Terça-feira foi um dia de alívio — pelo menos para quem não é acionista da Petrobras.
Enquanto os mercados celebravam o possível fim de uma guerra, o Brasil seguia construindo silenciosamente outra — essa sem bomba, sem manchete e sem data para acabar. O arcabouço fiscal prometeu dívida de 76% do PIB. A projeção hoje é 84%. A diferença não é erro de cálculo. É escolha deliberada, feita em ano eleitoral, com o custo carimbado para o próximo presidente pagar.
E o Datafolha publicou hoje que 46% dos brasileiros já sentem o peso disso — mesmo com o desemprego no mínimo histórico. O governo responde com o IBGE. O eleitor responde com a fatura do cartão. O Copom decide semana que vem. Café na mão — esse vai precisar ser duplo.
| →Irã: embaixador diz que aceita cessar-fogo "se vier dos agressores" — o chanceler iraniano confirmou à NBC que não há negociação nem contato com os EUA. Trump respondeu que já venceu. |
| →G7 de Energia se reúne hoje para discutir liberação de reservas estratégicas de petróleo — Macron disse que a França está "pronta". Os EUA dizem que estão "avaliando". Discutir e liberar continuam sendo verbos bem diferentes. |
| →Amanhã sai o IPCA de fevereiro às 9h (IBGE) — dado pré-choque, esperado comportado. O mercado vai ler cada décimo como se fosse o julgamento final antes do Copom de semana que vem. Praticamente, é. |
Quando o arcabouço fiscal foi lançado em março de 2023, a promessa era clara: a dívida bruta se estabilizaria em 76,54% do PIB em 2026. Hoje, a projeção do mercado é 84%. O IFI projeta 82,4%. Para estabilizar a dívida agora, a Warren calcula que seria necessário um superávit primário de 2,3% do PIB — e o governo promete 0,25%. No acumulado dos últimos 12 meses, as contas registram déficit de R$ 62 bilhões. Não é uma meta difícil de cumprir. É uma meta que existe para não ser cumprida.
O mecanismo é simples: mais de 90% dos gastos da União são obrigatórios e crescem automaticamente. A isenção do IR para renda até R$ 5.000 injeta R$ 28 bilhões na economia em 2026 — ano eleitoral, que coincidência. Precatórios foram retirados do cálculo da meta. Despesas de saúde e educação voltaram a crescer com a receita. O gasto real aumentará 3% em 2026, justamente no pico da campanha. Não é política fiscal. É engenharia eleitoral com notação contábil.
O resultado é que quem ganhar outubro de 2026 herda um orçamento sem margem de manobra e a conta de tudo que foi prometido e não pago. Tarcísio de Freitas já calculou esse problema — e está avaliando se realmente quer o cargo. Não é falta de ambição. É matemática.

Na segunda-feira, Trump afirmou à CBS que o Irã "não tem marinha, não tem comunicações, não tem força aérea" e que a guerra estaria "praticamente concluída". Na terça de manhã, o secretário de Defesa Pete Hegseth declarou que aquele seria "o dia de ataques mais intensos" desde o início do conflito. Teerã foi bombardeada novamente.
O secretário de Energia Chris Wright publicou numa rede social que a Marinha americana havia escoltado um petroleiro pelo Estreito de Ormuz — notícia que derrubou ainda mais o petróleo. Só que o post foi deletado minutos depois, e a Casa Branca confirmou que isso não havia acontecido. O governo americano desinformou o mercado em tempo real, e o petróleo foi e voltou na mesma tarde. Gestão de crise de primeira linha.
O petróleo chegou a cair até 18% durante a sessão, mas fechou bem acima das mínimas depois que ficou claro que nenhum petroleiro havia passado pelo Estreito. A rota continua travada. O alívio foi verbal, não real. Ou seja: o presidente diz que acabou, o secretário de Defesa diz que ainda teria o dia mais pesado, e o inimigo diz que vai fechar tudo. O mercado escolheu acreditar no chefe — por ora.
A reunião do Copom está marcada para os dias 17 e 18 de março. O cenário-base do mercado — um corte de 0,50 p.p., de 15% para 14,5% — sobreviveu ao início da guerra, sobreviveu ao Brent a US$ 119 e sobreviveu ao dólar em crise existencial. Mas está ficando mais difícil defender esse script com a cara reta. O IPCA de fevereiro sai amanhã cedo e é dado pré-choque — deve vir comportado. O problema é que o Copom não decide o passado. Decide o futuro. E o futuro de março está cheio de bombas na fila esperando para explodir no IPCA.
A matemática é ingrata: cada US$ 10 de alta no Brent adiciona cerca de 0,25 p.p. ao IPCA. O petróleo subiu mais de 40% desde o início do conflito. A gasolina está defasada em 49%. E eventual crise de abastecimento não aparece no IPCA imediatamente, mas sim no preço do frete, dos alimentos, do tudo-que-anda-de-caminhão que é quase tudo. O Banco Central cortaria juros num momento em que o principal risco é exatamente inflação. Não é confortável.
O mercado continua apostando no corte. O Focus desta semana projeta Selic em 12,13% no fim de 2026 — o que implica ainda vários cortes pela frente. A lógica: a atividade econômica está desacelerando, o crédito está caro, e segurar os juros agora por conta de um choque externo que pode ser temporário seria um erro. Mas a lógica alternativa também tem endereço: cortar juros com o Irã ainda fumegando seria apostar que tudo vai se resolver bem. O Copom vai ter que escolher. E vai ter que errar ou acertar sem saber o resultado antes.
Os dados saíram ontem: exportações chinesas cresceram 21,8% em janeiro e fevereiro de 2026, contra projeção de 7%. O superávit comercial foi de US$ 213,6 bilhões — US$ 44 bilhões a mais do que no mesmo período de 2025. O destaque foram os semicondutores, com alta de 66,5% em relação ao ano anterior. A maior taxa de crescimento em mais de uma década — na exata indústria que os EUA passaram dois anos tentando bloquear.
A estratégia ficou clara: com o Estreito de Ormuz fechado e o Ocidente distraído com guerra, Pequim estocou commodities (minério de ferro, petróleo bruto) no começo do ano para proteger suas fábricas, redirecionou exportações para ASEAN (+29,4%), Europa (+27,8%) e Coreia do Sul (+27%), e acelerou embarques para os EUA enquanto a Suprema Corte americana ainda mantém parte das tarifas suspensas. É gestão de crise de manual — manual deles.
Para o Brasil, a equação é dupla: a demanda chinesa por commodities sustenta as exportações de soja e minério. Mas a China exportando mais semicondutores e tecnologia para o mundo inteiro aumenta a pressão sobre a indústria brasileira de transformação — que já não é exatamente conhecida por sua competitividade global.
* Wall Street terminou praticamente no zero — Dow -0,07%, S&P -0,20%, Nasdaq flat. Bitcoin em US$ 71.246. Petróleo Brent fechou em US$ 90,39 após queda de 8%.
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Irã aceita cessar-fogo "se proposta vier dos agressores" — a diplomacia em três atos
Embaixador diz que aceita, chanceler diz que não pediu, parlamento quer continuar lutando. Um governo muito bem coordenado.
Poder360
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Defasagem do diesel chega a 85% e importadores param de comprar
15 dias de estoque, mercado travado e a Petrobras em silêncio há mais de 300 dias. A bomba — no sentido literal — está com o pavio aceso.
Times Brasil / Estadão
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Datafolha: 46% veem piora da economia — com desemprego no mínimo histórico
O povo está errado? Ou o governo está medindo as coisas certas do jeito errado? Em ano eleitoral, quem vota é o bolso.
InfoMoney / Datafolha
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O café de hoje ainda está quente. Aproveita.