Daily Brew
Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.
Terça-feira · 31 de março de 2026
☕ Bom dia

Ontem o Brent abriu em US$ 116. Fechou em US$ 108. A diferença foi uma declaração do Trump ao Financial Times dizendo que quer ficar com o petróleo iraniano — e outra declaração, horas depois, dizendo que as negociações vão "muito bem". O mercado acreditou nas duas. Em momentos diferentes.

O Ibovespa ficou no meio do caminho, subiu 0,53% e encerrou março com queda de 7% no mês. O mês que começou com Brent a US$ 70 e bolsa em 192 mil pontos fecha com petróleo acima de US$ 100 e expectativa de inflação em 4,31% — a 0,19 ponto do teto da meta.

Powell disse em Harvard que o Fed está "esperando e vendo". Galípolo disse em São Paulo que o Copom estava "ganhando tempo". É a mesma política monetária em dois idiomas. Hoje é o último dia de março. A frase do mês: os dois maiores bancos centrais do mundo estão parados diante de uma guerra que nenhum deles controla.

Geopolítica · Petróleo
Brent · Trump · Kharg · Irã · Negociações
US$ 116 de manhã, US$ 108 à tarde. Março acabou. A conta do Petróleo ainda não

De madrugada, o Financial Times publicou a entrevista: Trump quer "ficar com o petróleo do Irã" e cogita tomar a Ilha de Kharg — o terminal que concentra 90% das exportações iranianas. O Brent disparou para US$ 116, maior nível desde 2022. Wall Street abriu em queda. O dólar subiu. O ouro também. A Petrobras foi para cima, porque é sempre assim.

Por volta das 11h, a narrativa virou. Relatos de que EUA e Irã estariam negociando de forma mais concreta começaram a circular. Trump, no Air Force One, disse que tudo vai "muito bem" e que um acordo pode ser fechado "em breve". O Brent recuou para US$ 108. Wall Street fechou mista — Dow positivo, S&P e Nasdaq ainda no vermelho. O mercado ontem foi basicamente um gráfico de como uma frase de Trump vale US$ 8 por barril.

O petróleo acumula alta de 60% em março — o maior salto mensal desde a Guerra do Golfo em 1990. Os analistas do Macquarie estimam 40% de probabilidade de o Brent chegar a US$ 200 se o conflito continuar até junho. Essa probabilidade, três semanas atrás, era zero.

🎓 O que a teoria diz
Volatilidade de commodity em conflito geopolítico: em condições normais, o Brent oscila 1–2% ao dia. Quando o petróleo está no centro de um conflito ativo, cada declaração política funciona como um choque de oferta ou demanda instantâneo — o chamado "regime de alta volatilidade de informação". A amplitude de US$ 8 num único pregão é a quantificação disso. Para o BC que tenta fazer política monetária nesse ambiente, é pesadelo. Para a Petrobras, é negócio.
E daí?
Se Trump confirmar a intenção de tomar Kharg ou atacar infraestrutura energética após 6 de abril, o Brent pode cruzar US$ 120 antes do Copom de abril. Com o Focus já em 4,31% e o teto em 4,5%, esse movimento tornaria uma pausa total do Copom o cenário mais provável — não o corte de 0,25pp. Para o investidor: energia (PETR4, BRAV3, PRIO3) segue como único hedge natural do Ibovespa nesse ambiente.
📊 O gráfico do dia
Brent Jun 26 — intraday 30/03/2026 (US$/barril)
Fonte: Investing.com · elaboração Daily Brew
De US$ 116 de manhã (Trump/FT) para US$ 108 no fechamento (relatos de negociações). US$ 8 de amplitude. Um pregão.
Política Monetária · Brasil e EUA
Focus · Galípolo · Powell · Warsh · Expectativas
Galípolo e Powell disseram a mesma coisa em dois idiomas.

O Focus de segunda elevou a expectativa de IPCA 2026 de 4,17% para 4,31% — a maior revisão semanal desde o início da guerra. O mercado está a 0,19 ponto do teto da meta (4,5%). Com o Brent oscilando entre US$ 108 e US$ 116 e o prazo de Trump em 6 de abril, o próximo Focus pode ser o primeiro com expectativa fora do limite. Quando isso acontece, qualquer corte de juros passa a parecer negligência — e o Copom perde liberdade de manobra.

Galípolo disse no Safra Macro Day que o Copom cortou 0,25pp para "ganhar tempo" e que o choque do petróleo pressiona inflação para cima e atividade para baixo — ao mesmo tempo. É estagflação sem o nome. Em Harvard, Powell disse que o Fed está em "boa posição para esperar e ver", admitiu que as expectativas de inflação de curto prazo já subiram e reconheceu que política monetária tem "efeito limitado" em choques de oferta. Ninguém vai apertar o botão agora.

Powell vai embora em maio. Seu substituto, Kevin Warsh, está travado no Senado enquanto uma investigação do DOJ sobre o próprio Powell continua. Se não for confirmado a tempo, Powell vira "presidente pro tempore" — e o Fed entra na reunião de maio sem saber quem manda. Mais incerteza sobre o dólar. Mais pressão sobre emergentes.

🎓 O que a teoria diz
Ancoragem de expectativas e o custo de esperar: quando um banco central decide "esperar e ver", aposta que o choque é transitório. O risco é que expectativas se desancorem — empresas e trabalhadores passam a pedir reajustes maiores antecipando inflação futura, criando uma espiral. Foi o que aconteceu nos anos 1970, quando o Fed de Arthur Burns hesitou. Tanto Galípolo quanto Powell conhecem essa história. O problema é que ela foi escrita para um choque diferente — e nenhum deles controla o Estreito de Ormuz.
E daí?
Para o Copom de 28/29 de abril: se o Focus de 6/04 chegar perto de 4,5%, a pausa total começa a superar o corte de 0,25pp em probabilidade. Para o investidor: Tesouro IPCA+ é a proteção mais direta. Com juro real acima de 10% (Selic 14,75% menos IPCA esperado 4,31%), a renda fixa segue atrativa. Prefixado longo é risco — qualquer piora na inflação corrói o retorno marcado a mercado.
Brasil · Encerramento de março
Ibovespa · Caged · Resultado Primário · Eleições
Março acabou. 30 dias, Brent +60% e Ibovespa -7%

Março de 2026 vai para o livro de recordes. O Brent acumulou alta de 60% — maior variação mensal desde a Guerra do Golfo em 1990. O Ibovespa, que estava em 192 mil pontos em 25 de fevereiro, encerra março abaixo de 183 mil — cerca de 7% de queda. O dólar foi de R$ 5,12 (mínima pré-guerra) para R$ 5,23. O Focus foi de 3,91% para 4,31%. Em 30 dias, uma guerra reconfigurou todos os cenários macroeconômicos do Brasil para 2026.

Hoje saem o Caged de fevereiro — expectativa de ~300 mil vagas formais criadas, abaixo do ritmo do ano passado mas ainda sólido — e o resultado primário do governo central de fevereiro. Dados parciais indicam déficit de R$ 30 bilhões, melhor do que o esperado. No cenário normal, seriam os dados do dia. No cenário atual, concorrem com declarações de Trump a bordo do Air Force One — e perdem.

No front eleitoral — que o mercado está começando a colocar no radar —, Flávio Bolsonaro segue numericamente à frente de Lula no segundo turno em três pesquisas consecutivas. Ratinho Junior desistiu. O cenário de dois blocos fechados está se consolidando. Para o câmbio: quanto mais competitiva a eleição parecer, maior o prêmio de risco que os estrangeiros exigem para permanecer no Brasil.

🎓 O que a teoria diz
Sobreposição de riscos e prêmio de câmbio: quando um mercado emergente acumula risco geopolítico externo, risco monetário (expectativas subindo) e risco político doméstico (eleição competitiva) ao mesmo tempo, o câmbio precisa oferecer retorno maior para atrair capital estrangeiro — o chamado prêmio de risco. O Brasil está acumulando os três fatores simultaneamente. O real ainda se saiu relativamente bem em março. A questão é quanto tempo esse equilíbrio se sustenta.
E daí?
Abril começa com três riscos sobrepostos: petróleo acima de US$ 100, Focus perto do teto e eleição 2026 no radar externo. Varejo, construção e utilities ficam pressionados. Energia (PETR4, BRAV3, PRIO3) segue como proteção do Ibovespa. O ouro caiu 0,09% ontem enquanto o Brent recuava — sinal de alívio pontual de risco, sem descartar o cenário de médio prazo.
📌 O número do dia
60%
Alta do Brent em março de 2026
De US$ 70 em 28 de fevereiro para US$ 108 no fechamento de ontem. A maior variação mensal do petróleo desde a Guerra do Golfo em 1990. O mês que reconfigurou a macroeconomia global em 30 dias — e ainda não acabou de cobrar a conta.
📈 Mercados — fechamento segunda-feira (30/03)
Ativo Fechamento Dia Mín / Máx
Ibovespa 182.514 pts ↑ +0,53% 181.559 / 184.414
Dólar (BRL) R$ 5,2388 ↓ −0,29% R$ 5,218 / R$ 5,279
Brent Jun 26 US$ 108,75 ↓ −0,04%* US$ 108,21 / US$ 116,20
Ouro (COMEX) Jun 26 US$ 4.536/oz ↓ −0,09% US$ 4.536 / US$ 4.540
S&P 500 6.343,84 ↓ −0,39% 6.316,91 / 6.427,31
Dow Jones 45.216,66 ↑ +0,11% 45.057,28 / 45.625,76
Nasdaq 20.794,64 ↓ −0,73% 20.690,25 / 21.139,72
Bitcoin US$ 66.814 ↑ +0,16% US$ 65.795 / US$ 68.097
Fechamento 17h–19h (30/03). *Brent: máxima intraday US$ 116,20 ao amanhecer; fechou em US$ 108,75 com relatos de negociações. Fonte: B3, Investing.com · 30/03/2026
💬 A frase do dia
"Achamos que nossa política está em uma boa posição para esperarmos e vermos o que acontece."
— Jerome Powell, presidente do Fed · Universidade de Harvard · 30/03/2026
Galípolo disse "ganhar tempo". Powell disse "esperar e ver". É a mesma política monetária em dois idiomas. Quando os dois maiores bancos centrais do mundo chegam à mesma frase, o mercado entende que ninguém sabe o que vem por aí — e começa a precificar isso.
📅 O que vem hoje e nesta semana
Hoje Caged fev/26 + Resultado Primário fev/26 — Dois dados domésticos importantes que competem com o Brent por atenção. E perdem. MÉDIO IMPACTO
Seg–Sex Declarações sobre Kharg e negociações EUA-Irã — Qualquer confirmação de avanço ou retrocesso move o Brent e o câmbio em minutos. ALTO IMPACTO
Sex 03/04 Payroll EUA (março) — BLS às 9h30 (Brasília). Expectativa ~48 mil vagas — sentindo a guerra. Fraco = espaço para Fed cortar. Forte = mais pressão inflacionária global. MÉDIO IMPACTO
Seg 06/04 Prazo de Trump — Limite para acordo com o Irã. Com Kharg mencionada, o risco escalou. ALTO IMPACTO
Todo mês IR 2026 — Prazo aberto até 29 de maio. O Leão não opera petróleo. INFORMATIVO
📚 Vale ler hoje
Petróleo fecha em alta apesar de relatos de negociações — o vaivém do pregão
Como US$ 116 de manhã virou US$ 108 à tarde e o que isso diz sobre o mercado de commodities em tempo de guerra.
InfoMoney · 30/03/2026
Trump quer "ficar com o petróleo do Irã" — e não descartou a Ilha de Kharg
A declaração ao Financial Times que moveu o Brent em US$ 8 num único pregão. O que é Kharg e por que ela concentra 90% das exportações iranianas.
Poder360 · 30/03/2026
Powell em Harvard: "esperar e ver" — e o que muda com Warsh
O último grande discurso de Powell antes de deixar o Fed em maio. O que disse, o que não disse — e por que a transição importa para o câmbio.
Seu Dinheiro · 30/03/2026
☕ Boa terça-feira
O Brent foi a US$ 116 de manhã e fechou em US$ 108 à tarde.
A guerra está negociando consigo mesma.
O Copom está ganhando tempo. O Fed está esperando e vendo.

Março acabou. Abril começa com o prazo de Trump em seis dias. ☕
📲 Siga @dailybrewbr no Instagram
Os bastidores da economia antes de todo mundo.

Keep Reading