Daily Brew
Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.
Quarta-feira · 11 de março de 2026
☕ Bom dia

Terça-feira foi um dia de alívio — pelo menos para quem não é acionista da Petrobras.

Enquanto os mercados celebravam o possível fim de uma guerra, o Brasil seguia construindo silenciosamente outra — essa sem bomba, sem manchete e sem data para acabar. O arcabouço fiscal prometeu dívida de 76% do PIB. A projeção hoje é 84%. A diferença não é erro de cálculo. É escolha deliberada, feita em ano eleitoral, com o custo carimbado para o próximo presidente pagar.

E o Datafolha publicou hoje que 46% dos brasileiros já sentem o peso disso — mesmo com o desemprego no mínimo histórico. O governo responde com o IBGE. O eleitor responde com a fatura do cartão. O Copom decide semana que vem. Café na mão — esse vai precisar ser duplo.

⚡ Mais rápido
Irã: embaixador diz que aceita cessar-fogo "se vier dos agressores" — o chanceler iraniano confirmou à NBC que não há negociação nem contato com os EUA. Trump respondeu que já venceu.
G7 de Energia se reúne hoje para discutir liberação de reservas estratégicas de petróleo — Macron disse que a França está "pronta". Os EUA dizem que estão "avaliando". Discutir e liberar continuam sendo verbos bem diferentes.
Amanhã sai o IPCA de fevereiro às 9h (IBGE) — dado pré-choque, esperado comportado. O mercado vai ler cada décimo como se fosse o julgamento final antes do Copom de semana que vem. Praticamente, é.
A conta que vem em 2027
Fiscal · Brasil
O governo prometeu dívida de 76% do PIB. Vai entregar 84%. A diferença tem nome: eleição.

Quando o arcabouço fiscal foi lançado em março de 2023, a promessa era clara: a dívida bruta se estabilizaria em 76,54% do PIB em 2026. Hoje, a projeção do mercado é 84%. O IFI projeta 82,4%. Para estabilizar a dívida agora, a Warren calcula que seria necessário um superávit primário de 2,3% do PIB — e o governo promete 0,25%. No acumulado dos últimos 12 meses, as contas registram déficit de R$ 62 bilhões. Não é uma meta difícil de cumprir. É uma meta que existe para não ser cumprida.

O mecanismo é simples: mais de 90% dos gastos da União são obrigatórios e crescem automaticamente. A isenção do IR para renda até R$ 5.000 injeta R$ 28 bilhões na economia em 2026 — ano eleitoral, que coincidência. Precatórios foram retirados do cálculo da meta. Despesas de saúde e educação voltaram a crescer com a receita. O gasto real aumentará 3% em 2026, justamente no pico da campanha. Não é política fiscal. É engenharia eleitoral com notação contábil.

O resultado é que quem ganhar outubro de 2026 herda um orçamento sem margem de manobra e a conta de tudo que foi prometido e não pago. Tarcísio de Freitas já calculou esse problema — e está avaliando se realmente quer o cargo. Não é falta de ambição. É matemática.

🎓 O que a teoria diz
Dominância fiscal: quando a dívida pública cresce sem controle, o Banco Central perde o poder de usar juros para controlar a inflação — qualquer alta da Selic só aumenta o custo da dívida e piora o ciclo. O Brasil não chegou lá ainda, mas a trajetória atual é a estrada. Com dívida projetada acima de 86% do PIB em 2027 pelo IFI, e mais de 90% dos gastos primários obrigatórios, o grau de liberdade do próximo governo é quase zero.
E daí?
No curto prazo, o impacto está na curva de juros longa e no câmbio. O mercado já precifica que o próximo governo vai ter que apertar o cinto. O problema: "apertar o cinto" com 90% do orçamento engessado não é dieta — é cirurgia. E ninguém faz cirurgia em ano de eleição. O ajuste de 2027 vai ser doloroso, independentemente de quem ganhar.
📌 O número do dia
46%
dos brasileiros acham que a economia piorou — Datafolha
Quase metade do país sente que as coisas pioraram nos últimos meses. Alguma surpresa?
📊 O gráfico do dia
A guerra que não termina (ainda)
Geopolítica · Oriente Médio
Trump disse que venceu. O Irã não recebeu o comunicado.

Na segunda-feira, Trump afirmou à CBS que o Irã "não tem marinha, não tem comunicações, não tem força aérea" e que a guerra estaria "praticamente concluída". Na terça de manhã, o secretário de Defesa Pete Hegseth declarou que aquele seria "o dia de ataques mais intensos" desde o início do conflito. Teerã foi bombardeada novamente.

O secretário de Energia Chris Wright publicou numa rede social que a Marinha americana havia escoltado um petroleiro pelo Estreito de Ormuz — notícia que derrubou ainda mais o petróleo. Só que o post foi deletado minutos depois, e a Casa Branca confirmou que isso não havia acontecido. O governo americano desinformou o mercado em tempo real, e o petróleo foi e voltou na mesma tarde. Gestão de crise de primeira linha.

O petróleo chegou a cair até 18% durante a sessão, mas fechou bem acima das mínimas depois que ficou claro que nenhum petroleiro havia passado pelo Estreito. A rota continua travada. O alívio foi verbal, não real. Ou seja: o presidente diz que acabou, o secretário de Defesa diz que ainda teria o dia mais pesado, e o inimigo diz que vai fechar tudo. O mercado escolheu acreditar no chefe — por ora.

🎓 O que a teoria diz
Guerras terminam de três formas: vitória militar decisiva, exaustão mútua, ou negociação com mediador. Este conflito tem características da segunda e da terceira ao mesmo tempo — o que historicamente produz os piores tipos de paz: frágeis, lentos e caros. Enquanto Trump acha que venceu e o Irã acha que resistiu com sucesso, ninguém assina nada. A paz de Omã só avança quando os dois lados estiverem exaustos o suficiente para aceitar empate.
E daí?
O petróleo vai continuar sendo o termômetro em tempo real desta guerra. Cada declaração de Trump move o barril para baixo. Cada resposta iraniana, para cima. Para o Brasil, cada 10% de alta no Brent adiciona cerca de 0,25 p.p. ao IPCA.
Cortar ou não cortar
Monetária · Brasil
O Copom se reúne semana que vem com o Irã sem cessar-fogo e a inflação de março ainda por vir. Nunca foi tão fácil não saber o que fazer.

A reunião do Copom está marcada para os dias 17 e 18 de março. O cenário-base do mercado — um corte de 0,50 p.p., de 15% para 14,5% — sobreviveu ao início da guerra, sobreviveu ao Brent a US$ 119 e sobreviveu ao dólar em crise existencial. Mas está ficando mais difícil defender esse script com a cara reta. O IPCA de fevereiro sai amanhã cedo e é dado pré-choque — deve vir comportado. O problema é que o Copom não decide o passado. Decide o futuro. E o futuro de março está cheio de bombas na fila esperando para explodir no IPCA.

A matemática é ingrata: cada US$ 10 de alta no Brent adiciona cerca de 0,25 p.p. ao IPCA. O petróleo subiu mais de 40% desde o início do conflito. A gasolina está defasada em 49%. E eventual crise de abastecimento não aparece no IPCA imediatamente, mas sim no preço do frete, dos alimentos, do tudo-que-anda-de-caminhão que é quase tudo. O Banco Central cortaria juros num momento em que o principal risco é exatamente inflação. Não é confortável.

O mercado continua apostando no corte. O Focus desta semana projeta Selic em 12,13% no fim de 2026 — o que implica ainda vários cortes pela frente. A lógica: a atividade econômica está desacelerando, o crédito está caro, e segurar os juros agora por conta de um choque externo que pode ser temporário seria um erro. Mas a lógica alternativa também tem endereço: cortar juros com o Irã ainda fumegando seria apostar que tudo vai se resolver bem. O Copom vai ter que escolher. E vai ter que errar ou acertar sem saber o resultado antes.

🎓 O que a teoria diz
Choque de oferta vs. política monetária: bancos centrais são ensinados a "atravessar" choques de oferta temporários sem reagir com juros — porque apertar o crédito não traz de volta o petróleo que ficou no Estreito de Ormuz. Mas quando o choque vira inflação inercial, ou quando a desancoragem das expectativas começa, o banco central que não reagiu se arrepende. O dilema do Copom é exatamente esse: o choque é temporário ou está virando estrutural? Amanhã, quando o IPCA de fevereiro sair, eles vão ter um dado a mais. Só um.
E daí?
Se o Copom cortar 0,50 p.p. na semana que vem e o Irã escalar de novo, vai parecer precipitado. Se o Copom pausar o ciclo e a guerra esfriar, vai parecer excessivamente cauteloso. O que importa para o leitor: a decisão de semana que vem vai mover juros longos, câmbio e percepção de credibilidade do BC. Bloqueia a agenda para 18 de março às 18h30.
O camarote da China
Economia Global · Comércio
Enquanto o mundo pegava fogo, a China bateu recorde de exportações.

Os dados saíram ontem: exportações chinesas cresceram 21,8% em janeiro e fevereiro de 2026, contra projeção de 7%. O superávit comercial foi de US$ 213,6 bilhões — US$ 44 bilhões a mais do que no mesmo período de 2025. O destaque foram os semicondutores, com alta de 66,5% em relação ao ano anterior. A maior taxa de crescimento em mais de uma década — na exata indústria que os EUA passaram dois anos tentando bloquear.

A estratégia ficou clara: com o Estreito de Ormuz fechado e o Ocidente distraído com guerra, Pequim estocou commodities (minério de ferro, petróleo bruto) no começo do ano para proteger suas fábricas, redirecionou exportações para ASEAN (+29,4%), Europa (+27,8%) e Coreia do Sul (+27%), e acelerou embarques para os EUA enquanto a Suprema Corte americana ainda mantém parte das tarifas suspensas. É gestão de crise de manual — manual deles.

Para o Brasil, a equação é dupla: a demanda chinesa por commodities sustenta as exportações de soja e minério. Mas a China exportando mais semicondutores e tecnologia para o mundo inteiro aumenta a pressão sobre a indústria brasileira de transformação — que já não é exatamente conhecida por sua competitividade global.

🎓 O que a teoria diz
Desvio de comércio em crises: quando grandes mercados ficam instáveis, exportadores eficientes redirecionam fluxos para onde há menos resistência. As tarifas americanas de 2025 forçaram a China a diversificar rotas — e a guerra no Oriente Médio acelerou o processo. O resultado: uma China menos vulnerável à pressão unilateral dos EUA do que antes das sanções. O tiro americano saiu pela culatra.
E daí?
A China vai continuar como maior parceiro comercial do Brasil — e isso é uma faca de dois gumes. Ótimo para quem exporta soja, petróleo e minério. Ruim para quem precisa competir com produtos industrializados chineses. O Brasil ainda não decidiu se quer ser fornecedor de matéria-prima para a fábrica do mundo — ou algo mais do que isso.
📈 Mercados — fechamento de terça (10/3)
Ativo Fechamento Variação Máx / Mín do dia
Ibovespa 183.447 pts ▲ +1,40% 184,2k / 179k
Dólar (BRL) R$ 5,1575 ▼ -0,13% R$ 5,18 / R$ 5,14
Petróleo Brent US$ 90,39 ▼ -8,0% US$ 99 / US$ 85
S&P 500 6.783 pts ▼ -0,20% 6.806 / 6.759
Dow Jones 47.707 pts ▼ -0,07% 47.634 / 47.009
Nasdaq 22.709 pts ▲ +0,06% 22.845 / 22.640
Bitcoin US$ 71.246 ▲ +3,3% US$ 71,7k / US$ 68,4k
* Wall Street terminou praticamente no zero — Dow -0,07%, S&P -0,20%, Nasdaq flat. Bitcoin em US$ 71.246. Petróleo Brent fechou em US$ 90,39 após queda de 8%.
💬 A frase
"O governo mira em 2026 como se não houvesse 2027."
— Aliados de Tarcísio de Freitas, sobre o fiscal brasileiro, ao CNN Brasil
Tradução do economês: o governo está gastando em ano eleitoral como se a conta fosse paga por quem ganhar — de preferência, a oposição. É racional do ponto de vista eleitoral e catastrófico do ponto de vista fiscal. Lula pegou o país com dívida de 72% do PIB e vai entregar em 84%. O próximo presidente herda o pior orçamento em décadas. Tarcísio já calculou. Daí dizem que vencer em 2026 pode ser uma armadilha.
📅 Agenda
Hoje Reunião dos ministros de Energia do G7 — discutem liberação de reservas estratégicas de petróleo ALTO IMPACTO
Hoje Coletiva militar dos EUA sobre o conflito no Irã — cada frase move petróleo, câmbio e bolsa em cadeia ALTO IMPACTO
Qui 12 · 9h IPCA de fevereiro — IBGE — último dado relevante antes do Copom; pré-choque, esperado comportado; composição importa tanto quanto o número cheio ALTO IMPACTO
17–18/mar Reunião do Copom — corte de 0,50 p.p. ainda é cenário-base; depende do IPCA de amanhã e de o Irã não fazer nada dramático até lá ALTO IMPACTO
27/mar Assembleia de credores do GPA — 46% aderiram, precisam de mais de 50%; próxima crise do varejo ganha forma (ou não) nessa data MÉDIO IMPACTO
📚 Vale ler hoje
Irã aceita cessar-fogo "se proposta vier dos agressores" — a diplomacia em três atos
Embaixador diz que aceita, chanceler diz que não pediu, parlamento quer continuar lutando. Um governo muito bem coordenado.
Poder360
Defasagem do diesel chega a 85% e importadores param de comprar
15 dias de estoque, mercado travado e a Petrobras em silêncio há mais de 300 dias. A bomba — no sentido literal — está com o pavio aceso.
Times Brasil / Estadão
Datafolha: 46% veem piora da economia — com desemprego no mínimo histórico
O povo está errado? Ou o governo está medindo as coisas certas do jeito errado? Em ano eleitoral, quem vota é o bolso.
InfoMoney / Datafolha
🎯 Boa quarta
Trump disse que venceu a guerra. O Irã disse que não há negociação. O petróleo caiu 8% num dia. O Datafolha mostrou que 69% de quem entende de mercado acha que a economia piorou — e o governo chamou isso de percepção distorcida. O fiscal vai entregar dívida 8 pontos acima do prometido, em ano eleitoral, que surpresa.

O café de hoje ainda está quente. Aproveita.

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