Daily Brew — 16 de março de 2026
Daily Brew
Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.
Segunda-feira · 16 de março de 2026
☕ Bom dia

O fim de semana acabou. O petróleo (ainda) não, mas quase.

Enquanto você aproveitava o domingo, o Brent cruzava US$ 105 o barril — maior patamar desde 2022 — e os futuros de Nova York já abriam no vermelho antes mesmo de o mercado americano ligar as luzes. Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq todos no campo negativo, dando sequência à pior série de Wall Street no ano: três semanas consecutivas de queda, com o S&P 500 no menor nível do ano.

A guerra entre EUA e Irã entra na terceira semana sem cessar-fogo e sem acordo. O Estreito de Ormuz segue na prática fechado para petroleiros, e cada dia que passa é mais um dólar no preço do barril.

E no meio de tudo isso, esta semana ainda traz a Super Quarta: Fed e Copom decidindo juros no mesmo dia, com o mundo em chamas e a inflação batendo na porta dos dois lados do Atlântico. Nada como um pouco de pressão para concentrar a atenção dos banqueiros centrais. Café na mão. Vai ser uma semana longa.

Sentido, mas inabalado
Mercados · Estados Unidos
S&P 500 no menor nível do ano, petróleo a US$ 105 e guerra sem prazo de fim. E o mercado americano? Sentido, mas inabalado.

Os futuros de Nova York abriram a noite de domingo no vermelho — Dow Jones recuando 131 pontos (0,28%), S&P 500 cedendo 0,28% e Nasdaq 100 perdendo 0,38%. Na semana encerrada na sexta, o S&P 500 caiu 1,6%, o Dow Jones 2% e o Nasdaq 1,3% — terceira semana seguida no vermelho, com o índice de referência americano fechando no menor nível do ano.

O vilão da história é o mesmo de sempre ultimamente: o petróleo. O Brent fechou a semana passada acima de US$ 100 pela primeira vez desde 2022 e neste domingo avançava mais 2,6%, para US$ 105,81. O WTI acompanhava, a US$ 100,88. A explicação é simples e cara: o Estreito de Ormuz — corredor por onde passa cerca de 20% de todo o petróleo consumido no planeta — está na prática paralisado desde o início da guerra. Nenhum petroleiro quer arriscar a travessia. Os seguradores, menos ainda. Na sexta-feira, Trump ordenou ataques contra ativos militares iranianos na ilha de Kharg e avisou que instalações de exportação de petróleo podem ser o próximo alvo caso o Irã continue bloqueando o estreito. Ao mesmo tempo, disse à NBC que o Irã "quer fazer um acordo" — mas que ele ainda não está pronto. É a estratégia clássica de quem quer negociar: primeiro você destrói algumas coisas, depois você senta à mesa.

O curioso — e revelador — é que, apesar de tudo isso, as bolsas americanas ainda não afundaram de verdade. O S&P 500 está apenas 5% abaixo da máxima histórica de janeiro. Cinco por cento. Com uma guerra no Oriente Médio, o principal corredor de petróleo do planeta bloqueado e o presidente dos EUA ameaçando atacar instalações de exportação de petróleo no Irã como se fosse uma opção normal de política externa. O mercado americano é, reconheçamos, uma criatura de tese própria.

A explicação vem de Ed Yardeni, do Yardeni Research, e é ao mesmo tempo sensata e ligeiramente perturbadora: os analistas de mercado seguem revisando para cima as estimativas de lucro das empresas americanas para 2026 e 2027. Guerra? Petróleo? Inflação? Tudo bem — as empresas vão lucrar. Essa é a aposta. E não é irracional: historicamente, apostar contra o S&P 500 no longo prazo é uma das estratégias mais consistentemente perdedoras que existem. O mercado americano já sobreviveu a duas guerras mundiais, uma pandemia, quatro recessões e pelo menos três presidentes que não deveriam ter tido acesso ao Twitter. Vai sobreviver a Ormuz.

O problema — e sempre tem um problema — é que essa fé nos earnings funciona até o momento em que os analistas começam a revisar os números para baixo. Petróleo acima de US$ 100 por semanas seguidas aumenta custos de produção, logística e energia de praticamente toda empresa do planeta. Mais cedo ou mais tarde, isso aparece nas margens. Quando os analistas perceberem, a revisão vai ser rápida e pouco gentil. Por ora, o mercado está olhando para a guerra e decidindo que ela é o problema de outra pessoa.

🎓 O que a teoria diz
Dissonância cognitiva de mercado: Quando os fundamentos apontam para uma direção e os preços seguem outra, economistas comportamentais falam em dissonância — o investidor sabe que algo está errado, mas não age porque agir primeiro significa perder o eventual upside se o mercado continuar subindo. Combinado com o viés histórico de que "o mercado americano sempre se recupera", o resultado é exatamente o que estamos vendo: todo mundo reconhece que a situação é séria, mas ninguém quer ser o primeiro a vender. É a versão financeira de uma festa que já deveria ter acabado — todo mundo está esperando o outro ir embora primeiro.
E daí?
O mercado americano pode continuar resiliente por mais tempo do que parece razoável — e apostar contra ele tem um histórico ruim. Mas o gatilho para uma correção mais acentuada é claro: quando os analistas começarem a revisar os lucros esperados para baixo, a sustentação cai. Fique de olho nos resultados corporativos das próximas semanas e em qualquer sinal de que o choque de energia está aparecendo nas margens das empresas. Quando isso acontecer, o mercado vai parar de fazer de conta que está tudo bem — e vai parar rápido.
A Super Quarta que ninguém pediu mas todo mundo vai ter
Política Monetária · Brasil e EUA
Fed e Copom decidem juros no mesmo dia. O petróleo está alto, a inflação subiu e o BC prometeu cortar. Vai cumprir? Spoiler: depende do que "cumprir" significa.

Quarta-feira vai ser longa. Às 15h (horário de Brasília), o Federal Reserve divulga sua decisão. Às 18h30, o Copom faz o mesmo. Dois bancos centrais. Uma tarde. Um mercado financeiro inteiro tomando ansiolítico preventivo.

No Fed, a decisão já está tomada antes de acontecer: mais de 92% de probabilidade de manutenção dos juros na banda atual de 3,5% a 3,75%. Nenhuma surpresa. O que vai mover o mercado é o dot plot — o gráfico onde cada diretor do Fed registra sua projeção para os juros futuros, como se fosse uma votação secreta mas com PowerPoint. O dot plot atual mostra um corte previsto para 2026. Se mudar para dois cortes, o mercado respira. Se for para zero cortes, o mercado não respira.

E tem mais: esta é a primeira reunião do Fed que incorpora formalmente dois choques novos — as tarifas globais de 15% que Trump impôs em fevereiro e a alta do petróleo causada pela guerra. Os dois são inflacionários. Jerome Powell vai ter que explicar como o Fed equilibra isso tudo sem sufocar a economia. Boa sorte, Jerome. Sinceramente.

No Brasil, o Copom chega à quarta carregando uma promessa que o petróleo tornou cara. O BC sinalizou explicitamente em janeiro que pretendia começar a cortar a Selic em março — "em se confirmando o cenário esperado". O cenário, convenhamos, não confirmou nada do que se esperava. O IPCA de fevereiro veio em 0,70%, acima das projeções. O petróleo saiu de US$ 72 para US$ 105 em quinze dias. E o mercado rachou ao meio com uma precisão que beira o sadismo: pesquisa da Bloomberg com dez economistas mostra exatamente cinco apostando em corte de 0,5 ponto e cinco em apenas 0,25 ponto. Cara ou coroa. Selic ou Selic menor.

Nas opções de Copom da B3, a probabilidade de corte de 0,5 ponto desabou de 77,5 para 39 entre o início de março e o dia 11 — enquanto a aposta em 0,25 ponto avançou de 20 para 51. O Citi foi direto: corte de 0,25 ponto, para 14,75%. Ivo Chermont, economista-chefe da Quantitas, resumiu com a elegância de quem já viu esse filme antes: "Se tem alguma coisa que faria o BC sair da rota pré-programada de cortar 0,50 ponto, seria o risco global sintetizado pelo preço do petróleo." O Copom prometeu cortar. A questão é o quanto — e se o comunicado que vem depois vai soar como um BC no controle da situação ou como um BC rezando para que a situação não piore até a próxima reunião.

🎓 O que a teoria diz
Credibilidade e ancoragem de expectativas: Bancos centrais que sinalizam uma ação e depois recuam sem justificativa perdem credibilidade — e credibilidade é o ativo mais valioso de um BC, porque é o que faz as pessoas acreditarem que a inflação vai cair mesmo antes de ela cair de fato. O Copom está numa sinuca: se cortar 0,25 ponto, cumpre o prometido mas entrega o mínimo. Se não cortar nada, explica por que mudou de ideia num ambiente que ficou mais difícil. A terceira opção — cortar 0,5 ponto — existe, mas exige coragem que o petróleo a US$ 105 torna cara. Nenhuma das escolhas é confortável. Bem-vindo à política monetária em tempo de guerra.
E daí?
Se o Copom cortar 0,25 ponto (o mais provável), pouco muda no curto prazo — a Selic ainda fica em 14,75%, absurdamente alta em qualquer comparação internacional. O que importa é o sinal sobre o ritmo futuro: se o comunicado for cauteloso, o mercado entende que os cortes serão lentos e a renda fixa continua atraente. Se for mais animado, abre espaço para reprecificação da bolsa. Fique de olho no comunicado na quarta à noite — não na decisão em si, mas no que vem escrito depois dela.
📌 O número do dia
US$ 105,81
Brent neste domingo · Maior nível desde 2022
Passou de US$ 72 no início de março para US$ 105 em duas semanas. Isso é alta de quase 47% em quinze dias — o tipo de movimento que os manuais de economia descrevem como "choque de oferta" e que os motoristas descrevem com palavras que não cabem nesta newsletter.
📊 O gráfico do dia
S&P 500 — evolução em 12 meses: +18,55%
Em 12 meses, +18,55%. No ano, -3,58%: Mesmo com uma guerra no Oriente Médio bloqueando 20% do petróleo global, ainda está caindo menos do que a maioria dos analistas ousaria projetar para um cenário desses. Três semanas de conflito, três semanas de alta no petróleo e o S&P 500 ainda está a apenas 5% da máxima histórica. O mercado americano, reconheçamos, tem uma resiliência que beira a teimosia. A questão é até quando.
💬 A frase
"A resiliência aparente do S&P 500 pode ser atribuída ao otimismo crescente dos analistas sobre as estimativas de lucro por ação para 2026 e 2027."
— Ed Yardeni, presidente do Yardeni Research · CNBC, 15 de março de 2026
Tradução: o mercado não está caindo mais porque os analistas ainda acreditam que as empresas vão lucrar bem — a despeito de guerra, petróleo a US$ 105 e Fed sem espaço para cortar. É a mesma lógica do personagem que cai do décimo andar e, no quinto, pensa "até aqui tudo bem". O colchão é o dot plot de quarta.
📈 Mercados — fechamento de sexta (13/03)
Ativo Fechamento Dia Semana
Ibovespa 177.653 pts ▼ −0,91% ▼ −0,95%
Dólar (BRL) R$ 5,3200 ▲ +1,40% ▲ +1,45%
Petróleo Brent US$ 103,50 ▲ +3,00% ▲ +11,2%
S&P 500 6.637 pts ▼ −0,52% ▼ −1,52%
Dow Jones 46.597 pts ▼ −0,17% ▼ −1,90%
Nasdaq 22.100 pts ▼ −0,95% ▼ −1,28%
* Wall Street encerrou a pior semana do ano: S&P 500 −1,6%, Dow −2%, Nasdaq −1,3%. Petróleo acima de US$ 100 pela primeira vez desde 2022. Futuros de domingo já apontavam para mais do mesmo.
📅 Agenda da semana
Hoje, 16/03 GTC Nvidia — Keynote de Jensen Huang em San Jose (15h, Brasília). Jensen vai ao palco. O mercado vai ao palco junto. Pode mover o Nasdaq — e por tabela o humor global de pessoas que não deveriam ter tanto do seu patrimônio em semicondutores. MÉDIO IMPACTO

IBC-BR — Prévia do PIB de janeiro. O número vai sair. Alguém vai ficar surpreso. MÉDIO IMPACTO
Ter, 17/03 IGP-10 — Inflação ao produtor de março. Spoiler: provavelmente subiu. MÉDIO IMPACTO
Qua, 18/03 Super Quarta — Fed (15h) + Powell fala (15h30) + Dot plot + Copom (~18h30). Separa a tarde. Cancela o jantar. ALTO IMPACTO
Qui, 19/03 Banco da Inglaterra e BCE — Porque uma Super Quarta não era suficiente, quinta-feira resolve terminar o trabalho. ALTO IMPACTO
📚 Vale ler hoje
Trump pede coalizão naval para Ormuz — e a resposta foi um silêncio ensurdecedor
Trump pediu que China, França, Japão, Coreia do Sul e Reino Unido mandem navios de guerra para o estreito. Nenhum país se comprometeu publicamente. Analistas dizem que a proposta parece mais uma tentativa de acalmar os mercados do que um plano concreto.
Al Jazeera
Com guerra no radar, mercado recalcula rota para juros às vésperas do Copom
O Citi, o BNP Paribas e a Quantitas já migraram para a projeção de corte de 0,25 ponto. O mercado de opções da B3 confirma: a aposta majoritária mudou. Tudo que você precisa saber antes de quarta-feira.
CNN Brasil
Copom em março: o BC prometeu cortar. O petróleo complicou. E agora?
O Safra projeta corte inicial de 0,25 ponto — bem abaixo dos 0,5 que o mercado esperava antes da guerra. A análise mais completa sobre o que o Copom deve fazer e, mais importante, o que vai dizer depois.
O Especialista · Banco Safra

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