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Daily Brew

Tudo que importa na economia. Antes do café esfriar.

QUINTA-FEIRA · 3 DE SETEMBRO DE 2026

☕ Bom dia

Open Finance. O sistema que deixa você levar seus dados de um banco pro outro fez cinco anos, com 240 milhões de autorizações ativas e juro menor pra quem adere.
Caso Master. Relatório da PF aponta repasses de R$ 80 milhões e dez possíveis encontros entre o dono do banco e Moraes; o Supremo diz que as mensagens não chegaram ao ministro.
Blusinhas. O fim da taxa de 20% passou na comissão; se os plenários não votarem até segunda, o imposto volta na terça. ☕

Bolso · Cofre aberto

Open Finance · Banco Central · BIS · FMI · Fintechs · Portabilidade

O Open Finance fez cinco anos: 240 milhões de autorizações e juro menor pra quem divide os dados

Você provavelmente já usou sem saber o nome. O Open Finance é o sistema criado pelo BC (Banco Central) que permite a você autorizar um banco a enxergar seus dados guardados em outro: saldo, fatura do cartão, histórico de empréstimos. A lógica é simples: os dados são seus, não do banco, então você decide quem vê. Cinco anos depois do lançamento, em fevereiro de 2021, o sistema chegou a quase 240 milhões de autorizações ativas, cerca de 800 instituições participantes e algo como 7 bilhões de consultas por semana, segundo relatório publicado nesta semana pela Zetta, a associação de fintechs que reúne Nubank, Mercado Pago e afins. Só nos últimos três anos, o número de autorizações multiplicou por seis:

A corrida dos 240 milhões

Consentimentos ativos no Open Finance, em milhões

21

 

36

 

42

 

47

 

63

 

93

 

156

 

240

 
jan
23
jul
23
jan
24
jul
24
jan
25
jul
25
jan
26
jul
26

Uma mesma pessoa pode ter mais de um consentimento ativo. Fonte: Dashboard do Cidadão (Open Finance Brasil), compilado pela Zetta (2026).

Na prática, é isso que permite ver as contas de vários bancos num aplicativo só, transferir um empréstimo caro para um banco que cobre menos ou provar renda usando o histórico que está em outra instituição. O efeito mais interessante aparece no crédito: entre as pequenas empresas que topam compartilhar dados no Mercado Pago, 9 em cada 10 recebem uma oferta de crédito em até três meses de uso da plataforma.

E o efeito no bolso tem número. Um estudo do BIS, o banco dos bancos centrais, mostra que quem compartilha os dados bancários vê o juro mediano do empréstimo cair de 10% para 7,8% ao ano, e a chance de aprovação sobe justamente para quem tem histórico pior. Pesquisa do próprio Banco Central aponta na mesma direção: mais informação circulando derruba a taxa cobrada do cliente final. Até o FMI (Fundo Monetário Internacional), na avaliação do sistema financeiro brasileiro publicada em julho, reconheceu que a dupla Pix e bancos digitais aumentou a competição e já baixou juros por aqui.

O contraste é que a máquina cresceu mais rápido que o entendimento, como mostra a pesquisa da Zetta com a AtlasIntel:

O país conhece, mas não entende

82% já ouviram falar do Open Finance

21% dizem entender como funciona

47% não sabem que podem cancelar o compartilhamento quando quiserem

42% querem, acima de tudo, escolher o banco do salário sem depender do patrão

⏱️ Essa portabilidade salarial, o item mais desejado da lista, só tem estreia prevista para julho de 2027.

Fonte: pesquisa Zetta/AtlasIntel, julho de 2026, 1.974 adultos, margem de 2 pontos.

Nem tudo funciona bem, porém. Os dados muitas vezes chegam atrasados, e quatro em cada dez tentativas de conexão falham, principalmente nos bancos grandes. Esse desperdício alimenta a briga sobre quem paga a conta. Hoje o compartilhamento é gratuito entre as instituições, por regra do Banco Central, e cada uma banca a própria infraestrutura. Os bancões defendem passar a cobrar pelo dado que transmitem, e as fintechs respondem que, antes de qualquer cobrança, é preciso fazer o sistema parar de entregar dado velho. Nessa disputa a população já escolheu um lado: 81% são contra os bancos cobrarem tarifa entre si por um dado que, no fim das contas, é do cliente.

🎓 O que a teoria diz

O nome do problema é seleção adversa: quando o banco não consegue distinguir o bom pagador do mau, cobra de todo mundo um juro de mau pagador, e o bom cliente paga a conta dos outros. Foi o que George Akerlof descreveu em 1970 no "mercado dos limões", usando carros usados. O Open Finance ataca exatamente essa assimetria de informação: ao abrir o histórico, o bom pagador se diferencia, e o juro dele cai. É por isso que, na evidência do BIS, o maior desconto de taxa vai justamente para quem tem as contas mais em dia.

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Brasil · A conta do Master

Banco Master · Vorcaro · Moraes · STF · PF · FGC · BRB

A PF apontou dez possíveis encontros entre o dono do Master e Moraes, e Brasília parou pra ler

O contexto cabe numa linha: o Banco Master quebrou em novembro de 2025, no maior rombo da história do FGC (Fundo Garantidor de Créditos, o seguro dos depósitos bancários), e seu dono, Daniel Vorcaro, está preso.

O capítulo novo veio na terça, quando o ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), tirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal. O documento aponta um contrato do Master com o escritório de advocacia de Viviane Barci, mulher do ministro Alexandre de Moraes, com repasses de mais de R$ 80 milhões, lista dez possíveis encontros entre Vorcaro e Moraes e descreve mensagens em que o banqueiro pedia ajuda para frear as investigações. O STF afirma que as mensagens não foram endereçadas ao ministro, e as eventuais respostas não foram recuperadas.

O que vem agora é ainda mais sensível: a defesa de Vorcaro negocia uma delação premiada, e a PGR (Procuradoria-Geral da República) resiste. Um banqueiro preso, com muito a contar e pouco a perder, virou a variável mais imprevisível de Brasília em ano eleitoral.

E daí?

O que um escândalo de tribunal tem a ver com seu bolso? No momento, quase tudo. O dinheiro que voltou a comprar Brasil nas últimas semanas aposta que as instituições seguram qualquer resultado em outubro, e a suspeita sobre um ministro do STF mexe justamente nessa âncora. Uma eventual delação de Vorcaro é uma caixa que ninguém sabe o que contém nem quem alcança, e incerteza desse tamanho costuma cobrar pedágio em dólar e juros futuros quando escala. Por ora, o mercado deu de ombros e seguiu na festa eleitoral, mas o caso entrou na lista do que se acompanha daqui até outubro.

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📌 O número do dia

+0,2%

A PRODUÇÃO INDUSTRIAL DE JULHO

Complemento da edição de ontem: lá, o assunto era o PMI, pesquisa privada que pergunta a gerentes de fábrica como vai agosto (mal). Este aqui é outro dado, a régua oficial do IBGE, que mede quanto a indústria de fato produziu em julho. Deu alta de 0,2% sobre junho, metade do que o mercado esperava, e ainda 0,5% abaixo de um ano atrás, interrompendo dois meses de queda com ajuda de computadores e eletrônicos (+12,2%). Tecnicamente é alta. Na prática, é a indústria andando de lado com juro de 14% nas costas.

Consumo · Corrida das blusinhas

Congresso · Shein · Shopee · AliExpress · Correios · Varejo

O fim da taxa das blusinhas passou na comissão, e agora tem até segunda pra não morrer

Recapitulando: a "taxa das blusinhas" é o imposto de importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 (uns R$ 258), criado em 2024 para conter a enxurrada de pacotes vindos da Ásia. Em maio, a menos de cinco meses da eleição, o governo editou uma MP (medida provisória) zerando a cobrança. Ontem, a comissão mista do Congresso aprovou o parecer da senadora Leila Barros que confirma o fim da taxa, e aproveitou para cortar, no caminho, as compensações prometidas a empresas e a exclusividade dos Correios na entrega dessas encomendas.

Só que MP tem prazo de validade. Se os plenários da Câmara e do Senado não aprovarem o texto até segunda, dia 8, a medida caduca e o imposto de 20% volta a ser cobrado na terça, menos de um mês antes do primeiro turno. Nenhum partido quer a digital nessa fatura, o que explica a pressa.

No mérito, a disputa opõe o emprego da indústria ao bolso do consumidor. A CNI (a confederação da indústria) pede a volta da taxa e estima que o fim dela ameaça 109 mil empregos, número que vale registrar: vem de quem tem lado na disputa. Para o consumidor, a conta é mais direta: sem o imposto federal, uma compra de R$ 250 sai uns R$ 50 mais barata, e quem mais compra nessa faixa é quem tem menos sobrando no fim do mês. O efeito do imposto sobre o fluxo de pacotes, esse, está nos números da Receita:

A torneira abre no ritmo do imposto

Pacotes internacionais que entraram no Brasil, em milhões por mês

13,0

 

16,0

 

16,5

 

28,4

 
jun/25
com taxa
fev/26
com taxa
abr/26
com taxa
jun/26
sem taxa

✂️ A tesourada no sentido contrário: quando a taxa de 20% entrou, em agosto de 2024, o fluxo de remessas caiu 33%.

Fonte: Receita Federal (jun/25, fev/26 e jun/26 divulgados; abr/26 calculado sobre a variação de +72% informada pela Receita) e CNC. Elaboração: Daily Brew.

O consumidor, enquanto isso, acompanha como quem monitora oferta relâmpago. Levantamento da Taboola citado pelo Painel S.A., da Folha, mostra o interesse por "taxa das blusinhas" crescendo 492% em 45 dias, com o tráfego transbordando para as lojas: buscas ligadas ao AliExpress subiram 1.632%, à Shein, 1.018%, e à Shopee, 162%. A propósito de Shein: a varejista estreou anteontem na bolsa de Hong Kong avaliada em US$ 26 bilhões, um quarto do que valia no pico de 2022, sinal de que nem para a rainha das blusinhas a vida anda barata.

O que vem

A votação pode entrar na pauta dos dois plenários a qualquer momento até segunda. Se passar, a isenção federal vira lei e o preço final das compras até US$ 50 segue só com o ICMS estadual. Se caducar, a partir de terça cada compra dessas volta a pagar os 20% federais, e a Receita não costuma perdoar pacote que chega fora do prazo.

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📊 Mercados — Fechamento Quarta 02/09

Ativo Fechamento Dia
Ibovespa 185.205 pts ↑ +3,05%
Dólar (Ptax) R$ 5,1273 ↓ −0,58%
S&P 500 7.667 pts ↑ +0,46%
Nasdaq 26.218 pts ↑ +0,45%
Petróleo (Brent) US$ 95,63 ↑ +1,04%
Ouro US$ 4.435,40 ↑ +0,89%

11ª alta seguida da bolsa, maior ganho diário desde 10 de julho, com a pesquisa Quaest no radar. Dólar pela Ptax de venda do Banco Central. Brent: settlement do contrato de novembro. Ouro: contrato de dezembro na Comex. Fontes: B3, Banco Central, Reuters e InfoMoney · fechamento de 02/09 (cotações podem variar por contrato e horário) · Elaboração: Daily Brew.

📅 O que vem aí

Até sexta

Escala 6x1. Aprovada ontem na CCJ, a PEC que corta a jornada de 44 pra 40 horas sem redução de salário tenta votação em dois turnos no plenário do Senado antes do recesso eleitoral.

Sexta · 15h

Balança comercial. O fechamento de agosto: o primeiro retrato completo das exportações com o tarifaço cheio e a China comprando menos.

Sexta

Payroll. O relatório mensal de empregos dos EUA, peça-chave no debate sobre uma eventual alta de juros do Fed no dia 16.

Segunda · 08/09

Prazo das blusinhas. Último dia pros plenários votarem a MP do bloco 3; sem votação, o imposto de 20% volta na terça.

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📚 Vale ler

Os documentos do caso Master, na íntegra

O material primário do bloco 2: o relatório da PF e as mensagens, sem intermediários, para tirar as próprias conclusões.

Poder360

Mendonça x Moraes: a decisão que está na mesa de Fachin

O próximo capítulo: cabe ao presidente do STF decidir se o relatório da PF vai a julgamento no plenário.

Metrópoles

O freio de Alcolumbre no impeachment de Moraes

A frente política: a oposição empilha pedidos no Senado, e o presidente da Casa sinaliza que não pretende avançar.

Metrópoles

Os cinco anos do Open Finance, no relatório completo

As 92 páginas com os números do bloco 1, a pesquisa AtlasIntel e a agenda que as fintechs defendem (lembrando: é o relatório do setor).

Zetta

Do Open Banking ao Open Finance: o guia dos pesquisadores

O paper de Carlos Ragazzo, Morgana Tolentino e Bruna Cataldo que explica o sistema financeiro aberto de ponta a ponta.

SSRN