O fim de semana acabou. O petróleo (ainda) não, mas quase.
Enquanto você aproveitava o domingo, o Brent cruzava US$ 105 o barril — maior patamar desde 2022 — e os futuros de Nova York já abriam no vermelho antes mesmo de o mercado americano ligar as luzes. Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq todos no campo negativo, dando sequência à pior série de Wall Street no ano: três semanas consecutivas de queda, com o S&P 500 no menor nível do ano.
A guerra entre EUA e Irã entra na terceira semana sem cessar-fogo e sem acordo. O Estreito de Ormuz segue na prática fechado para petroleiros, e cada dia que passa é mais um dólar no preço do barril.
E no meio de tudo isso, esta semana ainda traz a Super Quarta: Fed e Copom decidindo juros no mesmo dia, com o mundo em chamas e a inflação batendo na porta dos dois lados do Atlântico. Nada como um pouco de pressão para concentrar a atenção dos banqueiros centrais. Café na mão. Vai ser uma semana longa.
Os futuros de Nova York abriram a noite de domingo no vermelho — Dow Jones recuando 131 pontos (0,28%), S&P 500 cedendo 0,28% e Nasdaq 100 perdendo 0,38%. Na semana encerrada na sexta, o S&P 500 caiu 1,6%, o Dow Jones 2% e o Nasdaq 1,3% — terceira semana seguida no vermelho, com o índice de referência americano fechando no menor nível do ano.
O vilão da história é o mesmo de sempre ultimamente: o petróleo. O Brent fechou a semana passada acima de US$ 100 pela primeira vez desde 2022 e neste domingo avançava mais 2,6%, para US$ 105,81. O WTI acompanhava, a US$ 100,88. A explicação é simples e cara: o Estreito de Ormuz — corredor por onde passa cerca de 20% de todo o petróleo consumido no planeta — está na prática paralisado desde o início da guerra. Nenhum petroleiro quer arriscar a travessia. Os seguradores, menos ainda. Na sexta-feira, Trump ordenou ataques contra ativos militares iranianos na ilha de Kharg e avisou que instalações de exportação de petróleo podem ser o próximo alvo caso o Irã continue bloqueando o estreito. Ao mesmo tempo, disse à NBC que o Irã "quer fazer um acordo" — mas que ele ainda não está pronto. É a estratégia clássica de quem quer negociar: primeiro você destrói algumas coisas, depois você senta à mesa.
O curioso — e revelador — é que, apesar de tudo isso, as bolsas americanas ainda não afundaram de verdade. O S&P 500 está apenas 5% abaixo da máxima histórica de janeiro. Cinco por cento. Com uma guerra no Oriente Médio, o principal corredor de petróleo do planeta bloqueado e o presidente dos EUA ameaçando atacar instalações de exportação de petróleo no Irã como se fosse uma opção normal de política externa. O mercado americano é, reconheçamos, uma criatura de tese própria.
A explicação vem de Ed Yardeni, do Yardeni Research, e é ao mesmo tempo sensata e ligeiramente perturbadora: os analistas de mercado seguem revisando para cima as estimativas de lucro das empresas americanas para 2026 e 2027. Guerra? Petróleo? Inflação? Tudo bem — as empresas vão lucrar. Essa é a aposta. E não é irracional: historicamente, apostar contra o S&P 500 no longo prazo é uma das estratégias mais consistentemente perdedoras que existem. O mercado americano já sobreviveu a duas guerras mundiais, uma pandemia, quatro recessões e pelo menos três presidentes que não deveriam ter tido acesso ao Twitter. Vai sobreviver a Ormuz.
O problema — e sempre tem um problema — é que essa fé nos earnings funciona até o momento em que os analistas começam a revisar os números para baixo. Petróleo acima de US$ 100 por semanas seguidas aumenta custos de produção, logística e energia de praticamente toda empresa do planeta. Mais cedo ou mais tarde, isso aparece nas margens. Quando os analistas perceberem, a revisão vai ser rápida e pouco gentil. Por ora, o mercado está olhando para a guerra e decidindo que ela é o problema de outra pessoa.
Quarta-feira vai ser longa. Às 15h (horário de Brasília), o Federal Reserve divulga sua decisão. Às 18h30, o Copom faz o mesmo. Dois bancos centrais. Uma tarde. Um mercado financeiro inteiro tomando ansiolítico preventivo.
No Fed, a decisão já está tomada antes de acontecer: mais de 92% de probabilidade de manutenção dos juros na banda atual de 3,5% a 3,75%. Nenhuma surpresa. O que vai mover o mercado é o dot plot — o gráfico onde cada diretor do Fed registra sua projeção para os juros futuros, como se fosse uma votação secreta mas com PowerPoint. O dot plot atual mostra um corte previsto para 2026. Se mudar para dois cortes, o mercado respira. Se for para zero cortes, o mercado não respira.
E tem mais: esta é a primeira reunião do Fed que incorpora formalmente dois choques novos — as tarifas globais de 15% que Trump impôs em fevereiro e a alta do petróleo causada pela guerra. Os dois são inflacionários. Jerome Powell vai ter que explicar como o Fed equilibra isso tudo sem sufocar a economia. Boa sorte, Jerome. Sinceramente.
No Brasil, o Copom chega à quarta carregando uma promessa que o petróleo tornou cara. O BC sinalizou explicitamente em janeiro que pretendia começar a cortar a Selic em março — "em se confirmando o cenário esperado". O cenário, convenhamos, não confirmou nada do que se esperava. O IPCA de fevereiro veio em 0,70%, acima das projeções. O petróleo saiu de US$ 72 para US$ 105 em quinze dias. E o mercado rachou ao meio com uma precisão que beira o sadismo: pesquisa da Bloomberg com dez economistas mostra exatamente cinco apostando em corte de 0,5 ponto e cinco em apenas 0,25 ponto. Cara ou coroa. Selic ou Selic menor.
Nas opções de Copom da B3, a probabilidade de corte de 0,5 ponto desabou de 77,5 para 39 entre o início de março e o dia 11 — enquanto a aposta em 0,25 ponto avançou de 20 para 51. O Citi foi direto: corte de 0,25 ponto, para 14,75%. Ivo Chermont, economista-chefe da Quantitas, resumiu com a elegância de quem já viu esse filme antes: "Se tem alguma coisa que faria o BC sair da rota pré-programada de cortar 0,50 ponto, seria o risco global sintetizado pelo preço do petróleo." O Copom prometeu cortar. A questão é o quanto — e se o comunicado que vem depois vai soar como um BC no controle da situação ou como um BC rezando para que a situação não piore até a próxima reunião.

* Wall Street encerrou a pior semana do ano: S&P 500 −1,6%, Dow −2%, Nasdaq −1,3%. Petróleo acima de US$ 100 pela primeira vez desde 2022. Futuros de domingo já apontavam para mais do mesmo.
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