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QUARTA-FEIRA · 16 DE SETEMBRO DE 2026
☕ Bom dia
As vendas do varejo caíram 0,8% em julho, quatro vezes mais do que se esperava: a Copa antecipou a compra da TV.
O governo zerou impostos federais para quem instalar data centers no país, que hoje tem menos de 1% da capacidade do mundo.
O juro de 10 anos dos EUA passou de 5% pela primeira vez desde 2007, na véspera de Fed e Copom decidirem. ☕

Brasil · Ressaca da Copa
IBGE · Varejo · Copa do Mundo · Consumo · CNI · Selic · Copom
As vendas do varejo caíram 0,8% em julho, quatro vezes mais do que se esperava
O comércio vendeu 0,8% menos em julho do que em junho, mostrou ontem o IBGE (o instituto que mede o PIB, a inflação e o desemprego). Os analistas esperavam uma queda de 0,2%. Cinco das oito atividades pesquisadas encolheram. Contra julho do ano passado, o setor ainda cresce 1,2%, e no acumulado de 2026, 1,8%. Mas o retrato do mês é de loja vazia.
A explicação do IBGE tem nome e sobrenome: Copa do Mundo. Televisores e álbuns de figurinhas venderam muito em maio e junho, e em julho a compra já estava feita. Móveis e eletrodomésticos caíram 4,9%, a maior queda do segmento desde dezembro de 2023. O raio-x por atividade:
Quem caiu e quem subiu em julho
−4,9% · Móveis e eletrodomésticos
−4,2% · Livros, jornais, revistas e papelaria
−2,7% · Tecidos, vestuário e calçados
−2,2% · Outros artigos pessoais e domésticos
−0,2% · Hiper e supermercados
+0,6% · Farmácia e perfumaria
+0,6% · Equipamentos de escritório e informática
+0,3% · Combustíveis e lubrificantes
Variação do volume de vendas de julho sobre junho de 2026, com ajuste sazonal. Fonte: IBGE, Pesquisa Mensal de Comércio. Elaboração: Daily Brew.
A Copa explica o tombo do mês, não a tendência. Tirando o sobe e desce, a média dos últimos três meses já é negativa (−0,1%), e o volume de vendas está 1,5% abaixo do pico de março. É o terceiro sinal de esfriamento em uma semana: os serviços ficaram parados em julho, e a confiança da indústria caiu para 44,9 pontos na segunda, o 21º mês seguido abaixo da linha que separa otimismo de pessimismo, segundo a CNI. Tudo isso chega à mesa do Copom, o comitê do Banco Central que define a Selic (a taxa básica de juros do Brasil), que decide hoje à noite. A aposta quase unânime é um corte de 14% para 13,75%. O consumo já esfriou antes de o juro cair.
🎓 O que a teoria diz
Há dois jeitos de uma venda cair. No primeiro, a compra só muda de mês: a família comprou a TV em junho, para ver a Copa, e por isso não comprou em julho. Economistas chamam isso de substituição intertemporal. Passa sozinho. No segundo, a família desiste da compra ou adia sem data, porque o crédito ficou caro demais. Com a Selic a 14%, é esse o efeito que preocupa. Para saber qual dos dois está agindo, basta olhar a média de três meses, que ignora o vaivém da Copa. Ela está negativa. O juro, e não o futebol, é o que segura o comércio.
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Brasil · A nuvem tem endereço
Redata · Data centers · Governo · Impostos · Energia · IA · São Paulo
O Brasil zerou o imposto dos data centers. Hoje ele tem 0,7% da capacidade do mundo.
Data center é o galpão cheio de computadores onde moram suas fotos, o WhatsApp, o Pix, os vídeos e as respostas do ChatGPT. A "nuvem" fica no chão, consome muita energia e quase sempre fica em outro país. Ontem, o governo sancionou a lei do Redata, que tenta mudar isso. Em resumo:
- O benefício: quem instalar ou ampliar um data center no Brasil deixa de pagar os impostos federais sobre as máquinas (imposto de importação, IPI e PIS/Cofins) por até cinco anos.
- As contrapartidas: usar só energia limpa, gastar pouca água no resfriamento e reservar 10% da capacidade para clientes brasileiros.
- O custo: R$ 5,2 bilhões em impostos que o governo deixa de arrecadar este ano, e R$ 1 bilhão por ano em 2027 e 2028.
O motivo, segundo o próprio governo: cerca de 60% dos dados e dos serviços de inteligência artificial que o Brasil usa são processados fora do país. Montar um data center aqui saía caro porque as máquinas, quase todas importadas, chegavam com uma pilha de impostos federais em cima. O incentivo já existia desde setembro do ano passado por medida provisória, que perdeu a validade em fevereiro; a lei sancionada ontem torna a regra definitiva.
O tamanho do desafio aparece quando se olha o mapa. O Brasil tem hoje cerca de 700 megawatts de capacidade de data centers, metade de toda a América Latina, mas menos de 1% do mundo. São Paulo é o maior polo da região e ainda assim é oito vezes menor que o Norte da Virgínia, nos Estados Unidos, a maior concentração de data centers do planeta:
Capacidade de data centers por mercado, em megawatts
4.182 · Norte da Virgínia (EUA)
1.465 · Atlanta (EUA)
1.249 · Dallas (EUA)
1.223 · Frankfurt (Alemanha)
1.000+ · Tóquio (Japão)
911 · Chicago (EUA)
667 · Paris (França)
537 · São Paulo (Brasil)
298 · Querétaro (México)
166 · Santiago (Chile)
Capacidade instalada de data centers para aluguel (colocation) nos principais mercados, em megawatts, no 1º trimestre de 2026. Fonte: CBRE, Global Data Center Trends 2026. Elaboração: Daily Brew.
A pressa tem nome: inteligência artificial. Treinar e rodar um modelo como o ChatGPT exige muito mais computadores do que guardar fotos e e-mails, e computador ligado o dia inteiro é conta de luz. A Agência Internacional de Energia calcula que o consumo de eletricidade dos data centers do mundo vai mais que dobrar até 2030 por causa da IA. Um data center grande já consome como uma cidade de 400 mil habitantes. É por isso que a lei exige energia limpa: uma carga desse tamanho ligada em gás ou carvão faria as emissões do país subirem.
E é nesse ponto que o Brasil tem algo a oferecer. Nos mercados mais disputados, a fila para ligar um data center novo na rede elétrica já passa de quatro anos. Aqui, cerca de 90% da eletricidade vem de fontes renováveis. E o interesse já é visível: antes de construir, cada data center precisa pedir ao governo uma "vaga" na rede elétrica, dizendo quanta energia vai puxar. Esses pedidos somam 38 gigawatts, quase três Itaipus, e 7 gigawatts já foram aprovados pelo operador do sistema.
🎓 O que a teoria diz
Pela vantagem comparativa, ideia do economista David Ricardo, cada país atrai a atividade em que é relativamente melhor que os outros. Para um data center de IA, o insumo que decide é eletricidade abundante, limpa e barata. Nisso o Brasil larga na frente da maioria dos concorrentes. O incentivo fiscal não cria essa vantagem: ele tira do caminho o imposto que a escondia. Se a energia é mesmo o que decide, a lei é um empurrão, não a causa. Saber se o empurrão funcionou vai levar anos e depende de um número só: se a fatia do Brasil no mapa mundial dos data centers sai do 0,7% de hoje.
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Internacional · O juro do mundo
Treasury · Fed · Warsh · Petróleo · Dólar · Copom · Selic
O juro de 10 anos dos EUA passou de 5% pela primeira vez desde 2007
O título de 10 anos do Tesouro americano é a taxa de referência do dinheiro no mundo: é a partir dela que se calcula o custo de quase todo empréstimo, hipoteca e investimento do planeta. Ontem, essa taxa tocou 5,04% ao ano, o nível mais alto desde julho de 2007, na quinta alta seguida. Três coisas empurraram:
- Petróleo. Voltou aos US$ 105 com um oleoduto saudita fechado por ataques de drones.
- Inflação. A americana de agosto não cedeu.
- Fed. O mercado dá mais de 90% de chance de o banco central dos EUA subir os juros hoje, de 3,50%-3,75% para 3,75%-4,00%. Seria a primeira alta desde julho de 2023, e a primeira sob Kevin Warsh, escolhido por Trump justamente para baixar os juros.
Quando o juro mais seguro do mundo sobe, o dinheiro fica mais caro para todo mundo. Ontem, as bolsas de Nova York caíram e o dólar subiu contra quase todas as moedas. No Brasil, ele voltou a passar de R$ 5,15, perto do nível mais fraco do real em duas semanas. A última vez que a taxa americana passou de 5% foi em 2007, meses antes de a crise financeira estourar.
É nesse clima que o Copom decide hoje à noite, horas depois do Fed. A aposta de 48 dos 51 economistas ouvidos pela Reuters é um corte da Selic de 14% para 13,75%. Parte do dinheiro estrangeiro que vem para o Brasil vem atrás da diferença entre o juro daqui e o de lá. Se o Fed sobe e o Copom corta no mesmo dia, essa diferença encolhe, e o real perde um pouco do que o sustentava.
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📊 Mercados — Fechamento Terça 15/09
Dólar pela Ptax de venda do Banco Central. Brent: contrato de novembro. Ouro: contrato de dezembro na Comex. Fontes: B3, Banco Central, ICE, Comex e agências · fechamento de 15/09 (cotações podem variar por contrato e horário) · Elaboração: Daily Brew. |
📅 O que vem aí
Hoje · 9h
IBC-Br de julho. O Banco Central divulga seu índice mensal de atividade, uma prévia do PIB. Depois de serviços parados e varejo em queda, é o retrato completo do mês.
Hoje · 15h
Decisão do Fed. O banco central dos EUA anuncia os juros. O mercado espera alta de 0,25 ponto, a primeira desde 2023, e a coletiva de Kevin Warsh começa às 15h30.
Hoje · após 18h30
Decisão do Copom. Saem a nova Selic e o comunicado. A aposta quase unânime é um corte de 14% para 13,75%, o quinto seguido.
Terça · 22/09
Ata do Copom. O documento explica a decisão de hoje e dá as pistas para a reunião de novembro, a última antes do fim do ano.
📚 Vale ler
O varejo de julho, atividade por atividade
Os números completos do bloco 1 e a explicação do analista do IBGE sobre o efeito da Copa nas vendas de TV e figurinhas.
Tribuna do Paraná / Estadão · 15/09/2026
O que a lei dos data centers exige das empresas
A Agência Senado explica, ponto a ponto, os impostos suspensos e as contrapartidas do Redata do bloco 2, na votação que mandou o projeto à sanção.
Agência Senado · 01/09/2026
O mapa mundial dos data centers
O relatório de onde saiu o gráfico do bloco 2: a capacidade de cada mercado, a falta de energia como gargalo e por que os preços de aluguel de data center vão subir até 2030.
CBRE · Global Data Center Trends 2026 (em inglês)
O dia em que o juro americano voltou a 2007
A cobertura de ontem do bloco 3: a sequência de altas do título de 10 anos, as apostas para o Fed e a reação das bolsas.
CNBC · 15/09/2026 (em inglês)


