Ontem o Brent abriu em US$ 116. Fechou em US$ 108. A diferença foi uma declaração do Trump ao Financial Times dizendo que quer ficar com o petróleo iraniano — e outra declaração, horas depois, dizendo que as negociações vão "muito bem". O mercado acreditou nas duas. Em momentos diferentes.
O Ibovespa ficou no meio do caminho, subiu 0,53% e encerrou março com queda de 7% no mês. O mês que começou com Brent a US$ 70 e bolsa em 192 mil pontos fecha com petróleo acima de US$ 100 e expectativa de inflação em 4,31% — a 0,19 ponto do teto da meta.
Powell disse em Harvard que o Fed está "esperando e vendo". Galípolo disse em São Paulo que o Copom estava "ganhando tempo". É a mesma política monetária em dois idiomas. Hoje é o último dia de março. A frase do mês: os dois maiores bancos centrais do mundo estão parados diante de uma guerra que nenhum deles controla.
De madrugada, o Financial Times publicou a entrevista: Trump quer "ficar com o petróleo do Irã" e cogita tomar a Ilha de Kharg — o terminal que concentra 90% das exportações iranianas. O Brent disparou para US$ 116, maior nível desde 2022. Wall Street abriu em queda. O dólar subiu. O ouro também. A Petrobras foi para cima, porque é sempre assim.
Por volta das 11h, a narrativa virou. Relatos de que EUA e Irã estariam negociando de forma mais concreta começaram a circular. Trump, no Air Force One, disse que tudo vai "muito bem" e que um acordo pode ser fechado "em breve". O Brent recuou para US$ 108. Wall Street fechou mista — Dow positivo, S&P e Nasdaq ainda no vermelho. O mercado ontem foi basicamente um gráfico de como uma frase de Trump vale US$ 8 por barril.
O petróleo acumula alta de 60% em março — o maior salto mensal desde a Guerra do Golfo em 1990. Os analistas do Macquarie estimam 40% de probabilidade de o Brent chegar a US$ 200 se o conflito continuar até junho. Essa probabilidade, três semanas atrás, era zero.

O Focus de segunda elevou a expectativa de IPCA 2026 de 4,17% para 4,31% — a maior revisão semanal desde o início da guerra. O mercado está a 0,19 ponto do teto da meta (4,5%). Com o Brent oscilando entre US$ 108 e US$ 116 e o prazo de Trump em 6 de abril, o próximo Focus pode ser o primeiro com expectativa fora do limite. Quando isso acontece, qualquer corte de juros passa a parecer negligência — e o Copom perde liberdade de manobra.
Galípolo disse no Safra Macro Day que o Copom cortou 0,25pp para "ganhar tempo" e que o choque do petróleo pressiona inflação para cima e atividade para baixo — ao mesmo tempo. É estagflação sem o nome. Em Harvard, Powell disse que o Fed está em "boa posição para esperar e ver", admitiu que as expectativas de inflação de curto prazo já subiram e reconheceu que política monetária tem "efeito limitado" em choques de oferta. Ninguém vai apertar o botão agora.
Powell vai embora em maio. Seu substituto, Kevin Warsh, está travado no Senado enquanto uma investigação do DOJ sobre o próprio Powell continua. Se não for confirmado a tempo, Powell vira "presidente pro tempore" — e o Fed entra na reunião de maio sem saber quem manda. Mais incerteza sobre o dólar. Mais pressão sobre emergentes.
Março de 2026 vai para o livro de recordes. O Brent acumulou alta de 60% — maior variação mensal desde a Guerra do Golfo em 1990. O Ibovespa, que estava em 192 mil pontos em 25 de fevereiro, encerra março abaixo de 183 mil — cerca de 7% de queda. O dólar foi de R$ 5,12 (mínima pré-guerra) para R$ 5,23. O Focus foi de 3,91% para 4,31%. Em 30 dias, uma guerra reconfigurou todos os cenários macroeconômicos do Brasil para 2026.
Hoje saem o Caged de fevereiro — expectativa de ~300 mil vagas formais criadas, abaixo do ritmo do ano passado mas ainda sólido — e o resultado primário do governo central de fevereiro. Dados parciais indicam déficit de R$ 30 bilhões, melhor do que o esperado. No cenário normal, seriam os dados do dia. No cenário atual, concorrem com declarações de Trump a bordo do Air Force One — e perdem.
No front eleitoral — que o mercado está começando a colocar no radar —, Flávio Bolsonaro segue numericamente à frente de Lula no segundo turno em três pesquisas consecutivas. Ratinho Junior desistiu. O cenário de dois blocos fechados está se consolidando. Para o câmbio: quanto mais competitiva a eleição parecer, maior o prêmio de risco que os estrangeiros exigem para permanecer no Brasil.
Fechamento 17h–19h (30/03). *Brent: máxima intraday US$ 116,20 ao amanhecer; fechou em US$ 108,75 com relatos de negociações. Fonte: B3, Investing.com · 30/03/2026
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Como US$ 116 de manhã virou US$ 108 à tarde e o que isso diz sobre o mercado de commodities em tempo de guerra.
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Seu Dinheiro · 30/03/2026
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A guerra está negociando consigo mesma.
O Copom está ganhando tempo. O Fed está esperando e vendo.
Março acabou. Abril começa com o prazo de Trump em seis dias. ☕
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