Daily Brew
Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.
Terça-feira · 25 de março de 2026
☕ Bom dia

O Ibovespa fechou em alta modesta de 0,32%, puxado por Petrobras e Vale enquanto os bancos sangravam. Nos EUA, S&P e Nasdaq fecharam no vermelho. O Brent ficou estável perto de US$ 96, com máxima de US$ 100 no dia — longe da queda de segunda, mas longe também da paz.

A ata do Copom saiu de manhã cheia de "cautela" e "serenidade", sem nenhuma pista sobre maio. O WSJ revelou que foi o príncipe saudita MBS quem pressionou Trump a atacar o Irã — em privado, claro, enquanto defendia diplomacia em público. E a OTAN anunciou 22 países organizados para reabrir Ormuz, com a confiança de quem ainda não combinou data.

E no Brasil, Moraes aceitou a prisão domiciliar de Bolsonaro. O ex-presidente sai da UTI para casa — o que, dependendo de quem você pergunta, é uma vitória da humanidade ou o início da campanha de 2026. Provavelmente os dois.

Brasil · Política Monetária
Copom · Selic · Ata
A ata do Copom saiu. Tinha "cautela", "serenidade" e "parcimônia". O que não tinha: qualquer pista sobre maio

O Banco Central publicou a ata da reunião que cortou a Selic para 14,75% e entregou exatamente o que o mercado esperava — e temia. O documento confirma que a "magnitude e duração do ciclo de calibração serão determinadas ao longo do tempo". Traduzindo: o BC vai esperar para ver. Com guerra, petróleo acima de US$ 100 e inflação sendo revisada para cima toda semana, é difícil argumentar que estava errado.

O que chamou atenção dos economistas foi o que a ata não disse. Nenhuma sinalização sobre o ritmo dos próximos cortes. Nenhuma indicação sobre pausa. O Copom essencialmente disse que vai continuar dependente de dados — o que, no contexto atual, significa dependente do petróleo.

Analistas da SulAmérica e da BPMoney mantêm o cenário de corte de 0,25pp em abril, mas com ressalva: "se o cenário externo cooperar". A frase mais honesta da ata veio nas entrelinhas: o BC não sabe o que vai acontecer com a guerra, então você também não sabe o que vai acontecer com a Selic.

🎓 O que a teoria diz
Dependência de dados e credibilidade do BC: quando um banco central diz que vai ser "dependente de dados", o mercado interpreta como ausência de comprometimento com um ritmo específico. Isso dá flexibilidade ao BC, mas tira previsibilidade do investidor. No curto prazo, é útil quando o cenário é incerto. No longo prazo, um BC que nunca sinaliza perde parte da eficácia da política monetária — porque as expectativas não se ancoram em nenhum ponto.
E daí?
Quem tem prefixado longo ou Tesouro IPCA+ precisa entender o seguinte: o BC não vai cortar rápido enquanto o Brent estiver acima de US$ 100. Se o conflito arrefecer nas próximas semanas, o ciclo volta ao ritmo. Se não, maio pode ter corte de 0,25pp ou pausa. A ata não vai te dizer qual. O Brent vai.
📊 O gráfico do dia
Selic esperada em 2026 — antes e depois da guerra
Fonte: Boletim Focus / Banco Central · março 2026
A guerra empurrou para cima a Selic esperada no fim do ano: de 12,0% para 12,5%. Dois cortes do plano original foram eliminados. A linha tracejada é o cenário pré-guerra. A linha azul é o que o mercado espera agora.
Brasil · Política
STF · Bolsonaro · Domiciliar
Moraes aceitou. Bolsonaro vai para casa. O mercado já precificou o próximo capítulo

O ministro Alexandre de Moraes aceitou o pedido de prisão domiciliar de Jair Bolsonaro. O ex-presidente, condenado a 27 anos por tentativa de golpe e internado desde 13 de março com pneumonia na UTI do DF Star, poderá cumprir pena em casa. A PGR havia emitido parecer favorável na véspera, após Michelle Bolsonaro se reunir com Moraes no STF.

Para o mercado, a notícia teve impacto limitado no pregão de hoje — o Ibovespa subiu 0,32% num dia em que Petrobras e Vale seguraram o índice enquanto os bancos caíam. A leitura dos analistas é que a domiciliar reduz ruído jurídico de curto prazo, mas acende o radar eleitoral: com Bolsonaro em casa e em recuperação, o PL já começa a calibrar 2026. Flávio Bolsonaro empata com Lula em segundo turno nas últimas pesquisas. A política brasileira voltou oficialmente ao cardápio do investidor estrangeiro.

E daí?
No curto prazo: neutro para os mercados. No médio prazo: qualquer sinal de que Bolsonaro vai recuperar mobilização política vira variável de risco para o câmbio em ano eleitoral. O dólar já sabe. O Focus também. Vai ser uma variável constante até outubro de 2026.
Brasil · Petrobras · Economia
FGTS · Petróleo · Inflação
O Brasil ganhou e perdeu com a mesma guerra. Clássico.

Os fundos FGTS ligados à Petrobras acumulam alta de mais de 50% em 2026 — muito acima dos 11,88% do Ibovespa no período. Só em março, a valorização já passa de 20%. Para quem tem dinheiro do FGTS investido nesse fundo, a guerra no Oriente Médio foi o melhor investimento involuntário da vida. O petróleo subiu, a Petrobras subiu junto e o trabalhador brasileiro, sem fazer nada, ficou mais rico.

O problema é que o mesmo barril de petróleo que valoriza o FGTS Petrobras pressiona o diesel, o frete, o alimento e a inflação. O Brasil exporta petróleo, mas importa diesel refinado — e é exatamente o diesel que está pressionando os preços. É como torcer para a valorização da própria casa e ao mesmo tempo pagar aluguel mais caro por causa dela. O país joga dos dois lados, mas o gol contra dói mais no bolso do que o gol a favor rende na conta.

🎓 O que a teoria diz
Maldição dos recursos naturais e transmissão de preços: países exportadores de commodities recebem mais receita com a alta dos preços, mas também sofrem pressão inflacionária interna — especialmente quando o produto exportado é diferente do consumido internamente. O Brasil exporta petróleo bruto, mas importa diesel refinado. A alta do bruto não elimina o custo do refino importado. Resultado: a Petrobras fica mais rica, o frete fica mais caro e o BC fica numa sinuca.
E daí?
Se você tem FGTS na Petrobras, a guerra foi boa para seu extrato. Se você tem carro, come comida transportada por caminhão ou paga aluguel em cidade grande — e todo mundo se encaixa em pelo menos uma dessas — a guerra está te cobrando de outro jeito. O Brasil raramente ganha e perde com a mesma notícia. Em 2026, conseguiu.
📌 O número do dia
+50%
Rentabilidade dos fundos FGTS Petrobras em 2026 · até 19/03
Enquanto o Ibovespa subia 11,88% no mesmo período, os fundos ligados à Petrobras dispararam mais de 50% — impulsionados pelo petróleo caro da guerra. O trabalhador brasileiro que não mexeu em nada na vida foi, inadvertidamente, um dos maiores beneficiários do conflito no Oriente Médio. Ninguém pediu. Veio de brinde.
📈 Mercados — fechamento terça-feira (25/03, 17h)
Ativo Fechamento Dia Mín / Máx
Ibovespa 182.509 pts ↑ +0,32% 179.915 / 182.649
Dólar (BRL) R$ 5,26 ↑ +0,46% R$ 5,21 / R$ 5,28
Brent Jun 26 US$ 95,99 ↑ +0,07% US$ 94,25 / US$ 100,73
Ouro (COMEX) Jun 26 US$ 4.509/oz ↑ +1,57% US$ 4.340 / US$ 4.516
S&P 500 6.556,34 ↓ −0,37% 6.525,11 / 6.595,75
Dow Jones 46.124,06 ↓ −0,18% 45.769,69 / 46.400,82
Nasdaq 21.761,89 ↓ −0,84% 21.712,04 / 21.916,16
Bitcoin US$ 70.059 ↓ −1,20% US$ 67.469 / US$ 71.791
Fechamento 17h (25/03). Fonte: B3, Investing.com · 25/03/2026
💬 A frase do dia
"No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária."
— Ata do Copom · Banco Central do Brasil · 24/03/2026
O BC disse "serenidade e cautela" em um documento publicado no mesmo dia em que o Brent voltou a subir, a Arábia Saudita cogitou entrar na guerra e a OTAN anunciou uma coalizão de 22 países. A serenidade é aspiracional. A cautela, essa sim, está bem fundamentada.
📅 O que vem hoje e no resto da semana
Ter 25/03 IPCA-15 (março) — Primeira leitura da inflação de março. Brent acima de US$ 100 boa parte da quinzena pressiona o resultado. Acima de 0,6% reacende debate sobre pausa em maio. ALTO IMPACTO
Seg–Sáb Prazo de 5 dias de Trump — Vence sábado (28/03). Qualquer sinal de acordo ou escalada move o Brent — e junto com ele, o dólar, o Ibovespa e as expectativas de inflação. ALTO IMPACTO
Sex 28/03 Payroll EUA (março) — Dados de emprego americano. Resultado fraco pressiona o Fed a cortar; forte confirma pausa. MÉDIO IMPACTO
Semana toda IR 2026 — Prazo aberto. Até 29 de maio. O Leão não liga para o Estreito de Ormuz. INFORMATIVO
📚 Vale ler hoje
Ata do Copom: cautela máxima, sem sinalização sobre maio
O BC foi claro em dizer que não sabe o que vai fazer — o que, curiosamente, é o tipo de honestidade que assusta o mercado.
Exame
OTAN: 22 países se organizam para reabrir Ormuz
Japão, Coreia do Sul, Austrália e maioria dos membros da OTAN na coalizão. A intenção está clara. A linha do tempo, não.
CNN Brasil
Príncipe saudita pressionou Trump para atacar o Irã, diz WSJ
MBS ligou várias vezes para Trump pedindo o ataque — enquanto defendia publicamente a diplomacia. O Oriente Médio tem mais camadas do que qualquer análise de risco.
G1 / Wall Street Journal
FGTS Petrobras: +50% no ano — o Brasil que ganha e perde com a mesma guerra
O trabalhador com FGTS na Petrobras está comemorando. O mesmo trabalhador no posto de gasolina, menos.
Infomoney
🎯 Boa terça-feira
Ibovespa fechou em alta. Bolsonaro vai para casa.
O ouro subiu 1,57%. O BC pediu serenidade.
22 países querem abrir Ormuz. Ainda estão se organizando.

O prazo de Trump vence sábado. ☕
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