os juros básicos, os juros lá fora e o prêmio por emprestar por tantos anos. Mas o risco das contas públicas pesa forte. No fundo, o mercado está cobrando pela dúvida de o governo conseguir estabilizar a dívida sem precisar, lá na frente, de um ajuste fiscal duro ou de juros altos por ainda mais tempo.
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Brasil · Empresas
Os juros a 14% já começaram a sufocar as empresas
Numa mesma semana, três empresas grandes deram sinal de sufoco com dívida. A Ambipar, gigante da gestão ambiental que já estava em recuperação judicial desde outubro, informou que assinou um acordo de apoio com a maioria dos credores dos seus Green Notes, um passo na renegociação que envolve cerca de R$ 10,5 bilhões. Na quarta (08/07), a agência de risco S&P rebaixou a nota da Cosan, apontando o enfraquecimento do negócio e uma estrutura de dívida ainda pesada, e a Rumo caiu junto, arrastada pela controladora. E na Oncoclínicas, uma assembleia de credores em 6 de julho nem alcançou quórum, enquanto a rede de oncologia avalia uma recuperação extrajudicial pra reorganizar uns R$ 3,3 bilhões.
E não são exceções. O Brasil fechou o primeiro trimestre com mais de 5,9 mil empresas em recuperação judicial, uma alta de 21,5% em um ano. Os pedidos de recuperação extrajudicial, aquela negociação direta com credores pra fugir da Justiça, saltaram de 16, em 2021, para 84 no ano passado. O nome que aparece em quase todas as histórias é o mesmo: os juros básicos a 14,25% ao ano, que encarecem a dívida de quem se alavancou, muitas empresas ainda digerindo crédito caro dos últimos anos.
O que aperta é a rolagem. Quase nenhuma empresa quita a dívida de uma vez, ela vai rolando, pegando dinheiro novo pra pagar o antigo. Enquanto os juros eram baixos, rolar custava pouco. Com os juros básicos perto de 14%, cada rolagem fica mais salgada, só os juros já comem o caixa, e uma hora a conta não fecha. Foi o que empurrou Ambipar, Oncoclínicas e tantas outras pra mesa de negociação.
🎓 O que a teoria diz: o que é o crowding out?
Os economistas chamam isso de efeito deslocamento, ou "crowding out", e está em todo livro-texto. Funciona assim: quando o governo precisa captar muito e paga juros altos, ele levanta a régua de retorno de toda a economia. Como emprestar pro governo é visto como mais seguro, a empresa precisa pagar ainda mais pra convencer o investidor, os juros do governo mais um prêmio pelo risco maior que ela representa. O resultado é crédito privado mais caro e mais escasso, com parte do dinheiro que iria pras empresas indo pra dívida pública. Não é que a empresa pague menos que o governo, ela paga mais, justamente porque arrisca mais, e o rombo das contas públicas do bloco anterior encarece o financiamento de quem produz e emprega.
E daí?
Os juros altos têm dois donos. Se você tem dinheiro aplicado, a renda fixa raramente pagou tão bem. Do outro lado do balcão, a mesma taxa encarece a dívida das empresas, derruba o preço de algumas ações e, quando aperta demais, custa investimento e emprego. E parte desse aperto vem do próprio governo, que, endividado, disputa com as empresas o mesmo investidor.
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Estados Unidos · Bolsa
As contas do Trump compraram ações da Dell 9 dias antes de ele mandar comprar um Dell
Documentos que o próprio governo americano divulgou, e que veículos como a CNBC e a NBC destrincharam, trazem um número que dá vertigem: as contas de investimento ligadas ao Trump fizeram 3.642 operações com ativos só nos três primeiros meses de 2026, quase uma a cada oito minutos de pregão. A Casa Branca diz que essas contas são geridas por terceiros, sem conflito. Um caso virou símbolo. Em 10 de fevereiro, a carteira comprou entre US$ 1 e 5 milhões em ações da Dell, com o papel na casa dos US$ 126.
Nove dias depois, num comício na Geórgia, o próprio Trump mandou a plateia "ir lá e comprar um computador Dell". Da compra até o fechamento de quinta (09/07), a ação saiu dos US$ 126 pra cerca de US$ 450, uma alta perto de 258%, como mostra o gráfico. No caminho, a Dell Federal fechou com o Pentágono um acordo-quadro de compras com teto de US$ 9,7 bilhões, sobretudo pra licenças e serviços da Microsoft, e em 6 de julho o presidente repetiu o "comprem Dell" tocando o sino de abertura da bolsa dentro da Casa Branca.

Não é só a Dell. As contas também compraram Nvidia pouco antes de o governo liberar a venda de chips da empresa pra China, e Palantir na época em que ela ganhou um acordo de US$ 1 bilhão com a Segurança Interna americana. Em vários casos, as compras vieram pouco antes de anúncios bons pras empresas, coincidências que levantaram dúvidas sobre conflito de interesse.
Tem ainda o episódio mais famoso. Em 8 de abril de 2025, com a bolsa em queda livre por causa do tarifaço, as contas fizeram 327 compras. Na manhã seguinte, o próprio Trump postou "ESTÁ NA HORA DE COMPRAR!!!" e, horas depois, anunciou a pausa nas tarifas. A bolsa disparou quase 10% naquele dia, uma das maiores altas da história. Os documentos só vieram a público em julho deste ano.
Nada disso é só fofoca americana. O mesmo homem cujos posts mexem no dólar, no petróleo e na bolsa lá fora, que puxam o preço do seu dólar e o valor dos seus investimentos, aparece com as contas posicionadas justamente nas ações que as decisões dele movem. Quando o Trump fala, o mercado se mexe, e os documentos mostram a carteira dele do lado certo da fala.
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📅 O que vem aí
Hoje · 10/07
IPCA de junho. o IBGE divulga hoje a inflação oficial do mês, e o número vai mostrar se a desaceleração da prévia (o IPCA-15) apareceu também no índice cheio.
📚 Vale ler
Por que os juros reais atingiram o maior nível desde 2008 O número por trás do bloco 1, com o prêmio dos títulos públicos no topo em quase 20 anos. InfoMoney · Investimentos · 2026 |
Recuperações extrajudiciais avançam no Brasil com a pressão dos juros altos O quadro maior do bloco 2: a onda de empresas renegociando dívida por causa dos juros. CNN Brasil · Economia · 07/2026 |
S&P rebaixa o rating da Cosan e cita a reestruturação da Raízen Um dos casos do bloco 2, com a agência culpando o custo da dívida nos juros elevados. CNN Brasil · Negócios · 08/07/2026 |
Trump comprou ações de empresas impulsionadas pelo próprio governo A investigação que embasa o bloco 3, cruzando as compras com as decisões do governo. NOTUS · EUA · 2026 |
Trump toca o sino de abertura na Casa Branca e volta a recomendar a Dell O episódio de 6 de julho que fecha a história da Dell no bloco 3. CNBC · Mercados · 06/07/2026 |
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