Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.
QUARTA-FEIRA · 03 DE JUNHO DE 2026
☕ Bom dia
Os EUA propuseram tarifa de 25% contra o Brasil.
Lula aposta em Pequim como alternativa a Washington.
As big techs vão gastar quase US$ 700 bi em infraestrutura de IA em 2026. ☕
Brasil · A guerra é digital
EUA · USTR · Seção 301 · Pix · Alckmin · Flávio Bolsonaro
EUA propõem tarifaço de 25% contra o Brasil. Lula e Flávio Bolsonaro reagem.
Os EUA concluíram a investigação da Seção 301 e propuseram uma tarifa de 25% sobre boa parte das importações brasileiras, com uma lista ampla de exceções. A acusação é larga: comércio digital e decisões judiciais contra redes sociais americanas (X, Meta, Google, Rumble), pagamentos eletrônicos, tarifas preferenciais, anticorrupção, propriedade intelectual, etanol e desmatamento. No meio da lista, um nome virou o rosto da briga: o Pix.
No eixo dos pagamentos, Washington acusa o Banco Central de jogar nos dois times, regulador e, ao mesmo tempo, dono e operador do Pix, e chama o sistema de "campeão nacional" que prejudicaria as empresas estrangeiras de pagamento. E não é pouca coisa: em poucos anos o Pix virou o meio de pagamento mais usado do país, de graça e na hora, do cafezinho ao carro. Foi esse sucesso que pressionou o ecossistema privado de pagamentos, de bandeiras como Visa e Mastercard a carteiras como Apple Pay e Google Pay.
Mas a tarifa não é "sobre o Pix". Ele é a bandeira mais visível de uma disputa maior: quem manda na regulação digital de um país soberano. O recado vale para o resto da lista, das redes sociais ao etanol, e é novo: um país pode ser punido não apenas pelo que vende, mas também por como organiza as próprias regras.
A reação cruzou o espectro político. Pelo governo, o vice Geraldo Alckmin chamou a proposta de "extremamente injusta" e "descabida", lembrou que os EUA têm superávit de cerca de US$ 40 bilhões com o Brasil, somando bens e serviços, e prometeu negociar para revertê-la antes de 15 de julho. Do outro lado, o senador Flávio Bolsonaro enviou uma carta ao secretário de Estado Marco Rubio pedindo que Washington poupasse o Brasil do tarifaço, e foi rebatido por Alckmin, que chamou de "falsos patriotas" quem atua em Washington contra o país.
Repare em parte do que ficou de fora: café, carne, energia, terras raras, fertilizantes e itens ligados à aviação, entre outros. Washington preservou os insumos sensíveis para a própria economia e concentrou a pressão onde a tarifa dói mais e custa menos a ele. A mensagem é menos sobre comércio e mais sobre poder.
📚 O que a teoria diz
Interdependência armada (weaponized interdependence, de Farrell & Newman): quando um país converte laços econômicos em arma, usando o acesso ao próprio mercado para forçar mudança de política em outro. A tarifa não quer tapar um rombo comercial; quer uma cadeira na mesa onde se decide a regulação digital do Brasil. Comércio é o instrumento; o alvo é a soberania regulatória.
E daí?
Para o investidor: o risco não está na lista de produtos atingidos; está no precedente de regulação interna virar gatilho de tarifa. E o calendário aperta: comentários até 1º de julho, audiência em 6 de julho e prazo para ação até 15 de julho.
💬 A frase do dia
"Em vez de ter medo do Pix, coloca o Pix para funcionar nos Estados Unidos."
— Lula, relatando o que disse a Trump sobre a tarifa de 25% · 02/06/2026
O recado é simpático e desconcertante ao mesmo tempo: se o problema é uma infraestrutura de transferência gratuita e instantânea, talvez a solução não seja taxá-la, e sim copiá-la.
Brasil · A aposta chinesa
China · Soja · Lula · Cargill · Agro · Exportação
Lula aposta em Pequim como alternativa a Washington.
Na queda de braço comercial com os EUA, o Brasil se encosta na China, sua maior compradora de soja. Em 2025, puxada por uma safra recorde, a China respondeu por cerca de 80% das exportações brasileiras de soja, em valor próximo de US$ 35 bilhões. Lula trata Pequim como a saída para a pressão de Washington.
Só que alternativa concentrada também é risco. Em março, a Cargill pausou embarques do Brasil para a China após uma inspeção fitossanitária mais dura, adotada a pedido de Pequim. O episódio travou embarques, elevou custos logísticos e mostrou que a China consegue apertar o protocolo sanitário justamente no pico da safra brasileira.
E aqui mora a parte incômoda. A China não compensa automaticamente uma tarifa americana, porque são relações comerciais diferentes. O que ela dá ao Brasil é uma válvula geopolítica: quanto mais Washington pressiona, mais Brasília mostra que tem outro comprador, outro financiador e outro parceiro estratégico. O problema é que esse outro parceiro já é grande demais.
E o jogo vira rápido. Se a China ampliar as compras de soja americana, o Brasil pode perder espaço no balcão onde hoje é dominante. Trocar a pressão de Washington por uma dependência ainda maior de Pequim resolve o curto prazo e cria a próxima vulnerabilidade.
Mercados · A conta da IA
IA · Big Techs · Nvidia · Data centers · Mercado de capitais · Capex
As big techs vão gastar quase US$ 700 bi em infraestrutura, com a IA puxando a conta.
O investimento das gigantes de tecnologia em infraestrutura beira US$ 700 bilhões em 2026, uma alta forte sobre 2025, com a maior parte indo para data centers, chips e infraestrutura de IA. A Amazon sozinha projeta US$ 200 bi; Alphabet, Meta, Microsoft e Oracle completam o pelotão. A IA saiu do software e virou obra pesada: galpão, energia, chip.

Quem cobra o pedágio é a Nvidia: a divisão de data centers faturou cerca de US$ 195 bilhões no último ano fiscal, alta de quase 70% sobre o ano anterior, com perto de 90% dos chips usados em IA. O dinheiro de uns é a receita recorde do outro.
A virada está em como isso é pago. Quando o capex encosta ou supera o caixa que as próprias empresas geram, a conta sai do bolso e vai para o mercado de capitais, em dívida, ações e estruturas híbridas. Só em dívida, estimativas de mercado apontam US$ 108 bi captados em 2025; e a Alphabet acaba de anunciar um plano de levantar US$ 80 bilhões em ações, com aporte até da Berkshire de Buffett, para bancar a IA.
Enquanto a receita da IA não aparece no tamanho da conta, o risco deixa de ser tecnológico e vira financeiro. A aposta é que a demanda confirme o investimento; se não confirmar, o mercado vai descobrir que financiou capacidade ociosa.
📈 Mercados — Fechamento de terça 02/06
Fontes: B3, AP, Reuters (Brent settlement) e Investing · fechamento de 02/06 (commodities por contrato/settlement; Bitcoin referência 24h) · Elaboração: Daily Brew |
📚 Vale ler
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EUA citam ‘práticas injustas’ e propõem tarifa de 25% ao Brasil O anúncio do USTR e os principais eixos que fundamentam a medida. CONJUR · ECONOMIA · 02/06/2026 |
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Tarifa EUA–Brasil: entenda a Seção 301 e por que o Pix entrou na lista O contexto jurídico da Seção 301 e o argumento do "papel duplo" do BC no Pix. GAZETA DO POVO · ECONOMIA · 2026 |
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Cargill suspende exportação de soja do Brasil à China após mudança em inspeção O episódio que expôs a dependência do agro brasileiro de um único comprador. REUTERS / INVESTING · AGRO · 2026 |
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Hyperscalers miram quase US$ 700 bi em capex, com a IA puxando a conta Por que o capex das big techs já supera a geração de caixa e empurra a conta para o mercado de capitais. YAHOO FINANCE · TECH · 2026 |
☕ Boa quarta
Uma tarifa que usa o comércio para disputar poder regulatório.
Uma soja que depende demais de um comprador.
Uma corrida de IA que já custa quase US$ 700 bilhões.
No fim, toda conta tem dono, e sempre chega. ☕
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